11/08/2009

O VINGADOR DO ESTÁDIO CENTENÁRIO [PARA O EDU GOLDENBERG]


Moro nas imediações do estádio Mário Filho, às margens do Rio Maracanã, que forma ao lado do Amazonas e do São Francisco a trinca mais nobre dos rios que cruzam o Brasil. Vou ao estádio, portanto, até para assistir ao casados e solteiros que os garçons de uma churrascaria aqui perto de casa costumam promover no maraca no final do ano.

Ultimamente estava disposto a abandonar as arquibancadas. O motivo fundamental é, quero crer, mais do que justificado - a impossibilidade de tomar uma cerveja durante a partida. Assistir a esses jogos mixurucas do campeonato brasileiro sem o auxílio de umas geladas para rebater é chato pra burro.

Convencido, porém, pela minha mulher, acabei comparecendo ao Flamengo e Corinthians do último domingo. A Candida agora resolveu que vai a todos os jogos do Flamengo com o Edu Goldenberg. Como o Edu não conseguiu ir ao estádio, lá fui eu acompanhando a madame. Gosto de ir a jogos assim, sem torcer para nenhum dos times, com a tranquilidade dos que almejam apenas assistir a uma partida decente.

O jogo foi meio muquirana. O que chamou minha atenção, porém, aconteceu fora das quatro linhas. A torcida do Flamengo, assim como a do Botafogo faz com Nilton Santos e Garrincha, leva bandeiras em homenagem aos ídolos do passado. Bela iniciativa, também realizada pela torcida do Flu [que louva, de forma bacana, torcedores tricolores como Cartola e Chico Buarque]. Vi bandeiras reverenciando Zico, Andrade, Nunes, Rondinelli, Adílio, Lico, Raul, e por aí vai.

Eu sei que não tenho que meter meu bedelho nesse assunto de flamengos, mas como fã de futebol sou obrigado a dizer - a torcida deveria homenagear um ídolo que, no panteão do clube da Gávea, merece estar no mesmo patamar dos citados : Anselmo, o vingador do Estádio Centenário.

Nenhum jogador na história do futebol brasileiro cumpriu com tanta determinação uma função estabelecida por um técnico. Anselmo é daqueles casos raros de um cabra que deveria, pelos serviços prestados ao futebol, ser um patrimônio de todos os admiradores do esporte, como um Pelé, um Garrincha, um Zico, um Paulinho Criciúma ou um Rivellino.

O Flamengo disputava, em 1981, a final da Libertadores da América contra o time chileno do Cobreloa. Após a vitória por 2x1 no primeiro confronto, o urubu foi derrotado por 1x0 no jogo da volta, em Santiago do Chile.

A partida em território chileno foi das mais violentas da história do futebol. Em um campo cercado por carabineiros da ditadura chilena, um zagueiro do Cobreloa, Mário Soto, distribuiu pancadas de fazer corar até o general Pinochet. Dizem testemunhas e relatam jornais da época que Pinochet, nas tribunas, virou-se para um assecla e disse espantado:

- Não está exagerando, o nosso Mario Soto ?

Não satisfeito em praticar artes marciais no gramado, Soto resolveu disputar as jogadas com uma pedra na mão. O resultado: O maior número de supercílios abertos em todos os tempos dentro das quatro linhas. Adílio e Lico sangravam tanto que quase foram obrigados a fazer transfusão de sangue na beira do gramado. A vermelhidão chegou a ofuscar a brancura da cordilheira dos Andes.

A negra do confronto foi disputada em campo neutro - o Estádio Centenário, em Montevidéu. O Mengo definiu o título com dois gols do Galinho de Quintino, o que credenciou o time para disputar a Copa Toyota de 1981. Nada demais, apenas mais um jogo e um troféu, se não fosse pelo que ocorreu no final.

Faltando dois ou três minutos para acabar a partida, o técnico Paulo Cesar Carpegianni chamou Anselmo, o centroavante reserva, e deu a ele a instrução mais rápida da historia do esporte bretão :

- Nem aquece. Entra lá e dá uma porrada no cara.

Com impressionante disciplina tática, Anselmo fez exatamente isso trinta segundos após entrar em campo. O vingador rubro-negro deu um cruzado de direita em Mario Soto e levou o chileno à nocaute. Lembrou, pela técnica e precisão, o soco de Muhammad Ali que derrubou George Foreman na disputa pelo cinturão dos pesados em 1974.

Tenho sobre essa porrada uma tese irrefutável - ali, graças a Anselmo, as ditaduras latino-americanas que assombraram o continente durante a Guerra Fria começaram a desabar. O destino do próprio Pinochet foi selado naquele momento. Não é a toa que, em recente pesquisa publicada na Inglaterra, acadêmicos de renome consideraram que as três quedas mais impactantes da história foram a do Império Romano, a do Muro de Berlim e a de Mario Soto na final da Libertadores.

Anselmo restaurou, naquele golpe certeiro, a dimensão épica que o futebol, como metáfora da vida, deve ter. Relembrar a porrada em Mario Soto nos redime desses mauricinhos politicamente corretos, pastores evangélicos e festeiros infantis que ocupam hoje os gramados.

A diferença entre Anselmo e os Kakás e Ronaldos é a que separa os homens dos meninos. Enquanto o primeiro é um personagem digno de Ilíadas, Sertões e Odisséias, esses fracotes de hoje, quando muito, rendem apenas reportagens de quinta categoria na revista Caras.

Anselmo merece todas as loas.

Abraços

Marcadores:

23 Comentários:

Blogger leo boechat disse...

Sem dúvida! Anselmo é um mártir. Vamos levar essa ideia da bandeira às organizadas.

Fala pra Candida que dia 20/08, quinta, tem Fla x Cruzeiro 21h00. Estaremos lá.

2:57 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Podicrê Simas, estas porras destes evangélicos me deixam puto !
Viva a porrada do Anselmo !

Levi.

3:32 PM  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Texto antológico e gratíssima lembrança esta do Anselmo! Meu pai dizia que aquele soco foi dado por toda a torcida do Flamengo!

Agora, cá entre nós (e com todo respeito): querido, o que Paulinho Criciúma está fazendo entre os patrimônios do futebol brasileiro?

Beijo!

5:02 PM  
Blogger Nelson Borges disse...

Que texto maravilhoso Simas.
Você deve ter se divertido um bocado escrevendo-o. Sensacional.
Parabéns.

5:24 PM  
Anonymous Rodrigo Pian disse...

Sensacional, sensacional!

Mas não se esqueça de um divino(!) soco do Kaká no hermano Kily Gonzalez, em partida a contar pelo derby milânes.

Golpe de importância histórica bem inferior ao do flamenguista Anselmo, de certo, porém, uma prova de que Kaká não é tão insosso assim.

Abraços, Professor!

5:40 PM  
Anonymous PAULO disse...

Caro Simas,
O Anselmo em questão foi jogador do Ceará, onde caiu nas boas graças da torcida. Realmente o cabra era macho que só um preá.
abraços

6:01 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Simas, me permita antes do comentário, um outro. O sr. Pian, cupincha confesso do kaká-político, nosso prefeito, está exagerando no "fazer tipo". Às favas a defesa do babaca-sócio da bispa Sônia, sem negrito. Esse viado não merece citação: diz que casou-se virgem, apóia a igreja cujo teto matou, criminosamente, uma porrada de incautos, e vive expondo belong-Jesus por aí afora. Fora da seleção, escroque!

Ao tema.

Te agradeço a homenagem, eu que tanto te pedi - tua caneta era mesmo a mais balizada para tratar do tema - que fizesse menção ao grande craque rubro-negro.

Ainda ecoa em meus ouvidos de menino a voz de Jorge Cury, emocionadíssimo, quase aos prantos:

- O Brasil inteiro está dentro dos teus punhos, Anselmo!

Um jogador brioso, de caráter, honra e glória do futebol brasileiro: um anti-Kaká, um anti-Paes, um anti-cupincha de quem não merece!

Beijo.

10:58 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Simas,
Como bem lembrou o Bruno também senti meu punho no queixo do chileno naquela noite.

Agora o kaká, é insosso sim, e muito. O cara que diz que a mulher engravidou depois de orar com o pastor é insosso, ou viado.

Falando de heróis rubro-negros lembrei do Bujica, meu conterrâneo, o caçador de marajás...

Desculpe me alongar
Abraço
Coelho

11:19 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Importante lembrança do melhor do futebol nacional.

Até este jogo, Uruguaios e Argentinos tinham como certo que os time brasileiros corriam do pau na Libertadores. Depois a coisa mudou e ganhamos respeito.

Faltou dizer: Anselmo e Carpegianni receberam pesadas penalidades por esse soco.
Mas, creio que não se importaram muito.

Abraços
Helvécio

11:52 PM  
Blogger Rodrigo Ferrari disse...

Dá-lhe Simão!!!

7:02 AM  
Blogger leo boechat disse...

Encaminhei seu texto pro cara do www.eusouflamengo.com que gostou pra caramba do texto e me mostrou essa reportagem do site dele: http://bit.ly/2vTMt

Abraço.

2:23 PM  
Anonymous Rodrigo Pian disse...

Goldenberg,

Realmente defendi o Kaká pra fazer um tipinho, pra dar uma alfinetada em vocês, últimos intelectuais da face da terra. (Essa tirada da galera do PSOL foi muito boa)!

Agora falando um pouco sério(só um pouco, ok?), eu também acho um saco essa postura meio forçada do Kaká. (As relações dele com a Igreja Renascer são realmente meio obscuras, mas eu prefiro não me meter muito, por enquanto, na fé dos outros).

Mas o que eu não consigo negar é que ele é um senhor jogador de bola. Era nos tempos de menino no São Paulo, foi (e como foi!) na era em que defendeu os rossoneri do Berlusconi e, com certeza, vai ser mais ainda com a camisa merengue.

E vou concordar com o Coelho anônimo: também acho que o Kaká seja meio viadinho. Mas isso não me diz respeito.

Porém, joga muito!

A esperança da minha geração é que tenha alguém tão bom de escrita quanto o Professor Simas (e você também, Goldenberg) para deixar registradas, com o talento que merecem, as divinas (divinas!) arrancadas e jogadas desse pastor da bola.

Kaká é o tipo de jogador que faz valer a pena pagar o dízimo, digo, o ingresso!

7:03 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Texto antológico, careca. Recebo-o como se fosse para mim também. É, na verdade, para toda a nação rubto-negra. Eu, que não era nem nascido na época, ouvi muito falar desse soco.

Abraços!

9:10 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Pian, é que me pareceu que você quis comparar o kaká com o ANSELMO. Pô, assim não dá!
Abraço
Coelho

9:45 PM  
Anonymous luciano rubro-negro disse...

Já que o texto incentiva a "porrada" por que então não fazemos um movimento nacional incentivando a volta das ditaduras na américa latina e alhures? afinal de contas o que não faltam em ditaduras são "porradas".
Não gostei do texto pois quer mitificar algo que hoje em dia lutamos tanto contra, isto é, a violência dentro e fora dos estádios. E já que é pra fazer faixas enaltecendo a violência acho que o Junior Baiano deveria ser também enaltecido e também o Leonardo (lembram da porrada que ele deu em 1994 naquele jogador dos estados unidos que teve que ser hospitalizado?).
Apesar de não ser evangélico e achar ridículas aquelas comemorações de campeonatos no meio do campo com rezas (talvez na crença de que Deus é Brasileiro) e camisas com dizeres religiosos prefiro deixar as porradas em campo para argentinos e uruguaios e continuar a ver o futebol bem jogado pelos kakás e ronaldos da vida.

8:11 AM  
Anonymous Flávio disse...

O Anselmo ficará para sempre na minha memória como um verdadeiro herói. Eu gritava como um louco depois do soco.
O maior absurdo é que depois de algum tempo comentaristas de futebol passaram a dizer que, com esse ato brilhante, o Anselmo tinha se prejudicado e estragado a carreira. Só os imbecis do politicamente correto perderam a grandeza e a dramaticidade do momento.

9:20 AM  
Blogger leo boechat disse...

“Pastor da bola”?! Meu Deus!!! Help!

9:51 AM  
Blogger Felipinho disse...

A Inferno Rubro também tem bandeiras que idolatram Edu, Luisinho Tombo e Jorge, este último o autor do gol do título de 1960.

Abraço.

10:03 AM  
Blogger Eduardo Carvalho disse...

Meu caro Simas.

Você hoje me emociona profundamente porque sempre tive e sempre terei o Anselmo em altíssima conta. Um herói. Em 1981, eu nos meus 6 anos de idade (via televisão e, depois, pela repetição incansavelmente didática do meu querido avô), compreendi um pouco mais a vida com este episódio que você agora narra tão bem.

O politicamente correto é um mal, um câncer desses nossos tempos. Fujo dele. E, sei , você também. É uma bobagem dizer que com isso incentivamos a pancadaria ou que, como já me acusaram, pedir a volta da cerveja ao Maracanã é "incentivar a morte". É tanta lavagem cerebral que há que veja em Kaká um craque (me pergunto: essa gente viu o Galinho jogar ou temos que mudar imediatamente o sentido da palavra "craque"????).

Paciência. Anselmo prestou um serviço inestimável - ao Flamengo, ao futebol, aos brasileiros sempre 'escanteados' (ou ninguém mais se lembra que, antes da final em Tóquio, os ingleses do Liverpool ridicularizaram os nossos jogadores porque eles vestiam agasalhos esportivos e não ternos? Hein?).

Um herói, repito. E o brilhantismo do seu texto é exatamente contextualizar, na cara da desumanização que vigora, a ocorrência do campo na levada da vida, da história, das paixões humanas.

Muito obrigado. Um grande abraço.

12:20 PM  
Anonymous Flávio disse...

Luciano, o Leonardo é o protótipo do sujeito bonzinho, deu aquela cotovelada porque o cara estava agarrando ele e depois entrou em crise, caso claro de erro, privação de sentidos. Já o Junior Baiano é ídolo da minha torcida (que não deve ser a sua), pois era um belo zagueiro e, no último brasileiro do Flamengo (92), deu uma porrada no Edmundo, que provocava todos os nossos jogadores, fazendo ele voar fora do campo e não jogar mais nada.
Recentemente perguntaram para o pai do Veron o que ele achava da cotovelada do Ramires, que abriu o supercílio do filho. Ele disse que isso era do jogo e que o filho só tinha que se preocupar em ficar bom o mais cedo possível. É jogo de contato, físico, que pode gerar algum lance mais ríspido. Não apoio violência, mas os jogadores podem e devem se defender quando agredidos.

7:45 PM  
Blogger Arthur Tirone disse...

Os jogadores do Liverpool - que nem devem saber quem foi o campeão mundial de 58 - não viram o vídeo que mostra Pelé, Garrinha, Nilton Santos, Didi e companhia voltando da Copa da Suécia dentro de becas impecáveis.

3:41 PM  
Blogger BFS disse...

Belo texto. Essa "porrada"andava meio esquecida na minha memória. Ano que vem bem que o povo brasileiro poderia eleger para nos DEFENDER DE VERDADE, uns "Anselmos" para a Câmara e Senado...abraços

4:22 PM  
Blogger carolina disse...

Simas, vc teria o video do grande dia do Anselmo???

10:57 PM  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Início