16/07/2009

OS REBELDES DO TEMPO


A função do professor de ensino médio guarda verdadeiras maravilhas e alguns problemas. Um deles - que me preocupa sempre - é o risco do sujeito, ao se dedicar a dar aulas, se transformar em um adultescente. Explico.

O adultescente é o camarada que vai ficando velho mas insiste em se comportar como se tivesse uns quinze, dezesseis, anos de idade. O professor envelhece, mas as turmas continuam da mesmíssima idade - e está aí o risco do mestre se transformar em um adultescente permanente.

Escrevi, nos primeiros dias desse blog, um texto sobre o adultescente, que retomei recentemente com algumas alterações. Reproduzo abaixo:

Não há nada mais patético que uma certa infantilização do mundo a que somos submetidos cotidianamente. Os tempos atuais, sobremodo sombrios, criaram a figura do adultescente, esse híbrido medonho que se recusa a conviver com o mistério do tempo e as suas marcas físicas e emocionais.

Visual bem transado, corpinho malhado , sibarita tardio, o adultescente frequenta micaretas, fala as gírias da garotada, conhece as boates da moda, curte o som do momento e alterna momentos de arrogância absoluta com instantes de fragilidade emocional.

Seu exemplo maior, entre as mulheres, talvez seja a apresentadora Xuxa, que continua, qual uma Dercy Gonçalves de festa infantil, a falar com uma entonação de débil mental e usar maria-chiquinhas tipicas de erês de umbanda.

Entre os homens, o adultescente é mato. É emblemático o exemplo de Serginho Groisman, um sujeito infantilizado que, aos cinquenta e tantos anos, fica pulando com um microfone na mão enquanto hordas juvenis dançam ao som de uma música baiana qualquer que, invariavelmente, fala das delícias de um beijo na boca e do corpo molhado de suor.

O pânico do adultescente homem é o cabelo branco, a careca ou, horror dos horrores, a barriga de chope. Adora praticar esportes radicais e acha Ayrton Senna o maior brasileiro que existiu. A seleção brasileira de futebol é, atualmente, um covil de adultescentes de chuteiras.

Já que falei de mulheres e homens, há que se falar dos viados - o tipo adultescente também grassa entre a rapaziada que é chegada em acariciar o vergalho. O adultescente gay ama, verdadeiramente ama, a cena eletrônica atual. É sofisticado, busca um parceiro que o compreenda e gosta de viajar para a Disneylandia, onde faz questão de comprar uma Minie de pelúcia de um metro e meio.

Aos trinta e tantos anos anos, o adultescente bicha resolve fazer teatro no Tablado ou na CAL, como processo de auto-conhecimento. As mulheres o acham um fofo e querem protegê-lo, já que se trata de pessoa extremamente sensível que, quando magoada, toma remédios e pensa em cortar os pulsos.

Adultescente que se preza chama a cantora Ivete Sangalo de "a Ivete", com inequívoca intimidade. Se identifica com as letras [profundas como as mensagens de cartões de namorados das Lojas Americanas] do Renato Russo e tem Caetano Veloso como referência mais sofisticada. Fecha os olhos quando escuta O Leãozinho.

Ser adultescente é frequentar festas plocs, bailinhos e shows de rock na praia - tentando descolar credencial para o espaço vip. Perto do carnaval, é passar a ir aos ensaios da Grande Rio na zona sul carioca e descolar uma camisa de diretor da agremiação emergente. Todo adultescente é torcedor escola de Duque de Caxias, mesmo que não saiba.

O adultescente venera a alegria[e é por isso, paradoxalmente, um deprimido em potencial] e seu maior objetivo é ser feliz, como se isso fosse lá um horizonte decente para um sujeito. A felicidade desse bípede festivo, sua busca incessante, consiste em projetos de vida entusiaticamente elaborados, como a compra de abadás para pular o carnaval em Salvador - uma alternativa ao desfile da sua Grande Rio no sambódromo.

O melhor antídoto contra esse tipo infame é abrir uma gelada, sentar num boteco simples - onde esses elementos não entram - e ouvir um samba triste do mestre Silas, um tango do Discépolo ou do Gardel e uma seresta do velho Silvio Caldas.Prestamos, assim, reverência ao Tempo, divindade poderosa, e nos preparamos, nas esquinas da vida, para o dia em que o canto der espaço ao silêncio da noite grande. Bem longe dessa gente.


Abraços.

[Entro de férias amanhã e vou passar duas semanas tomando cerveja e comendo camarão nos Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba e arredores. O blog volta a ser atualizado no início de agosto]


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8 Comentários:

Blogger Bruno Ribeiro disse...

Este é, meu velho, um dos melhores textos de sua lavra, sem dúvida!

5:28 PM  
Blogger Felipinho disse...

É difícil de aturar, Simas. Continuemos com nossa mesmice dominical e estaremos imunes à estes parvos.

Boa viagem, meu velho. Aproveite muito com sua digníssima. Vocês merecem.

Beijo.

5:06 PM  
Blogger Carlos disse...

grande simas,

voce merece, meu camarada.
arroche na cerveja com tiragosto de peixe pedra lá pelas bandas do maranhão.
em parnaíba, não tenha dúvida, caia na gandaia com carangejo e camarão do mais alto gabarito em companhia da velha ceva de guerra.

seja feliz, cumpadi.

3:38 PM  
Blogger Daniel A. de Andrade disse...

Grande texto, Simão!

Curta as merecidas.

Saudações,

Daniel A.

9:09 PM  
Blogger Alan disse...

Esta postagem foi removida pelo autor.

8:06 PM  
Blogger Mariane disse...

Perfeito, Simas! Amei o texto, e adorei o seu antídoto contra esse tipo, e é o que faço frequentemente!
Em Campinas é bem comum...
Saudades, querido. Beijos.

7:10 PM  
Blogger Monica Araujo disse...

A única parte adultecente que tenho seria estar sarada , mas nunca dá certo, vivo cheia de pneus por conta das geladas. Pneus estes que meu marido aperta enquanto arrota e diz, - "Minha fofinha..." (risos).

Boas férias !!!!

3:24 PM  
Anonymous 乱交パーティー disse...

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