
O golpe de 1964 inaugurou um período político esquizofrênico da nossa história. Este escriba, particularmente, sofre até hoje as mais duras consequências profissionais daqueles anos. Explico. Todos, eu disse todos, os professores de História que tive foram, em alguma instância, vitimados pelo regime. Cassados, torturados, clandestinos ou censurados, o fato é que nunca encontrei um professor de História que não fosse perseguido pela rapaziada verde-oliva.
Quando me formei e comecei a lecionar, esse fato me perseguiu. Como posso dar aulas sem ter sido perseguido pelo regime ? Ninguém vai confiar em um professor de história que não tenha tido alguma passagem dramática durante o período de exceção. Mas, cacete, nasci em pleno milagre brasileiro. No auge do furdunço eu tinha uns dois anos de idade. Não acho plausível convencer um aluno de que com um ano eu fui cassado pelo AI-5 , aos três entrei para o MR-8 e aos sete rompi com o 8 e fundei uma dissidência; onde fiquei conhecido pelos codinomes de Djalma, Antenor, Valquir, Marques e Comandante Bebê.
Para piorar a extensão do drama, tive um professor que até ao falar sobre coisas como o Império Bizântino e os amores da Índia Bartira dava um jeito de contar suas peripécias revolucionárias. Lembro-me da ocasião que esse professor começou a falar do desaparecimento de D. Sebastião e acabou clamando pelos desaparecidos argentinos. E fazia isso de forma teatral, caminhando desvairado pela sala. Não satisfeito , encerrava algumas aulas cantando "Para não dizer que não falei das flores".
Quando comecei a lecionar, tentei imitar o velho mestre e entoar com fervor a música de protesto do Vandré. Tentei, queridos, apenas tentei. Não saiu picas. Descobri, para a minha falência existencial definitiva, que a canção do período que ficou gravada na minha memória emocional foi a famosa "Eu te amo, meu Brasil", a marchinha da dupla Dom e Ravel que embalou o Brasil Grande do governo Médici.
Aparvalhado, segui os conselhos de uma ex-namorada, uma mística, diga-se de passagem, que sugeriu para meu caso uma regressão hipnótica. Eu precisava desconstruir os traumas que a máquina de propaganda da ditadura estabelecera no meu inconsciente profundo (palavras dela, me apresso a dizer).
Lá fui eu. Fiz a tal regressão e, pasmem, relembrei um episódio adormecido que restaurou mimha dignidade pessoal e profissional. Eu fui, aos seis anos, vítima da repressão. Fui vítima do período autoritário. Conto minuciosamente.
Quem se lembra do Sujismundo? Eu me lembro. Já escrevi carinhosamente sobre ele nos primórdios desse blog. É o seguinte: O governo iniciou uma ofensiva para elaborar um programa de educação sanitária para as crianças. Sujismundo era um cabra que não tomava banho; dotado de impactante imundícia. Enquanto todos os seus amigos atendiam aos chamados maternos para o banho, Sujismundo preferia ficar jogando futebol, soltando pipa e pulando carniça. O objetivo do governo era, por óbvio, condenar o comportamento do Sujismundo, mostrá-lo como um apestado social. Gerava doenças, afastava as pessoas e só as moscas, às centenas, acabavam lhe fazendo companhia. Um solitário, enfim.
No meu colégio havia um cartaz com um desenho do Sujismundo com várias mosquinhas sobrevoando sua gigantesca cabeça. O alerta era claro : - Não faça como o Sujismundo. A criança é o futuro do Brasil Grande. Tomem banho e lavem as mãos durante as refeições, suas pestinhas.
Chegou o momento de confessar algo que só imaginava revelar a algum médium de mesa branca, após a morte. Eu queria ser o Sujismundo. Jogar bola, soltar pipa, brincar de carniça, longe, muito longe, do chuveiro. Sujismundo foi meu primeiro ídolo. Um exemplo e uma meta. Com firmeza, resolvi interromper todas as atividade de higiene pessoal por um período mínimo de quinze dias. Resoluto, como toda criança de seis anos de idade, comuniquei essa decisão, em caráter irrevogável, aos meus familiares. E iniciei minha greve de banho. Eu fui grevista, assim como os operários de Osasco, de Contagem e do ABC.
Para que? Fui duramente reprimido. Meu avô, um cagaceiro em potencial, levou-me praticamente aos pescoções ao chuveiro mais próximo. Vitimado pela violência e o arbítrio, quase me afoguei enquanto gritava : - Eu quero ser o Sujismundo, eu quero ser o Sujismundo!
Eis aí o meu perfil contestador manifestado. Protestei contra a propaganda do regime, fiz a defesa de um personagem marginal, iniciei um movimento grevista e fui vítima do autoritarismo. Os alunos agora não podem mais estranhar a minha aparente não militância. Só não fui para a clandestinidade por uma questão cronológica, mas posso afirmar hoje, orgulhoso , que repudiei a máquina de propaganda do regime autoritário.
Grande Sujismundo! Criado para ser o símbolo de tudo que os homens do poder não queriam, ele foi o rebelde, o marginal, o insubmisso e o desafiador do um sistema. Sujismundo não se submeteu. Várias outras crianças amaram o pequeno imundo, a ponto do governo ter suspendido em um certo momento as propagandas com o personagem. Pelo país inteiro, mães desesperadas não sabiam como conter a onda de adesões ao amigo das moscas.
Hoje, devidamente cheiroso, mantendo a média de três banhos por dia, posso dizer : - Da minha maneira e de acordo com as possibilidades que a idade impunha, eu resisti, queridos. Eu disse não. Obrigado, meu pequeno amigo Sujismundo. Você sobrevive na criança que eu fui. Boa pelada e bons ventos para as suas pipas. Selo carniça nova. Eu fui um rebelde!
Abraços
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