O CHOQUE DE ORDEM E AS LARANJAS DA SABINA

Ainda não escrevi coisa nenhuma sobre o choque de ordem com o qual a prefeitura do Rio de Janeiro resolveu eletrocultar, ou melhor, disciplinar as ruas da cidade. Hoje vou dar meu pitaco nessa questão.
Reconheço que é necessário impor restrições à bandalheira pública, mas às vezes me parece que algumas ações dos homens da lei caberiam melhor em um regulamento de um daqueles hospitais para o tratamento da tuberculose que existiam em Campos do Jordão, na década de 1930.
Alguns agentes municipais em ação lembram muito o subdelegado que expulsou a Sabina das Laranjas da porta da antiga Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, nos tempos do Império.
Terminei esse pequeno parágrafo acima e desisti de escrever diretamente sobre o tal choque de ordem. Farei melhor: vou contar como foi o forrobodó da revolta das laranjas de antanho. Ao caso.
Sabina era uma quitandeira famosa, provavelmente ex-escrava, que trabalhava nas ruas do Rio de Janeiro nos idos de 1889, ano em que a Monarquia foi pro beleléu e o Brasil virou República, no golpe de 15 de novembro.
Pouco antes da queda de D. Pedro II, mais precisamente em julho, os estudantes de medicina, republicanos até os ossos e principais clientes das laranjas Sabina, resolveram alvejar com as frutas do tabuleiro da vendedora a carruagem do Visconde de Ouro Preto, figura imponente do Império, que cruzou à frente da escola.
Na manhã seguinte, o subdelegado da região chegou com uns meganhas e, aos berros, expulsou Sabina do ponto, além de apreender seu tabuleiro e levar as laranjas sabe Deus pra onde.
Os jovens clientes de Sabina resolveram, então, armar um furdunço pacífico. Percorreram o centro da cidade com laranjas espetadas em bengalas e receberam impressionante adesão da população carioca. A marcha era precedida por um estandarte com uma coroa feita com bananas e leguminosas e uma faixa em homenagem ao homem da lei: Ao exterminador das laranjas.
Em pouco tempo, as ruas do centro estavam tomadas por uma passeata repleta de laranjas, bananas, maçãs e hortifrutigranjeiros em geral. Fez-se um carnaval fora de época nas esquinas do Rio. Os rebeldes saíram do Largo da Misericórdia, percorreram a Primeiro de Março e, ao entrar na Rua do Ouvidor, saudaram as redações dos principais jornais cariocas e receberam mais adesões e vivas entusiasmados.
Diante da reação popular causada pela remoção da quitandeira mais famosa da cidade, o subdelegado pediu demissão e a chefatura de policia permitiu que a quitanda de rua voltasse a funcionar no mesmo local.
A história de Sabina virou lenda - uns dizem até que a punida não foi ela, mas uma outra vendedora de sua quitanda, de nome Geralda. Não importa - Sabina estava imortalizada pela cultura das ruas cariocas.
Em 1890, logo depois da queda do Império, os irmãos Arthur e Aluísio Azevedo popularizaram Sabina na revista teatral A República. O curioso - e revelador de uma época em que o racismo era explícito e quase não havia atrizes negras - é que a artista que representou Sabina no teatro era uma grega, tremenda branca azeda, chamada Ana Menarezzi.
A canção As Laranjas de Sabina, composta para o espetáculo dos Azevedo, acabou sendo, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, uma das primeiras em que a expressão mulata apareceu na história da música brasileira. Eis o trechinho garboso:
Os rapazes arranjaram
Uma grande passeata
Deste modo provaram
Quanto gostam da mulata, ai...
É isso por hoje. E o choque de ordem atual da prefeitura? No fundo só falei sobre ele, ora bolas ! É que as laranjas da Sabina acabaram dominando o texto e eu não sou de contrariar esses rumos que a prosa de vez em quando cisma de tomar.
Abraços
Marcadores: laranjas da sabina

3 Comentários:
História excelente! Quem sabe não poderia inspirar a população do Rio, munida de queijo coalho, churrasquinho misto, biscoito Globo e aviãozinho a fazer um carnaval fora de época nas imediações do Piranhão...
O caso da quitandeira é choque de ordem purinho. Mais fácil acabar com a venda de laranjas do que punir os futuros doutores que as atiraram; mais cômodo proibir o consumo de cerveja no Maracanã do que prender integrante de torcida organizado alcoolizado... e assim vai.
Daqui a pouco vai se proibir a circulação de dinheiro pra evitar o roubo.
E vai ter gente achando bonito.
Boa.
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