20/02/2009

NÓS, OS FOLIÕES

Sempre fui um vigoroso defensor de uma ideia que não tem lá muitos adeptos - os maiores foliões são os tristes. O carnaval, definitivamente, não foi feito para os alegres, os festeiros escancarados, os baianos de plantão.
O verdadeiro folião é o triste, o que sabe que a experiência carnavalesca é, sobretudo, uma pequena morte. Durante os dias de Momo, a máscara prevalece e todas as inversões sociais são bem-vindas e necessárias. É quando devemos esquecer o que somos, o que fazemos e, até mesmo, a quem amamos. Esquecimento, eis aí a essência da folia.
O legítimo folião não programa o carnaval. Sabe apenas que vai para a rua imolar-se nos blocos e cordões, receber a extrema-unção com água benta de alto teor alcoólico e morrer até a quarta-feira de cinzas, quando ressuscitará como burocrata, marido, professor ou escriturário, para o longo e medíocre intervalo cotidiano entre um carnaval e outro.
Lembro , por exemplo, de uma história que meu avô contava sobre um velho folião, tristíssimo, casado com uma tremenda jararaca, que saiu na sexta-feira, véspera do início do tríduo, com o argumento de que iria comprar uns caranguejos - prato predileto da patroa - para comer enquanto assistia aos desfiles das escolas de samba pela televisão, na santa paz do lar.
Eis que o marido zeloso reaparece, pra lá de Bagdá, na quarta-feira de cinzas, protagonizando uma cena definitiva - fantasiado de imperador romano, espalha vinte caranguejos vivos na entrada da casa e chama a mulher, preparada para trucidá-lo. Ao ver a fera, começa a falar alto, dando esporro nos crustáceos decápodes :
- Mais um pouco, pessoal. Falta pouco. Como são lentos. Quatro dias com a maior paciência e nada de vocês andarem mais rápido.
Entrou , evidentemente, no rolo de pastel, mas honrou os bagos e as tradições. Cumpriu um dever.
É necessário brincar, senhores, é preciso beber, é urgente esquecer. O verdadeiro devoto de Momo, o maior dos solitários, é um morto se esbaldando na multidão. Brincar o Carnaval, para gente como nós, os foliões, não é opção [ é tarefa ].
Volto a ser o autor deste espaço na quarta-feira de cinzas.
Evoé!

19/02/2009

J.CARLOS

Hoje, às 20:30, o Canal Futura apresentará um programa especial sobre o caricaturista J. Carlos, motivado pela proximidade do Carnaval e pela escolha do artista como enredo da escola de samba Acadêmicos da Rocinha.
Como alguns amigos sabem, escrevi , em parceria com meu amigo Cássio Loredano - gênio do traço - um livro sobre J. Carlos que foi utilizado como uma das referências do enredo que a Rocinha apresentará na Marques de Sapucaí.
Foi por isso que fui convidado para prestar um depoimento sobre J.Carlos para esse especial que o Futura apresentará hoje.
Acho que ficou bacana - e fica aqui o convite para quem quiser assistir.
Evoé!

18/02/2009

FANTASIA DAS MOÇAS TIJUCANAS

Não, não usarei essa fantasia, fiquem tranquilos. Essa é a fantasia que a ala da Candida usará no desfile da Império da Tijuca. Leiam o texto abaixo e ... AVANTE IMPÉRIOS !

17/02/2009

OLHA O BONECO DE BARRO - A GRAVAÇÃO ORIGINAL E O HINO DE 2009


O camarada Marcelo Moutinho escreveu aqui que estará, no sábado de Carnaval, na Marquês de Sapucaí defendendo as cores da Império da Tijuca. Eu farei a mesmíssima coisa, ao lado da Candida, do Beto Mussa e do Edgar - coisa que defini ontem [quem ainda quiser ter a honra de desfilar numa agremiação sem patronos e outros babados pode ligar para 25700364 - falem com a Cristina - ou ir à quadra velha da Rua Medeiros Pássaro, n. 84, para escolher a fantasia].

Desfilarei na Imperinho - escola que apadrinhou e inspirou o nome do meu Império Serrano - por conta de uma irremediável simpatia, mas também pela certeza de que a agremiação do Morro da Formiga cantará um daqueles sambas-enredo antológicos que não aparecem todo dia - o fabuloso O Mundo de Barro de Mestre Vitalino, originalmente apresentado em 1977, em homenagem ao grande ceramista nordestino - tremendo enredo, diga-se.

A reedição do enredo é plenamente justificada - 2009 é o centenário de nascimento de Vitalino Pereira dos Santos, pernambucano de Caruaru e mestre maior da arte de modelar o barro.

Fui na segunda-feira à sede velha da Império da Tijuca, na subida do Morro da Formiga. Vi as fantasias das alas, o povo da Formiga dando um duro danado, e garanto que a escola fará bonito, apresentando, como diz a sinopse do enredo, um mundo de barros e fitas, animais e gentes, artes e festejos.

O samba-enredo pode ser escutado (numa cadência maravilhosa) aqui na versão de 1977. O ínterprete é Adilson da Viola, autor do samba em parceria com Biel Reza Forte e Chipolechi.

A versão de 2009, na voz de Pixulé, pode ser ouvida aqui . Acompanhada pelo coro do Morro da Formiga, a gravação é emocionante e mostra que o grande samba se adequa a qualquer época.

Mojubá, Mestre Vitalino - ancestral maior da arte popular brasileira.

Evoé !

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15/02/2009

RUMO AO INFERNO COM O SAMBA MAIS PORNOGRÁFICO DA HISTÓRIA

No ano passado (2008) publiquei um texto em que citava (entre outros temas) o mais pornográfico e politicamente incorreto enredo de toda a história do Carnaval - o inacreditável " Cama, mesa e banho de gato", da Unidos da Tijuca. Na ocasião, porém, este escriba ainda não sabia como colocar na rede a gravação do samba. Reproduzo o texto agora, com a gravação original do hino tijucano.

Preparem-se, foliões. A terça-feira gorda tem tudo para ser imperdível. O bloco evangélico Cara de Leão desfilará na Av. Rio Branco, comemorando seus quinze anos de fundação. O pastor Ezequiel Teixeira espera a presença de mais de cinco mil pessoas, que erguerão o estandarte de Jesus em defesa da castidade, do jejum e das orações, contra o Carnaval. Sim, o bloco pretende mostrar que o Carnaval é uma ilusão profana perigosíssima. É aquela história de combater o inimigo com suas próprias armas. Aleluia!

Fico imaginando o que diria o pastor Ezequiel se vivesse no Rio de Janeiro em 1911. Naquele ano o rancho Ameno Resedá, o mais famoso da cidade, exibiu-se no Palácio Guanabara para o presidente Hermes da Fonseca. A ocasião não era inédita; em 1894 o Rei de Ouros tinha se apresentado para o presidente Floriano Peixoto. O enredo do Ameno Resedá é que era bom pácas : A Corte de Belzebu. Alegorias representando as profundas, fantasias de demônios, chifres , rabos e tridentes aos montes , numa espécie de apoteose infernal.

Imagino também o pastor assistindo ao desfile da Unidos da Tijuca no carnaval de 1986. A escola veio com um enredo sobre devassidão e taras sexuais de todos os tipos, intitulado "Cama, mesa e banho de gato". Ouçam o samba-enredo (de Carlinhos Anchieta, Vicente das Neves, Manoelzinho Poeta e Azeitona) clicando aqui . O puxador é o grande Nêgo, hoje a primeira voz do Império Serrano. Acompanhem a letra:

O homem , orgulhoso como que
Não se sente feliz com a sua matriz
Montou uma filial
Mostra os pecados capitais no carnaval

A hora é essa
E vamos admitir
Uma só mulher é pouco
Deixa o homem no sufoco
Com tantas que andam por aí

O arroz com feijão
Lá de casa é bom
Mas o cozido da vizinha é melhor
Dizem que eu sou machista
Com pinta de egoísta
Polígamo e conquistador
Mas isso vem do tempo do vovô

Lá vai o trouxa
Crente que está numa boa
Mas não sabe que a patroa está com o Ricardão
E sua filha tem fama de sapatão

Tem piranha no almoço
Tem virado no jantar
Pra quem tem fome qualquer prato é caviar

Vida, palco desses acontecimentos
Desfilando pelo tempo
Hoje eu quero me banhar
No prazer mais prolongado
Que o banho de gato dá

Gingam cabrochas e ritmistas
Pssistas e vigaristas
Artistas de revista e TV
Que não se importam
Com que os outros vão dizer

Bota o prato na mesa
Tudo que vier eu traço
Prepare a cama que
Hoje tem banho de gato.

Em desfile histórico - o mais politicamente incorreto de todos os tempos - com direito a Rogéria, Roberta Close, Zé do Caixão e Alexandre Frota como destaques, carros alegóricos representando moteis, saunas e casas de suíngue e mais de duzentas mulheres peladas se exibindo nas alas , a escola foi triunfalmente rebaixada. Se assistindo estivesse, o pastor iria oló rapidinho.

Enfim, leitores, que os devotos do Cara de Leão façam um belo desfile, se divirtam bebendo água gasosa e ergam o estandarte da castidade cada vez mais alto. Eu (quero crer) chegarei ao final do tríduo momesco fedendo a enxofre. Sem chifres, de preferência.

Evoé !

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O CALENDÁRIO CARNAVALESCO

Estou sob a forte influência de Momo. Curioso isso. Há alguns carnavais em que a alma do folião está meio brocha - desengrenada, até. Senti um pouco isso no ano passado. Esse ano, sabe-se lá por que razões, estou me sentindo como o diabo gosta. Quero brincar o Carnaval. Este espaço, por isso mesmo, continuará se dedicando apenas ao tríduo.

Hoje, retomando algo que já tinha feito em um texto de janeiro de 2008, responderei a pergunta que certa feita recebi de um folião desconhecido: De que maneira é calculada a data do Carnaval ? Por que o calendário da folia é sempre diferente ? Elementar, meu caro pierrô. A terça-feira de Carnaval é o dia anterior ao início da Quaresma e varia de acordo com a data da Páscoa. Explico melhor.

A Páscoa sempre ocorre no domingo seguinte à primeira lua cheia do equinócio de outono. Basta verificar em que dia o outono começará (20 ou 21 de março, dependendo do ano ) e quando acontecerá a próxima lua cheia. O primeiro domingo depois dessa lua será o domingo de Páscoa. Descoberta a data da festa do coelhinho, basta descontar os 46 dias de quaresma ( 40 dias + 6 domingos) que teremos a data da terça-feira gorda. Simples, não?

Exemplifico. Neste ano de 2009 o outono começa dia 20 de março, uma sexta-feira. A primeira lua cheia da estação só dará as caras no dia 9 de abril, uma quinta-feira. A Páscoa, portanto, ocorrerá no domingo seguinte, dia 12 de abril. Retire 46 dias e teremos a terça feira de Momo no dia 24 de fevereiro. Elementar, meu caro arlequim.

Querem uma boa notícia para os que, como eu, gostam do Carnaval mais tarde, beirando março ? Em 2014 , ano da Copa do Mundo de futebol no Brasil (sou contra, digo logo!), a primeira lua cheia de outono só ocorrerá no dia 15 de abril. O domingo de Páscoa, portanto, cairá no dia 20 do mesmo mês, tarde pra cacete. Retirando os 46 dias da Quaresma, chegamos ao dia da terça-feira gorda: 4 de março. Do jeitinho que o diabo gosta e bem perto do início da maluquice que vai ser essa Copa no país. Imaginem o furdunço.

Evoé

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13/02/2009

CONVITE TENTADOR ABALA FOLIÃO


Os amigos sabem que este escriba gosta de carnaval. O Império Serrano, O Bafo da Onça, o Canários das Laranjeiras, o Leão de Nova Iguaçu, o Bola Preta, o Bloco do eu sozinho, o antigo Chave de Ouro (escreverei sobre ele qualquer hora dessas), e mais uma cacetada de manifestações do tríduo fazem parte da minha formação - mais que qualquer colégio em que estudei, por exemplo.

Eu continuo brincando carnaval, falando da festa e estudando a folia. Me considero, enfim, um digno súdito de Sua Majestade, o Rei Momo - de preferência balofo, rolha- de-poço, com mais de cento e cinquenta quilos, que esse negócio de Momo magricela é um absurdo completo.

No carnaval do ano passado - sabendo que nem todo mundo gosta da folia - escrevi um texto com sugestões para quem não é do babado. Peço que os amigos releiam o arrazoado clicando aqui.

Este ano, porém, um correio eletrônico que recebi abalou minhas convicções carnavalescas. Vejam a imagem acima. O Ashram Vrajabhumi está preparando um pacote de carnaval imperdível. Reproduzo o que está escrito: com mantras, workshops de filosofia védica, terapias eyurvédicas, caminhadas, práticas de yoga, alimentação lacto-vegetariana e muito mais !

Que beleza! Imaginem os senhores a minha dúvida - desfilo no Império Serrano cantando o monumental samba-enredo Lenda das Sereias ou, na mesma hora, fico entoando mantras em posição de lótus na paz de Teresópolis?

Me esbaldo vendo o Bafo e o Cacique na Rio Branco ou participo de um mergulho na filosofia védica ?

Encho a cara de cerveja, me entupo de carne, encaro churrasquinho de gato ou faço uma reeducação alimentar em bases lacto-vegetarianas, com muito alface orgânico e leite tirado na hora ?

Estou sinceramente dividido. Acho que vou convidar o homem de imprensa Álvaro Costa e Silva para me acompanhar no Ashram Vrajabhumi. Perguntarei ao Marcelo Moutinho e ao Carlinhos Laguna se eles não acham melhor trocar o desfile do Império na Sapucaí pelas caminhadas emocionantes entre matas e cachoeiras de água geladíssima às cinco e meia da manhã da terça-feira gorda. Acho que o Carlos Andreazza, vice-presidente da ala em que desfilo, entenderá uma possível desistência.

O que está me balançando definitivamente é o muito mais ! do final do convite. Imaginem quantas emoções isso deve incluir. Esse muito mais ! é de abalar as convicções de qualquer folião. Haverá algo mais emocionante que uma terapiazinha eyurvédica básica ? O que será, meu Krishna ?

No fim das contas, esse carnaval imperdível em Teresópolis pode até render um convite para o elenco da novela Caminho das Índias, ao lado do Tony Ramos, do Sinhozinho Malta após a iluminação e de algumas vacas. Quem topa?

Evoé!

10/02/2009

SAUDADES DA BEMOREIRA E MAIS UMA MARCHINHA DA MINHA VIDA

(Texto carnavalesco originalmente publicado em fevereiro de 2007)
O Rodrigo Ferrari e eu, quase quarentões, envelhecidos em barril de carvalho, almoçamos hoje ao lado do casal Prata, Tiago e Luísa, no Chefe Santos. Houve ali, entre afagos e chopes, um fraterno conflito de gerações. Eu e Digão estávamos relembrando coisas fundamentais nas nossas vidas e, num certo momento, discutimos longamente a respeito dos nomes das lojas Bemoreira-Ducal e Khalil M. Gebara, cujas origens o grande Ferrari domina. Tentamos contactar o Edu Goldenberg, que encontrava-se labutando para garantir a cachacinha do Pepperoni, dispostos a ouvir a opinião do nosso cambono sobre o assunto.
O tema momentoso foi solenemente ignorado pelos Prata. No esplendor dos dezenove anos, o Prata parecia nos ouvir falar da Bemoreira como se estivessemos falando da chegada da família real ao Brasil. Kalil M. Gebara, pra ele, é o nome de algum personagem envolvido no conflito no Iraque. Nos ignorou rotundamente.
Eis que , em um certo momento, viro-me com convicção e afirmo para o Digão, que prontamente concorda :
- O Leo Boechat ainda se veste na Bemoreira- Ducal !
É isso. O Boechat é o homem que pode esclarecer nossa dúvidas. Espantosamente calvo, o Leo, um gentleman, diga-se de passagem, ainda preserva, sabe-se lá como, um guarda-roupas formado na Bemoreira, na São João Batista Modas e na fundamental Imperatriz das Sedas.
Aliás, o próprio Boechat confessou que, quando criança, três eram seus programas prediletos - ir ao parque Xangai, assistir a chegada do Papai Noel no Maracanã e acompanhar a mãe em compras na Imperatriz das Sedas.
Pensando nisso, e fragorosamente estimulados pelo clima pré-carnavalesco que domina nossa mui heróica e leal cidade de São Sebastião, Digão e eu relembramos, e aí o Prata se interessou - já que é pesquisador desde os onze anos - , da imortal Nós, os carecas , a marchinha que o Arlindo Marques Jr. e o Roberto Roberti fizeram em homenagem aos pouca-telhas, como o Boechat e o Chefe Santos:
Nós, nós os carecas
Com as mulheres somos maiorais
Pois na hora do aperto
É dos carecas que elas gostam mais.
Não precisa ter vergonha
Pode tirar o seu chapéu
Pra que cabelo
Pra que seu Queirós
Se hoje a coisa está pra nós.

Feita a homenagem aos dois carecas que conhecemos, voltamos para a Folha Seca, ainda sob fortíssimo impacto das lembranças do mundo da moda. Nostálgicos, meio deslocados da realidade, com um certo cheiro de kichute nas narinas, Digão e eu fomos, porém, magnificamente surpreendidos pelo Prata, que aparentemente ignorara nossas vitais recordações durante o almoço. Na hora de se despedir, vira-se o garoto e pergunta, com a maior seriedade:
- Só pra me prevenir pro inverno, onde fica a Bemoreira-Ducal?
Digão e eu, com lágrimas nos olhos, respondemos quase ao mesmo tempo:
- No coração, moleque. No coração.
É isso que dá viver nas esquinas do tempo.
Evoé!

09/02/2009

IMPÉRIO NO RIVAL

Recebo um email do camarada Marcelo Moutinho, imperiano de fé e autor do roteiro da festa que a agremiação serrana fará no dia 11 de fevereiro, no Teatro Rival. Com vocês, as palavras do Moutinho:
O Império Serrano dará uma grande festa no Teatro Rival Petrobras no dia 11 de fevereiro, a partir das 19h30. Será uma prévia do carnaval de 2009, quando a escola de Madureira levará à Sapucaí o enredo "Lenda das sereias e os mistérios do mar", reeditando o lindo samba que fala do "Mar, misterioso mar / Que vem do horizonte".

Com apresentação de Jorginho do Império e roteiro deste que vos escreve, a festa contará com apresentações da Velha Guarda Show, do Jongo da Serrinha e de convidados especiais, como Arlindo Cruz, Delcio Carvalho, Dorinna, Nilze Carvalho, Cláudio Jorge, Luiza Dionizio, Andrea Caffe e Alex Ribeiro (que lembrará músicas do pai, o saudoso Roberto Ribeiro). Também estarão no Rival a consagrada bateria comandada por Mestre Átila, com sua rainha, Quitéria Chagas, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diego e Jaqueline, e as passistas do Império.

Ingressos (R$ 36)j á à venda. Ano passado acabaram
rápido
!

08/02/2009

O IMPÉRIO POR ELE MESMO

Ontem compareci ao grande evento que o Império Serrano promoveu em sua quadra de Madureira - a II Festa do Imperiano de Fé.
Tudo que tenho a escrever sobre o evento já está dito em dois sambas que acabei de colocar na rede e compartilho com os amigos. Ouçam aqui e aqui o que é exatamente a escola da Serrinha. As letras podem ser acompanhadas aqui e aqui.
Saudações imperianas.

LITERATURA DÁ SAMBA

O caderno Ideias e Livros, suplemento do Jornal do Brasil, publicou ontem (6/2) um artigo que escrevi sobre a literatura brasileira no samba-enredo. Aos interessados, reproduzo aqui o texto.
LITERATURA DÁ SAMBA
O escritor Coelho Neto era um entusiasmado adepto dos ranchos carnavalescos que marcaram o carnaval carioca no início do século XX. Torcedor do Ameno Resedá, o literato defendeu em mais de um artigo o papel dos ranchos como instrumentos de divulgação, através de seus enredos, de episódios da história do Brasil, feitos de seus heróis e poesia de suas lendas. Os ranchos seriam instrumentos de certa pedagogia popular; capazes de educar no amor aos valores da pátria uma população sem acesso à educação formal.
Esse papel que Coelho Neto atribuía aos ranchos acabou sendo desempenhado pelas escolas de samba, agremiações que se afirmaram como principais representantes do carnaval carioca a partir da década de 1940. Desde então, e por força de regulamentos que visavam disciplinar os desfiles, as escolas eram obrigadas a apresentar em seus cortejos temas com motivos nacionalistas.
Dentro dessa perspectiva, as escolas de samba começaram a adotar enredos que, em geral, versavam sobre episódios e heróis da história brasileira e a exuberante natureza do país.
Outra vertente dessa perspectiva nacionalista se transformou em um prato cheio para as agremiações se apresentarem no carnaval – a literatura brasileira, incluindo aí escritores e suas obras.
Os exemplos são numerosos e mostram como o carnaval carioca – predominantemente popular e marcado pela perspectiva da oralidade – enxergou e transformou a manifestação por excelência da cultura escrita, a literatura, em matéria de samba.
Do indianismo de Gonçalves Dias (enredo da Mangueira em 1952, com belíssimo samba de Cícero e Pelado) , ao modernismo de Ascêncio Ferreira (Oropa, França e Bahia foi o tema da Imperatriz Leopoldinense em 1970) , é possível passear pela história das letras no Brasil ao som do cavaco e do pandeiro.
É curioso saber, por exemplo, que viraram sambas obras como Invenção de Orfeu (o para muitos impenetrável poema de Jorge de Lima resultou no belo samba de Paulo Brasão, baluarte da Unidos de Vila Isabel, em 1976); Os Sertões (Edeor de Paula, da Em Cima da Hora, sintetizou em poucos versos o calhamaço de quinhentas páginas de Euclides da Cunha e fez um dos maiores sambas-enredo de todos os tempos); O Manuscrito Holandês (a peleja entre o caboclo Mitavaí e o monstro Macobeba, de M. Cavalcanti Proença, embalou a Unidos da Tijuca em 1981); Memórias de um sargento de milícias (1966 - único samba-enredo vitorioso de Paulinho da Viola para a Portela, que em dezenas de versos contava as peraltices de Leonardo Pataca nos tempos do Rei); e Macunaíma (obra-prima de David Correia e Norival Reis, que o escritor Alberto Mussa considera melhor que o livro de Mário de Andrade, com um refrão – Vou-me embora / vou-me embora / eu aqui volto mais não / vou morar no infinito / e virar constelação - que embalou as tardes de futebol do Maracanã em 1975).
Quero, porém, me ater rapidamente a um caso exemplar, que mostra como o carnaval é uma excelente oportunidade para se falar de literatura de forma original e atraente, sobretudo para estudantes do ensino médio, que em geral se aproximam das obras literárias com uma espécie de horror absoluto. O samba-enredo pode ser, como acontece frequentemente com a história do Brasil, uma porta de entrada afetuosa para o estudo mais sistemático e aprofundado dos livros e autores.
Em 1989 o Império Serrano, que em seu primeiro carnaval, o de 1948, homenageou Castro Alves, apresentou o enredo Jorge Amado, Axé Brasil. O samba, de autoria de Beto Sem Braço, Aluísio Machado, Bicalho e Arlindo Cruz, descreve uma grande festa ocorrida na tenda dos milagres, em que os personagens do baiano se encontram para um furdunço dos bons. Não imagino uma aula sobre Jorge Amado que introduza melhor o aluno adolescente ao universo do autor que esse samba da agremiação da Serrinha.
Protegendo o portão da tenda, está ninguém menos que o pai-de-santo Jubiabá (Jubiabá tá no portão / e as iaôs jogam pitangas pelo chão). Aos poucos começam a chegar, de todos os cantos da Bahia, os personagens de Amado, que logo se entrosam perfeitamente (Com os pastores da noite / Vem gente lá das terras do sem fim ... Olha que papo maneiro / Entre os velhos marinheiros / E os novos capitães ... Vem gente que sofreu demais / Lá do sertão e da beira do cais).
No auge da festa, Teresa Batista dança um samba de roda com Tieta e o cambaleante Quincas Berro D Água, enquanto Gabriela e Dona Flor dividem as panelas preparando o vatapá que vai alimentar aquela gente toda.
O desfecho do samba é apoteótico. Jorge Amado é homenageado no refrão com a saudação que o povo do candomblé faz ao orixá Oxalá, considerado o pai maior pelos adeptos do culto :
“Echeuêpa Babá
Echeuêpa Babá
Axé Brasil
Pai Amado Saravá.”
Comovido com a homenagem, não é todo dia que alguém vira orixá, o mestre baiano compareceu ao desfile, apresentando-se em um carro alegórico cercado de amigos e mães de santo e escoltado por Zélia Gattai, que desfilou com os trajes típicos da boa terra.
Anos depois, o mesmo Império Serrano conseguiu levar Ariano Suassuna para a Marquês de Sapucaí – devidamente consagrado pelas arquibancadas da Praça da Apoteose como o legítimo Imperador da Pedra do Reino.
Mesma sorte não teve a Mangueira, que em 1987 homenageou Carlos Drummond de Andrade, ganhou o carnaval, mas não conseguiu de forma alguma arrastar para a folia o poeta de Itabira – já adoentado e pouco afeito ao surdo sem resposta da Estação Primeira. A Vila Isabel, que em 1980 transformou o poema Sonho de um Sonho em enredo, com belo samba de Martinho, já não havia conseguido tirar o mineiro da reclusão em Copacabana.
Há, evidentemente, casos pitorescos. Em 1982 um repórter que cobria os desfiles para uma rádio perguntou a um diretor da Unidos da Tijuca se o escritor homenageado desfilaria na escola em algum carro alegórico. O enredo da agremiação tijucana era Lima Barreto, falecido quando Ismael Silva era só um adolescente do Estácio.
Este ano, a literatura brasileira estará presente no desfile do grupo principal. A Mocidade Independente de Padre Miguel juntará no mesmo enredo Machado de Assis – já homenageado pela Aprendizes da Boca do Mato em 1959, com um samba do então iniciante Martinho, que ainda não era da Vila - e Guimarães Rosa (o mote, atrasado, é o ano de 2008 – centenário da morte de Machado e do nascimento de Rosa).
Sinhazinhas, barões do Império, bacharéis e demais personagens do Bruxo do Cosme Velho dividirão a passarela com os improváveis jagunços de Joca Ramiro e Zé Bebelo, sob a devida proteção de sua alteza Thatiana Pagung, a rainha de bateria da agremiação da Vila Vintém – que, quero crer, está mais para Capitu que para Diadorim.
Aguardemos a quarta-feira de cinzas.

04/02/2009

A MUSA PELADA DA ILHA DO SOL


Apareceu por esses dias no Rio de Janeiro um cineasta europeu, cujo nome esqueci, para fazer um filme sobre a praia de naturismo de Abricó - pertinho de Grumari. Jornais chegaram a publicar uma foto do gringo com a bunda de fora.

A presença do pelado me fez retomar um texto que escrevi, nos primórdios desse espaço, sobre o naturismo e a inesquecível e carnavalesca Dora Vivacqua. Para quem não lembra, reproduzo agora meu arrazoado, com algumas modificações:


O Rio de Janeiro tem uma praia destinada à saudável prática do naturismo. Todo mundo pelado, eis a regra. Nunca frequentarei tal lugar, e explico com três argumentos. O primeiro deles é que no espaço, perto de Grumari, admitem-se pessoas peladas e pessoas com trajes de banho. Não pode dar certo. O correto é todo mundo peladão e ponto final.

O segundo argumento me parece poderoso. A praia em questão chama-se Abricó. O nome é, admitam, inadequado. Não se pode andar impunemente com o báculo exposto num lugar com uma denominação dessas. Parece até aquela velha piada do índio caramuru, da tribo paraguaçu, que gostava de sururu, morava no Alto Xingu e se chamava Papa-có. Nem pensar.

O terceiro argumento é definitivo e dispensa comentários - dizem que tem muito mais homem que mulher naquelas bandas.

Bom mesmo, para ficar pelado, é a belíssima praia de Tambaba, na Paraíba. É terminantemente proibido usar roupas. A lei que referendou a praia paraibana como espaço para o naturismo estabelece que andar vestido é atentado ao pudor e o camarada pode até ir preso. Concordo. Tambaba só admite a presença de casais, para evitar bichas loucas e tarados que criem problemas, e tem até uma pousada naturista onde os funcionários e funcionárias atendem todo mundo com as bundas de fora.

Quem começou com esse negócio de naturismo no Brasil foi a atriz Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz del Fuego, que fundou, no início dos anos 50, o Partido Naturista Brasileiro - que reputo como a mais séria organização política brasileira desde a fundação do Partido Liberal do Império.

Luz morava na Ilha do Sol, pertinho de Paquetá, e gostava de andar nua com uma jibóia imensa enrolada no corpo. Em sua propriedade funcionou o primeiro clube de nudismo do país, o que fazia com que afoitos farofeiros de Paquetá - com o argumento familiar de que queriam conhecer a romântica pedra da Moreninha e tinham se perdido nas águas da Guanabara - tentassem chegar nadando à ilha vizinha pra ver mulheres peladas.

O final de Luz del Fuego foi terrível - morreu assassinada, em 1967, por bandidos que queriam roubar um carregamento de pólvora guardado na ilha. Pouco antes da morte estúpida da fundadora, o Partido Naturista, que chegou a ter quase 60 mil filiados, fora proibido pelo regime militar - numa inequívoca demonstração de que fardas e ternos são, em geral, muito mais indecentes que a nudez.

Assisti, moleque, ao filme Luz del Fuego, em que Lucélia Santos - que eu conheci na novela Escrava Isaura, produzindo o milagre de seduzir a dupla de machões (sic) Rubens de Falco e Edwin Luise - representava a pioneira do naturismo tupiniquim. Lucélia estava, ouso dizer, em surpreendente forma, apesar da atuação dramática superior da escamosa atriz que representava a cobra jibóia, naquela que considero a maior interpretação feminina da história do cinema canarinho.

(Abro parêntese para lembrar de brasileiros ilustres que gostavam de tirar as roupas. O antropólogo Darcy Ribeiro e o cineasta Glauber Rocha só conseguiam escrever peladões. D. Pedro I gostava de andar nu pelos salões do Paço Imperial; Villa-Lobos achava que compunha melhor despido. Contam que Dona Beija, a feiticeira de Araxá, cavalgou nuazinha pelas ruas da conservadora cidade mineira, horrorizando beatas e levando a rapaziada ao delírio. Duzentos anos depois, Dona Beija encarnou no corpo da modelo Lilian Ramos. Durante o carnaval de 1993, Lilian sambou sem calcinha - e raspadinha, diga-se de passagem - ao lado do presidente da República, Itamar Franco.)

Termino esse arrazoado sistematizando minhas sugestões. Proponho que os naturistas cariocas mudem o nome da praia de Abricó, proibam a entrada de gente vestida e estabeleçam que só casais possam frequentar a área de nudismo. Poderiam, quem sabe, inventar um nome que homenageasse a pioneira e injustamente esquecida Luz del Fuego. Perto dela, a desbocada Leila Diniz foi uma espécie de Madre Teresa de Ipanema. Fica a idéia, com acento e sem calcinha.

Evoé!

02/02/2009

CARNAVALESCAS - É NESSA ONDA QUE EU VOU !

(Alvaro Costa e Silva , homem de imprensa, botafoguense, Emilinha e fundador e sócio benemérito do Bafo da Onça)

Este blog, como os senhores perceberam, só falará nos próximos dias de carnaval. Hoje retomo um texto de janeiro de 2008, em que defendi a tese de que o Bafo da Onça é mais significativo para a historia mundial que todas as revoluções sociais latino-americanas juntas. Reafirmo, com mais convicção ainda, o que escrevi então. Foi o seguinte
:

Em certa ocasião, lá pelo meio do curso de História, fiz uma disciplina chamada "Movimentos sociais na América Latina". Quem lê o nome imponente imagina estudar apenas eventos como a Revolução Mexicana de 1911, os levantes camponeses da Nicarágua, a Revolução Cubana, os zapatistas de Chiapas ou coisa que o valha. Acontece que a professora, que não era muito chegada a falar em público e por isso não dava aulas expositivas, dividiu a turma em uma cacetada de grupos e passou seminários sobre temas que caracterizariam a luta social latino-americana de uma forma, digamos, mais ampla.

O problema é que tinha aluno pacas, o que levou a mulher a propor uma quantidade impressionante de episódios. O sujeito podia estudar desde o papel do operariado na Revolução Cubana até o movimento feminista em San José da Costa Rica. Em relação ao Brasil, as propostas abordavam o movimento estudantil, os sindicatos, as guerrilhas, a organização de associações de moradores e afins. Muito bem. Cada grupo sortearia o assunto a ser apresentado.

Não estou de brincadeira - meu grupo sorteou o momentoso tema: "A trajetória de lutas da Associação dos Moradores do Catumbi contra a descaracterização do bairro". Acreditem.

Na hora fiquei besta. Enquanto alguns grupos abordariam assuntos vigorosos, com relevância histórica reconhecida, lá ia eu estudar o Catumbi. Pois olhem, vou confessar, acabou sendo um tremendo prazer. Até porque ocorreu no Catumbi um charivari de dimensões inquestionáveis, que hoje considero mais relevante e revolucionário que os eventos de México, Cuba e Nicarágua juntos: a fundação do glorioso Bloco Carnavalesco Bafo da Onça.

O Bafo veio ao mundo , em dezembro de 1956, dentro de um boteco de quinta categoria (são os melhores). Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria; um sujeito que, durante o carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça. Seu Tião Carpinteiro tinha ainda o saudável hábito de começar a tomar uns gorós no dia de Santos Reis - data que marcava, para ele, o início das festas de Momo - e só encerrar os trabalhos na quarta feira de cinzas.

Ocorre que o hábito era saudável, mas o hálito ficava complicado. Foi durante um porre bíblico de Sebastião Maria que um grupo de bebuns, sob sua liderança, decidiu fundar a gloriosa agremiação do Catumbi. Ficou combinado que todo mundo ia desfilar no carnaval de cara cheia e fantasia de onça. Coisa séria. Em homenagem ao fundador, e a sua exalação odorífera assustadora, o nome do bloco foi escolhido sem polêmicas.

O Bafo da minha infância era o bloco das mulatas gostosíssimas do Sargentelli - aquelas em que o Edu Goldenberg, ainda moleque, tentava passar a mão nas bundas volumosas , atendendo ordens expressas de seu pai. Era o bloco que mobilizava o carnaval de rua carioca ao lado do Cacique de Ramos e do Boêmios de Irajá; o Bafo de Oswaldo Nunes, de Dominguinhos do Estácio e do jornalista Álvaro Costa e Silva, desde os seis anos de idade conhecido como Marechal e sempre fantasiado de menino-onça no tríduo momesco, com bigodes pintados com rolha queimada.

O Marecha, aliás, afirma (e é a puríssima verdade, confirmada por compêndios e testemunhas) que fundou o Bafo da Onça, apesar do irrelevante detalhe de que não era nascido em 1956. Só o carnaval carioca possibilita isso - antes mesmo de dar as caras no mundo, Alvinho foi um dos apóstolos que, capitaneados pelo Sebastião Maria, marcaram a história do Catumbi, do carnaval e, evidentemente, dos movimentos sociais latino-americanos.

Aos fundadores do Bafo da Onça, em especial ao Tião Maria Carpinteiro - esse Simon Bolívar do Catumbi - , acendo minha vela no altar da pátria, abrindo a primeira gelada do dia às margens do Rio Maracanã. São eles, os cachaças que criaram o Bafo, heróis civilizadores da América Latina. O resto é conversa fiada. É nessa onda que eu vou, Iaiá!

Evoé !