30/01/2009

FESTA IMPERIANA


Em 1948 o Império Serrano desfilou pela primeira vez no carnaval carioca, com o enredo Antônio Castro Alves. O samba, de Comprido, Molequinho e Mano Décio, pode ser escutado aqui .

É só uma maneira de anunciar que amanhã teremos, na Rua do Ouvidor, em frente à livraria Folha Seca (n. 37) , uma roda de samba com Zé Luiz, Luiza Dionisio e músicos imperianos, organizada pelo amigo Marcelo Moutinho.

A bandeira imperial estará tremulando, serão vendidas camisas da II Festa do Imperiano de fé e, evidentemente, sambas de terreiro e sambas-enredo da escola tornarão a tarde, certamente, histórica.

Abraços

29/01/2009

A MARCHA DO REMADOR (REEDIÇÕES CARNAVALESCAS)


Há algumas composições carnavalescas que, definitivamente, estão entranhadas na alma do sujeito como um daqueles encostos brabos, que não tem descarrego que faça ir embora. São as trilhas sonoras do nosso mapa sentimental, habitantes que somos da mui leal e heróica cidade de São Sebastião, cenário por excelência das marchinhas mais sacanas.

Digo isso para confessar que tenho uma relação doentia com a Marcha do Remador , de Antonio Almeida e Oldemar Magalhães, gravada pela favorita da marinha, Emilinha Borba, a homenageada deste texto.

Toda vez, por exemplo, em que vou entrar num avião, sempre com a firme convicção de que o bicho vai cair, me preparo para fazer algumas orações aos deuses. Invariavelmente, na hora em que começo a rezar, esqueço as palavras sagradas e sou martelado pelo refrão :

Se a canoa não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Houve uma ocasião em que o bicho pegou. Estava indo à Cuba (não, não fui ver a revolução ou encontrar o comandante Fidel Castro; fui ver la santería mesmo) em um avião da Cubana de Aviacion. Aliás, avião coisa nenhuma. O dito cujo, um Antonov de fabricação soviética, era, para usar o termo apropriado, uma banheira. Embarquei movido a uma quantidade industrial de álcool, que eu não sou trouxa de chegar de cara limpa pro acerto de contas com o Todo Poderoso.

Mal aquele carro de boi com asas começou a se preparar para a decolagem, veio o sinal de alerta. Água no combustível. Saiu todo mundo. Mais bebida, que ninguém é de ferro.

Voltamos ao avião. Preparada a decolagem e...nada. Pane no sistema de refrigeração. Descemos novamente. Fui tomar um negocinho pra descontrair. Há que se ter um mínimo de dignidade na hora de cantar pra subir e quero ir oló honrando o que carrego dentro das calças, cacete.

De volta ao avião. O clima entre os passageiros era de comoção absoluta. Pairava entre as poltronas a sombra da indesejada das gentes, epíteto do poeta para a sinistra senhora.

Uma dona, que tentava manter a calma, sugeriu que os passageiros orassem pelo sucesso da empreitada. Ela mesma puxou um Pai Nosso e uma Ave Maria. Me pareceu, confesso, que aquilo estava mais para extrema-unção coletiva que outra coisa. Em desespero, um cidadão ao meu lado jurou que a velha tinha terminado a reza com um profético "agora é a hora de nossa morte, amém".

Ela perguntou, então, se alguém gostaria de orar representando algum outro credo religioso. Cheio de goró, considerei minha função rezar pros orixás, caboclos e encantados. Com o arrojo de um Garrincha deixando o João estatelado, gritei:

- Eu rezo!

Concentrei-me e mandei na lata. Quem disse que saiu alguma rogação? Nem a pau. Como por encanto, da minha boca saíram os versos da Marcha do Remador, cantados, inclusive, com a modificação singela que as torcidas faziam no Maracanã:

Se essa porra não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Subitamente, em completo descontrole (é o medo da morte, meu velho, é o medo da morte) , comecei a pular como um troglodita, um animal, cantando a marcha aos berros.

Pensam que fui seguido por um coro? Nadica. Pelo contrário. A senhora ficou puta nas calças, os passageiros me chamaram de palhaço pra baixo e eu, solitário, encolhido como pinto em ovo, afundei-me na poltrona e fechei os olhos.

O Rodrigo, camarada que viajava comigo, foi sincero:

- Você tem sérios problemas.

É, talvez tenha. Como acredito, porém, que maiores são os poderes do povo, desisti de lutar contra o que é muito mais forte que eu. Hoje, se a onça ameaça beber água, não tem Pai Nosso, Ave Maria, ponto de macumba ou coisa que o valha. Mando logo uma pra dentro em honra do compadre, seguro firme a guia do Azulão e digo na lata, caprichando no gogó, a Marcha do Remador.

É que nem São Longuinho, rapaziada. Ninguém leva fé mas funciona que é uma beleza.

Evoé !

28/01/2009

A MARSELHESA DOS PAÍSES BAIXOS (AS MARCHINHAS DA MINHA VIDA)


Amigos, estão abertos os festejos pré-carnavalescos no Histórias do Brasil. Aproveitarei o ensejo para reeditar (em versões atualizadas, diga-se) alguns textos antigos que escrevi sobre o carnaval. O primeiro deles versa sobre a imortal Marcha da Cueca, e foi originalmente escrito no início de 2007. Lá vai :

Comprei o cd com as marchinhas do espetáculo Sassaricando, tremendo sucesso de público e crítica nessas semanas pré-carnavalescas. Coisa fina, sinhá, que ninguém mais acha. Cento e poucas músicas, arranjos de primeira do Luís Felipe de Lima e, em resumo, a trilha sonora perfeita para os dias de folia.

É impressionante como algumas composições se incorporam ao imaginário do devoto de Momo feito padres-nossos e aves-marias para o cristão. Invenção carioquíssima, a marchinha é a crônica cantada, serelepe, ágil, sacana, vez por outra lírica, do cotidiano.

Ontem, por exemplo, fiquei comovidíssimo quando ouvi, na voz do Alfredo Del Penho, a imortal Marcha da Cueca, uma espécie de Marselhesa dos países baixos, composta por Carlos Meneses, Livardo Alves e Sardinho, já que uma obra dessa dimensão não poderia mesmo ser fruto de uma única pessoa. Fui às lágrimas:

Eu mato, eu mato
Quem roubou minha cueca
Pra fazer pano de prato.
Minha cueca
Tava lavada
Foi um presente
Que ganhei da namorada

A Marcha da Cueca trouxe-me tremendas recordações e a lembrança de um episódio que marcou meus tempos idos e moldou, em certo sentido, meu caráter para todo sempre. Explico.

Tinha eu catorze anos de idade quando ganhei uma cueca espetacular. Cor de laranja, com uma máquina fotográfica no meio e a frase definitiva : - Olha o passarinho. Foi presente da minha mãe. Aliás, minto, não foi minha mãe. Ganhei a cueca da minha tia.

Passou a ser, confesso, minha cueca predileta, que usava com constância pouco recomendável.

Mais do que predileta, a cueca em questão me dava uma sorte violenta, estava convencido disso. Não cheguei ao ponto de D. João VI, que usou uma única peça de baixo por oito anos, mas é meu dever confessar que as outras cuecas perderam a importância diante daquela.

Eis que um dia, sintam meu drama, fui jogar futebol com a garotada na Casa do Minho, clube português situado em Laranjeiras. É evidente que estava usando debaixo do calção meu amuleto pessoal, garantia absoluta de um desempenho brilhante nas quatro linhas.

Sempre fui, e a pausa é necessária, um homem-gol. Dotado de insuspeita habilidade com a criança nos pés, era o primeiro escolhido no par ou ímpar. Balançar as redes adversárias, para mim, era mato. Um matador, no jargão atual.

Pois bem , voltemos ao cenário do ludopédio. Começa o jogo, o beque adversário fazendo homem-a-homem para conter minhas arrancadas mortíferas e, subitamente, sou assaltado por uma necessidade vigorosa de fazer cocô. Estou entre amigos, peço rápida substituição e dirijo-me célere aos vestiários.

Chegando lá, em situação emergencial, busco a privada com o fervor de um muçulmano peregrinando à Meca. Já no trono, sinto o alívio vital da evacuação, caudalosa como um amazonas de matéria fecal.

Terminada a tarefa, busco agir com rapidez para voltar ao cenário do confronto. Há , porém, um grave problema. Onde está o papel higiênico? Não está. Não há. Toalha de rosto? Não há. Não existe rigorosamente nada que possibilite a higiene pessoal.

Volto ao jogo naquelas condições? Nem pensar.

Senhoras e senhores, ocorreu-me, então, a única e dolorosa saída - a cueca.

Dotado de tristeza profunda, vivendo uma espécie de escolha de Sofia, sacrifiquei a cueca em nome da manutenção da dignidade pessoal do artilheiro. Limpei-me com minha peça de estimação, maculando para todo sempre o olha o passarinho.

Após o ato zuni a cueca pela janela do banheiro, que dava para o pátio do prédio vizinho. Triste, lavei as mãos - sempre fui educadíssimo e ótimo aluno de Educação Moral e Cívica, onde se aprendiam essas coisas fundamentais - e voltei ao jogo. Tive uma atuação discreta, apagada mesmo, naquele dia.

Ao escutar a Marcha da Cueca, a minha madeleine fedorenta, lembrei-me de tudo isso.

É que sou mesmo um sentimental e essas marchinhas me comovem como o diabo.

Evoé !

26/01/2009

SAMBAS-ENREDO - IMPÉRIO SERRANO 1989 - AO VIVO


Amigos, acabei de disponibilizar na rede a gravação, em plena Marquês de Sapucaí, do samba do Império Serrano no carnaval de 1989 - uma das pérolas que tenho no meu acervo de sambas-enredo. Estava escrevendo um texto sobre esse desfile e não resisti - essa é uma gravação para ser dividida.

A audição é, quero crer, comovente. Reparem no samba magnífico de Beto Sem Braço, Aluísio Machado, Arlindo Cruz e Bicalho e , sobretudo, na impressionante cadência da bateria imperiana.
Acompanhe a letra aqui e ouça o samba clicando
aqui . A gravação, evidentemente, não é perfeita - mas o valor documental é insuperável.

E sabem o que mais? José Saramago ganhou o Nobel de literatura; Jorge Amado foi enredo do Império Serrano - a honra maior , só um doido de pedra discordaria, é a do baiano.

(Na foto acima do texto, Jorge e Zélia Gattai fecham o desfile do Império saudando o público da Marquês de Sapucaí)

Abraços.

23/01/2009

BATE-BOLA

Meus amigos, a aventura de manter um blog funcionando tem lá seus percalços. Recebo, por exemplo, um bom número de emails e fica complicado responder a todas as perguntas que são feitas. Aproveito, então, para condensar várias indagações que me foram colocadas no final de 2008 e início de 2009 num bate-bola de perguntas rápidas e respostas concisas.
P - Simas, você vai escrever no blog sobre a guerra no Oriente Médio?
R - Não. O blog se chama Histórias do Brasil.
P- Simas, você não acha que seria importante um texto seu sobre a eleição do Obama?
R- Não. Mas estou preparando algo sobre a feira de Acari, que foi inclusive enredo da Unidos da Ponte em 1990, com o belo título Robauto, uma ova! (Ao som da lira o poeta se inspira / Para apresentar/ Em forma de poesia / A feira popular... alguém imagina um samba sobre a robauto começando assim?)
P - Simas, o que você achou da decisão do Brasil de conceder asilo político ao italiano C. Battisti ?
R- Parecida com o ataque do Botafogo nos anos 70, Cremilson, Tuca e Puruca.
P - Simas, sou atriz e não entendo sua posição contra o teatro.
R- Não sou contra o teatro, em absoluto. Não gosto de atores, atrizes e diretores teatrais, o que é diferente.
P - Simas, a entrega do Oscar é no domingo de carnaval. Você acha que a Globo deve transmitir o Oscar ou o desfile da Sapucaí?
R- Tanto faz. O Oscar deve começar durante o desfile da Grande Rio, o que dá no mesmo.
P - Simas, você fuma ou já fumou ? (Não entendi a pergunta, mas tudo bem).
R- Não, nunca. Nem cigarro, nem maconha. Já andei testando, porém, uns charutos cubanos, dominicanos e baianos. São bons.
P- O que você achou do especial de Natal do Roberto Carlos?
R - Nada.
P- Você tem alguma sugestão especial de uma viagem histórica que eu possa fazer para aumentar minha cultura?
R- Sim. Vá para Caldas Novas, em Goiás.
P- Simas, você nunca pensou em escrever nada sobre o Raul Seixas?
R- Eu sei que essa pergunta é uma gozação, só pode ser.
P- Simas, qual é o seu signo?
R- Escorpião. Prefiro, entretanto, lagosta mesmo.
P - Simas, pra onde você acha que vamos quando morremos?
R- Vamos? Eu desconfio que vou para o Caju. E você, São João Batista?
Abraços

21/01/2009

CONFISSÕES - KONGA, A MULHER GORILA


Os amigos sabem que, desde o final de 2008, tenho usado este espaço para fazer algumas revelações que só pretendia inicialmente relatar a algum médium depois de morto. Como ando desconfiado da veracidade de algumas psicografias que circulam por aí, resolvi me antecipar e me psicografar em vida. É mais garantido.Leiam as confissões que fiz aqui, aqui e aqui.

Nunca fui, eis a confissão que faço hoje, um bom aluno nos meus tempos de colégio. Me safava direitinho em Geografia, História, Português e Educação Física (sempre a minha melhor matéria) e claudicava fragorosamente nas outras. Penso, por exemplo, nas dificuldades que sempre tive em biologia - com suas plantas, esqueletos, aparelhos reprodutores, teorias sobre a origem da vida e o escambau. Eu era um desastre.

Houve, porém , uma ocasião em me destaquei profundamente na feira de ciências do colégio - apesar do meu grupo ter recebido nota zero de uma comissão avaliadora e meu avô ter sido chamado para uma conversa sobre meu comportamento. A razão foi simples, resolvemos explicar a teoria da evolução de Darwin a partir da transformação de Konga, a mulher gorila dos parques de diversões. Explico.

Konga é, ao lado do menino sequestrado Carlinhos (que em certo momento achei que era eu mesmo), do ator enterrado vivo Sergio Cardoso e da loura morta do banheiro, uma obsessão da minha infância. Lembro-me como se fosse hoje do impacto de ter entrado pela primeira vez em uma sala na penumbra e assistido ao processo de transformação de uma jovem em gorila ferocíssima. Acabei vendo o troço umas duzentas vezes. Era inesquecível.

Enquanto a metamorfose ocorria, por exemplo, um locutor de voz cavernosa narrava o negócio todo:

- Ela começa a se sentir estranha. O corpo vai sendo tomado por uma sensação diferente. É incrível.

A tensão ia aumentando, até que no lugar da jovem, atrás de uma jaula, havia apenas uma macaca enlouquecida, que começava a urrar desesperadamente. O locutor não perdia tempo:

- Meu Deus do céu, ela vai escapar. Calma Konga; calma Konga ! Não...não! Ahhhhhh.

E a Konga escapava. Só que, quando isso acontecia, a criançada já tinha se empirulitado há tempos. Eu, por exemplo, dava no pé - tomado por um pânico indescritível - assim que a gorila começava a forçar as grades.

Admito que a transformação de Konga despertava em mim um temor violento, mas, ao mesmo tempo, era um negócio excitante. Aquela mulher de biquine que ia fechando os olhos, se concentrando e virando uma fera prestes a atacar mexia com a libido da garotada - um amigo meu, por exemplo, admitiu dia desses numa mesa de bar ter batido sua primeira punheta pensando na macaca.

É evidente que esse processo de transformação era ideal para demonstrar numa feira científica, através de uma espécie de máquina do tempo, os fundamentos da teoria darwinista da evolução. Konga, de certa forma, fazia o processo inverso da cadeia evolutiva da humanidade - do ser humano ao símio.

O meu grupo da feira fez um trabalho, digo sem modéstia, brilhante. Levamos uma boneca e um gorila de brinquedo que acompanhava algumas aventuras do Falcon (quem se lembra?). Simulamos todo o processo de transformação da Konga, com a narração dramática e tudo (foi a minha locução, aliás, que fez a direção do colégio convocar meu avô para saber se eu estava com problemas emocionais). No final, concluímos ressaltando que a Konga era a teoria do Darwin invertida. Simples e brilhante. Não falamos mais nada.

Os avaliadores, porém, demonstrando absoluta falta de sensibilidade para julgar um trabalho do porte do nosso - dinâmico e inovador - tascaram um zero categórico no grupo todo. Faz parte. Deles, já esqueci de nomes e imagens. A Konga permanecerá, como o próprio Darwin, pelos séculos e milênios.

Daqui, às margens do rio Maracanã transbordando, faço essa confissão como uma espécie de homenagem àquelas jovens que ralavam em centenas de parques de diversões do Brasil representando a mulher gorila. Eu juro, Kongas, que vocês para mim são as maiores atrizes que vi atuar. Sou um camarada que não nutro qualquer simpatia por atores e não frequento teatros nem debaixo de pancadas. Não preciso. Duvideodó que qualquer atriz desse mundo seja capaz de despertar em mim as sensações de medo, tesão e mergulho na aurora da humanidade que vocês, com tanto talento, despertaram um dia.

Abraços.

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QUEM É ELE ?

Ao voltar de viagem neste início de 2009, fui observando cuidadosamente os plásticos dos carros que transitavam pela Rio-Santos. São comoventes as declarações de amor que os proprietários de automotores fazem aos seus familiares - verdadeiras frases de antologia.

Li, e anotei, coisas escritas em um português castiço, do tipo Wescley e Samantha papai e mamãe te ama , eu amo minha esposa a Keila, Deus ensinou a melhor maneira de fazer sexo seguro: o casamento .

Imediatamente fiz a ponte com a notícia de que a tv Globo começou a exibir uma novela passada na Índia, com personagens chamados Bahuan, Godda, Maya, Opash, Koshi e Ashima. Como é sabido que nomes de personagens de novelas costumam virar coqueluche e batizar centenas de milhares de crianças brasileirinhas, desconfio que em breve leremos coisas do tipo "Opash Waldeson e Koshi papai te ama muito". É de causar acidentes terríveis nas rodovias.

Nada, porém, me surpreendeu mais que os dizeres que tomavam praticamente todo o vidro traseiro de um gol vermelho: Protegido pelo homem da quarta fornalha . Impressionadíssimo e tremendamente assustado, sugeri que minha mulher, no comando do nosso carro (ela dirige melhor do que eu ) , tirasse o pé do acelerador para perder de vista aquela máquina poderosa, devidamente protegida por alguma coisa séria.

Alguém por acaso sabe quem é essa criatura, o homem da quarta fornalha? Tenho cá minhas desconfianças, mas prefiro nem falar.

Abraços

15/01/2009

SOBRE A LIBERDADE RELIGIOSA

O último texto que escrevi neste espaço aborda, ainda que de forma indireta, a questão da liberdade religiosa - daí que resolvi falar um pouquinho mais sobre o que penso a respeito do tema - espinhoso, diga-se.

Qualquer reflexão que eu faça sobre o assunto parte de um dado fundamental - sou praticante de uma religião e o que quer que pense ou escreva estará marcado por essa circunstância. Sendo assim, vamos lá.

Existem religiões fundamentadas históricamente na idéia da conversão - alguns dos diversos ramos do cristianismo e do islamismo são exemplos disso. Em outras palavras, uma das missões dos adeptos desses credos é a de converter o maior número de pessoas aos seus dogmas. Não preciso aqui relembrar a importância da difusão da fé como fator ideológico impulsionador da expansão marítima na Época Moderna, o processo de islamização do norte da África ou a importância dos missionários cristãos durante a corrida imperialista do século XIX - são temas bastante conhecidos.

Acho eu que grande parte da intolerância religiosa do mundo atual fundamenta-se nessa idéia de conversão - ela naturalmente pressupõe que a verdade está com aquele que converte e os desvios estão com aqueles que precisam ser convertidos. Desnecessário dizer que na disputa por esse verdadeiro "mercado" da fé, o número de fiéis é correspondente ao poder temporal que a religião terá.

O culto aos orixás não se fundamenta na idéia de conversão. Esse é um conceito que simplesmente não diz respeito aos adeptos da religião que Orunmilá legou aos homens. Não se converte ninguém, não se deve tentar converter ninguém, até porque é inútil. Em se tratando de uma crença oracular, é o próprio orixá, através do oráculo ou da bolação em um xirê, que determina a respeito de quem deve ser iniciado ou não. O sacerdote que procede de forma diferente está errando por desconhecimento ou desonestidade.

Já vi mais de uma vez pessoas com o desejo legítimo de fazer a iniciação e o orixá no jogo dizer um sonoro não é necessário - procure outro caminho espiritual. Por outro lado, são incontáveis as vezes em que o orixá pede a iniciação e a pessoa não tem a menor disposição para isso. Acontece com certa frequência. Por que me iniciei? Ogum determinou e eu simplesmente cumpri o que meu orixá (a minha essência mais profunda) estabeleceu. Eu precisava do axé.

Disse-me uma vez um babalaô, meu mais velho Omoadeifá, que o protestantismo é ótimo para quem tem que ser protestante, o catolicismo é ideal para quem é católico, o kardecismo é a melhor religião para quem deve ser kardecista e por aí vai. Os caminhos de contato do homem com o mistério são multiplos e trilhar um deles é essencialmente uma experiência de cunho pessoal e intransferível.

Sobre minha própria iniciação, escrevi certa vez que "Orunmilá, o senhor do Ifá, o mais sábio dos Orixás, conhecedor dos destinos, determinou que assim fosse. Ogum autorizou. Obatalá é o dono da minha casa - meu ilê. Exu, o compadre, mora na minha varanda, vive na minha esquina e me acompanha nas cervejas e batuques; ele bate comigo as palmas ritmadas no compasso do partido alto. É dele, sempre será dele, Exu Odara, o senhor da alegria, o primeiro gole de cada entardecer da minha vida".

Aqueles que verdadeiramente cultuam orixás devem exercer a tolerância plena - a própria estrutura da religião impõe isso. Eu sou um filho de Ogum que convivo com filhos de Exu, Odé, Osain, Omolu, Oxumare, Ibeji, Xangô, Oxum, Logum, Oya, Iemanjá, Nanã, Euá, Obá, Obatalá, Olokum, e por aí vai. Sou um sujeito que tenho apenas um odu entre 256 possíveis - convivo com gente dos outros 255. É por isso que Babá Pierre Fatumbi Verger dizia que nós temos que exercer a capacidade de respeitar as diferenças porque sabemos que os homens são diferentes - cada um com seu orixá, seu odu, seu ori.

Isso fica muito claro, e aqui vou dar apenas um exemplo, quando se sabe (e isso é de conhecimento geral mesmo) que professamos uma religião que não condena de forma alguma a opção sexual de quem quer que seja. Não podemos concordar com declarações como a do Papa Bento XVI, que no final do ano passado comparou o homossexualismo à destruição da Amazônia como flagelos da humanidade.

É nesse sentido, como praticantes de um credo não evangelizador, que acho que os adeptos das religiões afro-brasileiras devem se inserir no debate intra-religioso e contribuir para o diálogo fecundo entre as diferenças. A simples lembrança de que nossos orixás atravessaram o Atlântico nos porões dos tumbeiros é suficiente para que mantenhamos essa perspectiva.

Não queremos converter, não queremos ser convertidos. Acreditamos apenas que Olorum, em Sua sabedoria, revelou-se a cada povo trajando a roupa que lhe pareceu mais conveniente para que os homens o reconhecessem.

Eu conheci e reconheci meu Deus, por exemplo, enquanto Ele dançava, misterioso, no ritmo do vento que balançava as folhas sagradas do mariô.

Olorum Modupé

14/01/2009

NÃO ME OFEREÇAM - O ORIXÁ VETOU

Uma das perguntas mais frequentes que fazem a um iniciado na lei do santo (expressão corriqueira para se referir a um adepto da religião dos orixás) é sobre os seus ewos ou quizilas e como lidar com elas. Serei mais claro. Ewos são restrições que envolvem comidas, bebidas, uso de cores ou atividades que por alguma razão são vetadas aos praticantes do culto.

Há algumas restrições genéricas. Os iniciados de Obatalá, por exemplo, evitam utilizar a cor vermelha, tomar bebidas destiladas e ingerir comidas feitas com azeite de dendê - restrições observadas a partir de uma série de mitos primordiais sobre o grande orixá que apontam esses elementos como prejudiciais à manutenção do axé (a energia vital ) de seus iniciados. Aliás, os filhos de Oxalá sofrem. Babá adora uma restrição - e eu, casado com uma feita de Oxaguian, sei disso muito bem.

Eu até cumpro alguns ewós genéricos de Ogum (orixá para o qual fui iniciado) e de Orunmilá (sou sacerdote de Ifá) - muito mais por respeito à tradição do que propriamente pela crença, tenho que confessar.

Outros ewos, e esses me parecem muito mais sérios que os genéricos, são individuais e só podem ser determinados através do conhecimento oracular. A partir do conhecimento do odu pessoal (uma espécie de signo) e do orixá de cabeça - e do cruzamento entre orixá e odu - o oráculo determina o que é que lhe faz bem e o que deve ser evitado, até mesmo para a preservação da saúde e da vida. A planta que te mata (veneno) é a que me cura (remédio), já ensinou Osain, o poderoso curandeiro das folhas.

Mas esse texto não tem finalidade litúrgica. Para isso, tenho outro blog, que já indiquei nesse espaço. Quero apenas dizer como é complicado, e vez por outra é até engraçado, lidar com essas restrições.

Eu, por exemplo, sou macumbeiro assumido. Não escondo minha crença, ando constantemente com meus fios de contas, tenho assentamentos em casa e o escambau. Admito que para isso tenho uma grande facilidade - venho de uma família de iniciados no babado, filho e neto de gente feita no santo.

Cumpro três restrições sistemáticas - não como aipim, não como polvo e não ando de barco em mar aberto nem debaixo de cacete. É bom que os amigos saibam disso. Em mais de uma ocasião me vi metido em almoços cujo prato principal era arroz de polvo e o anfitrião não tinha nenhuma relação com a curimba. Argumentar, nesse caso, que não posso comer porque é restrição de santo sempre funciona. As pessoas compreendem, ou por respeito ou por medo.

Entrar num barco é inegociável - não me convidem, para o meu bem e para o bem de todos os que embarcarão. É pedir para dar merda - a não ser que, como na música do falecido em vida Fagner, você queira ser um peixe. Desconfio que no Titanic tinha alguém do meu odu dando umas voltas. E mais não digo.

Aipim é fatal - na única vez em que banquei o valente e caí dentro, vomitei feito um moribundo um dia e uma noite.

Mas os que de fato sofrem com isso são os que eu chamo de iaôs clandestinos - os que fazem santo escondidos da família, de alguns amigos e de colegas de trabalho. Conheço vários. São aqueles que, subitamente, reaparecem das férias vestidos de branco e de cabeça raspada, são obrigados a inventar os maiores absurdos para justificar o novo visual e ainda correm o risco de ser interpelados por pentecostais doidos que resolvem exorcizar o iaozinho no meio da rua. É barra. Estes, os clandestinos, não raro não tem como cumprir com rigor certos preceitos.

É por isso que defendo veementemente que nós, os abians, iaôs, ogãs, ebomis, adotemos cada vez mais a postura política e religiosa de assumir nossas condições e exigir o cumprimento da Constituição Federal no que se refere ao pleno direito de exercer a liberdade de culto. No início pode ser complicadíssimo - chiliques familiares e olhares enviesados no trabalho são comuns - mas aos poucos isso passa. A atitude altaneira é a melhor forma de combater o preconceito e cumprir as restrições em paz.

Ficam, então, publicamente avisados os amigos de Oropa, França e Bahia. Convidem-me até para comer a buchada de bode que quase matou o presidente FHC durante a campanha que eu encaro, mas poupem-me daquela receita magnífica de polvo ao vinagrete, do bobó de camarão repleto de aipim e do convite para fazer um passeio de saveiro em busca de praias paradisíacas. Da mesma forma, não presenteiem minha mulher com peças de roupas vermelhas ou pretas, nem preparem para ela aquele vatapá malandro ou o acarajé dos sonhos. Garrafa de cachaça pode. Ela não toma, mas eu caio dentro com a maior dignidade. O que não queremos -o casal-é fazer desfeita.

Macumbeiros de todo mundo, uni-vos.

Abraços.

13/01/2009

RAPIDINHAS DO DIA E UM SAMBA DE RODA, QUE NINGUÉM É DE FERRO

Quando imagino que nada mais pode me surpreender nesse mundo velho, quedo-me basbaque com uma notícia impactante: leio hoje nos jornais que o astro pop Elton Jonh, que fará show no Rio de Janeiro às vésperas do dia de São Sebastião, exigiu que seu camarim tenha cinco rosas vermelhas e duas brancas. Parágrafo para contar o mais impressionante.
O detalhe fabuloso : as rosas tem que ser sem folhas e os cabos devem medir exatamente 112 milímetros. Se a medida não for exata, o cantor promete dar chilique e fazer o show com tremenda má vontade. Elton vem, em seu estafe pessoal, com um camarada designado apenas para fazer a medição dos cabos das rosas.
A produção não revelou o que Elton Jonh fará com os cabos de 112 milímetros após o espetáculo. Acho, particularmente, os cabos muito pequenos para o histórico do cantor.
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Enquanto isso, comunico aos amigos - para que compreendam qualquer alteração de humor que me acometa - que minha vizinha de porta comprou a trilogia de cds do padre Fábio de Mello, novo astro da música carismática católica. Padre Fábio vem formar com Marcelo Rossi (o que imita elefante e canguru no altar ) e com o Padre Antônio Maria ( famoso por ter oficializado o casamento entre Ronaldo Fenômeno e Daniela Cicarelli no Castelo de Chantilly ) o trio de sacerdotes cantores que, seguindo os rastros do velho Padre Zezinho, carcterizam-se como evangelizadores pops e arrastam multidões aos seus espetáculos.
Se considerarmos que essa minha vizinha tem um poodle chamado Wilbor, a trilha sonora não me surpreende.
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(Acho que eu só assistiria a um show desses padres cantores se fosse colocado numa espécie de escolha de Sofia. Imagino o pânico que tomaria conta de mim se alguém me obrigasse a fazer a opção entre um show de um padre desses e uma peça de teatro sobre o roqueiro Renato Russo. Martirizado, confesso que lançaria meu olhar antropológico sobre a pop-arte-sacerdotal e ouviria Romaria com lágrimas nos olhos.)
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Ninguém ainda falou sobre isso, mas essa mania dos emergentes brasileiros de realizar cruzeiros marítimos está se tornando mais perigosa que as tentativas portuguesas de dobrar o Cabo das Tormentas no século XV. Só no último mês os jornais noticiaram bacanais em alto mar, morte por excesso de álcool, ataque cardíaco a bordo, venda de bilhetes falsos e o escambau. Se tudo der certo, como dizia meu avô, vai dar merda maior em breve.
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Aviso aos navegantes que a possível presença de José Sarney na presidência do Senado (ele que foi o pior presidente da história do Brasil ) com apoio do governo federal, será tomada por esse escriba como ofensa pessoal. Não há argumentos de conveniência política que me convençam do contrário.
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No mais, deixo os senhores, para melhorar um pouco o clima, com a cantora que vem me dando um certo alento nesses dias em que ando com a impressão - conforme escreveu em belíssimo texto n´O Globo de domingo o meu amigo e parceiro Alberto Mussa - que cem mil anos de história são suficientes para que desconfiemos que a humanidade deu errado. Ouçam, clicando aqui, a fabulosa Mariene de Castro (Tiago Prata acha que a baianinha é a melhor e mais bonita cantora do país) cantando Ilha de Maré. Melhora o humor de qualquer cristão. A moça canta pra diabo e samba de roda é uma das coisas que me fazem achar que ainda vale muito a pena ficar por essas bandas, tomando umas geladas com os camaradas do peito.

Abraços

12/01/2009

DAS TREVAS AO SOL, UMA ODISSÉIA DOS CARAJÁS

(Uma história que deveria ser contada e um samba que deveria ser ensinado nas escolas, às crianças do Brasil)

No início dos tempos, os índios Carajás viviam no furo de uma pedra de rio , ao lado de seus parentes, os Javaés e os Xambioás. Conheciam a eternidade e só morriam, velhíssimos, quando ficavam cansados da vida - por opção, portanto.

Um dia foram seduzidos pelo canto de uma siriema que, de fora do furo da pedra, começou a falar das coisas da terra. Curiosos, alguns índios resolveram conhecer os mistérios do mundo em que a siriema viva. Quando atravessavam o furo, um índio mais gordinho, exatamente o que sugerira a expedição, entalou e não conseguiu passar. Os demais sairam pelo mundo.

Encontraram uma terra repleta de folhas, frutas, peixes e animais, mas mergulhada na mais absoluta escuridão. Lembraram do companheiro entalado e resolveram lhe levar frutas e um galho seco para tirá-lo do buraco.

Ao ver o galho seco, o índio entalado alertou que os companheiros estavam indo para um lugar onde as coisas envelheciam e morriam. Desiludido, alertou aos demais e resolveu voltar para dentro da pedra. Alguns o acompanharam e nunca mais foram vistos. Os outros iniciaram a peregrinação.

Um jovem índio - Kanaxivue - começou a percorrer, ao lado da amada Mareicó, a terra escura, em busca de alimentos. Mareicó, no escuro, feriu a mão nos espinhos de uma flor e desistiu da tarefa. Kanaxivue prosseguiu. Sem enxergar quase nada, acabou comendo mandioca brava. Deitou-se passando mal. De imediato vários urubus começaram a dar voltas em torno de seu corpo. Discutiam se o índio estava morto ou não.

Na dúvida, convocaram o urubu-rei, o mais sábio de todos. A ave pousou na barriga de Kanaxivue para verificar se o jovem de fato morrera. O carajá recuperou o sopro da vida, pegou o urubu-rei pelas pernas e não o soltou nem a pau. Exigiu, para libertá-lo, os enfeites mais belos.

O urubu-rei trouxe as estrelas.

O índio não se contentou, achou que o mundo onde os carajás viveriam continuava escuro pacas e exigiu outro enfeite.

O urubu-rei trouxe a lua cheia.

O índio ainda achou a terra muito escura. Exigiu mais um enfeite.

O urubu-rei trouxe o sol. A noite foi embora e surgiu o dia. Kanaxivue gostou.

O urubu-rei ensinou ao índio e a sua amada Mareicó a utilidade de todas as coisas do mundo. Agradecido, Kanaxivue libertou o flamenguista. Esqueceu-se, porém, de perguntar qual era o segredo da vida eterna e da harmonia entre os homens, os bichos, as pedras, os peixes e as árvores. Gritou a pergunta e o urubu-rei, em pleno vôo, respondeu. As árvores, os bichos, os rios e as pedras escutaram a resposta. O índio não conseguiu ouvir nadica de nada.

Por Kanaxivue não ter escutado a última lição do urubu-rei, os homens, desde então, envelhecem e morrem. O gordinho e os que ficaram no fundo da pedra continuam vivinhos da silva. Não morreram, mas também não conheceram os enfeites belíssimos que o urubu-rei legou aos homens.

Hoje, com a natureza sendo destruída, a fome e a guerra campeando pelo mundo, o povo Carajá sonha com a tranquilidade da vida sem males e sem a morte, mas não sabe mais como encontrar a pedra original , perdida em algum lugar debaixo das águas do rio Macaúba.

Quanto a nós, que estamos provisoriamente por aqui, jamais conheceremos a última e mais profunda lição que o urubu-rei deu aos homens. É a miséria da nossa condição.

Em 1979, contando o grande enredo Das trevas ao sol, uma odisséia dos Carajás , a escola de samba Unidos de São Carlos (que posteriormente adotou o nome Estácio de Sá) desfilou com o samba de Elinto Pires e Leleco sobre a odisséia de Kanaxivue - uma mitologia das mais belas e sofisticadas sobre a criação do mundo e, por que não, a condição humana.

Ouçam o samba, de melodia comovente, aqui e acompanhem a letra aqui .

Abraços.

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10/01/2009

O BOTAFOGUENSE É CASO DE HOSPÍCIO

O futebol foi, nos primórdios da introdução do jogo no Brasil, lá pelos idos de mil novecentos e nada, coisa de gente finíssima. Praticado pela fina flor da mocidade, o violento esporte bretão foi encarado pelos sportmen como um duelo entre cavalheiros - pautado pelas regras da cordialidade, da fidalguia e dos valores civilizatórios europeus.

O comportamento da platéia - o termo é esse mesmo - não podia ser marcado pela rivalidade ou passionalismos que superassem o reconhecimento da grandeza do adversário. O resultado era o que menos importava. Fundamental - na vitória ou na derrota - era manter a dignidade de gentis homens em duelo.

Tudo muito bonito, e coisa e tal. Só que ao ler a fundamental e bem documentada tese de doutorado de Leonardo Affonso de Miranda Pereira Footballmania - Uma História Social do Futebol no Rio de Janeiro (a Nova Fronteira publicou e eu recomendo vivamente!) , descubro que em 1907 os doutos apreciadores do ludopédio estavam preocupadíssimos com uma coisa - o comportamento inadequado da torcida do Botafogo, que, segundo jornais da época, começou a torcer de forma exagerada.

O Correio da Manhã, edição de 4 de junho de 1907, lamentava que "sportmen ligados ao Botafogo deixassem de lado a saudação do brilho das disputas para chorar nas arquibancadas a derrota de seu time". A direção do Fluminense fez uma repreensão por escrito ao comportamento dos botafoguenses, que introduziram no Rio de Janeiro, segundo os aristocratas tricolores, a "condenável prática de vaiar jogadores e juízes". Indignada, a direção do pó de arroz lamentava que em certo prélio, um jogador "teria mesmo agredido o juiz, sob a ovação geral dos sócios do Botafogo".

O mesmo Correio da Manhã, de 18 de junho de 1907, relatava cenas lamentáveis de um jogo do Carioca Football Club - um time infantil apadrinhado por sócios do Botafogo. Com fitas pretas e brancas nos chapéus, os botafoguenses - feito doidos de pedra - "torciam de maneira ostensiva e exagerada pelo time protegido, vaiando os adversários mesmo quando esses estavam machucados e invandindo o campo para comemorar os feitos do Carioca", em comportamento jamais presenciado nos gramados brasileiros.

O Correio se recusou a acreditar que tal furdunço fosse estimulado pelos sócios do Botafogo "tal o elevado conceito em que é tido este simpático club". No dia seguinte, porém, os botafoguenses assumiram os atos cometidos, atribuindo-os ao entusiamo pelo clube.

A própria Liga Metropolitana de Futebol mostrou-se preocupada com os exageros botafoguenses. A Gazeta de Notícias, que considerava o Fluminense o "club chic" por excelência, manifestou repudio aos atos tresloucados de torcedores do Botafogo, que chegavam mesmo a apupar senhoritas presentes aos estádios. Chocadas com a algazarra dos botafoguenses, as moças abanavam-se sem parar, abrindo seus leques franceses e ameaçando toda sorte de desmaios e faniquitos contra os deselegantes alvinegros.

Não vou tecer considerações de ordem sociológica sobre o perfil dos torcedores dos clubes de futebol - Claudia Mattos fez isso no ótimo Cem Anos de Paixão, já comentado e recomendado aqui no Histórias. É interessante apenas constatar que os futebolistas, naqueles anos pioneiros do jogo em nossas terras, ressaltaram a surpreendente passionalidade que marcou a relação da torcida do Botafogo com o clube. Foram, os botafoguenses, considerados por um crônista d´O Malho, mais talhados para encher hospícios que frequentar partidas de futebol . Há um certo exagero aí, mas...

Abraços.

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09/01/2009

AO PESSOAL DA CURIMBA

Amigos, vou incrementar nesse novo ano meu outro blog, sobre religões afro-brasileiras - que estava parado desde setembro. Já postei dois textos em 2009 e prometo ser um pouquinho mais assíduo, com a permissão de Orunmila, dos orixás, caboclos e encantados do Brasil. Aos interessados nos temas, basta clicar aqui.
Axé!

O SABER POÉTICO DA LITERATURA DE CORDEL - EM CIMA DA HORA, 1973

Em 1973, com samba de autoria do Baianinho, a querida Em Cima da Hora desfilou com o tremendo enredo "O saber poético da literatura de cordel". Samba lindo, com referências ao ciclo do gado, ao romance do pavão mysterioso ( o picilone voltou!) , ao ciclo do padre Cícero Romão, ao conto do boi mandingueiro, aos versadores de desafios de viola e por aí vai. Puxando o samba, o fabuloso Nei Vianna, As Gatas e o Conjunto Nosso Samba. Para preparar um fim de semana porreta, postei na rede essa maravilha de 35 anos. Ouçam aqui.
Abraços brasileiríssimos.

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08/01/2009

IMPÉRIO DA TIJUCA - 1971

A Império da Tijuca, gloriosa escola de samba do Morro da Formiga, reeditará este ano o belíssimo samba sobre o Mestre Vitalino, artista popular da maior qualidade. Não acho, porém, que este seja o maior samba da história do Imperinho. Para mim, o grande samba da verde e branco tijucana é o Misticismo da África ao Brasil (1971) , de autoria de Marinho da Muda, João Galvão e Wilmar Costa. Postei a rara gravação original aqui, com o imenso Marinho da Muda cantando.
Esse samba vai em homenagem ao grande Xangô da Mangueira, preto velho mandingueiro que foi oló ontem. Que a Aruanda receba o mestre com alegria !
Axé

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FLORA, D. PEDRO I, D. PEDRO II E ÁTILA, O HUNO

Recebo, pelo msn, instigante apelo de uma ex-aluna. Quer saber, a jovem, minha opinião sobre a Flora da novela A Favorita. Não acompanho a novela, mas me mantenho informado sobre a trama através do meu dileto amigo Eduardo Goldenberg, que não perde um capítulo e já sabe até o final da história. Segue abaixo a resposta.

As aparências enganam, ensina a manjada sabedoria popular. Quem vê cara não vê coração, diriam outros adeptos desses lugares comuns. O troço vale, por exemplo, quando conhecemos algumas curiosidades sobre personagens históricos consagrados. Os figurões tinham, em geral, imagens que não condiziam propriamente com seus temperamentos. Penso, enquanto escrevo isso, nos dois Pedros que governaram o Brasil.

Pedro I era um sujeito feio, daqueles que aparentemente não merecem crédito do sexo oposto e não comem ninguém. Tinha o rosto repleto de espinhas, daquelas pustulentas e serosas. Sofria dos nervos, dava chiliques com alguma freqüência e era violento pacas. Não obstante, era varão assinalado dos bons, com fama de matador. De estatura mediana, dono de uma voz impressionante, fazia sucesso avassalador com as senhoras e senhoritas do Império.

Não usava talheres, que considerava hábito desnecessário e coisa de mulheres e frescos. Comia com as mãos mesmo - e raramente as lavava - além de arrotar e emitir com constância e alegria gases pelo ânus (o Marquês de Monte Alegre, impressionadíssimo, dizia que essas grossuras do Imperador geravam verdadeiro frisson entre as mais requintadas senhoras da Corte).

Um dos mistérios sobre o homem é quanto ao número de filhos que ajudou a colocar nesse mundo. Com Leopoldina (a primeira mulher) teve sete crianças. Com Amélia Augusta (a segunda) teve apenas uma filhota. A Marquesa de Santos (a primeira amante, digamos assim) pariu quatro rebentos. Clemência Saisset (caso passageiro) teve um filho do machão e a Baronesa de Sorocaba (rápido flerte) teve mais um garoto reconhecido pelo português. Estes todos D. Pedro I registrou. Biógrafos atribuem a Sua Majestade mais quatro filhos ilegítimos. O homem era, portanto, uma espécie de reprodutor. O termo garanhão se aplica com tremenda propriedade.

Já D. Pedro II, com pinta de galã de romances para moças, loiríssimo, olhos claros, um e noventa de altura, era meio que devagar quase parando. Sofria horrores com um problema – não mudou de voz. Com trinta e tantos anos continuava falando com o mesmo timbre que tinha ao completar onze primaveras. Um camarada imenso como ele, o homem mais alto do Império segundo alguns bajuladores, quando abria a boca falava fino como se recém saído das fraldas. Isso inibia tremendamente o contato do Imperador com as damas da Corte.

Houve lamentável episódio em que Sua Alteza realizou vigoroso discurso de exortação aos Voluntários da Pátria que foram combater na Guerra do Paraguai. No que abriu a boca e mandou um “valorosos soldados brasileiros“ a tropa desabou em memorável gargalhada. Alguns acharam que D. Pedro estava de sacanagem, falando com aquela voz de Poliana, a moça.

Teve, o segundo Pedro, vida sentimental das mais recatadas, cultivando estável casamento com Teresa Cristina (horrorosa, por sinal) e mantendo um caso discreto e meio platônico com a Condessa de Barral. Sabemos da admiração e amizade que o Imperador e a Condessa nutriam um pelo outro. Não há, porém, registros de que a coisa tenha chegado aos finalmentes. A onça, ali, provavelmente rondou a fonte mas não bebeu água.

É curioso. Escrevi essas mal traçadas sobre os Imperadores do Brasil, mas me ocorre agora que deveria ter escrito – com esse mote das aparências enganam e refletindo sobre a Flora – a respeito de Átila, o Huno. Vou gastar os adjetivos. O furioso guerreiro, homem cruel, conquistador impiedoso, amante sedutor e insaciável, capaz de fazer um visigodo parecer tão pacífico quanto um Mahatma Gandhi, media impressionantes 1, 06 de altura. Escreverei por extenso para não gerar dúvidas – Átila, o Huno, o verdugo implacável de Roma, tinha um metro e seis. Era apenas um pouco mais alto que Nelson Ned - o prejudicado vertical mais famoso do Brasil.

Esqueçam o politicamente correto. Imaginem os amigos qual era o apelido que Átila tinha. Anão de jardim, tampinha, meio quilo, salva-vidas de aquário, leão de chácara de baile infantil, goleiro de futebol de botão ou pintor de roda-pé ? Nenhum desses aí. Átila, o Huno, do alto de seus 106 centímetros, ficou conhecido pela alcunha de "flagelo de Deus".

Era isso que eu tinha a dizer sobra a novela das nove e a psicopata com o rosto angelical de Patrícia Pilar.

Abraços.