20/08/2009

DONA SAQUAREMA, A PATRIOTA. O INÍCIO DA SAGA

[ crianças participam da cerimônia em homenagem ao presidente Vargas no Estado Novo. A menina Saquarema é a sexta da direita para a esquerda. A foto foi tirada momentos antes do desmaio]

No início deste ano comecei a publicar, aqui no Histórias, as aventuras de Dona Saquarema, uma conhecida de minha avó que viveu a vida inteira como uma patriota convicta. Parei, porém, de contar as histórias da velha logo após a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. A proximidade do aniversário da morte de Getulio Vargas, o ídolo da nossa personagem, me fez retomar a série. A partir de hoje começarei a republicar em ordem os textos antigos, com algumas alterações, fotos e músicas. A partir da semana que vem, textos inéditos acompanharão a saga de Saquarema Marta entre o governo Dutra e o golpe militar de 1964. Não há, nesses relatos, um pingo de ficção, evidentemente. Com vocês, o início da saga.

Saquarema Marta Vasconcelos da Silva. Aqui jaz uma patriota que viveu, padeceu e morreu lutando pelo Brasil. Amou o país, a família e comoveu-se com o drama de Albertinho Limonta. Foi fiscal do Sarney e hoje descansa em paz.

São esses os dizeres da sepultura de Dona Saquarema , uma vizinha da minha tia-avó que , segundo palavras do Manoelzinho Mota durante o enterro, prestou relevantes serviços ao país e ao Lins de Vasconcelos , como verdadeira paladina do amor aos seus e ao auriverde pendão da nossa terra , símbolo augusto da paz, popularmente conhecido pelo povo simples e ignorante como a bandeira nacional ( o Mota estava inspirado no dia).

Saquarema iniciou sua trajetória cívica ainda menina , nos tempos da ditadura do Estado Novo. Participou, comovidíssima , da cerimônia realizada no estádio de São Januário em comemoração ao aniversário do presidente Getulio Vargas , no dia 19 de abril de 1938. Era uma das vozes do coral de quatrocentas crianças que o maestro Villa Lobos preparou para cantar em homenagem ao líder.

Quando Villa Lobos ergueu a batuta e o coro começou a entoar o Canto do Pajé , Saquarema foi acometida de violenta emoção. Chorava tanto, mas tanto , que acabou desmaiando no gramado no momento do Ó Tupã , Deus do Brasil [ouça aqui a histórica gravação feita em São Januário que ocasionou o piripaque cívico da menina]. Houve então uma espécie de efeito cascata ; mais de oitenta meninas , todas elas pequenas sopranos , perderam os sentidos em seguida. A mãe de Saquarema , Dona Joelma , e a irmã menor , Sirema , desmaiaram também nas arquibancadas populares.

( Antes que alguém me pergunte revelo que o pai , Seu Aderaldo, não estava no estádio. Era membro da Polícia Especial e, naquele momento, fazia a ronda em Copacabana, ao lado do padrinho de batizado de Saquarema , o amigo de farda e futuro juiz de futebol Mário Vianna - que, aliás, teve participação decisiva na vida da afilhada , como posteriormente relatarei . Mas voltemos ao Estádio da Colina - com maiúscula, para não ferir suscetibilidades cruzmaltinas .)

Ao acordar, Saquarema estava estatelada no gramado , com a cabeça no colo do próprio ditador. O presidente perguntou por que a menina havia desfalecido. Saquarema falou da emoção ao ver Vargas e a bandeira nacional no momento em que o coro começou a cantar. Ameaçou ter outro piripaque e recebeu, como recordação, uma foto do líder com dedicatória especial ( Para a doce Saquarema , com um afago do tio Getúlio ). O desmaio foi relatado como um grande momento de amor aos valores da pátria , num programa da Hora do Brasil que terminou com uma frase espetacular : - Sopra na alma desta menina brasileira o mesmo vento que inspirou a Índia Bartira, Joana Angélica, Dandara e Anita Garibaldi !

Popularíssima após o episódio, Saquarema foi manchete de jornais e ganhou de presente um contrato vitalício de fornecimento do Biotônico Fontoura (para não desmaiar mais diante de fortes emoções). Recebeu vários convites para visitar colégios e foi escolhida , entre mil e quinhentas candidatas , para hastear , ao lado do Diamante Negro Leônidas da Silva - artilheiro da copa do mundo de 1938 - a bandeira nacional na cerimônia de encerramento do concurso " Bebê Hipoglós 1939 " , evento que mobilizou famílias do Brasil inteiro , autoridades do governo , representantes de legações estrangeiras , e marcou o lançamento no país da pomada que protege , desde então , a delicada pele do bebê das assaduras.

O concurso Bebê Hipoglós acabou se transformando na segunda grande epifania cívica da vida de nossa personagem e - há testemunhas que não me deixam mentir - em um momento de fervor nacional só superado pela entrada do país na Segunda Guerra Mundial , poucos anos depois.

[continua]

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