
Apareceu por esses dias no Rio de Janeiro um cineasta europeu, cujo nome esqueci, para fazer um filme sobre a praia de naturismo de Abricó - pertinho de Grumari. Jornais chegaram a publicar uma foto do gringo com a bunda de fora.
A presença do pelado me fez retomar um texto que escrevi, nos primórdios desse espaço, sobre o naturismo e a inesquecível e carnavalesca Dora Vivacqua. Para quem não lembra, reproduzo agora meu arrazoado, com algumas modificações:
O Rio de Janeiro tem uma praia destinada à saudável prática do naturismo. Todo mundo pelado, eis a regra. Nunca frequentarei tal lugar, e explico com três argumentos. O primeiro deles é que no espaço, perto de Grumari, admitem-se pessoas peladas e pessoas com trajes de banho. Não pode dar certo. O correto é todo mundo peladão e ponto final.
O segundo argumento me parece poderoso. A praia em questão chama-se Abricó. O nome é, admitam, inadequado. Não se pode andar impunemente com o báculo exposto num lugar com uma denominação dessas. Parece até aquela velha piada do índio caramuru, da tribo paraguaçu, que gostava de sururu, morava no Alto Xingu e se chamava Papa-có. Nem pensar.
O terceiro argumento é definitivo e dispensa comentários - dizem que tem muito mais homem que mulher naquelas bandas.
Bom mesmo, para ficar pelado, é a belíssima praia de Tambaba, na Paraíba. É terminantemente proibido usar roupas. A lei que referendou a praia paraibana como espaço para o naturismo estabelece que andar vestido é atentado ao pudor e o camarada pode até ir preso. Concordo. Tambaba só admite a presença de casais, para evitar bichas loucas e tarados que criem problemas, e tem até uma pousada naturista onde os funcionários e funcionárias atendem todo mundo com as bundas de fora.
Quem começou com esse negócio de naturismo no Brasil foi a atriz Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz del Fuego, que fundou, no início dos anos 50, o Partido Naturista Brasileiro - que reputo como a mais séria organização política brasileira desde a fundação do Partido Liberal do Império.
Luz morava na Ilha do Sol, pertinho de Paquetá, e gostava de andar nua com uma jibóia imensa enrolada no corpo. Em sua propriedade funcionou o primeiro clube de nudismo do país, o que fazia com que afoitos farofeiros de Paquetá - com o argumento familiar de que queriam conhecer a romântica pedra da Moreninha e tinham se perdido nas águas da Guanabara - tentassem chegar nadando à ilha vizinha pra ver mulheres peladas.
O final de Luz del Fuego foi terrível - morreu assassinada, em 1967, por bandidos que queriam roubar um carregamento de pólvora guardado na ilha. Pouco antes da morte estúpida da fundadora, o Partido Naturista, que chegou a ter quase 60 mil filiados, fora proibido pelo regime militar - numa inequívoca demonstração de que fardas e ternos são, em geral, muito mais indecentes que a nudez.
Assisti, moleque, ao filme Luz del Fuego, em que Lucélia Santos - que eu conheci na novela Escrava Isaura, produzindo o milagre de seduzir a dupla de machões (sic) Rubens de Falco e Edwin Luise - representava a pioneira do naturismo tupiniquim. Lucélia estava, ouso dizer, em surpreendente forma, apesar da atuação dramática superior da escamosa atriz que representava a cobra jibóia, naquela que considero a maior interpretação feminina da história do cinema canarinho.
(Abro parêntese para lembrar de brasileiros ilustres que gostavam de tirar as roupas. O antropólogo Darcy Ribeiro e o cineasta Glauber Rocha só conseguiam escrever peladões. D. Pedro I gostava de andar nu pelos salões do Paço Imperial; Villa-Lobos achava que compunha melhor despido. Contam que Dona Beija, a feiticeira de Araxá, cavalgou nuazinha pelas ruas da conservadora cidade mineira, horrorizando beatas e levando a rapaziada ao delírio. Duzentos anos depois, Dona Beija encarnou no corpo da modelo Lilian Ramos. Durante o carnaval de 1993, Lilian sambou sem calcinha - e raspadinha, diga-se de passagem - ao lado do presidente da República, Itamar Franco.)
Termino esse arrazoado sistematizando minhas sugestões. Proponho que os naturistas cariocas mudem o nome da praia de Abricó, proibam a entrada de gente vestida e estabeleçam que só casais possam frequentar a área de nudismo. Poderiam, quem sabe, inventar um nome que homenageasse a pioneira e injustamente esquecida Luz del Fuego. Perto dela, a desbocada Leila Diniz foi uma espécie de Madre Teresa de Ipanema. Fica a idéia, com acento e sem calcinha.
Evoé!