23/09/2009

OS ALMOFADINHAS


O meu mano Eduardo Goldenberg escreveu em seu buteco virtual, dia desses, sobre um inusitado processo judicial em que foi réu [leiam o relato sobre o furdunço aqui ] . Assim que terminei de ler o texto do Edu, me recordei do concurso de bordados em almofadas que marcou o Brasil nos tempos do café-com-leite.

Corria o ano de 1919, meses após o final da Grande Guerra. Um concurso esquisito mobilizou a cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro: "rapazes elegantes e efeminados" se reuniram para definir quem era o melhor na arte de bordar e pintar almofadas trazidas da Europa especialmente para a ocasião.

Antes que alguém se ofenda com o efeminados do segundo parágrafo, aviso logo que a expressão não é minha - foi assim que o escritor R. Magalhães Jr. , um tremendo conhecedor das coisas daquele tempo e biógrafo de João do Rio, se referiu aos participantes do concurso.

R. Magalhães Jr. explica, inclusive, que esse certame deu origem à expressão almofadinha, para designar os tipos afetados, cheios de salamaleques e não-me-toques, nos tempos da República Velha. Outra versão diz que o termo deriva dos bancos de madeira dos bondes cariocas, que causavam transtornos aos bumbuns mais sensíveis e obrigavam seus donos a levar almofadas para se sentarem com o mínimo de conforto. Gosto das duas versões, assim como respeito a Minancora e a Hipoglós.

Voltemos ao campeonato de almofadinhas bordadas. A disputa entre os mancebos foi acirrada - há relatos de que dois concorrentes deram chiliques, tiveram queda de pressão e desmaiaram depois do anúncio do resultado. Meninas prendadas acompanhavam atentas o desempenho dos varões não tão assinalados.

Quem não gostou coisa nenhuma da contenda e dos faniquitos rapazolas foi Lima Barreto. O escritor vociferou contra os participantes do concurso em uma de suas crônicas mais famosas. Cito o grande Lima:

Foi à custa deste esforço e desta abnegação dos pais que esses petroniozinhos de agora obtiveram ócio para bordar vagabundamente almofadinhas em Petrópolis, ao lado de meninas deliqüescentes. Hércules caricatos ao lado de Onfales cloróticas e bobinhas.

Pausa para um esclarecimento das antigas. Já imagino, deste lado da tela, alguns leitores pensando o seguinte: que diabos é isso de Hércules caricatos e Onfales cloróticas? Explico rapidamente.

Diz a mitologia grega que Hércules, em um momento dos menos afortunados de sua trajetória de semideus, foi exilado na Ásia e condenado a viver três anos como escravo. Foi vendido à Rainha Onfales, viúva do Rei da Lídia, Tmolo.

Rolou, evidentemente, um clima de novela do Manoel Carlos entre a Rainha e o filho de Zeus e Alcmena. Onfales resolveu libertar Hércules. O fortão, entretanto, estava apaixonado e preferiu continuar escravo da soberana.

Onfales, que não era mole, pintou e bordou com o semideus. Para mostrar o poder da sedução feminina, se vestia de macho e ordenava que Hércules se vestisse de mulherzinha e ficasse aos seus pés fiando a lã no fuso e na roca.

É isso mesmo - o sujeito que desceu o cacete no terrível Leão de Neméia deu uma de travesti apaixonado, bordando toalhinhas aos pés da Rainha Onfales. Os gregos enxergam nesse mito uma metáfora poderosa do domínio da beleza sobre a força bruta.

Depois desse breve esclarecimento mitológico, volto ao mestre Lima Barreto e proponho rápida reflexão. Imaginem os senhores se as palavras de Lima sobre os bordadores de almofada tivessem sido escritas nos tempos atuais, marcados pela patrulha politicamente correta dos mariolas de plantão - era processo na hora. O autor do Policarpo Quaresma correria o risco de passar seus dias num manicômio judiciário.

Para terminar esse arrazoado, afirmo o seguinte: o imbróglio em que envolveram o Goldenberg e a lembrança do concurso de Petrópolis me fazem tomar impactante e definitiva decisão, em caráter irrevogável [apud Mercadante] - voltarei a utilizar o elegante termo almofadinha quando quiser adjetivar uns tipos que gostam de limpar cocô de galinha com colher de prata e andam se exibindo por aí.

Abraços

Marcadores: ,

4 Comentários:

Blogger Diego Moreira disse...

Lima Barreto é um dos meus maiores orgulhos suburbanos.

9:14 PM  
Anonymous  disse...

Simas, sou uma aluna sua do ph e achei o blog por acaso. muito bom ler as ótimas historias que você conta em sala . Principalmente, de Jânio e Dutra, meus loucos preferidos desse 'bananão'. rs

Parabéns !
Só falta disponibilizar seus videos cantando samba enredos !

um grande abraço

1:48 AM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Simão: e como são tristes os métodos dos quais se valem, hoje, os almofadinhas para defesa de seus pontos de vista, não?

E o Nelson Rodrigues, meu querido, que refere-se, no primeiro capítulo de "Engraçadinha", a um empregado de uma empresa de mudança - negro - como um "King-Kong"?

Estaria frito também.

Tempos de hoje...

2:10 PM  
Anonymous Rodrigo Pian disse...

Professor,

Mais um grande texto.

Agora, Lima Barreto foi um medíocre recalcado.

Passou a vida se remoendo de inveja do Machadão, mestiço que, ao contrário dele, ingressou na ABL.

E é bem verdade (para mim, lógico) que não há a menor chance de comparação entre os dois. Machado de Assis é, de fato, gênio. Lima Barreto, talvez, possa ser considerado bom.

(...)

Ok. Existe, lógico que existe, valor na obra de Lima Barreto.

Mas eu prefiro Paulo Coelho.

Vende mais.

Abraços,

R.Pian

9:04 PM  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Início