8 de jun de 2009

SARAMANDAIA E A HISTÓRIA


Tem certas coisas que ocorrem na mais remota infância que acabam definindo de forma irreversível o caráter do sujeito. Eu sou, por exemplo, um cabra definitivamente marcado pela novela Saramandaia, que assisti assombrado ao oito anos de idade. Acho que estupor maior só me atingiu no dia em que descobri que Átila, o Huno, o mais furioso dos homens, media 1,06 cm.

A trama de Dias Gomes era relativamente simples. A população de Bole-Bole, cidade da zona canavieira baiana, queria mudar o nome do local para Saramandaia. Os mudancistas eram liderados pelo prefeito Lua Viana [Antonio Fagundes] e seu irmão João Gibão [Juca de Oliveira], envergonhados em virtude do nome Bole-Bole se referir a uma aventura amorosa de D. Pedro I na região.

Os inimigos dos mudancistas, que evocavam a tradição para manter o nome da cidade, eram liderados por Zico Rosado [Castro Gonzaga] e pelo coronel Tenório Tavares [Sebastião de Oliveira]. Simples pra dedéu, não ?

Acontece que, em meio a essa trama básica, coisas do arco da velha aconteciam em Bole-Bole. Zico Rosado colocava formigas pelo nariz. Seu Cazuza [Rafael de Carvalho] ameaçava cuspir o coração quando se emocionava. Marcina [Sônia Braga, gostosa pra burro] ficava em brasa quando sentia tesão e incendiava tudo em que encostava. Dona Redonda [Wilza Carla], mulher do Seu Encolheu [Wellington Botelho], acabou explodindo de tanto comer. O professor Aristóbulo [Ari Fontoura] virava Lobisomem e há anos não dormia. Em uma de suas noites de insônia, encontrou-se, em plena madrugada, com D.Pedro I e Tiradentes.

Desconfio seriamente que foi vendo Saramandaia que moldei meu gosto pela História. Lembro de certa ocasião em que discutiamos, os colegas de faculdade, as razões que nos levaram a optar pelo saber de Heródoto. Os camaradas diziam que tinham se interessado por História lendo Marx e Engels, ouvindo relatos sobre os anos rebeldes, militando no movimento estudantil e quejandos. Eu, para estupor dos meus amigos inteligentes e dispostos a mudar o mundo, respondi num bate-pronto digno dos melhores momentos do Cremilson, imortal ponta-direita do pior time da história do Botafogo :

- Passei a gostar de História por causa de samba-enredo e da novela Saramandaia.

Eis, amigos, o que queria confessar desde o início, para minha completa desmoralização: Saramandaia e os sambas do Império Serrano e do Salgueiro foram, para mim, muito mais importantes que o Manifesto Comunista, as obras completas de Weber, a Escola dos Annales, o Almanaque Disney, o Kama Sutra, o Livro de Capa de Aço da Magia de São Cipriano, o Manual do Escoteiro Mirim, o livro III do Capital e O Caso dos Dez Negrinhos.

A única coisa na história da televisão brasileira que teve, quero crer, o mesmo impacto daquele passeio fantasmagórico entre um Lobisomem, D. Pedro I e Tiradentes numa cidade do interior da Bahia, foi o monumental capítulo de Roque Santeiro em que houve a ressurreição do Beato Salu.

Sinto decepcionar com essa confissão [que só pretendia fazer ao médium depois de morto] os adeptos da velha e furada teoria de que a telenovela é um elemento perverso de alienação das massas a serviço do grande capital. Não acho nem a pau.

Saramandaia foi a primeira experiência que tive de que é possível uma aproximação com o conhecimento histórico de uma forma afetiva, festeira, iconoclasta, calorosa e despida de ranços acadêmicos que só servem para enclausurar o conhecimento numa redoma de vidro, facultada apenas aos iniciados.

Vejam aqui uma das maiores cenas da história da televisão canarinho. Observem com atenção os impressionantes efeitos especiais da explosão de Dona Redonda, descaradamente copiados alguns anos depois por Steven Spielberg em ET, o Extraterrestre :



Abraços

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12 Comentários:

Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Luiz Antonio: assim como sei onde eu estava quando morreu a Elis Regina, quando morreu o chatíssimo Senna, quando explodiram as Torres Gêmeas em NY, lembro-me com perfeição de meu assombro em Petrópolis quando vi explodir a balofa de Saramandaia. Que cena, que cena!

11:45 PM  
Blogger Carlos Andreazza disse...

Isto é grande arte, Simas!

11:15 AM  
Anonymous Wellington Campos disse...

Fantástico, Simas.

Essa conclusão da alienação não pode ser assim imediata. Assistindo filmes, novelas e séries da década de 80 foi que passei a querer contar um bom causo. Sob a porradaria de Tom&Jerry comecei a ouvir um tal de Jazz e com outros igualmente porradeiros, veio até música clássica! Impossível não atribuir a César o que a ele pertence.

Quanto ao apreço pela Química, meu caro, isso é outra história.

Forte abraço.

11:48 AM  
Anonymous Guigo disse...

O problema não é o formato (novela); mas sim quem escreve ou adapta, quem dirige ou quem interpreta:"Saramandaia" tinha o melhor de tudo isso. Atualmente a coisa tá difícil, afinal qual novela recente pôde contar com o talento de Wellington Botelho, Apollo Corrêa, Lídia Costa, Brandão Filho ou Rafael de Carvalho? Ou com a beleza de Ana Maria Magalhães ou Dina Sfat?

7:31 PM  
Anonymous Victor Azevedo disse...

Sensacional! Mas continuo mais assombrado com a pequenês de Átila...

12:36 AM  
Blogger Monica Araujo disse...

Simas,
Saramandaia foi espetacular !!!

Quem ouvir o CD do Martinho da Vila, chamado "Sambas de Enredo de todos os tempos", terá uma aula completa de História.

Texto perfeito como sempre.

Abração!

6:51 AM  
Anonymous Juliana Medeiros disse...

É, não se fazem mais novelas como antigamente... Não existem novelas com tramas simples como essa. Hoje, as tramas são as mais complexas possíveis, com direito a chimpanzés pintores, indianos dançantes, filhos do demo e enredos intermináveis, como malhação, o pior pograma que já se viu.
E que efeitos especiais!!!

Abraço!

11:03 AM  
Blogger alberto disse...

saramandaia, a maior novela de todos os tempos.
e não é pouco.
abração
mussa

5:08 PM  
Anonymous Cláudia F. Miranda disse...

Também me lembro de Saramandaia, das formigas saindo do nariz, rsrsrrs e tenho muitas saudades dos sambas que o enrendo falava sobre história. A biscoito fino tem um CD com uma coletânia deles, muito bom

7:45 PM  
Anonymous zé sergio disse...

Única novela que me arrependo de não ter assistido mais vezes, eu que não acompanho nenhuma, apenas parte de algum capítulo. Pensando bem, eu devia ter visto também O Bem Amado...

6:37 PM  
Blogger Olga disse...

Que maravilha de lembrança, Simas! Isto foi de fato um acontecimento! Que personagens, que personagens!

Como sempre fui louca pra ter asas e voar, o personagem do Juca de Oliveira me encantava sobremaneira. Quando escuto "Pavão misterioso, pássaro formoso / tudo é mistério nesse teu voar / Ah, se eu corresse assim / tantos céus assim / Muita história eu tinha prá contar / Pavão misterioso nessa cauda aberta em leque / Me guarda moleque de eterno brincar / Me poupa do vexame de morrer tão moço / Muita coisa ainda quero olhar (...), me emociono ainda hoje.

4:59 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Aguardem, camaradas. Vem mais Saramandaia por aí.

Abraços.

6:40 PM  

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