
Tenho saudades e sinto um imenso carinho pela faculdade em que terminei a graduação e fiz o mestrado em História - o glorioso Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esse prédio da foto.
A proximidade com a Praça Tiradentes; a vizinhança do Real Gabinete Português de Leitura; o circuito de botequins do velho Centro do Rio; o fato de estudar numa faculdade de história no contexto da queda do Muro de Berlim, das eleições diretas para presidente em 1989 e do título que quebrou o jejum do Botafogo; tudo isso me faz guardar o velho Instituto no fundo do órgão muscular oco, na cavidade torácica, que recebe o sangue das veias e o impulsiona para dentro das artérias - o coração velho de guerra, apud Houaiss.
No caldeirão político que era o IFCS, no início dos anos noventa, este escriba era considerado, pelos comunas do PT [à época havia comunistas no partido], um elemento ligado aos setores conservadores do curso de História. Os conservadores, por seu turno, me consideravam um anarquista. Os ligados ao PC do B, que militavam na União da Juventude Socialista, brandiam terrível acusação - eu era, para os cabras, eurocomunista, por ter frequentado por algum tempo reuniões do PCB [que me convenceram de vez que eu não nasci para ser comuna. Houve ocasião em que um camarada tentou me provar por a+b que um marxista não podia compactuar com o programa do Chacrinha. Abelardo Barbosa era um fomentador da opressão de classes].
Me lembro, por exemplo, quando foi feita uma eleição para escolher o nome do centro acadêmico de História [o velho centro tinha sido fechado pela ditadura e, naquele contexto de redemocratização, os estudantes estavam montando o centro novo]. Aconteceram coisas nesse pleito - para citar o presidente Lula - nunca antes vistas no país.
Os estudantes tinham o direito de sugerir nomes para o C.A. Havia uma lista pendurada em um mural para que as sugestões fossem escritas. Os nomes mais citados seriam levados à votação final.
A disputa entre os vários grupos políticos do movimento estudantil, para escolher o nome do C.A., foi um verdadeiro Fla X Flu. Parecia que ali, na escolha do nome de um centro de estudantes, se definia o futuro da revolução em Pindorama. O troço foi aguerrido e quase levou bons colegas às vias de fato.
O pessoal da Convergência Socialista [futuro PSTU] defendeu a homenagem a Zumbi dos Palmares - Centro Acadêmico Zumbi dos Palmares [CAZUPA]. Outro grupo defendeu um desagravo às vítimas do regime autoritário, na figura do filho da Zuzu - Centro Acadêmico Stuart Angel [ CASA]. A peleja acabou tomando proporções épicas - e está gravada nos anais do mais que centenário edifício.
Algumas propostas eram inacreditáveis: Leon Trotsky; Carlos Lamarca; Antônio Conselheiro [imaginem isso: um centro acadêmico de História homenageando um beato fanático que aguardava a volta de D. Sebastião, proibia o consumo de álcool , pregava contra o estado laico e achava que a República era coisa do demônio]; Joana D´Arc [sim, havia uma pequena turma de bichas conservadoras da T.F.P. apoiando a santa]; Mestre Bimba; Dom Helder Câmara; Leonel Brizola [que, reparem, à época estava vivinho da silva]; Napoleão Bonaparte; Cabocla Jurema; Padre Cícero Romão; Frei Santa Rita Durão; Jerônimo, o Herói do Sertão; Beato Salu; Czar Nicolau II; Walt Disney; e Chico Buarque de Holanda - a mais ridícula de todas as ideias, admitamos.
Confesso aos leitores que, diante do nível das sugestões, levei a coisa na galhofa. Sugeri a homenagem ao historiador salazarista português Ramiro Luiz Homem, autor dos clássicos A Rota da Noz Moscada e O Império Luso-Brasileiro na Carreira das Índias. Coloquei minha proposta no mural e fui apoiado por alguns estudantes, que acharam que a sigla representaria bem a faculdade - CARALHO.
Escutei os maiores impropérios - fui acusado de divisionista; anarquista; elemento infiltrado; reacionário; e, principamente, fascista [fascista, no movimento estudantil, é um palavrão mais feio que filho da puta. Um sujeito, que estava na faculdade desde os tempos de D. João VI, me chamou assim, aos berros].
Depois de muita discussão, foi vitoriosa a proposta de batizar o Centro Acadêmico com o nome de Manoel Maurício de Albuquerque - um grande ex-professor da casa, cassado pela ditadura, que morreu de infarto pertinho do IFCS, numa livraria da Praça Monte Castello. Uma justa homenagem, diga-se. A sigla - CAMMA - também era bem apropriada ao nosso querido curso.
Ah! Os doidos que me acusaram não sabiam, e provavelmente não sabem até hoje, que o emérito professor Ramiro Luiz Homem nunca existiu.
Volto a falar do IFCS em breve.
Abraços.
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