23/05/2009

SEM O CARRO, COM JOÃO E LUA


Tomei, no ano passado, uma das mais sensatas decisões de minha vida; deixei de ter carro. A motorista, aqui em casa, é a mulher. A vida sem automóvel é uma belezura - ando de ônibus, barcas e metrô; prefiro beber mesmo em botequins perto de casa; não fico doido em engarrafamentos; gasto de táxi muito menos do que gastaria pagando IPVA, pedágios, seguro e estacionamentos; não sou extorquido por guardadores; e não preciso enfrentar os visigodos do trânsito carioca. Acordo meia horinha mais cedo para trabalhar, mas os ganhos que obtive com essa decisão foram imensos. Sei que muita gente depende do carro - por razões de trabalho e por conta das deficiências grosseiras do transporte público. Eu tenho a sorte de não precisar.

Já esculhambei alhures o governo de Juscelino Kubitschek por causa do desvario rodoviarista dos anos dourados. Além da opção rodoviarista propriamente dita, os anos JK começaram a criar no Brasil um troço terrível; o culto ao automóvel como símbolo de projeção social. O automóvel é o epítome de um Brasil que foi perdendo a delicadeza. O culto ao defunto Airton Senna [um sujeito que conseguiu namorar a Xuxa, apoiar o Maluf e ser amigo íntimo do Galvão Bueno; e cujo talento maior foi o de ficar dando voltas em alta velocidade numa banheira de gasolina] é a sua expressão mais macabra.

Comecei fazendo esse arrazoado contra o automóvel para contar uma história curiosa. Em 1957, em plena euforia desenvolvimentista, o país gastava os tubos construíndo rodovias de integração nacional e sucateava de forma suicída a malha ferroviária. Enquanto o asfalto cortava o país, a Estrada de Ferro Teresina-São Luís, por exemplo, continuava trafegando com máquinas movidas a lenha.

Puto dentro das calças com essa história, o grande João do Vale resolveu fazer uma música denunciando o abandono e a lerdeza da ferrovia. Foi assim que surgiu o xote De Teresina a São Luís - uma das mais elegantes, bem-humoradas e contundentes críticas ao abandono criminoso das ferrovias brasileiras e, ao mesmo tempo, uma crônica magnífica do que era viajar de trem naquelas plagas distantes do Brasil dourado de Juscelino; esquecidas pelo Plano de Metas do simpático Nonô.

O resto é História [maiúscula]. Luiz Gonzaga gravou e a música fez um sucesso danado. Foi o suficiente para que os políticos espertalhões da região providenciassem a mudança; trocassem a lenha pelo óleo diesel e colocassem nas duas locomotivas que faziam a rota nomes de canções de João do Vale. O trem que subia para Teresina foi batizado de Pisa na Fulô, e o que descia para São Luís, de Peba na Pimenta.

Ouçam aqui o Velho Lua cantando essa maravilha que é De Teresina a São Luís.

Abraços.

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22/05/2009

GOLDENBERG E ANDREAZZA

Recomendo fervorosamente a leitura de dois blogs nessa sexta-feira.

O grande imperiano Carlos Andreazza, do obrigatório Tribuneiros , escreveu a definitiva página sobre a patética entrevista que deu hoje ao jornal O Globo a senhora Rita Lee. Com a precisão de um passe do Geraldo Assoviador, comentou o Andreazza: "Rita Lee dá entrevista ao vivo após 12 anos. Comento-rogo : Que a próxima demore 24".

O polemista [apud Aldir Blanc] Eduardo Goldenberg escreveu mais um texto definitivo em seu necessário Buteco do Edu. Ao falar da nossa querida Tijuca, meu mano Edu traçou o retrato mais pertinente que já li sobre o bairro de Santa Teresa. Leiam o trecho preciso do bardo da Haddock Lobo:


[...] Fiquei rindo de mais essa cena, tijucaníssima, e agradeci a Deus o fato de ter nascido aqui, de ter escolhido viver aqui. Em nenhum outro lugar há mais autenticidade. Lembrei-me de Santa Teresa, por exemplo. O aprazível bairro tem um troço que me intriga. Ele modifica as pessoas de uma forma aguda, ele molda as pessoas, ele dita moda e a moda é incorpoada pelo visitante, como se este último fosse um médium sem controle sobre a entidade. Explico.

O casalzinho jovem mora em Ipanema e resolve ir à Santa Teresa no sábado pela manhã. Tomam um táxi e saltam no Largo da Carioca a fim de tomarem o bonde pra Santa (o habituè adora chamar Santa Teresa de Santa). Entram no bonde. O bonde parte. Atravessa os Arcos da Lapa e na primeira curva, já dentro do bairro, começa o espetáculo. Ela abre a mochila. Saca uma touquinha de crochê, tira o All Star e veste uma sandália de couro, coloca uma bata colorida sobre a camisa de malha, põe uns 6, 7 anéis nos dedos da mão, estende o anel de osso preto pro namorado, que o atarraca no polegar da mão direita. Ele rasga a bermuda jeans, como um possesso. Joga o par de tênis dentro da mochila da namorada, veste um par de havaianas surradas, despenteia o cabelo, coça a cabeça como um menino cheio de lêndeas e saca do bolso da frente o cigarrinho de maconha piscando o olho em direção à namorada:

- Máum? - é assim que essa gente fala "vamos fumar um?".

E passam a tarde felizes zanzando pelas ruas do bairro alternativo.

Abraços

21/05/2009

QUANTOS SOMOS? TREZE !


Sem que ninguém tenha me perguntado coisa nenhuma, antecipo a resposta [eis uma vantagem de um espaço como esse; posso responder as perguntas que nunca me fizeram mas que eu gostaria de receber]. É o seguinte: O nome de time de futebol mais inusitado e bem escolhido do Brasil é o do Treze Futebol Clube, o alvinegro de Campina Grande. O Treze é imbatível nesse ponto.

O clube paraibano nasceu no dia 7 de setembro de 1925, numa reunião que contou com a participação de alguns doidos interessados em difundir o futebol em Campina. Durante o pega pra capar para se escolher o nome da agremiação, um dos fundadores, José Casado, sugeriu que o clube adotasse como nome a quantidade de pessoas presentes ao ato de fundação. Quantos somos, cabras? perguntou o Zé. Treze! E assim ficou.

Isso significa que o Treze poderia perfeitamente se chamar Onze Futebol Clube, Vinte Futebol Clube, Trinta e Quatro Futebol Clube, Setenta e Sete Futebol Clube, e por aí vai.

O primeiro time do Treze, que estreou nos gramados enfrentando o Palmeiras de João Pessoa [1 de maio de 1926], foi formado por um onze de respeito : Olívio; Zé Elói e Lima; Eurico, Zacarias do Ó e Zé de Castro; Rodolfo, Casado, Reis, Zé Cotó e Guiné.

Sobre este histórico primeiro time, aliás, reparem na foto que ilustra o texto. Percebam a magnífica camisa que o eleven paraíbano usou no jogo inaugural. Isso sim é design arrojado, o resto é conversa de songamonga.

O Treze ganhou o jogo pioneiro por um gol. O autor do tento, depois de jogada individual nunca dantes vista nas paraíbas, foi o ponteiro esquerdo Guiné. Aqui vale uma explicação. O nome de batismo do herói do gol inaugural era Plácido Véras. O apelido foi dado pelos amigos em virtude de uma característica de Plácido nos gramados; a velocidade espantosa que o assemelhava a uma guiné, a ave, ciscando no terreiro.

[Toda vez que escuto uma história como essa do Guiné sinto deslavada saudade de um tempo em que o apelido era a regra entre os boleiros. O tal do futebol globalizado, porém, exige nome e sobrenome do jogador, já vislumbrando milionárias transações com clubes do exterior. Usei o termo jogador e me expressei mal. A moda agora é chamar todo mundo de atleta. Não gosto. Na minha meninice atleta era só quem fazia atletismo e olhe lá. Mas fechemos o parêntese, que já vai tarde, e voltemos ao que interessa no próximo parágrafo.]

O mascote do Treze é um galo. A razão, assim como a do nome, também é magnífica - treze é o número do marido da galinha no jogo do bicho. Cáspite. Que mascote! Que mascote! Faço a irresistível facécia - Fossem vinte e quatro os fundadores, a escolha do mascote obedeceria ao mesmo critério? Creio que não.

Não bastassem as glórias nas quatro linhas [o campeonato paraibano invicto de 1966 é, para os velhos torcedores, a maior delas] o Galo da Borborema também entrou para a história da música popular do Brasil. Em 1958 o grande compositor de cocos e baiões Rosil Cavalcante, autor de Sebastiana, compôs Saudade de Campina Grande, gravada pela lendária Marinês.

Ao cantar o banzo dos personagens da terra do São João mais arretado da Paraíba, a música fala do futebol de Campina Grande e cita o " Iracema, center-foward do Paulistano em dia de jogo, e o Treze, velho galo da Borborema, que jamais teve problema e pegava fogo". É pra quem pode, cabras. Ouçam aqui a gravação na voz de Marinês . [Acho a coisa mais extraordinária, aliás, esse uso do termo center-foward em um forró paraibano.]

O hino do Treze, de autoria de João Martins, é uma saudação alegre a um dos clubes mais irreverentes, gloriosos e amados do Brasil. Para os que, como eu, tem essa mania doida de colecionar as marchas dos times do povo, basta clicar aqui , escutar e guardar a marselhesa dos trezeanos.

Vida longa ao futebol brasileiro e ao Galo querido da Borborema.

Abraços

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20/05/2009

O SEGREDO DO NOME


Saio de uma reunião no Museu da Imagem e do Som, tomo umas geladas com o camarada Beto Mussa e pego um táxi para ver os jogos da rodada da Copa do Brasil em casa.

Sento no banco da frente do carro e começo, sem muito entusiasmo, a jogar conversa fora com o motorista.

O cabra me pergunta sobre meu trabalho; respondo que sou professor de História. A reação do taxista é imediata. Diz que sempre gostou de várias histórias, sobretudo a respeito da Segunda Guerra Mundial. Sei tudo da guerra - argumentou o meu interlocutor.

Diante do meu imediato silêncio [o único assunto que me interessa no momento é mesmo o bom e velho esporte bretão] o intrépido motorista manda na lata:

-Os Estados Unidos só são uma potência porque levaram todos os cientistas nazistas para trabalhar no país depois da guerra. Pegaram todo mundo e levaram pros laboratórios de lá. Isso todo mundo sabe. Sem os nazistas eles nunca teriam chegado ao espaço.

Continuo em silêncio obsequioso.

- É por isso que a Nasa tem esse nome. Por causa dos nazistas que foram trabalhar lá. E até a ONU sabe e ninguém faz nada. O nome tinha que ser proibido. Tá cheio de nazista na Nasa.

Diante do argumento irretorquível, abandonei a casmurrice e concordei com o valoroso motorista. Há que se pensar em um novo nome para a National Aeronautics and Space Administration, essa camarilha de nazistas safados.

Abraços

18/05/2009

NOSSO HINO DE GUERRA E SAUDADE


Estava dando uma geral nos emails que recebi no fim de semana. O Tiago Dantas, meu ex-aluno da Tijuca, enviou-me mensagem bacana pacas e, no final, me fez um pergunta: Qual é, dos hinos brasileiros, o que acho mais bonito.

Rapaz, vou confessar um troço - Acho nosso Hino Nacional uma belezura. Admito, entretanto, que não é ele que me emociona mais. O troço que me deixa comovido feito o diabo é o hino Canção do Expedicionário, a música que embalou os meninos brasileiros - pobres de marré-de-si em sua imensa maioria - que combateram o horror nazi-fascista na Segunda Guerra Mundial.

A letra [do poeta Guilherme de Almeida] é bonita em sua singela homenagem aos brasileirinhos de todos os cantos e aldeias. A música [do maestro Spartaco Rossi] é marcial e , ao mesmo tempo, passa a impressão da saudade dolorosa da terra amadíssima.

Façamos o seguinte: Cliquem aqui e ouçam a gravação que acabei de colocar na rede. O ideal é escutar o hino acompanhando a letra, que pode ser lida aqui.

A Canção do Expedicionário é a mais comovida ode aos guerreiros do Brasil.

Abraços

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DEBATE AUDIOVISUAL NA NOITE TIJUCANA

Vivi, ao lado de Eduardo Goldenberg, uma noite absolutamente memorável no sábado. Enchemos a caveira no bar Estudantil [glorioso pé imundo tijucano] e vimos coisas de que até Deus duvida e o diabo desconfia. Nunca, digo com absoluta certeza, vivi nada parecido nos botequins da vida. Nunca.
Edu descreveu com absoluta precisão o ocorrido. Leiam aqui os detalhes sobre a mais inusitada das noites da Tijuca. Um troço impressionante que Edu, com seu rigoroso apreço aos fatos, descreveu magistralmente.
Faltou apenas ao bardo da Haddock Lobo relatar que estávamos no botequim, eu e ele, em seríssima discussão sobre a tradição audiovisual brasileira. Não, não estávamos falando de Glauber Rocha ou coisa que o valha. O assunto era muito mais sério.
Eu tinha acabado de colocar aqui no Histórias [vejam o texto imediatamente anterior a este] o monumental videoclipe dos Originais do Samba para a música Nêgo véio quando morre.
Edu, absolutamente comovido com o histórico documento, relembrou então de outro videoclipe da mesma envergadura - o da música [de Chico Buarque de Holanda] Terezinha, interpretada por Maria Bethânia e com históricas atuações dos Trapalhões Didi, Mussum e Zacarias.
Detalhe absolutamente marcante: a a atuação monumental, sensível e precisa de Wanderlei Cardoso, que rouba a cena no início da trama.
A comparação entre os dois videos é uma aula sobre a melhor tradição audiovisual canarinho. Quero crer que nada parecido - em termos de qualidade, dramaturgia e atuações - foi produzido no país. Assistam a esse momento maior das artes nacionais.
Abraços

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16/05/2009

VARANDÃO SONORO DOS SÁBADOS - O MAIOR VIDEOCLIPE DO MUNDO

A música é de domínio público [foi composta em meados da década de 1920] e é um maxixe arretado. O clipe abaixo é, na modesta opinião deste escriba, o mais bem feito da história do audiovisual. Com os senhores os Originas do Samba - sob a liderança de Mussum - em Nego véio quando morre. Atentem para a sensibilidade da proposta e o casamento perfeito entre música e dramaturgia. Um clássico insuperável!

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15/05/2009

BARAÚNAS, O CACIQUE MOSSORÓ


Os índios Mossorós, da tribo Cariri, viviam no século XVIII às margens do Rio Apodi, no interior do Rio Grande do Norte. Fisicamente fortes, eram bons caçadores, atacavam o gado trazido pelos colonizadores para a região e se fartavam de carne assada ou chamuscada.

Gostavam de dormir no chão, desprezando a rede de algodão e a esteira, que lhes parecia coisa de fracotes. Os homens passavam os dias caçando, pescando e colhendo mel de abelhas. As mulheres eram oleiras, plantavam e faziam a colheita.

O chefe da tribo recebia a denominação de Baraúna - cabia a ele o comando das festas que duravam enquanto durasse a lua nova. Bebia, o cacique Baraúna, quantidades monumentais de vinho feito com frutos e raízes. Só podia tomar decisões importantes e reconhecidas pela comunidade se estivesse inteiramente de porre.

Pois bem, amigos, no local onde em mil setecentos e varadas habitavam os índios, surgiu a cidade de Mossoró - hoje a maior do interior do Rio Grande do Norte.

Em 1924 - ano em que os levantes tenentistas viravam o Brasil de cabeça pra baixo - alguns boêmios de Mossoró resolveram fazer algo mais importante do que marchar na Coluna Prestes contra o poder das oligarquias. Fundaram um bloco carnavalesco em que todo mundo se esbaldava no carnaval com fantasias de índios. O nome do bloco: Baraúnas.

Foi desse bloco que surgiu, em 14 de janeiro de 1960, o time de futebol da Associação Cultural Esporte Clube Baraúnas - o tricolor de Mossoró.

Em sua trajetória de glórias, o Baraúnas ganhou o disputadíssimo campeonato mossoroense em cinco ocasiões [1961; 1962; 1963; 1967; 1977] ; foi campeão potiguar em 2006; e bicampeão da Copa Rio Grande do Norte [2004; 2007].

Na Copa do Brasil de 2005, sob a liderança do centroavante rompedor Cícero Ramalho [ perto de quem Ronaldo Fenômeno parece uma Olívia Palito ] , o Baraúnas desclassificou o Vasco da Gama em plena colina de São Januário - 3 x0 inapeláveis, numa exibição de gala que fez até o busto do Almirante abrir a boca de espanto.

Os fãs do futebol sabem que falo sério - acho que poucos clássicos na história do ludopédio mundial podem se comparar, em charme e rivalidade, ao PotiBa [ Potiguar X Baraúnas ] o derby da cidade de Mossoró.

Em dia de PotiBa, até as almas do velhos guerreiros Cariri acordam do sono profundo nas águas do Rio Apodi e rondam, serelepes, a cancha da partida. Se a noite é de lua nova, então, é quizumba na aldeia e festa no gramado.

Fiquem aí com a lembrança da monumental vitória do Baraúnas no histórico jogo de São Januário, com a narração dos locutores de Mossoró. É a chance de ver em ação um dos maiores craques que já pisou no gramado cruzmaltino - Cícero Ramalho, o Cachalote Matador. Uma das mais expressivas atuações de um jogador e de um clube na história do futebol canarinho, sem dúvidas. Uma aula! [O hino do Baraúnas, um dos prediletos do imperiano Carlos Andreazza, pode ser escutado, com sonoplastia de um leão rugindo e o escambau, aqui .]





Abraços

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13/05/2009

MIL VEZES O NOSSO MUSEU...


O Museu Imperial, em Petrópolis, é - em termos de História - o meu predileto aqui no Brasil. Além das relíquias dos tempos da monarquia - com destaque para o penico de ouro de D. Pedro II e a coroa do primeiro Pedro - é o museu que me permite praticar meu segundo esporte predileto [atrás, evidentemente, do futebol e à frente da porrinha].

Refiro-me, no enigmático final do primeiro parágrafo, ao surf em pantufas, modalidade muito mais radical que o alpinismo, a descida de paredões, o salto mortal, a canoagem em corredeiras, o surf em ondas assassinas e o diabo. Explico.

Nada é mais arriscado que sair deslizando pelas salas que contém relíquias preciosíssimas do Império. Imaginem se o sujeito perde o equilíbrio e se esborracha numa cristaleira que pertenceu à Imperatriz Leopoldina ou quebra a cama da Princesa Isabel. Danou-se. E faliu-se.

O camarada que morre escalando um paredão ou se atirando das Cataratas do Iguaçu causará a tristeza profunda dos amigos e da família e custará aos seus a grana do enterro. Já o caboclo que destrói uma relíquia histórica de duzentos anos está lascado sob todos os aspectos - sobretudo dos pontos de vista criminal e financeiro.

É por isso que afirmo com rutilante certeza: O esporte radical mais perigoso e emocionante do mundo é o surf em pantufas, devidamente praticado em seu templo maior - os salões encerados dessa gloriosa instituição brasileira, o Museu Imperial.

Conheço gente, porém, que não acha o museu petropolitano essas coisas. Tive um professor na faculdade, por exemplo, que em certa aula zombou de minha predileção pelo museu do Império, afirmando preferir o Museu Erótico de São Petesburgo.

A grande atração do tal museu é o pênis embalsamado do tarado russo Grigori Rasputin, o sujeito que foi uma espécie de guia espritual da czarina Alexandra e passou a régua em quase toda a corte russa e adjacências.

Os visitantes da importante instituição - que tanta comoção causou ao meu professor - podem comprovar que Rasputin possuia um cacete de aterrorizantes 30 centímetros. E sobre ele mais não digo, e nem quero saber.

Napoleão Bonaparte também teve o pênis extirpado logo após a morte, em 1821, na Ilha de Santa Helena. O pinto do corso foi provavelmente extraído pelo médico que fez a autópsia no corpo, o Dr. Francesco Antommarchi.

Depois de permanecer décadas embalsamado na Acadêmia de Medicina de Santa Helena, o bilau de Napoleão foi leiloado pela Christie´s em 1977. O felizardo que arrematou o troço foi um urologista norte-americano que pagou US$ 3.800 pela relíquia - hoje exposta em um museu de curiosidades históricas em Nova York.

Atenção para o detalhe - o orgão de Napoleão [o maior dos generais, o imperador dos franceses, o estrategista militar] mede precisamente 2,54 centímetros - todavia suficientes para apressar a fuga de D. João VI rumo ao Brasil. Vou repetir para não acharem que digitei errado : 2,54 centímetros.

Caso fosse [nunca irei!] aos museus que apresentam em seus acervos os falos de Rasputin e Napoleão, não andaria de pantufas em nenhuma hipótese, e acho que não preciso explicar os motivos. Um acidente poderia ter consequências desastrosas para minha reputação.

Sou mil vezes mais simpático ao troninho de D. Pedro II e ao nosso valoroso museu Imperial.

Abraços.

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11/05/2009

CONFISSÕES - A PRIMEIRA [E QUASE ÚLTIMA] BARBA A GENTE NUNCA ESQUECE


Nutro um profundo horror ao hábito de fazer a barba. Não meto a lâmina no rosto quase em nenhuma circunstância - o máximo a que me permito é tratar relativamente bem da dita cuja [sem frescuras], dar uma aparada de vez em quando, evitar que o bigode invada os lábios, etc. Faço, enfim, os procedimentos básicos indicados aos que - como eu - cultivam os pêlos do rosto.

Desconfio que a completa aversão que tenho a me escanhoar seja motivada por um trauma infantil. Explico e confesso.

Quando era um moleque com o diabo no corpo [apud minha tia Lita] havia uma propaganda da Gillette na televisão que me perturbava profundamente. Um sujeito aparecia em frente ao espelho do banheiro preparando-se para fazer a barba. O malandro besuntava creme no rosto e pegava a lâmina para começar a se barbear. Até aí, tudo nos trinques.

De repente aparecia no banheiro, de maneira fantasmagórica, uma loura gostosíssima, daquelas de fechar o comércio. O pedaço de mau caminho acariciava o caboclo por trás, agarrava o cabra pela nuca e dizia, com voz tremendamente sensual, algo do tipo:

- Você sabe quem sou eu? Eu sou a Platina da Platinum Plus. É graças a mim que você faz melhor a sua barba.

Era demais para meus dez anos. Comecei a delirar - e tome de cinco contra um - com a possibilidade de encontrar a loura da Platinum Plus em frente ao espelho. Movia-me, inclusive, a convicção de que a boazuda estava pelada. Até então, a única loura que um sujeito da minha idade arriscava encontrar no banheiro era a morta com algodões ensanguentados nas narinas.

Dotado de coragem tamanha, tomei uma daquelas decisões que transformam os meninos em homens - resolvi que era a hora de fazer a minha primeira barba, evidentemente com a lâmina platinum plus. Não tinha ainda um único pêlo no rosto, mas algo me dizia que o momento era aquele.

Juntei uns caraminguás que ganhava para ir ao colégio [cheguei a passar fome] e comprei numa farmácia da Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, meu primeiro aparelho de barbear. Uma Gillette Platinum Plus.

Tranquei-me no banheiro. Tive o cuidado de avisar antes pra minha tia Lita :

- Vou demorar muito. Estou com uma dor de barriga terrível.

Emocionadíssimo, enfiei o creme de barbear do meu avô no rosto, passei o pincel, abri a Gillette e, trêmulo, tive a certeza de que alguma coisa aconteceria. Eu, no mínimo, sentiria a presença da Platina de Platinum Plus.

O resultado foi devastador. Passei o aparelho de forma demasiada, com a fúria de uma vara de javalis. Acho que me inspirei nos aparadores de grama. Era a minha primeira barba, tão escondida quanto a primeira punheta.

O resultado foi impressionante. Por pouco, muito pouco, não retalhei inteiramente meu rosto e precisei de uma plástica. Apavorado, diante do sangue que jorrava, abri a porta e pedi socorro. Minha tia e minha avó correram para ver o que tinha ocorrido e lá estava eu, cheio de cortes na carinha de bunda.

As duas resolveram então me inundar com a loção após barba do meu avô - vagabundíssima. Nunca, confesso aos amigos, senti algo arder tanto como aquela loção de cangaceiro no meu rosto. Minha tia, previdente, ainda deu um banho de mertiolate nos cortes para evitar inflamações. Quem se lembra como ardia o mertiolate em antanhos sabe o que isso significa.

Foi um fiasco, essa escanhoada inaugural. Tomei verdadeiro horror ao ato de fazer a barba, que desde então me parece de um primitivismo atroz. Não é coisa de gente civilizada.

O pior foi explicar para minha avó a razão de ter cometido aquele desvario. Não me sentia a vontade para falar da loura gostosa da Gillette - a verdadeira razão de meu gesto. Inventei a única coisa que me pareceu plausível no momento - disse que a minha barba estava crescendo rápido demais, a professora no colégio tinha reparado e alguns amiguinhos estavam me chamando de homem das cavernas [os burraldinos] e D. Pedro II [os sabichões]. A vó não acreditou muito, não.

Ao chegar do trabalho, meu avô soube da lambança e me deu um esporro básico. Com o vô, porém, abri o verbo. Falei da esperança de sentir a carícia da loura fatal e outros salamaleques. Ele entendeu e acho até que se orgulhou da merda que fiz - a causa era nobre.

Algumas pessoas identificam a perda da inocência no momento em que descobrem a inexistência do Papai Noel. Eu pouco me importei quando descobri que o Bom Velhinho era apenas uma conversa mole pra boi dormir e deixar a criançada na ilusão de que a vida é boa.

O que destruiu mesmo minhas fantasias mais inocentes foi saber - de forma dolorosa - que a Platina da Platinum Plus era uma ilusão sem vergonha, fomentada por uma propaganda desonesta. Eu nunca seria atacado no banheiro por uma mulher daquela.

Quero crer que foi ali, no meio do Amazonas de sangue que jorrou no rosto do moleque, que nasceu esse careca barbado que hoje sou.

Abraços

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09/05/2009

A MAIOR TORCIDA DA TIJUCA


Inusitada cena ocorreu hoje em solo tijucano. Estava tomando umas geladas com os camaradas Edu Goldenberg e Felipinho Cereal, na gloriosa praça Afonso Pena, quando o inusitado deu as caras. Explico.

Saí de casa vestindo traje de gala, conveniente para encontrar dosi cabras que são vinhos de boa pipa. Bermuda surrada, sandália de dedo e uma camisa do meu querido Sampaio Corrêa, o time de maior torcida do Maranhão. Estava, confesso aos senhores, na beca. Até aí nada demais. Eis que, subitamente, passa um sujeito pelo meio da calçada vestido com... uma camisa do Sampaio Corrêa!

Imaginem a cena - dois sujeitos se cruzam num botequim de quinta categoria do Rio de Janeiro trajados com o manto tricolor do Sampaio. Chegasse naquele momento um marciano ao nosso planeta, juraria que a maior torcida do Rio de Janeiro é a do clube maranhense.

Comovido com o fato, sinto-me na obrigação de sugerir que os amigos cliquem aqui para ler ou reler um texto sobre o Sampaio que escrevi no início do ano passado.

Vale também lembrar que amanhã o Sampaio joga um clássico contra o Moto Club pelo campeonato maranhense de 2009. Vamos torcer. Considerei o encontro de hoje um sinal positivo.

O hino do Sampaio Corrêa é , na opinião de quem entende do babado, um dos mais bonitos do Brasil. Ouçam essa belezura clicando aqui .

Avante Bolívia querida, maior torcida do Maranhão e, quem diria, da Tijuca.

Abraços.

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08/05/2009

COLO-COLO, ORGULHO DE SÃO JORGE DOS ILHÉUS


Em 1948 o Brasil vivia a expectativa de sediar a Copa do Mundo de futebol de 1950. O presidente era o Marechal Eurico Gaspar Dutra, mas havia boatos de que Getúlio Vargas estava se preparando para voltar ao cenário político de forma espetacular.

Aquele ano de 1948, na opinião deste escriba, foi mundialmente marcado por três eventos da maior importância : A morte, na Índia, do líder pacifista Mahatma Gandhi [que como todo líder pacifista que se preze morreu de forma violenta, assassinado por um fanático] ; a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU; e a fundação, em São Jorge dos Ilhéus, na Bahia, do Colo-Colo de Futebol e Regatas, o popular Tigrão.

Como a Índia virou tema exótico de novela da Globo e a Declaração dos Direitos Humanos é mais desrespeitada que o meu fígado quando tomo uns quentes e umas geladas na Confraria do Bode Cheiroso, estou convencido de que o fato mais importante do mundo naquele ano foi mesmo a criação do time de Ilhéus.

O Colo-Colo foi fundado com uma nobre finalidade - disputar a Semana Inglesa, um torneio promovido pelo sindicato dos comerciantes ilheenses que costumava lotar aos sábados o estádio Mario Pessoa, conhecido à época como o colosso da terra do cacau.

O fundador e primeiro presidente do clube, Airton Adami, era fascinado - e sei lá eu a razão - pelo time de futebol chileno do Colo-Colo. Depois de alguns argumentos contrários de outros fundadores, prevaleceu a admiração do presidente e o nome do time recém-criado acabou mesmo sendo uma homenagem ao clube do Chile.

O primeiro uniforme e a escolha das cores do Colo-Colo tem uma origem curiosa. Um dos fundadores do novo clube, José Haroldo Vieira, era fã do futebol argentino. Meio encafifado com a homenagem a um time do Chile, torrou o dinheiro que tinha e o que não tinha numa passagem aérea, resolveu dar um pulinho na Argentina e comprou em Buenos Aires um jogo de uniformes do Boca Juniors para presentear a agremiação. Tudo bem que o nome homenageasse uma equipe chilena, mas o uniforme tinha que ser o do Boca.

A coisa acabou mesmo em pizza [de chocolate feita com cacau do sul da Bahia] : o time é de Ilhéus, tem nome de equipe chilena e joga com as cores do Boca Juniors, o azul e o amarelo.

O Colo-Colo tem uma história gloriosa : Foi o campeão ilheense de 1953; tetracampeão amador da cidade [de 1958 a 1961] ; campeão da segunda divisão profissional da Bahia em 1999; e - conquista das conquistas - campeão baiano da primeira divisão em 2006, quebrando a hegemônia da dupla Bahia e Vitória.

Em mais de cem anos de história do campeonato baiano, aliás, só dois clubes de fora da capital conseguiram triunfar; o Colo-Colo e o Fluminense de Feira de Santana, campeão do certame de 1969.

Terminarei essas mal traçadas com uma confissão, feito declaração de amor do turco Nacib para a mulata Gabriela : Acho o hino do Colo-Colo de Ilhéus um dos mais bonitos do Brasil e coloquei na rede para quem quiser ouvir e baixar. Cliquem aqui e ouçam a Marcha do Tigre, orgulho da terra de São Jorge.

Abraços.

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06/05/2009

DOS PRIMEIROS TELEFONES


A coisa está feia, meus camaradas. Escrevo esse arrazoado sob o impacto de uma cena que presenciei ainda agora e me deixou basbaque; impressionado mesmo. [Não, ninguém morreu. Ou já morremos todos, vá saber.]

Acontece que meu vizinho, um pirralho de oito anos de idade e com moderníssimo corte de cabelo, ganhou de presente um telefone celular de última geração e estava na entrada do prédio fazendo suas primeiras ligações. Calçava, o pequeno, inacreditável tênis de jogador de basquete.

De imediato lembrei do meu primeiro telefone. Era uma lata vazia de leite moça com um furo e um barbante que, amarrado em outra lata, permitia a comunicação entre a criançada. Acreditem os senhores que eu fazia uns latafones da melhor qualidade.

[Abro parentese e faço pequeno parágrafo para esclarecer que, na falta da lata, qualquer pote de iogurte, daqueles de plantar feijão no algodão, servia aos propósitos dos pequenos graham bells descalços.]

Fiquei mirando o fedelho virtual, enlouquecido com o aparelhinho, e agarrei de imaginar o seguinte: Será que esse petiz já brincou de cabra-cega, pique bandeira, carniça, lenço atrás, passa anel, esqueleto humano, garrafão, e quejandos ?

Tascará um dia algum beijo tímido, o menino, numas bochechas rosadas na brincadeira do pêra, uva ou maçã? Duvideodó, macaxeira, mocotó, burra velha é sua avó ! Eu, que voltei do Tororó faz tempo, lembro da parlenda.

Aos oito anos, o micro-homem já está devidamente ligado na rede; tem perfil no orkut, página de fotos digitais, escuta música num aparelhinho de ouvido [ esqueci o nome do troço ] , manda mensagens pelo celular e o escambau. É, enfim, um pingo de gente antenado com o mundo. Lamento por ele e, cá com meus botões, matuto.

Alguém, por exemplo, vai ensinar ao garoto que a búlica consiste em um jogo de bola de gude em que são necessários três buracos equidistantes, em fileira, num chão de terra?

Saberá o pirralho que quem consegue lançar a bolinha direto no terceiro buraco - coisa de craque - pode sair matando as bolas dos outros ? Ah, minhas bolas cacarecadas...

Será que um dia o petiz vai deixar o celular um pouco de lado para aprender a debicar uma pipa? Sempre desconfiei que é soltando pipa, tenteando outros papagaios no debique, que a gente aprende um pouquinho a arrodear a vida e driblar o desassossego. O moleque, pelo visto, disso não saberá.

Entendo cada vez menos, meus camaradas, desses tempos de delicadezas perdidas. Só confesso que me bateu uma baita tristeza pelo garoto do celular e, ao mesmo tempo, uma alegria quase triste de lembrar do meu telefone de lata. Funcionava que era uma beleza e eu me comunicava bem à beça.

Disso dou fé com saudade, cada vez mais. E essa saudade, feito cantiga de marujo, é daquelas que não passam [passaraio, passaraio] e nem me deixam eu passar.

Abraços.

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04/05/2009

O DEMOLIDOR DE CAMPEÕES


A minha atenção futebolística, a partir do final deste mês de maio, estará concentrada no campeonato baiano da segunda divisão. Sou, na boa terra, admirador confesso do Galícia Esporte Clube.

O Galícia foi fundado no primeiro dia do ano de 1933 por imigrantes espanhóis, liderados por Eduardo Castro Iglesias e José Carrero Oubiña. Estavam, evidentemente, curtindo a porranca do fim de ano quando tiveram a brilhante ideia. De início a intenção era criar um time de futebol que servisse como difusor da união entre os galegos residentes em Salvador.

O troço deu certo e, pouco tempo depois, o Galícia conquistava o primeiro título de sua história, o baianão de 1937. O esquadrão formado por De Vinche; Bubu e Bisa; Ferreira, Vani e Walter; Dedé, Servilho, Bermudes, Vareta, Palito e Moela; atropelou os favoritos Bahia, Vitória, Botafogo e Ypiranga e marcou o início da trajetória vitoriosa dos azulinos, consolidada com um histórico tri-campeonato no início dos anos quarenta [41, 42, 43].

[Atentem, aliás, para essa maravilha que é o trio de atacantes galegos de 1937 - Vareta, Palito e Moela. Bons tempos e bons apelidos. O atual mercado da bola exige que os jogadores já tenham nomes que facilitem a inserção no futebol internacional. Saem os Varetas e Palitos e entram na cancha os Wellington Santos, Fábio Marques, Diego Souza, Tiago Neves e outras pérolas do gênero.]

O Demolidor de Campeões - bela alcunha, sô - atualmente rala na segunda divisão baiana, o que considero um absurdo tão grande quanto a ausência de São Cristovão, Olaria, Bonsucesso, Portuguesa e América na elite do futebol carioca. Nestes tempos doidos de jogadores-produtos, clubes-empresas e outras sandices do gênero, urge torcer para que os granadeiros da cruz de Santiago consigam dar a volta por cima. O futebol agradecerá.

O hino do Galícia é bom pácas. Compara o time a um forte toureiro; fala de amor e galhardia; diz que os torcedores do clube são modestos, ordeiros e animados; e sintetiza o que o Galícia representa em uma sentença definitiva - a alegria do futebol baiano. Ouçam clicando aqui . O autor é Francisco Icó da Silva e essa gravação que botei na rede é a do hino interpretado pelo Trio Inema, formado por Tom, Dito e Douglas.

Enfim, amigos, que se dane o brasileirão global. O destino do futebol brasileiro que me interessa será jogado nas segundonas. Galícia na Bahia e América no Rio são minhas apostas. Torcerei descaradamente por eles.

Abraços.

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É CAMPEÃO !


Finalmente tivemos os desfechos dos campeonatos estaduais de futebol de 2009. Este blog parabeniza os campeões mas considera, com o apego a verdade que caracteriza o escriba, que o mais expressivo triunfo do domingo - que chegou a empalidecer qualquer outra conquista do Oiapoque ao Chuí - foi mesmo o histórico título paraíbano conquistado pelo Souza Esporte Clube - o Dinossauro Verde do Sertão [ símbolo mais original do futebol canarinho, admitamos ].

O campeonato foi conquistado - na base de muito sangue, suor e lágrimas - contra o Treze de Campina Grande na cancha do adversário. Com dois gols do avante Edmundo, a equipe do sertão virou um jogo que parecia perdido e obteve o segundo título paraíbano de sua história. Desde o velório de João Pessoa, em 1930, a Paraíba não se mobilizava tanto.

Souza amanheceu hoje, com justiça, como a cidade mais feliz e futebolística do Brasil.

Abraços

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01/05/2009

CONFISSÕES - SOB AS BENÇÃOS DE LA CATRINA


Sou um finadista. Explico. Nasci em um dia dois de novembro, consagrado aos fiéis defuntos da cristandade - o popularíssimo dia de finados. Os senhores, que não nasceram em data tão significativa, não imaginam o impacto que é uma criança dizer aos amiguinhos que faz aniversário em ocasião tão peculiar.

Cresci ouvindo a história de que minha mãe repetia, perto do meu nascimento, sempre a mesma ladainha : Só não pode nascer dia dos mortos. Tudo, menos o dia dos mortos. Vai ser menina e não vai nascer em finados; não pode nascer.

O resultado é que nasci cabra macho, eis uma das poucas certezas que tenho, e foi no dia dos mortos, às onze e meia da manhã - horário indisfarçável, pra marcar posição. Minha avó ficou tão abalada que deu a notícia à minha tia Lita da seguinte maneira : Lita, que horror. Acabou de nascer no dia de finados e, que pena, é menino. E agora ?

[ A tia querida adorava repetir essa sentença e a vó, rindo matreira, apenas silenciava. Eu, de forma obsessiva, pedia o tempo todo : Como é a frase do meu nascimento, tia? A frase do horror... ]

Lembro-me bem de um aniversário - eu devia ter uns seis anos - em que fomos almoçar em família. Vesti minha melhor roupinha para a ocasião. Ao nos ver saindo, o jornaleiro vizinho ao prédio onde morávamos foi direto : Estão indo ao cemitério?

[Agora que terminei de escrever, desconfio que a frase não foi bem assim. Não foi mesmo. Na verdade ele disse : Estão indo a que cemitério ? É isso. Ele achou, por óbvio, que íamos visitar a parentada defunta ].

Eis aí, amigos , uma verdade definitiva - minha alma foi moldada por essa frase. Acho mesmo que minha personalidade pode ser definida com essa única sentença; nunca deixei de ser a criança que, ao querer comemorar o aniversário, descobriu que o procedimento normal era ir ao cemitério.

Em outra ocasião o negócio foi mais sério. Estava já na faculdade quando minha namorada à época resolveu me mandar flores no dia do aniversário. O entregador disse ao porteiro que ia levar as flores ao apartamento 307, endereçadas a Luiz Antonio Simas.

Tudo muito bonito, romântico, nos conformes. Acontece que o porteiro, ao ouvir falar em flores para Luiz Antonio Simas no dia de finados, concluiu que eu tinha morrido.

Atentem para o troço. Minha namorada me manda flores no aniversário e o camarada acha que morri. Desfeito o engano, chegou mesmo, o velho e querido Seu Delfim, a me dizer feliz, com forte sotaque lusitano que quarenta anos de Brasil não modificaram : Achei que você tinha morrido, rapaz. Está tudo bem?

Mas vamos voltar à infância. O fato é que, aos poucos, passei a achar ótimo esse negócio de ser finadista. Comecei a divulgar isso com uma empáfia quase aterrorizante. Alguém me perguntava qual era o dia do meu aniversário e eu não tinha dúvidas em responder feliz, quase excitado. Chegava mesmo, admito, a falar do nada para as pessoas : Você sabe em que dia eu nasci? Quer que eu diga mesmo?

Fazia então uma expressão de homicida alucinado, ensaiava um tom de voz diferente, esbugalhava os olhos e mandava na lata : Dia dois de novembro; o dia dos mortos, dos vampiros e dos lobisomens [ sim, resolvi acrescentar, lá pelos oito anos, esse negócio de vampiros e lobisomens porque dava um tom mais firme e assustador à coisa ].

Desde então, quando passei a curtir a data, cultivei o desejo de comemorar um aniversário no México. Lá a festa de finados é impressionante e tem origem indígena, mais especificamente azteca.

Reza a tradição que o furdunço do dia de finados mexicano é comandado pela deusa Mictecacihuatl, esposa de Mictlantecuhtli, o senhor do reino dos mortos. A mestiçagem cultural fez com que a figura da deusa indígena fosse aproximada à La Catrina [é ela na foto da postagem] , uma dama defunta da alta sociedade que - em forma de esqueleto e sempre bem vestida - comanda o regabofe. La Catrina teve a imagem popularizada no século XIX pelas gravuras do artista plástico José Guadalupe Posada.

A coisa é quente. Como os mariachis acreditam que os mortos vem visitar seus parentes no dois de novembro para se divertir [ e não querem saber de tristeza; se tiver tristeza os mortos ficam putos dentro da roupa ] a ordem é comer, beber, cantar, dançar e o escambau. As crianças se esbaldam com caveirinhas de açúcar e chocolates em forma de caixão, enfeitadinhos com fitinhas roxas.

Nesses tempos de gripe suína [ toc-toc-toc ], em que a velha da foice está assanhadíssima, periga o México ter o dois de novembro mais doido da história. Acho que vou passar o próximo aniversário na Tijuca mesmo, que é mais garantido. Deixo para conhecer a sensual La Catrina em ocasião mais propícia.

Ah, me permitam um último detalhe confessional - ainda hoje, homem barbado e com cabelos escassos [sic], quando uma criança me pergunta sobre o dia do meu aniversário, volto a ter subitamente oito anos. Sinto-me um pirralho de cabelos encaracolados, calço meu kichute imaginário, e respondo com veêmencia:

Nasci no dia dois de novembro. É o dia dos mortos, dos vampiros e dos lobisomens. Você sabia
?

Se o fedelho faz cara de choro, fico sinceramente feliz.

Abraços.

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