PRA FRENTE BRASIL, COM O MEU VELOTROL
Acordei com a disposição de escrever uma daquelas confissões que só cogitava fazer depois de morto, usando como aparelho uma médium de mesa branca. Admito que a coisa é impactante: tenho particulares saudades do período do milagre econômico brasileiro, na década de 1970.
Antes que me acusem de conivência com os desmandos do regime militar, já que tem maluco de tudo quanto é jeito na rede, esclareço a razão de minha afetuosa relação com aqueles tempos - graças ao milagre minha família teve condições de me presentear com o meu primeiro e inesquecível veículo: um velotrol de última geração. É isso: devo ao Brasil Grande do presidente Médici o meu velotrol - e o primeiro velotrol, camaradas, é que nem a primeira bronha; ninguém esquece.
Foi com ele, o meu valente Rocinante de pedais, que sonhei atravessar a ponte Rio-Niterói. Nem a pororoca amazônica seria páreo para meu possante vermelho e amarelo com encosto móvel. Para completar o quadro, ganhei de aniversário imensos óculos escuros iguais aos do Emerson Fittipaldi, um capacete com meu nome e um macacão verde de piloto.
O velotrol estava presente, inclusive, em meus devaneios sentimentais. Era com ele que eu pretendia fugir com minha primeira paixão - a mocinha do Tivoli Parque que se transformava na Konga, a mulher gorila. Quando a mocinha - vestida com um sensual maiô cheio de lantejoulas douradas - fechava os olhos para virar a macaca, meu bilau ensaiava um crescimento similar ao dos índices da economia brasileira. Imaginei um dia colocá-la na garupa do velotrol e me empirulitar pela Transamazônica, para que ela só virasse a Konga para mim e mais ninguém.
Entre os sonhos românticos com a mulher-macaca e a vida de piloto de velocidade, a minha infância corria feliz. Enquanto João Nogueira louvava o mar das duzentas milhas, Zé Ketti fazia samba para o Mobral, Jorge Ben louvava o país abençoado por Deus, Benito di Paula mostrava ao Charlie Browm as maravilhas da Bahia de Caetano e a Beija Flor desfilava com um samba de exaltação ao milagre, eu acreditava mesmo que ninguém segura a juventude do Brasil, ainda mais a bordo de um velotrol mais rápido que o Concorde.
E a Apolo 11? E o homem chegando à lua? Não me lembro de nada disso e sou mais o meu velotrol - até porque o Pelé, no jogo contra a Tchecoslovaquia pela Copa de 70, recebeu um lançamento primoroso do Gerson, subiu mais alto que a nave do gringos, matou a bola no peito, trocou de pé e fuzilou o goleiro Victor. Eu, que tinha dois anos e meio quando papamos o tri, tive ali o alumbramento da existência de Deus - e desde então ninguém me convence que aquele trambolho sem graça da Nasa subiu mais que o crioulo na grande área.
É isso, meus caros, que em verdade confesso, poupando o trabalho dos médiuns que um dia irão me psicografar diretamente do beleléu: o meu velotrol era mesmo o maior e continuo achando que Deus é crioulo, ponta de lança, tem uma impulsão dos diabos e joga com a dez. Ah! e o samba da Beija Flor, que embalou minhas viagens imaginadas pelos sertões canarinhos, pode ser escutado aqui .
Brasil-sil-sil !
Marcadores: confissões, sambas-enredo

6 Comentários:
Ah ... fala sério Simas, aquela mulher que se transformava na Conga era muito ruim !! (muito risos). Deve ser o fetiche dos paetês !!!!
Ótimo! Também tive um Velotrol vermelho e amarelo inesquecível.
Muito bom !!!!
Meu neto esteve aqui em casa .
Deixou seu blog entre os favoritos.
Ele já foi .... que menino inteligente!! sabe o que ler ... e ainda deixa para a vovó...
Gostei, mas gostei muito do que li.
Vou colocar seu blog, entre os que acompanho no meu blog:
http://colagemcomarte.blogspot.com/
Muito prazer, vou estar sempre aqui.
Um abraço ...
Solange
Ótimo! Eu também tive um Veloltrol verde com o qual passeava na São Francisco Xavier 84. Inesquecível.
eu tive um Tico-tico vermelho! (sou do tempo em que se tinha tico-tico...)Tal como meu carro de hoje, não me era permitido andar muito rápido nem ir muito longe. congestionamentos? Não. Minha mãe, aquela censora! ;)
Bemoreira, o meu velotrol, com que eu passeava na Praça Joanópolis, no Sumaré, TAMBÉM era vermelho e amarelo... Não fosse o depoimento do Galo aí em cima, e eu firmaria convicção de que só existiram velotróis (?) vermelhos e amarelos...
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