30/06/2009

A CLANDESTINIDADE DO PMDB - A PROFECIA

[Este texto, de teor profundamente místico, deve ser lido em voz alta, como o brado dos profetas do deserto]

Está cada vez mais perto da verdade, como um Ezequiel virtual, o homem de imprensa José Sergio Rocha, que vem decrevendo em seu blog o futuro do PMDB - o maior partido do Brasil cairá, depois das eleições de 2010, na clandestinidade. Apeado do poder, o PMDB mergulhará em breve na luta armada. É tiro e queda.

Daqui, do Histórias do Brasil, pego a ponga na carroça do Zé Sergio e afirmo: a resistência pemedebista estabelecerá o pincipal foco de guerrilha no Maranhão, mais precisamente na Praia do Lençol, onde José Sarney assumirá a identidade do Rei D. Sebastião. E profetizo:

D. Sebastião I desapareceu em um batalha no Marrocos, nas areias de Alcácer Quibir, em 1578. O corpo do jovem monarca nunca foi encontrado. Os sebastianistas acreditam que o rei não morreu, apenas se encantou, e voltará um dia, montado em seu cavalo Tremendal, para restaurar seu reino entre os homens.

Corre no Maranhão a história de que às sextas feiras, nas madrugadas grandes, um touro negro, com uma estrela na testa, passeia pelas areias do Lençol. Se alguém conseguir cravar um punhal na estrela do touro, estará quebrado o encanto - o chifrudo é D. Sebastião. Na mesma hora, o castelo encantado do rei se erguerá do fundo do mar e a ilha de São Luís irá submergir.

E eu sei, porque ouvi no vento, que o Rei Sebastião aparecerá com os cabelos gomalinados e o bigode mais negro que as asas da graúna, recitando o canto primeiro dos Maribondos de Fogo. Cercado pelos pajens da casa real [os gentis-homens Renan, Lobão, Cafeteira e Roriz] , ladeado pela assombração de RoseAna Jansen, acompanhado pelo pai de santo Bita do Barão e pela Sinhá Dona Benta, D. Sebastião irá clamar aos céus pela vingança, terrível vingança, contra os inféis que negam o seu reino.

Jarbas Vasconcellos aparecerá, ao lado de uma atriz de Malhação, bradando aos mares com o hábito e o cajado de Frei Damião; Moreira Franco se preparará para o combate final com a armadura de Dick Vigarista; Wellington Salgado pintará os cabelos de acaju para se parecer com Corisco, o Diabo Louro; Edson Lobinho tirará do armário a velha farda do grupo de escoteiros Dona Caola Sarney; Pedro Simon, o justo, receberá o espírito do caboclo Sepé Tiaraju, que nunca mais abandonará o cavalo. Todos receberão treinamentos de guerrilha de Ted Boy Marino.

O povo de El Rey iniciará, então, a resistência armada. E quando El Rey, cercado de duzentos netos, pairar sobre o Lençol, os céus se abrirão e um coro de anjos, capitaneados pelo padre Antônio Maria [o profeta do Castelo de Chantilly]; por Hebe Camargo; por Jaça, o cabeleireiro de Abravanel; e por Diego Hipólito, o Fauno Lunar do esporte canarinho; entoará a canção seminal de Biafra - que embalará os sonhadores rebeldes do PMDB em direção ao paraíso perdido, para ciúmes de Marquinhos Moura e sob patrocínio dos Tabletes Santo Antônio.

Começará assim, e assim está escrito, a mãe de todas as batalhas. Até que o sol derreta a cera até o fim e, do ferrão de um maribondo de fogo, com a tinta do sonho de Ícaro, se escrevam na areia os mais belos versos, como o licor a mais dentro do bombom da democracia e da elegância dessa gente morena. E Hebe, Antônio Maria, Jaça e Hipólito cantarão, enquanto El Rey ganha os céus no fim da tarde. Cantem com eles aqui enquanto Sua Majestade sobe:

Voar, voar
Subir, subir
Ir por onde for
Descer até o céu cair
Ou mudar de cor
Anjos de gás
Asas de ilusão
E um sonho audaz
Feito um balão...
No ar, no ar
Eu sou assim
Brilho do farol
Além do mais
Amargo fim
Simplesmente sol...
Rock do bom
Ou quem sabe jazz
Som sobre som
Bem mais, bem mais...
O que sai de mim
Vem do prazer
De querer sentir
O que eu não posso ter
O que faz de mim
Ser o que sou
É gostar de ir
Por onde, ninguém for...
Do alto coração
Mais alto coração...
Viver, viver
E não fingir
Esconder no olhar
Pedir não mais
Que permitir
Jogos de azar
Fauno lunar
Sombras no porão
E um show vulgar
Todo verão...
Fugir meu bem
Pra ser feliz
Só no pólo sul
Não vou mudar
Do meu país
Nem vestir azul...
Faça o sinal
Cante uma canção
Sentimental
Em qualquer tom...
Repetir o amor
Já satisfaz
Dentro do bombom
Há um licor a mais
Ir até que um dia
Chegue enfim
Em que o sol derreta
A cera até o fim...
Do alto, coração
Mais alto, coração...
Faça o sinal
Cante uma canção
Sentimental
Em qualquer tom...
Repetir o amor
Já satisfaz
Dentro do bombom
Há um licor a mais
Ir até que um dia
Chegue enfim
Em que o sol derretaA cera até o fim...
Do alto, o coração
Mais alto, o coração...

Está escrito.

26/06/2009

BODAS DE PRATA

Este ano de 2009 guarda, para esse escriba, uma efeméride da maior importância - daquelas que merecem especial destaque e grande comemoração. Estou completando vinte e cinco anos sem ir ao teatro. Bodas de prata.

A última vez em que compareci a uma peça foi nos tempos de colégio. Um camarada da minha turma fazia parte de um grupo de teatro comandado pelo diretor Damião - um cabra que trabalhava com jovens e ficou conhecido pela montagem de Capitães de Areia, com Alexandre Frota e Roberto Battaglin no elenco.

Um dia esse Damião resolveu montar O Guarani, baseado na obra de José de Alencar. O meu colega de escola estava no elenco e, por causa disso, a turma resolveu comparecer para prestigiar o nosso astro. Fiquei meio desconfiado, mas entrei no barco rumo ao Teatro Galeria, no Flamengo.

Para começar, estávamos todos na entrada do teatro quando o colega chegou. Alguns companheiros tentaram falar com ele, mas o cidadão passou batido, sem cumprientar ninguém. Uma amiga dele nos explicou:

- Ele já está concentrado no personagem e por isso não pode parar para conversar aqui fora. Ele já está dentro do personagem. É como uma incorporação.

Eu achei tremenda falta de educação, mas relevei.

A peça era inacreditável. Basta dizer que Maurício Mattar era Peri. O impressionante é que, depois de uma hora de exibição, nada do colega de classe aparecer no palco. Até que - subitamente - o índio Peri declama alguma coisa enquanto no fundo do palco, na penumbra, passam alguns homens carregando sacas e sofrendo. Eram escravos.

Um deles, acreditem, era o astro do colégio. O cidadão atravessou o palco fazendo expressão de sofrimento e...não voltou mais. Toda aquela papagaiada de concentração, entrega ao personagem e o escambau, se resumiu a esse momento impactante da dramaturgia mundial - o cabra atravessou o palco no escuro, carregando uma saca nas costas, enquanto Maurício Mattar, seminu e fantasiado com um cocar de caboclo de umbanda, recitava alguma coisa.

Naquele momento decidi nunca mais me submeter a isso. Acontece que eu tenho uma característica que é a seguinte - fico constrangido pelos outros. Todo sujeito se exibindo em um palco, falando alguma coisa e representando um personagem é, para mim, absolutamente constrangedor.

Os amigos podem argumentar que essa peça era uma porcaria. Era mesmo, mas não vale o argumento. Eu já tinha assistido, por exemplo, a uma peça com a diva Fernanda Montenegro e tenho que lhes confessar : pareceu-me, a Fernandona, uma iguana velha estragando um texto clássico [se a memória não me falha, era Fedra, do grande Eurípedes ].

Alguém pode argumentar que a minha antipatia pelo teatro vem do fato de que namorei, em antanhos, uma atriz. Pode ser. Confesso que me surpreendia com as impactantes demonstrações de sensibilidade à flor da pele e carinho uns pelos outros que os atores demonstravam. Eu me sentia uma espécie de homem de gelo, um Bjorn Borg com toques de Dick Vigarista - não me comovia com coisas que deixavam os sensíveis companheiros da minha namorada em frangalhos emocionais.

Uma vez, estarrecido com um chilique que um amigo dessa minha namorada deu ao ouvir a música Romaria, interpretada pela cantora predileta de todos os atores, Elis Regina [o cabra estava prestes a cortar os pulsos de emoção] , perguntei :

- Ele não está exagerando um pouco nessa emoção? Será que ele está morrendo? É melhor chamar a ambulância.

A resposta foi inesquecível :

- É normal. Nós, atores, somos bichos estranhos. Temos um outro canal de sensibilidade.

O namoro, evidentemente, foi para o beleléu com certa rapidez.

Dia desses alguém, que por óbvio me conhece pouco, perguntou se eu tinha assistido Hamlet, com Wagner Moura no papel do príncipe da Dinamarca. Respondi de forma muito simples:

- Não. Eu já li a peça e é suficiente. Quero continuar gostando do Shakespeare e não piso num teatro nem debaixo de vara de marmelo.

Enfim, meus amigos, sei que esse é um texto que vai causar profunda decepção em alguns leitores desse blog. Paciência. Eu só pretendia confessar de público meu horror ao teatro [que poderia ser ótimo se não fosse por um detalhe - o ator ] após a morte, baixando em algum médium em uma sessão espírita de mesa branca. A efeméride dos vinte e cinco anos distante das platéias, porém, me parece especial demais para ser ignorada.

[ Cometi um equívoco, mas estou com preguiça de mudar o texto todo. Eu escrevi várias vezes a palavra peça. Esqueci que, para meus amigos atores, peça não existe. O correto é usar a expressão espetáculo. Onde escrevi peça, então, leiam espetáculo que tá tudo em casa.]

Abraço

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20/06/2009

O PEQUENO GUERRILHEIRO


O golpe de 1964 inaugurou um período político esquizofrênico da nossa história. Este escriba, particularmente, sofre até hoje as mais duras consequências profissionais daqueles anos. Explico. Todos, eu disse todos, os professores de História que tive foram, em alguma instância, vitimados pelo regime. Cassados, torturados, clandestinos ou censurados, o fato é que nunca encontrei um professor de História que não fosse perseguido pela rapaziada verde-oliva.

Quando me formei e comecei a lecionar, esse fato me perseguiu. Como posso dar aulas sem ter sido perseguido pelo regime ? Ninguém vai confiar em um professor de história que não tenha tido alguma passagem dramática durante o período de exceção. Mas, cacete, nasci em pleno milagre brasileiro. No auge do furdunço eu tinha uns dois anos de idade. Não acho plausível convencer um aluno de que com um ano eu fui cassado pelo AI-5 , aos três entrei para o MR-8 e aos sete rompi com o 8 e fundei uma dissidência; onde fiquei conhecido pelos codinomes de Djalma, Antenor, Valquir, Marques e Comandante Bebê.

Para piorar a extensão do drama, tive um professor que até ao falar sobre coisas como o Império Bizântino e os amores da Índia Bartira dava um jeito de contar suas peripécias revolucionárias. Lembro-me da ocasião que esse professor começou a falar do desaparecimento de D. Sebastião e acabou clamando pelos desaparecidos argentinos. E fazia isso de forma teatral, caminhando desvairado pela sala. Não satisfeito , encerrava algumas aulas cantando "Para não dizer que não falei das flores".

Quando comecei a lecionar, tentei imitar o velho mestre e entoar com fervor a música de protesto do Vandré. Tentei, queridos, apenas tentei. Não saiu picas. Descobri, para a minha falência existencial definitiva, que a canção do período que ficou gravada na minha memória emocional foi a famosa "Eu te amo, meu Brasil", a marchinha da dupla Dom e Ravel que embalou o Brasil Grande do governo Médici.

Aparvalhado, segui os conselhos de uma ex-namorada, uma mística, diga-se de passagem, que sugeriu para meu caso uma regressão hipnótica. Eu precisava desconstruir os traumas que a máquina de propaganda da ditadura estabelecera no meu inconsciente profundo (palavras dela, me apresso a dizer).

Lá fui eu. Fiz a tal regressão e, pasmem, relembrei um episódio adormecido que restaurou mimha dignidade pessoal e profissional. Eu fui, aos seis anos, vítima da repressão. Fui vítima do período autoritário. Conto minuciosamente.

Quem se lembra do Sujismundo? Eu me lembro. Já escrevi carinhosamente sobre ele nos primórdios desse blog. É o seguinte: O governo iniciou uma ofensiva para elaborar um programa de educação sanitária para as crianças. Sujismundo era um cabra que não tomava banho; dotado de impactante imundícia. Enquanto todos os seus amigos atendiam aos chamados maternos para o banho, Sujismundo preferia ficar jogando futebol, soltando pipa e pulando carniça. O objetivo do governo era, por óbvio, condenar o comportamento do Sujismundo, mostrá-lo como um apestado social. Gerava doenças, afastava as pessoas e só as moscas, às centenas, acabavam lhe fazendo companhia. Um solitário, enfim.

No meu colégio havia um cartaz com um desenho do Sujismundo com várias mosquinhas sobrevoando sua gigantesca cabeça. O alerta era claro : - Não faça como o Sujismundo. A criança é o futuro do Brasil Grande. Tomem banho e lavem as mãos durante as refeições, suas pestinhas.

Chegou o momento de confessar algo que só imaginava revelar a algum médium de mesa branca, após a morte. Eu queria ser o Sujismundo. Jogar bola, soltar pipa, brincar de carniça, longe, muito longe, do chuveiro. Sujismundo foi meu primeiro ídolo. Um exemplo e uma meta. Com firmeza, resolvi interromper todas as atividade de higiene pessoal por um período mínimo de quinze dias. Resoluto, como toda criança de seis anos de idade, comuniquei essa decisão, em caráter irrevogável, aos meus familiares. E iniciei minha greve de banho. Eu fui grevista, assim como os operários de Osasco, de Contagem e do ABC.

Para que? Fui duramente reprimido. Meu avô, um cagaceiro em potencial, levou-me praticamente aos pescoções ao chuveiro mais próximo. Vitimado pela violência e o arbítrio, quase me afoguei enquanto gritava : - Eu quero ser o Sujismundo, eu quero ser o Sujismundo!

Eis aí o meu perfil contestador manifestado. Protestei contra a propaganda do regime, fiz a defesa de um personagem marginal, iniciei um movimento grevista e fui vítima do autoritarismo. Os alunos agora não podem mais estranhar a minha aparente não militância. Só não fui para a clandestinidade por uma questão cronológica, mas posso afirmar hoje, orgulhoso , que repudiei a máquina de propaganda do regime autoritário.

Grande Sujismundo! Criado para ser o símbolo de tudo que os homens do poder não queriam, ele foi o rebelde, o marginal, o insubmisso e o desafiador do um sistema. Sujismundo não se submeteu. Várias outras crianças amaram o pequeno imundo, a ponto do governo ter suspendido em um certo momento as propagandas com o personagem. Pelo país inteiro, mães desesperadas não sabiam como conter a onda de adesões ao amigo das moscas.

Hoje, devidamente cheiroso, mantendo a média de três banhos por dia, posso dizer : - Da minha maneira e de acordo com as possibilidades que a idade impunha, eu resisti, queridos. Eu disse não. Obrigado, meu pequeno amigo Sujismundo. Você sobrevive na criança que eu fui. Boa pelada e bons ventos para as suas pipas. Selo carniça nova. Eu fui um rebelde!

Abraços


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18/06/2009

OS WOMPA LOMPAS E A DESCOLONIZAÇÃO AFRO-ASIÁTICA

Falava eu, hoje mesmo, sobre o processo de descolonização afro-asiática. Abordei a independência da Índia e a formação do Paquistão, de Bangladesh e do Sri-Lanka.

Gosto dessa aula - é interessante mostrar para a rapaziada como um sujeito esquálido e seminu - o Mahatma Gandhi - pintou os cavacos e conseguiu dobrar - no fim das contas - a Inglaterra.

Em um certo ponto do tema, falei o seguinte:

- O Ceilão ficou independente em 1948 e passou a ser conhecido como Sri-Lanka em 1972.

Respondeu-me a aluna atenta:

- Ô Simas, Sri-Lanka é um país?

- Como assim ?

- Os Sri-Lankas não são aqueles anõezinhos da Fantástica Fábrica de Chocolates ?


A CLANDESTINIDADE DO PMDB

O Padre Antônio Vieira - grande prosador da língua portuguesa - escreveu uma História do Futuro, de teor rigosamente profético. Eis que, mais de trezentos e cinquenta anos depois, o homem de imprensa José Sergio Rocha calça as sandálias do profeta e - após experiência mística digna das melhores páginas do Velho Testamento - viu o futuro.
Zé Sergio profetizou que o PT e o PSDB empatarão nas próximas eleições presidenciais; governarão em aliança e, desta forma, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro - o PMDB - alijado do poder cairá na clandestinidade. E assim - podem apostar - será.
Leiam os primeiros relatos sobre a impactante clandestinidade do PMDB aqui ; aqui; e aqui .
O Histórias do Brasil, a partir de hoje, comentará em tempo real as mais recentes notícias sobre a guerrilha pmedebista, contibuindo para a nova História do Futuro. Vamos lá.


O impressionante empate entre José Serra e Dilma Roussef no primeiro turno do pleito de 2010 deixou o país atônito. O senador Mão Santa tentou defender a posse da terceira colocada, Heloísa Helena, e do seu vice-presidente, o revolucionário franco-paraense Gracus Babá. O PDT viu no resultado uma poderosa articulação que fraudou o sistema das urnas eletrônicas. Os ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes consultaram a voz das ruas e concordaram que era melhor aguardar o segundo turno. O segundo turno foi ainda mais impressionante. Os dois candidatos tiveram, cada um deles, 62.341.274 votos. Empate!
A voz das urnas foi escutada. Os partidos vencedores resolveram formar uma coligação. O PMDB, e vários de seus elementos infiltrados no DEM, no poder desde os tempos de Pero Vaz de Caminha e da índia Bartira, optou pela solução mais radical: A guerrilha; a clandestinidade.
Essa coisa de ser guerrilheiro e clandestino, porém, não é moleza. Explico.
Toda guerrilha que se preza precisa de uma trilha sonora apropriada e da escolha correta dos métodos anticoncepcionais [o grande dilema do guerrilheiro é entre a castidade em nome da causa e a suruba em nome da suruba]. O PMDB, ao cair na clandestinidade, sabe que o violão e a e a pílula anticoncepcional - mais do que a metralhadora - são imprescindíveis em qualquer movimento revolucionário. Estabeleceu-se, então, forte e ríspido debate interno entre as dezenas de grupos surgidos após o mergulho na clandestindade a respeito das tendências contraceptivas.
O único que pareceu discordar da importância da pílula foi o líder da facção Campo Majoritário das Alagoas, o companheiro Renan Calheiros. O grupo de Renan acabou, porém, sendo derrotado nesse aspecto pela Vanguarda Revolucionária da Praia do Calhau [do companheiro Sarney] ; pela Ala Vermelha Pernambucana [do companheiro Jarbas] ; pela Frente Baiana de Libertação Nacional [do companheiro Geddel] ; e pela Dissidência de Niterói [do companheiro Moreira Franco]. Os grupos Ulysses Presidente [do companheiro Simon] , Articulação de Centro [do companheiro Michel Temer] e MR-W3 [do companheiro Roriz] , preferiram votar uma moção em separado concordando com os dois lados do momentoso tema.
A opção pelo uso de anticoncepcionais causou certo constrangimento ao padre Antonio Maria - cujo maior feito místico e sacerdotal foi realizar o casamento de Ronaldo Fenômeno e Cicarelli no Castelo de Chantilly - que, não obstante, engoliu o sapo e aceitou a função de padre oficial do movimento [ não há, evidentemente, clandestindade sem a participação decisiva de padres no processo. Antônio Maria começou, então, a escrever os diários da guerrilha, pensando em igualar, um dia, a marca de 9.675 livros lançados por Frei Betto sobre o assunto].
Feita a opção pelo uso da pílula, restava a segunda fase do processo de articulação do movimento - a elaboração de um repertório musical de teor francamente revolucionário, baseado na trilogia de poemas lançados pelo imortal e agora clandestino José Sarney - Os Marimbondos de Fogo; Os Marimbondos de Porre e Os Marimbondos de Ressaca - e no vasto cancioneiro de Raimundo Fagner e Antônio Carlos Belchior.
[continua...]



17/06/2009

PMDB CAI NA CLANDESTINIDADE - CHAMADA

Não percam. Amanhã, e nas próximas quintas, o Histórias do Brasil acompanhará em tempo real a mais inusitada notícia da política brasileira desde os tempos do cacique Cobra Feroz : o PMDB abandonou a política institucional e mergulhou na clandestinidade, sob a liderança dos companheiros Sarney e Renan, após impactante derrota nas eleições de 2010. Não percam.

16/06/2009

CURTINHAS DE SALA DE AULA

Falo sobre o Terror durante a Revolução Francesa. Depois de relatar o guilhotinamento de Luís XVI e o triste fim de Maria Antonieta - além de descrever em detalhes a morte na prisão de Luisinho XVII, o filho de Sua Majestade - pergunto para a turma:
- Alguém pode me citar outro personagem que tenha ido pro beleléu na guilhotina ?
E ouço a resposta contundente, precisa, inapelável :
- Tiradentes!

Continuo falando sobre os revolucionários da França. Como não perco as esperanças e gosto de aulas participativas, indago sobre os líderes do furdunço. Um venerável aluno, de tremendo gabarito, me responde com ares de profundíssimo saber:
- Lembro de dois.
- Quem ?
- Thomas Hobbes e Pierre...
E imagino, de pronto, o jacobino Robespierre rolando na sepultura.

Aula sobre a pecuária no Brasil Colonial. Faço a pergunta clássica:
- Os senhores sabem, por acaso, qual foi a mão-de-obra que prevaleceu no ciclo do gado?
- O boi, é claro.
Comento : o "é claro" é que me deixou chocado.

Relato, em tom dramático, o terrível lançamento das bombas atômicas no final da Segunda Guerra. A pergunta que recebi foi, admitamos, geograficamente original :
- Simas, a primeira bomba foi a da Indochina ou a de Nagazaki ?

A questão da prova é simples : Caracterize a atuação dos jesuítas no Brasil Colonial.
Leio o seguinte : Os jesuítas São Sebastião e São Jorge foram fundamentais...
Parei por ali.

A pergunta veio de prima , durante a discussão sobre a crise dos mísseis :
- Qual é o país mais próximo dos Estados Unidos; Cuba ou Turquia ?
- Cuba, respondi solícito.

Vinicius, inesquecivel aluno, indaga, às vésperas do vestibular, com curiosidade comovente :
- O Papa João Paulo I era pai do Papa João Paulo II ?
Mergulhei em silêncio obsequioso.

Testinho básico : Cite três civilizações que habitaram as Américas antes da chegada de Critovão Colombo.
Resposta : Incas, Maias e Histéricos.
Dei meio na questão.
A moça chiou, cheia de trejeitos:
- Puxa, teacher, eu errei um detalhe. Me dá o ponto inteiro, vai. Só porque eu botei Maias ao invés de Mouros você me tirou meio pontinho...
Cedi, evidentemente.

Abraços

15/06/2009

SELETA MUSICAL - A MAIOR GRAVAÇÃO DE AMOR DA HISTÓRIA


Recebi hoje inusitado e educadíssimo pedido, via email, de um ex-aluno e leitor desse espaço. O distinto, que tirou não sei de onde que sou especialista em música popular brasileira, quer que eu indique uma espécie de hit parade com uma lista das mais tocadas no meu aparelhinho de mp3 [que ainda não tenho] e em meu toca-discos [sim, ainda tenho um toca-discos de primeira]. Só um detalhe: Certamente motivado pelo recente dia dos namorados, o cabra me pede músicas de amor, para preparar um cd para a amada. Só de amor.

Estava disposto a declinar do pedido [ando ocupado pra burro com uns babados profissionais], com o argumento de que o amor foi uma invenção dos estúdios Disney para vender figurinhas da Branca de Neve durante a Grande Depressão. Acabei considerando que a desfeita não seria elegante e resolvi, publicamente, ceder ao apelo. Não vou, porém, apresentar uma seleção de canções. Não há necessidade. Explico.

A mais impactante gravação de amor da história, desde a invenção dos discos de goma-lasca de 78 rotações, é suficiente para que todas as outras se tornem irrelevantes. Basta uma única canção, leitor, para você fazer de sua namorada a mulher mais feliz e emocionada do mundo : O grande Paulo Sergio e a paraguaia Perla cantam a versão em português da guarânia Índia.

É trilha sonora dos melhores puteiros de beira de estrada, dos mais dignos bordéis do cais do porto, e uma verdadeira punhalada nos corações apaixonados. Ouçam essa pérola aqui .

Se o leitor está sofrendo de mal de amor, não escute - pode ser fatal. É de cortar os pulsos do mais gelado dos amantes. E ainda tem doido que prefere Lulu Santos, Renato Russo, Cazuza e quejandos. Junte todas as músicas desses três falecidos ; elas não conseguem um terço do impacto dessa monumental gravação.

Índia, com Perla e Paulo Sergio, representa mais - em termos de qualidade e importância histórica - para a música brasileira que toda a produção pop-rock dos anos 80. Está para o cancioneiro sentimental do mundo, em resumo, como a história dos amantes de Verona para o teatro.

Perto de Índia, apaixonado leitor, qualquer outra canção de amor tem a mesma dramaticidade de um Pirulito que bate-bate.

Abraços



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12/06/2009

CERVEJA É CIVILIZAÇÃO


Quem sabia das coisas mesmo era Hammurabi, o rei da Babilônia, que viveu em mil setecentos e cacetes antes de Cristo e de Oscar Niemeyer. Ao elaborar um rigoroso código de leis, o Mumu da Babilônia criou uma cacetada de regras sobre um tema de grande relevância para o homem universal : O consumo da cerveja.

Saibam os senhores que o Código de Hammurabi estabelecia, como dever público, a obrigatoriedade do fornecimento diário de cerveja ao povo. Um trabalhador braçal receberia do Estado a cota básica de 2 litros por dia; um funcionário público, 3 litros; os sacerdotes e administradores, 5 litros para o consumo mínimo diário. O Estado se comprometia com o fornecimento dessas modestas cotas. O resto era por conta da sede do cidadão.

Hammurabi também elaborou regras para punir os produtores de cerveja de baixa qualidade. A pena aos responsáveis pela produção da má cerveja era simples e de grande sensibilidade diante do momentoso tema: Morte por afogamento.

Já no Egito [grande Egito!] quem entendia do babado era o faraó Ramsés III, o cervejeiro [que viveu em mil cento e alguma coisa antes de Cristo]. O homem era um copo da maior categoria. Basta dizer que em certa ocasião, ao resolver dar um presentinho aos sacerdotes do Templo de Amón, doou aos cabras 466 mil e tantas ânforas de cerveja provenientes de sua cervejaria particular, pedindo escusas pela modéstia da quantidade ofertada. Isso dá aproximadamente 1.000.000 [um mihão] de litros da bebida. É mole?

Os gregos e romanos, meio afrescalhados e chegados numa pederastia entre filósofos, artistas e rapazolas, preferiam o vinho. A velha cerva, entretanto, continuou sendo a bebida predileta de povos dominados pelos romanos, como os gauleses e germânicos. A elite de Roma achava que cerveja era bebida de bárbaros incultos. Tácito, uma bicha louca, ao descrever os germanos mencionou a cerveja como a bebida horrorosa fermentada de cevada ou trigo.

[Aproveito para fazer uma pausa. Há, digam-me lá, papagaiada maior do que essa moda sem-vergonha do garçom que serve vinho em restaurante colocar um pouquinho na taça e ficar esperando a autorização do cliente para servir a bebida? Dispenso qualquer comentário dos enólogos de plantão sobre o sentido de tal mise-en-scène. Imagino meu falecido avô - homem com hábitos de cangaceiro - submetendo-se a uma palhaçada dessas. Recentemente resolvi, nas poucas vezes em que tomo vinho, adotar o procedimento civilizado de dispensar o pobre do garçom dessa frescura. Digo ao cabra - Amigo, pode encher o copo direto. ]

Mas voltemos aos devaneios cervejais, que me deram por alguns instantes uma saudade da moléstia de dar aulas de História Antiga para a garotada do ensino fundamental [fiz muito isso no início da carreira e bastou escrever essa frase e me lembrar das crianças para a saudade passar de imediato].

Peguei de novo o fio meada. Escrevo esse arrazoado, na verdade, sob o impacto violento de ter tomado ontem, aqui pertinho de casa, no Aconchego Carioca, pela primeira vez a Demoiselle, a porter da cervejaria Colorado, de Ribeirão Preto - SP.

A desgramada, feita com café da região da Alta Mogiana, é daquelas que merecem que o sujeito beba de joelhos, como um fiel tocado pelo milagre absoluto da fé [leiam aqui ]. A Colorado honra a terra do grande bebedor de cerveja Sócrates Brasileiro, o Doutor.

Me recordei, durante a epifania etílica, da sentença proferida na véspera, entre dezenas de garrafas, pelo escritor Alberto Mussa, que garantiu achar a criação da cerveja um feito civilizacional no mínimo similar à criação do livro.

Foi com reverência que lembrei dos meus amigos de copo - os que sabem que o homem justo bebe cerveja como quem reza, e reza com o fervor amoroso de quem toma umas geladas com os do peito no boteco da esquina.

Cada vez entendo mais [e o primeiro gole na Demoiselle reforçou o troço] por que é que o Kalevala - a magnífica epopéia nacional da Finlândia, que conta as façanhas do bardo Vainamoinem e do ferreiro Ilmarinen, heróis do povo - tem mais recitativos sobre a origem da cerveja do que sobre a origem do homem.

Também sabiam das coisas, aqueles cabras valentes do fim da terra.

Abraços.

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08/06/2009

SARAMANDAIA E A HISTÓRIA


Tem certas coisas que ocorrem na mais remota infância que acabam definindo de forma irreversível o caráter do sujeito. Eu sou, por exemplo, um cabra definitivamente marcado pela novela Saramandaia, que assisti assombrado ao oito anos de idade. Acho que estupor maior só me atingiu no dia em que descobri que Átila, o Huno, o mais furioso dos homens, media 1,06 cm.

A trama de Dias Gomes era relativamente simples. A população de Bole-Bole, cidade da zona canavieira baiana, queria mudar o nome do local para Saramandaia. Os mudancistas eram liderados pelo prefeito Lua Viana [Antonio Fagundes] e seu irmão João Gibão [Juca de Oliveira], envergonhados em virtude do nome Bole-Bole se referir a uma aventura amorosa de D. Pedro I na região.

Os inimigos dos mudancistas, que evocavam a tradição para manter o nome da cidade, eram liderados por Zico Rosado [Castro Gonzaga] e pelo coronel Tenório Tavares [Sebastião de Oliveira]. Simples pra dedéu, não ?

Acontece que, em meio a essa trama básica, coisas do arco da velha aconteciam em Bole-Bole. Zico Rosado colocava formigas pelo nariz. Seu Cazuza [Rafael de Carvalho] ameaçava cuspir o coração quando se emocionava. Marcina [Sônia Braga, gostosa pra burro] ficava em brasa quando sentia tesão e incendiava tudo em que encostava. Dona Redonda [Wilza Carla], mulher do Seu Encolheu [Wellington Botelho], acabou explodindo de tanto comer. O professor Aristóbulo [Ari Fontoura] virava Lobisomem e há anos não dormia. Em uma de suas noites de insônia, encontrou-se, em plena madrugada, com D.Pedro I e Tiradentes.

Desconfio seriamente que foi vendo Saramandaia que moldei meu gosto pela História. Lembro de certa ocasião em que discutiamos, os colegas de faculdade, as razões que nos levaram a optar pelo saber de Heródoto. Os camaradas diziam que tinham se interessado por História lendo Marx e Engels, ouvindo relatos sobre os anos rebeldes, militando no movimento estudantil e quejandos. Eu, para estupor dos meus amigos inteligentes e dispostos a mudar o mundo, respondi num bate-pronto digno dos melhores momentos do Cremilson, imortal ponta-direita do pior time da história do Botafogo :

- Passei a gostar de História por causa de samba-enredo e da novela Saramandaia.

Eis, amigos, o que queria confessar desde o início, para minha completa desmoralização: Saramandaia e os sambas do Império Serrano e do Salgueiro foram, para mim, muito mais importantes que o Manifesto Comunista, as obras completas de Weber, a Escola dos Annales, o Almanaque Disney, o Kama Sutra, o Livro de Capa de Aço da Magia de São Cipriano, o Manual do Escoteiro Mirim, o livro III do Capital e O Caso dos Dez Negrinhos.

A única coisa na história da televisão brasileira que teve, quero crer, o mesmo impacto daquele passeio fantasmagórico entre um Lobisomem, D. Pedro I e Tiradentes numa cidade do interior da Bahia, foi o monumental capítulo de Roque Santeiro em que houve a ressurreição do Beato Salu.

Sinto decepcionar com essa confissão [que só pretendia fazer ao médium depois de morto] os adeptos da velha e furada teoria de que a telenovela é um elemento perverso de alienação das massas a serviço do grande capital. Não acho nem a pau.

Saramandaia foi a primeira experiência que tive de que é possível uma aproximação com o conhecimento histórico de uma forma afetiva, festeira, iconoclasta, calorosa e despida de ranços acadêmicos que só servem para enclausurar o conhecimento numa redoma de vidro, facultada apenas aos iniciados.

Vejam aqui uma das maiores cenas da história da televisão canarinho. Observem com atenção os impressionantes efeitos especiais da explosão de Dona Redonda, descaradamente copiados alguns anos depois por Steven Spielberg em ET, o Extraterrestre :



Abraços

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04/06/2009

PAPÃO 3 x 0 PEÑAROL . A MAIOR VITÓRIA DO FUTEBOL CANARINHO


Somos - os canarinhos - pentacampeões mundiais de futebol. Perguntaram-me, certa feita, qual foi a maior das vitórias do futebol tupiniquim. A final contra a Suécia em 1958 ? O saco que metemos na Itália em 1970?

Matutei sobre os feitos do escrete, descartei as finais de 1962, 1994 [essa foi menos emocionante que a Missa do Galo daquele ano] e 2002, cogitei citar o baile que demos na Espanha na fase final da Copa de 1950 mas, na hora de responder, falei de forma automática, feito caboclo de umbanda:

- A maior vitória da história do futebol brasileiro não foi obtida pela seleção. Foi o vareio que o Paysandu de Belém deu no Peñarol do Uruguai em 18 de julho de 1965: 3 X 0 pro Papão no Estádio da Curuzu !

É verdade. Foi mesmo um feito digno de figurar nos anais da história. O Peñarol à época era uma maquina. O time titular era praticamente a seleção do Uruguai. Mazurkiewsk, Forlan, Abbadie, Pedro Rocha e Caetano, por exemplo, envergavam a camisa preta e amarela do time platino. Eram, os gringos, bicampeões da Libertadores da América, bicampeões uruguaios e campeões mundiais interclubes. É mole?

Pois o Paysandu deu um vareio nos homens. Com o ex-tricolor Castilho fechando o arco e um ataque encapetado - Vila, Milton Dias, Pau Preto e Ércio - o Papão não tomou conhecimento da rapaziada do churrasco, jogou pra dedéu e liquidou a fatura de forma inapelável [Ércio, Milton Dias e Pau Preto fizeram os gols].

Ouso dizer que, em se tratando de confontos na América Latina, o que o Paysandu fez com o Peñarol reduz a Batalha Naval do Riachuelo a um evento tão dramático quanto um piquenique em Paquetá, com direito a passeio de pedalinho na praia da Moreninha.

O triunfo do Paysandu virou Belém de cabeça pra baixo. Houve carreata, ponto facultativo, desmaios, infartos, pororoca no Rio Guamá, pato no tucupi, tupi no cu do pato e o escambau. O Liberal, o maior jornal do Pará, estampou na manchete : "Triunfo do Papão é a vitória do Brasil". Estava vingado o maracanazzo de 1950.

Daqui do Rio, basbaque com o triunfo, Nelson Rodrigues - garantindo que assistira ao jogo pelos rumores do vento - não deixava por menos em sua crônica n´O Globo:

"O Paysandu tem camisa. Sendo peciso, sua camisa deixa de ser um trapo qualquer para erguer-se como um estandarte em chama [...] O Peñarol saiu de lá com as orelhas a meio pau. Três a zero! Um banho completo!"

Uma grande história desse jogaço aconteceu nas arquibancadas. Um dos torcedores presentes ao embate, o fuzileiro naval Francisco Pires Cavalcanti, teve um treco durante a partida. Pires era músico da marinha e compositor, mas não conseguia compor nadica de nada há uns vinte e tantos anos. As musas do poeta estavam de férias.

Entusiasmado com o desempenho do seu Paysandu, o fuzileiro Pires teve uma inspiração súbita, uma espécie de estalo de Vieira. Num estado de transe que só o ludopédio proporciona, começou ali mesmo, nas arquibancadas, a compor uma marchinha em homenagem ao Papão e ao chocolate paraense nos uruguaios.

Encerrado o jogo, um eufórico Pires cantava que nem doido para não esquecer a melodia que acabara de fazer : "uma listra branca, outra listra azul, essas são as cores do Papão da Curuzu ..." O fuzileiro acabara de compor a ciranda, cirandinha do futebol do Pará.

Além, portanto, da vitoria acachapante contra os gringos, aquela tarde de sol em Belém viu nascer um dos hinos mais simpáticos dos clubes de futebol do Brasil. Para muitos, inclusive, a marchinha de Pires é o hino oficial do Papão. Não é, mas é como se fosse.

Vou ser sincero - o hino oficial do Paysandu não me comove. Parece uma ladainha de igreja. Ouçam aqui . Já a marchinha do fuzileiro Pires é boa pra burro. Cita o baile no Peñarol e ainda sacaneia o maior adversário, o Clube do Remo, ao se referir a uma biaba que o Papão deu no rival [ um acachapante 7 x 0 ] no verso "pintou o sete numa tela azul". Confiram aqui.

É isso, camaradas. Viva o glorioso Paysandu e viva o grande seu Pires - imortalizado nas arquibancadas da Curuzu toda vez que a torcida do Papão entoa sua marchinha arretada.

Abraços

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02/06/2009

ODE AO BOLINHA FRANÇA


Ando preocupadíssimo com os descalabros que os modernos estão cometendo com as crianças brasileiras. Não foi por acaso que escrevi o texto imediatamene anterior a este, em que clamei pela volta da loura morta com algodões nas narinas que ataca crianças em banheiros de escolas. Uma criança sem medos é um javali em potencial. Retire o medo da formação do petiz e não reclame quando o adulto se comportar com a brutalidade de um Átila, o Huno.

Não bastasse a ausência dos medos, a moda agora é educar a criançada com critérios baseados no politicamente correto. Estou alarmado e penso que já é hora das instâncias superiores da República tomarem uma atitude. Revelo meu estupor e clamo pela ira da patota de Cosme contra essa gente.

Qual não foi meu pasmo quando soube, neste fim de semana, que a Luluzinha, histórico personagem infantil dos quadrinhos, ganhará uma versão adolescente. Luluzinha, uma meninota sapeca, terá nas novas histórias quinze aninhos. Até aí tudo bem. Vamos ao choque no próximo parágrafo.

Acontece que, na nova versão da turma da Luluzinha, o Bolinha França, o mais famoso balofo dos quadrinhos infantis, será um rapazola magricela e guitarrista de uma banda de rock. Bolinha, em suma, fez um regime e emagreceu; virou um pau de virar tripa. Abandonou o violino e virou roqueiro. A versão tenn [arghhh] da Luluzinha tentará combater, através do emagrecimento do Bolinha, a obesidade infantil. A Luluzinha, a Aninha, o Careca, o Alvinho e o Bolinha virarão uma espécie de personagens de Malhação - o programa mais vergonhoso da história da tv brasileira. Cáspite!

Daqui, às margens do Maracanã, lanço meu protesto.

Não bastasse essa nova mania de escolherem no carnaval reis momos magros em nome da saúde [eu acho e já escrevi que todo Rei Momo tem que ser um cachalote, um rolha de poço, um chupeta de vulcão prestes a explodir qual a Dona Redonda em Saramandaia] , me vem agora esses malas do politicamente correto querendo emagrecer o Bolinha.

Em breve, como alertou o Eduardo Goldenberg, vão fazer o Cebolinha falar certo e a Magali parar de comer melancia. Vou mais longe, velho Edu. Vou mais longe. Sinto os primeiros pingos do dilúvio.

Prevejo que o Cascão vai começar a tomar dois banhos por dia [alertam-me os leitores Pedro e Leticia, nos comentários a este arrazoado, que o ex-imundo já virou um mauricinho cheiroso]. O Brasinha será exorcizado por uma igreja pentecostal. A Bolota voltará como uma top model anoréxica e ganhará um concurso de beleza. O Dick Vigarista - o único sujeito que me fez gostar de automobilismo - vai se arrepender de todas as trapaças que fez e vai encontrar o Senninha para aprender a disputar corridas honestamente. Neste dia o Muttley chorará.

Soube dia desses, para aumentar minha conviccção de que estamos fritos, que as professorinhas de música das creches e maternais não ensinam mais a criança a cantar o Atirei o Pau no Gato. Não pode.

Atirar o pau no gato é politicamente incorreto, porque estimula a crueldade contra os animais. A Dona Chica-ca-ca não vai mais admirar-se do berro que o gato deu. A onda agora é cantar algo do tipo "não atirei o pau no gato-to, pois o gato-to, é meu amigo-go-go..."

Não se ensina mais também O cravo brigou com a rosa. Como os dois sairam na porrada debaixo de uma sacada, a música pode, segundo os apóstolos da correção, estimular a violência entre os casais e fazer a criança achar natural o cacete entre os amantes. Essa foi a justificativa da professora do filho de um conhecido meu para preferir ensinar ao fedelho as músicas da Xuxa [cada vez mais parecida, diga-se, com a Hebe Camargo].

Faço de novo um apelo urgente: É necessário resgatar os nossos brasileirinhos das mãos desses doidos. É missão civilizadora livrar a garotada desses desvairados que em nome de uma correção doentia são capazes de fazer até um São Francisco de Assis se sentir uma espécie de Corisco, o diabo louro.

Chegará o dia, e aqui profetizo o caos, em que um professor de história vai responder a processo, movido por entidades não-governamentais em defesa das minorias, por se referir ao escultor e arquiteto brasileiro Antônio Francisco Lisboa pelo apelido carinhoso de Aleijadinho [apelidos não podem e é crime chamar um aleijado de aleijado, dirão as vestais da correção do alto de sua sacrossanta burrice].

Dia virá em que festas infantis serão decoradas com motivos da história de Branca de Neve e os sete prejudicados verticais.

Chegará o carnaval em que se o índio não ganhar o apito o pau não vai comer, porque não é correto que índio brigue com alguém. E os clarins silenciarão mais cedo.

[Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é ... e o coro responderá com a mesma euforia da torcida brasileira logo após o gol do Gigghia na final da Copa de 1950 : Homoerótico!]

E então, amigos, o preto velho Pai Joaquim, poderosa entidade de umbanda, passará a ser conhecido como o afrodescendente da terceira idade Pai Joaquim. Será este, acreditem, o sinal inequívoco do fim.

Bolinha França, meu eterno balofo! Batatinha, meu preferido dos Batutinhas! Os que vão morrer [bebendo e cantando os ferimentos do cravo e da rosa, debaixo da marquise de uma birosca vagabunda] vos saúdam !

Abraços.

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