31/07/2009

A VOLTA E OS RESORTS

Passei os últimos quinze dias entre o Maranhão, o Piauí e o Ceará. Fiz um caminho que os cabras de lá estão chamando pelo suspeitíssimo título de rota da emoções : São Luís, Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba e Jericoacoara.

Não fui, já que não sou doido, em excursão de agência de turismo, daquelas que fazem o sujeito se apresentar ao microfone do ônibus para ser aplaudido por senhoras de meia idade e tem amigo oculto e homenagem ao guia no final. Deus me livre e guarde.

Piquei a mula na base de comprar as passagens por conta própria, descer de barco os rios Preguiça e Parnaíba, alugar um carro 4x4 e fazer a rota com flexibilidade, sem passar perto de ônibus da CVC, de hospedagem em resorts com diárias pornográficas, de espetáculos no estilo macumba para turista e coisas do gênero.

Voltei, inclusive, implicando com esse negócio de resort. Explico. Há, nos Lençóis, um negócio desses - um hotel temático, como eles chamam. Eu, que me hospedei com a Candida numa pousada simples e acessível aos mortais na beira do Rio Preguiça, resolvi investigar sobre o tal do resort - uma espécie de construção faraônica em meio a uma região muito pobre da cidade de Barreirinhas.

Descobri que existe de tudo no lugar - restaurante com cozinha internacional; yoga; hidromassagem; passeio de avião; parque infantil; cinema; praia privada; complexo esportivo; tobogã; casa de shows; equipe de guias especializados; fitness center [é mole?] e o escambau. Há, sobretudo, a escrota garantia de segurança e privacidade - o tal do resort é, portanto, uma espécie de bunker - uma casamata da hotelaria.

A minha indagação é a seguinte: para ir a um lugar assim, por que diabos o sujeito escolhe os Lençóis Maranhenses? Para ver só a paisagem, basta ir a um cinco estrelas perto de casa e comprar um dvd com imagens do local. Quer fotos dos Lençóis? O goggle tem centenas, bonitas pra burro.

Não concebo uma viagem que não inclua o contato - ainda que insuficiente - com algumas coisas e pessoas que, muito além da paisagem e mais do que ela, fazem um lugar. Exemplifico.

O Maranhão, para mim, não será apenas a recordação do maior impacto visual que sofri na vida. A terra de Gonçalves Dias terá, para sempre, o gosto do arroz de cuxá com peixe frito da Lagoinha de Tutóia e da tapioca que comi numa birosca improvisada no povoado de Santo Antônio. A voz do Maranhão é a do Seu José, tocador de tambor de crioula nas festas de São Benedito e guardião da igreja do Rosário dos Pretos de Alcântara; o ritmo é o do Tripa de Bode tocando os xotes de João do Vale, que assisti tomando umas geladas em um restaurante de chão de areia em Barreirinhas, bem longe do sofisticado piano-bar do resort; e das matracas dos bois da Madre Deus e do Maracanã - de extrema beleza e comovente simplicidade.

É um Maranhão, do ponto de vista material, pobre-de-marré de si , ferrado por décadas de domínio da oligarquia Sarney e visivelmente ignorado pelo poder público. Não havia, por exemplo, nenhum hospital público ou posto de saúde funcionando em Barreirinhas, Paulino Neves, Mandacaru e no povoado de Atins. Em compensação, soube que a mulher do capo José Sarney levou um tombo, teve que operar o ombro e, para isso, foi transferida em um avião particular para um hospital privado em São Paulo.

Já o Piauí é a terra do capote [prato típico feito com galinha d´angola]; dos caranguejos com cerveja de Parnaíba; da impressionante luta da população de Buriti dos Lopes e Cocal para reconstruir os estragos do recente rompimento da barragem de Cocal; do espanto do Zezinho do Táxi ao me levar numa incursão às ruas de Parnaíba para conseguir uma camisa do time de futebol da cidade; das lagostas escandalosamente baratas da Beira-Rio; do centenário casario do Porto das Barcas; e do envolvimento da população de Piripiri com a preservação do Parque Nacional de Sete Cidades.

Enfim, meus camaradas, voltei convencido dessa realidade evidente: Todo resort é uma espécie de Mac Donald´s da hotelaria mundial. Essas casamatas de turistas negam o próprio sentido que uma viagem, a meu ver, deve ter: a possibilidade de se conhecer, mesmo que precariamente, as distintas maneiras que os homens, através dos tempos, encontram para reinventar - entre cheiros, sabores, rezas, batuques e cenários diversos - a vida.

Abraços

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16/07/2009

OS REBELDES DO TEMPO


A função do professor de ensino médio guarda verdadeiras maravilhas e alguns problemas. Um deles - que me preocupa sempre - é o risco do sujeito, ao se dedicar a dar aulas, se transformar em um adultescente. Explico.

O adultescente é o camarada que vai ficando velho mas insiste em se comportar como se tivesse uns quinze, dezesseis, anos de idade. O professor envelhece, mas as turmas continuam da mesmíssima idade - e está aí o risco do mestre se transformar em um adultescente permanente.

Escrevi, nos primeiros dias desse blog, um texto sobre o adultescente, que retomei recentemente com algumas alterações. Reproduzo abaixo:

Não há nada mais patético que uma certa infantilização do mundo a que somos submetidos cotidianamente. Os tempos atuais, sobremodo sombrios, criaram a figura do adultescente, esse híbrido medonho que se recusa a conviver com o mistério do tempo e as suas marcas físicas e emocionais.

Visual bem transado, corpinho malhado , sibarita tardio, o adultescente frequenta micaretas, fala as gírias da garotada, conhece as boates da moda, curte o som do momento e alterna momentos de arrogância absoluta com instantes de fragilidade emocional.

Seu exemplo maior, entre as mulheres, talvez seja a apresentadora Xuxa, que continua, qual uma Dercy Gonçalves de festa infantil, a falar com uma entonação de débil mental e usar maria-chiquinhas tipicas de erês de umbanda.

Entre os homens, o adultescente é mato. É emblemático o exemplo de Serginho Groisman, um sujeito infantilizado que, aos cinquenta e tantos anos, fica pulando com um microfone na mão enquanto hordas juvenis dançam ao som de uma música baiana qualquer que, invariavelmente, fala das delícias de um beijo na boca e do corpo molhado de suor.

O pânico do adultescente homem é o cabelo branco, a careca ou, horror dos horrores, a barriga de chope. Adora praticar esportes radicais e acha Ayrton Senna o maior brasileiro que existiu. A seleção brasileira de futebol é, atualmente, um covil de adultescentes de chuteiras.

Já que falei de mulheres e homens, há que se falar dos viados - o tipo adultescente também grassa entre a rapaziada que é chegada em acariciar o vergalho. O adultescente gay ama, verdadeiramente ama, a cena eletrônica atual. É sofisticado, busca um parceiro que o compreenda e gosta de viajar para a Disneylandia, onde faz questão de comprar uma Minie de pelúcia de um metro e meio.

Aos trinta e tantos anos anos, o adultescente bicha resolve fazer teatro no Tablado ou na CAL, como processo de auto-conhecimento. As mulheres o acham um fofo e querem protegê-lo, já que se trata de pessoa extremamente sensível que, quando magoada, toma remédios e pensa em cortar os pulsos.

Adultescente que se preza chama a cantora Ivete Sangalo de "a Ivete", com inequívoca intimidade. Se identifica com as letras [profundas como as mensagens de cartões de namorados das Lojas Americanas] do Renato Russo e tem Caetano Veloso como referência mais sofisticada. Fecha os olhos quando escuta O Leãozinho.

Ser adultescente é frequentar festas plocs, bailinhos e shows de rock na praia - tentando descolar credencial para o espaço vip. Perto do carnaval, é passar a ir aos ensaios da Grande Rio na zona sul carioca e descolar uma camisa de diretor da agremiação emergente. Todo adultescente é torcedor escola de Duque de Caxias, mesmo que não saiba.

O adultescente venera a alegria[e é por isso, paradoxalmente, um deprimido em potencial] e seu maior objetivo é ser feliz, como se isso fosse lá um horizonte decente para um sujeito. A felicidade desse bípede festivo, sua busca incessante, consiste em projetos de vida entusiaticamente elaborados, como a compra de abadás para pular o carnaval em Salvador - uma alternativa ao desfile da sua Grande Rio no sambódromo.

O melhor antídoto contra esse tipo infame é abrir uma gelada, sentar num boteco simples - onde esses elementos não entram - e ouvir um samba triste do mestre Silas, um tango do Discépolo ou do Gardel e uma seresta do velho Silvio Caldas.Prestamos, assim, reverência ao Tempo, divindade poderosa, e nos preparamos, nas esquinas da vida, para o dia em que o canto der espaço ao silêncio da noite grande. Bem longe dessa gente.


Abraços.

[Entro de férias amanhã e vou passar duas semanas tomando cerveja e comendo camarão nos Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba e arredores. O blog volta a ser atualizado no início de agosto]


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14/07/2009

GRANDES SAMBAS-ENREDO - UNIDOS DA PONTE, 1982

O carnaval de 1982 [para sempre o ano da Tragédia do Sarriá] apresentou uma senhora safra de sambas-enredo, especialmente no grupo de acesso. É, por exemplo, o ano dos clássicos Lua viajante, da Unidos de Lucas, e Moça bonita não paga, da Caprichosos de Pilares. Dois sambas que os fãs do gênero consideram obras maiores. Gosto dos dois, mas meu samba predileto daquela safra cheia de vinhos de boa pipa é o da Unidos da Ponte.

A escola de São João de Meriti apresentou o enredo Quem quiser que conte outra, contando a história do casamento da Dona Baratinha com o Dom Ratão. A Ponte transferiu a fábula do enlace dos bichos para Meriti e acabou fazendo um desfile sublime. Subiu de grupo, inclusive.

O samba-enredo é um caso à parte. Em tom menor, os compositores Mazinho e Ambrósio transformaram o matrimônio da Dona Baratinha em uma obra-prima, relatando a dramática morte do Dom Ratão na panela de feijão e o escambau. Tudo isso com uma melodia lírica e uma letra que transforma o casório dos bichos numa espécie de Romeu e Julieta do mundo animal.

Só mesmo o carnaval e o samba para elevar a fábula infantil do casamento entre uma barata e um rato em uma tragédia amorosa de deixar Orfeu e Eurídice no chinelo!

Para demonstrar que não estou exagerando, coloquei na rede a gravação original do samba, com o puxador Grilo. Basta clicar aqui e escutar esse clássico maior. Bons tempos.

Abraços

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13/07/2009

E POUCA COISA MUDOU EM MOMBAÇA

Poucos episódios da história recente do Brasil são mais elucidativos do perfil da nossa elite política, a mesma que está no poder desde Tomé de Souza e da Índia Bartira, que o famoso evento que colocou nos compêndios da pátria a valorosa cidade de Mombaça, no interior do Ceará, em Fevereiro de 1989.
Governava o Brasil à época o todo poderoso capitão-donatário do Maranhão - com cartas de sesmaria devidamente concedidas pelos milicos de 1964 - José Sarney. O mandato de Sarney deveria ter se encerrado no ano anterior, mas uma maracutaia coordenada pelo ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, permitiu ao presidente mais um ano de governo.
Não bastasse a cara de pau de ter se presenteado com uma concessão de TV na Bahia, o Malvadeza distribuiu cerca de mil concessões de rádio e TV a políticos, em troca do apoio do Congresso à extensão do mandato de Sarney. Esse era o tipo de coisa que o painho querido do Caetano Veloso adorava fazer. Mas deixemos de lado o falecido brucutu baiano e falemos de Mombaça.
No último ano do seu mandato Sarney fez uma visita oficial de uma semana ao Japão. Durante este período, o deputado Paes de Andrade, presidente da Câmara e nascido em Mombaça, assumiu interinamente a Presidência da República. O que fez, então, o distinto parlamentar para marcar sua passagem pelo governo? Organizou uma caravana de 66 pessoas para assistir à inauguração de uma agência do Banco do Nordeste do Brasil em sua cidade natal. A tal agência , vejam vocês, já funcionava em Mombaça havia 1 ano - ainda assim Paes de Andrade considerou que urgia inaugurá-la.
A turma cooptada para o evento viajou, com toda mordomia a que tinha direito, no Boeing 707 da presidência até Fortaleza; ali os convidados embarcaram em portentosos aviões Bufálo, da Força Aérea Brasileira, para Mombaça. A pista do aeroporto da cidade foi aumentada em tempo recorde para permitir o pouso dos dois aviões da F.A.B. que levavam a comitiva do presidente em exercício.
A população da pequena cidade , extasiada com a fama súbita, compareceu em peso para saudar o filho ilustre da terra que, aos prantos, fez um discurso de quatro horas de duração sobre a história de Mombaça e a bravura do sertanejo, citando Cristo, Getúlio Vargas, Napoleão Bonaparte, Padre Cícero, Lampião, José Sarney , Pelé, Frei Damião, Tiradentes, Nelson Ned e Buda.
Quase esqueci de um pequeno detalhe - a pista do aeroporto de Mombaça, depois do momentoso evento, nunca mais foi utilizada.
Abraços

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12/07/2009

O MAIOR DA HISTÓRIA DO POP

Ao abrir meus emails da semana [não sou de verificar a caixa de entrada com frequência] constato que recebi mensagem de uma loja virtual, sugerindo a compra do DVD Thriller, do suposto falecido Michael Jackson, com direito a cenas extras e o escambau. Não aceitei a oferta.
A propaganda da loja é, antes de mais nada, deslavada mentira - diz que Thriller é considerado o maior videoclipe da história da música em todos os tempos. Cascata da grossa, como o mundo inteiro sabe.
O maior clipe do mundo, o que mobilizou elenco estrelar, gastou mais em efeitos especiais, possui narrativa dramática impecável e - por tudo isso e muito mais - revolucionou a estética pop de forma irreversível, não é o da música do M.J.
O próprio astro, certa feita, confessou que a inspiração para Thriller surgiu quando, durante uma turnê dos Jackson Five ao Brasil, o então crioulo assistiu, assombrado, ao clipe dos Originais do Samba, sob a liderança de Mussum, para a música Aniversário do Tarzan.
Exibido pelo Fantástico, em 1978, o clipe contou com a participação especial de Russo, então assistente de palco de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, em sensível atuação no papel de Marinheiro Popeye.
Atentem ainda para o talento dramático do menino que representa o Cebolinha, a forma física invejável da Mulher Maravilha, os efeitos especiais do incêndio da cena derradeira, o cenário exuberante e, principalmente, para a coreografia dos Originais do Samba, que Michael Jackson sabidamente copiou em Moonwalker. Um clássico!


Abraços

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10/07/2009

NÃO SABEMOS VOTAR

A atual crise do Senado Federal exige uma postura mais coerente do eleitor na hora de escolher o parlamentar. A verdade é mesmo aquela que Pelé um dia revelou: O brasileiro não sabe votar. Exemplifico.
Nas últimas eleições municipais, a população de São Paulo tinha a oportunidade de eleger um parlamentar de altíssimo nível para a Câmara de Vereadores. Me refiro ao cantor Ovelha, um dos maiores do Brasil em todos os tempos, candidato pelo PTB.
Ovelha fez uma campanha elegante, arrojada, da maior dignidade. Não surpreende, se considerarmos a sofisticação do repertório do cantor. Teve, porém, menos de oitocentos votos. Uma lástima e uma vergonha para o eleitorado.
Assistam ao vídeo abaixo - uma aula de marketing eleitoral - produzido pelo comitê de campanha de Ovelha e admitam: Alguma coisa está errada com um país que não elege um cabra dessa envergadura. Espero, honestamente, que Ovelha não desista. Tem o meu voto se mudar seu domicílio eleitoral para o Rio de Janeiro. Dedico, inclusive, a trilha sonora da propaganda ao meu amigo Felipinho Cereal, certamente, como eu, um fã dessa bela canção:

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05/07/2009

UMA ESTÁTUA PARA PATRÍCIO


Sou um sujeito sem a menor paciência para o exercício formal da política. Pausa. Digo isso porque recebi meia-dúzia de mensagens perguntando se eu não escreveria nada mais contundente sobre a crise do Senado Federal. A resposta é não. Não escreverei nada sobre crise nenhuma. Ou melhor, escreverei, mas sobre uma crise que ocorreu em antanhos e que me interessa mais que esse bafafá atual.

Hoje quero falar de um personagem que, para a história do Brasil, é mais relevante que José Sarney, o Padre Antônio Maria - o apóstolo do Castelo de Chantilly - e Jaça, o cabeleireiro de Silvio Santos, juntos. Me refiro a Patrício, o boi de estimação de D. João VI.

Nós, os historiadores, costumamos falar sobre a chegada da família real citando D. João, Dona Maria I, Carlota Joaquina, D. Pedro, D. Miguel, e por aí vai. Não devemos, porém, esquecer que Patrício, o boi de D. João, também fugiu da invasão de Napoleão Bonaparte e chegou ao Brasil com a Corte.

Segundo relatos, Patrício encarou a travessia do Atlântico com a galhardia típica dos bovinos de boa cepa. Mugiu pouco, comeu moderadamente e foi discreto na hora de fazer suas necessidades fisiológicas.

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, D. João se mostrou preocupado com a acomodação de seu querido Patrício. A solução encontrada acabou sendo a de enviar o boi para a Real Fazenda de Santa Cruz. O mais interessante, porém, foi o seguinte : O príncipe estabeleceu que Patrício recebesse o título de Gentil Homem do Reino e funcionário da Real Fazenda - o que daria ao vacum o direito de receber uma pensão para suas despesas diárias.

O boi Patrício, dessa forma, viveu seus anos de Brasil com a maior tranquilidade, exercendo com sabedoria suas funções de funcionário na Fazenda de Santa Cruz - que consistiam basicamente em pastar, invadir terrenos vizinhos, meditar, dormir, acordar, fazer cocô e pastar de novo; nos conformes recomendados pela mastozoologia dos bovídeos.

Quando explodiu a Revolução do Porto, e com ela os primeiros levantes a favor da Independência do Brasil, alguns liberais exaltados, do grupo político de Gonçalves Lêdo, receberam a denuncia de que o Boi Patrício era pensionista e funcionário público. Os exaltados, então, fizeram um estardalhaço, denunciando a mamata e exigindo a restituição dos ganhos de Patrício aos cofres públicos. Uma maldade, como se vê.

O resto é de conhecimento público. D. João voltou a Portugal, o Brasil ficou independente, Patrício não se alterou com os desdobramentos do Grito do Ipiranga e viveu o resto de seus dias na bucólica Santa Cruz. Teve a dignidade de não se pronunciar sobre as denuncias a respeito de sua condição de boi pensionista.

Patrício é , na opinião desse blog, um personagem injustamente esquecido da História do Brasil. Lanço, por isso, uma campanha : Que se erga uma estátua em homenagem a ele na Praça dos Três Poderes, em Brasília. E que o presidente Sarney, em virtude de seus comprovados dotes literários, escreva e leia na inauguração do monumento uma ode a Patrício - um boi que merece estar, ao lado do Boi Garantido, do Boi Caprichoso, do Boi Barroso, do Boi da Cara Preta, do Boitatá e do Boi Arthur Virgílio, no altar dos ícones vacuns dessa nossa Terra Papagalis.

Abraços

[As informações sobre a história de Patrício e da fazenda da Santa Cruz podem ser encontradas nos seguintes livros: O Velho Oeste Carioca, de André Mansur; Santa Cruz - Fazenda Jesuítica, Real e Imperial, de Benedito Freitas; Santa Cruz, de Nireu Cavalcanti, da coleção Cantos do Rio].

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03/07/2009

MEMÓRIAS DO VELHO INSTITUTO


Tenho saudades e sinto um imenso carinho pela faculdade em que terminei a graduação e fiz o mestrado em História - o glorioso Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esse prédio da foto.

A proximidade com a Praça Tiradentes; a vizinhança do Real Gabinete Português de Leitura; o circuito de botequins do velho Centro do Rio; o fato de estudar numa faculdade de história no contexto da queda do Muro de Berlim, das eleições diretas para presidente em 1989 e do título que quebrou o jejum do Botafogo; tudo isso me faz guardar o velho Instituto no fundo do órgão muscular oco, na cavidade torácica, que recebe o sangue das veias e o impulsiona para dentro das artérias - o coração velho de guerra, apud Houaiss.

No caldeirão político que era o IFCS, no início dos anos noventa, este escriba era considerado, pelos comunas do PT [à época havia comunistas no partido], um elemento ligado aos setores conservadores do curso de História. Os conservadores, por seu turno, me consideravam um anarquista. Os ligados ao PC do B, que militavam na União da Juventude Socialista, brandiam terrível acusação - eu era, para os cabras, eurocomunista, por ter frequentado por algum tempo reuniões do PCB [que me convenceram de vez que eu não nasci para ser comuna. Houve ocasião em que um camarada tentou me provar por a+b que um marxista não podia compactuar com o programa do Chacrinha. Abelardo Barbosa era um fomentador da opressão de classes].

Me lembro, por exemplo, quando foi feita uma eleição para escolher o nome do centro acadêmico de História [o velho centro tinha sido fechado pela ditadura e, naquele contexto de redemocratização, os estudantes estavam montando o centro novo]. Aconteceram coisas nesse pleito - para citar o presidente Lula - nunca antes vistas no país.

Os estudantes tinham o direito de sugerir nomes para o C.A. Havia uma lista pendurada em um mural para que as sugestões fossem escritas. Os nomes mais citados seriam levados à votação final.

A disputa entre os vários grupos políticos do movimento estudantil, para escolher o nome do C.A., foi um verdadeiro Fla X Flu. Parecia que ali, na escolha do nome de um centro de estudantes, se definia o futuro da revolução em Pindorama. O troço foi aguerrido e quase levou bons colegas às vias de fato.

O pessoal da Convergência Socialista [futuro PSTU] defendeu a homenagem a Zumbi dos Palmares - Centro Acadêmico Zumbi dos Palmares [CAZUPA]. Outro grupo defendeu um desagravo às vítimas do regime autoritário, na figura do filho da Zuzu - Centro Acadêmico Stuart Angel [ CASA]. A peleja acabou tomando proporções épicas - e está gravada nos anais do mais que centenário edifício.

Algumas propostas eram inacreditáveis: Leon Trotsky; Carlos Lamarca; Antônio Conselheiro [imaginem isso: um centro acadêmico de História homenageando um beato fanático que aguardava a volta de D. Sebastião, proibia o consumo de álcool , pregava contra o estado laico e achava que a República era coisa do demônio]; Joana D´Arc [sim, havia uma pequena turma de bichas conservadoras da T.F.P. apoiando a santa]; Mestre Bimba; Dom Helder Câmara; Leonel Brizola [que, reparem, à época estava vivinho da silva]; Napoleão Bonaparte; Cabocla Jurema; Padre Cícero Romão; Frei Santa Rita Durão; Jerônimo, o Herói do Sertão; Beato Salu; Czar Nicolau II; Walt Disney; e Chico Buarque de Holanda - a mais ridícula de todas as ideias, admitamos.

Confesso aos leitores que, diante do nível das sugestões, levei a coisa na galhofa. Sugeri a homenagem ao historiador salazarista português Ramiro Luiz Homem, autor dos clássicos A Rota da Noz Moscada e O Império Luso-Brasileiro na Carreira das Índias. Coloquei minha proposta no mural e fui apoiado por alguns estudantes, que acharam que a sigla representaria bem a faculdade - CARALHO.

Escutei os maiores impropérios - fui acusado de divisionista; anarquista; elemento infiltrado; reacionário; e, principamente, fascista [fascista, no movimento estudantil, é um palavrão mais feio que filho da puta. Um sujeito, que estava na faculdade desde os tempos de D. João VI, me chamou assim, aos berros].

Depois de muita discussão, foi vitoriosa a proposta de batizar o Centro Acadêmico com o nome de Manoel Maurício de Albuquerque - um grande ex-professor da casa, cassado pela ditadura, que morreu de infarto pertinho do IFCS, numa livraria da Praça Monte Castello. Uma justa homenagem, diga-se. A sigla - CAMMA - também era bem apropriada ao nosso querido curso.

Ah! Os doidos que me acusaram não sabiam, e provavelmente não sabem até hoje, que o emérito professor Ramiro Luiz Homem nunca existiu.

Volto a falar do IFCS em breve.

Abraços.

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01/07/2009

A VINHOGNOSETERAPIA

O Imperador D. Pedro I gostava, de vez em quando, de esquecer os burburinhos da Corte e viajar para a Real Fazenda de Santa Cruz, onde costumava ter encontros secretíssimos com suas amantes. Sobre as viagens de Sua Majestade, escreveu Brasil Gerson na História das Ruas do Rio :

D. Pedro I e sua comitiva paravam na fonte de pedra da igreja, para que seus cavalos bebessem água, enquanto ele buscava sofregamente a magnífica pinga do vendeiro que ficava defronte, famosa desde Campinho até Campo Grande...

É isso, senhores. O Imperador do Brasil era habitué de uma tendinha na altura de Realengo, onde encostava o cotovelo no balcão, jogava conversa fora e tomava umas doses daquela que matou o guarda. Não duvido que jogasse porrinha com os populares.

Me lembrei dessa passagem da vida do soberano por conta de um fato estarrecedor: a informalidade com que D. Pedro tomava umas canas é diametralmente oposta à frescurite que grassa, nos dias de hoje, entre os bebedores e entendidos de vinho na Terra de Santa Cruz.

Já me declarei, alhures, impressionado com o verdadeiro ritual em que se transformou tomar vinhos em restaurantes. O garçom serve um mísero gole e aguarda, com cara de tacho, que o cliente experimente o tinto, avalie a qualidade da safra, verifique a harmonização da bebida com o cardápio, balance a cabeça e autorize, vinte minutos depois, que a bebida seja servida. Mas a coisa não para por aí.

A última moda dos especialistas é tecer considerações sobre a psicologia e os aspectos emocionais da bebida. Sim, é exatamente isso. Os vinhos agora são analisados com rigores freudianos. Há uma nova ciência na praça: A vinhognoseterapia.

Não bastassem aqueles cabras que ficam rodando o vinho no copo, cafungando o tinto e destacando a sutileza dos aromas e da característica das uvas, mergulhamos na era das divagações existenciais sobre o tema. O camarada toma uma taça e, fazendo pose de quem limpa bosta de galinha com colher de prata, arrisca uma análise das características emocionais da bebida:

- É um vinho que se mostra, ao primeiro gole, um tanto tímido. Aos poucos, porém, vai ganhando um toque de agressividade que o equipara aos melhores rascantes...Honra a tradição e tem personalidade. Harmoniza bem com carnes vermelhas.

O outro, sem perder a pose, faz cara de galã do cinema mudo e manda brasa:

- O vinho padece de um acanhamento excessivo. Poderia ser um pouco mais arrojado, sem perder a sensibilidade. Acho que harmoniza com carne de vitela ao molho de queijo de búfala marajoara.

O terceiro resolve entrar de sola nos adjetivos :

- As características do mosto da uva atribuem um toque de excentricidade à bebida. É , todavia, um vinho corajoso. Eu diria que tem caráter. É isso; eis um vinho de caráter. Harmoniza bem com escama de peixe espada ao molho de tamaras flâmbadas no conhaque.

O quarto dá o tiro de misericórdia:

- Talvez falte um quê de ousadia. Mas é, sem dúvidas, um vinho que tem alma. Harmoniza com a minha própria personalidade. Esse vinho sou eu.

E eu - que não sou vinho nenhum - mais chegado ao estilo D. Pedro I de ser, pergunto aos meus botões velhos de guerra : Como pode uma bebida ser tímida, agressiva, acanhada, arrojada, sensível, excêntrica, corajosa, de caráter, ousada e possuir alma ?

Já imagino, em breve, ouvir relatos sobre o sujeito que entrou no consultório do analista e disse pro doutor :

- Eu já obtive alta da análise. Quero, na verdade, que o senhor analise essa garrafa de tinto, da safra de 1937, que eu comprei dia desses.

A realidade, a acreditar nessas avaliações , é uma só : Qualquer vinho é mais humano do que eu. Não me surpreenderei se um dia souber que algum médium incorporou uma garrafa de vinho em um centro de mesa branca e saiu dando consultas. É o caminho natural. Só não contem comigo para bater cabeça pro caboclo.

Eu sou do tempo em que harmonizar era só ajustar a relação entre o canto e a dança nos desfiles das escolas de samba.

Abraços.


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