UMA ESTÁTUA PARA PATRÍCIO

Sou um sujeito sem a menor paciência para o exercício formal da política. Pausa. Digo isso porque recebi meia-dúzia de mensagens perguntando se eu não escreveria nada mais contundente sobre a crise do Senado Federal. A resposta é não. Não escreverei nada sobre crise nenhuma. Ou melhor, escreverei, mas sobre uma crise que ocorreu em antanhos e que me interessa mais que esse bafafá atual.
Hoje quero falar de um personagem que, para a história do Brasil, é mais relevante que José Sarney, o Padre Antônio Maria - o apóstolo do Castelo de Chantilly - e Jaça, o cabeleireiro de Silvio Santos, juntos. Me refiro a Patrício, o boi de estimação de D. João VI.
Nós, os historiadores, costumamos falar sobre a chegada da família real citando D. João, Dona Maria I, Carlota Joaquina, D. Pedro, D. Miguel, e por aí vai. Não devemos, porém, esquecer que Patrício, o boi de D. João, também fugiu da invasão de Napoleão Bonaparte e chegou ao Brasil com a Corte.
Segundo relatos, Patrício encarou a travessia do Atlântico com a galhardia típica dos bovinos de boa cepa. Mugiu pouco, comeu moderadamente e foi discreto na hora de fazer suas necessidades fisiológicas.
Ao desembarcar no Rio de Janeiro, D. João se mostrou preocupado com a acomodação de seu querido Patrício. A solução encontrada acabou sendo a de enviar o boi para a Real Fazenda de Santa Cruz. O mais interessante, porém, foi o seguinte : O príncipe estabeleceu que Patrício recebesse o título de Gentil Homem do Reino e funcionário da Real Fazenda - o que daria ao vacum o direito de receber uma pensão para suas despesas diárias.
O boi Patrício, dessa forma, viveu seus anos de Brasil com a maior tranquilidade, exercendo com sabedoria suas funções de funcionário na Fazenda de Santa Cruz - que consistiam basicamente em pastar, invadir terrenos vizinhos, meditar, dormir, acordar, fazer cocô e pastar de novo; nos conformes recomendados pela mastozoologia dos bovídeos.
Quando explodiu a Revolução do Porto, e com ela os primeiros levantes a favor da Independência do Brasil, alguns liberais exaltados, do grupo político de Gonçalves Lêdo, receberam a denuncia de que o Boi Patrício era pensionista e funcionário público. Os exaltados, então, fizeram um estardalhaço, denunciando a mamata e exigindo a restituição dos ganhos de Patrício aos cofres públicos. Uma maldade, como se vê.
O resto é de conhecimento público. D. João voltou a Portugal, o Brasil ficou independente, Patrício não se alterou com os desdobramentos do Grito do Ipiranga e viveu o resto de seus dias na bucólica Santa Cruz. Teve a dignidade de não se pronunciar sobre as denuncias a respeito de sua condição de boi pensionista.
Patrício é , na opinião desse blog, um personagem injustamente esquecido da História do Brasil. Lanço, por isso, uma campanha : Que se erga uma estátua em homenagem a ele na Praça dos Três Poderes, em Brasília. E que o presidente Sarney, em virtude de seus comprovados dotes literários, escreva e leia na inauguração do monumento uma ode a Patrício - um boi que merece estar, ao lado do Boi Garantido, do Boi Caprichoso, do Boi Barroso, do Boi da Cara Preta, do Boitatá e do Boi Arthur Virgílio, no altar dos ícones vacuns dessa nossa Terra Papagalis.
Abraços
[As informações sobre a história de Patrício e da fazenda da Santa Cruz podem ser encontradas nos seguintes livros: O Velho Oeste Carioca, de André Mansur; Santa Cruz - Fazenda Jesuítica, Real e Imperial, de Benedito Freitas; Santa Cruz, de Nireu Cavalcanti, da coleção Cantos do Rio].
Marcadores: Boi


5 Comentários:
Uma tristeza que sendo boi, nosso querido Patrício não tenha deixado descendência... ou deixou?
Pelo menos, deixou a inspiração para este magno e pândego texto, que fez-me rir às bandeiras despregadas (opa!).
Perfeito Simas, maravilhoso texto !
O que pode ser mais conttundente que isso ?!
Vai compor samba este ano ????
Grande abraço!
grande simas,
como sempre, quase me lasquei de rir.
apoio, com entusiasmo cívico, a justa homenagem bovídea.
tenho certeza que o boi patrício, costumeiramente, pulando a cerca da fazenda santa cruz, deve ter deixado uma ruma de descendentes pela aí, né não?
abçs
Simas..
qt tempo não venho aqui...
seu blog continua bom como sempre..
e vc..defendendo sempre os esquecidos..que gentil da sua parte..haha
beijos,Juliana.
Simas! Sou sua aluna e só descobri seu blog hoje! Vou passar a acompanhar, é muito bom! Você é o melhor profe de história que já tive!
Beijos
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