12/09/2009

A FEITICEIRA DE ARAXÁ - O SAMBA E A CAVALGADA


Ao longo da vida sofri alguns impactos que moldaram minha personalidade de maneira irreversível. Dois desses momentos ocorreram por culpa da mineira Ana Jacinta de São José, mais conhecida como Dona Beja [prefiro o nome sem o i] , a feiticeira de Araxá, famosa cortesã do início do século XIX.

O primeiro deles é um impacto visual; a cena em que Maitê Proença - em forma esplendorosa - cavalga pelada pelas ruas de Araxá, na novela da Rede Manchete sobre a cortesã. Lá se vão vinte e poucos anos e posso lhes assegurar do seguinte: não me recuperei até hoje do abalo emocional que sofri quando Beja tirou a capa, montou no cavalo branco e começou seu passeio. É uma imagem que me assombra diariamente.

Ainda me recordo que esse capítulo da novela marcou época; foi a primeira vez desde Pero Vaz de Caminha que a Rede Globo perdeu a batalha pela audiência em horário nobre. A Globo exibiu o programa dos falecidos Chico e Caetano, enquanto a Manchete investiu no passeio noturno da dona do lupanar mais famoso do Brasil, a Chácara de Jatobá. Eu optei, é claro, pela novela e assisti ao capítulo inteiro de joelhos, com lágrimas nos olhos.

Ouso dizer que naquele momento, quando Beja cavalgou feito Lady Godiva, vivi algo parecido com a epifania de São Paulo na estrada de Damasco e tomei a decisão de estudar a História do Brasil pelo resto dos meus dias. É isso - foi a cavalgada de Beja-Maitê que definiu minha profissão. A junção entre duas paixões absolutas que tenho, História e mulher pelada, se estabeleceu ali de forma irresistível.

O outro choque ligado à cortesã foi auditivo - me refiro ao momento em que escutei o samba do Salgueiro de 1968, Dona Beja - Feiticeira de Araxá , de Didi - tio do meu parceiro Beto Mussa - e Aurinho, na voz do imortal Jamelão. O mínimo que posso dizer é que aos meus ouvidos infantis [ouvi a gravação aos oito anos de idade] o samba soou como o Cântico dos Cânticos. Fiquei, e há testemunhas, duas horas e meia paralisado e tive um febrão.

Dona Beja disputa com Chico Rei o título de meu samba predileto do Salgueiro. Minto. Disputava - acabei de decidir que prefiro Dona Beja. A gravação do mangueirense Jamelão é - estou convencido - simplesmente a maior interpretação de um samba de enredo que já escutei. A melodia é bonita pra burro, e o grande Jamela sabe exatamente o que está cantando, valorizando cada palavra do hino salgueirense. Nunca escutei essa gravação impunemente; ela me emociona hoje exatamente como me deslumbrou da primeira vez.

Maitê Proença cavalgando nua e Jamelão cantando Dona Beja são momentos rigorosamente decisivos no processo de formação do meu caráter - eis a confissão que faço agora, me antecipando ao médium que um dia irá me psicografar diretamente do beleléu.

Coloquei a monumental gravação do samba salgueirense aqui. A cena da cavalgada é essa:



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8 Comentários:

Blogger Hans disse...

O balanco do trote da cavalgadura transmitido aos seios impecáveis de Maitê merece realmente destaque e lugar no panteão da TV brasileira.

Hare Baba

8:16 PM  
Blogger alberto disse...

sem comentários

8:39 PM  
Blogger Arthur Tirone disse...

Maitê Proença é, desde essa cavalgada, minha musa maior. A mulher que desperta mais ciúmes na Milena.

9:28 AM  
Blogger Qual delas? disse...

Simas,

Não encontrei menção que Aurinho tivesse parceiro neste maravilhoso samba.

11:41 AM  
Blogger Daniel Banho disse...

Glória a deus...

12:50 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

QUAL DELAS, o samba é de Aurinho e Didi. Acontece que, nessa época, Didi - então procurador da República - não assinava os sambas, que vinham só com o nome de Aurinho. A dupla fez quatro sambas para o Salgueiro no final dos anos 60 e ganhou em duas ocasiões, com Dona Beja e História da Liberdade no Brasil. O sobrinho de Didi, meu amigo Beto Mussa, escreveu sobre os sambas assinados e não assinados do tio no belo texto Didi, o mito, que você pode consultar no seguinte endereço: uhttp://saideira.galeriadosamba.com.br/
Abraço

3:58 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Simas e Favela, comigo foi o mesmo impacto. Lembro bem desse capítulo, o da cavalgada; assim como lembro de um monumental banho em alguma cachoeira. Foi a primeira – inesquecível – visão de uma musa.

Abs.,

Daniel A.

8:49 PM  
Blogger Fernando disse...

Rapá, tomemos um chope. Até porque não entraremos mais naquela roubada de fazer samba pro Imprensa.

Abraços.

12:03 AM  

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