04/06/2009

PAPÃO 3 x 0 PEÑAROL . A MAIOR VITÓRIA DO FUTEBOL CANARINHO


Somos - os canarinhos - pentacampeões mundiais de futebol. Perguntaram-me, certa feita, qual foi a maior das vitórias do futebol tupiniquim. A final contra a Suécia em 1958 ? O saco que metemos na Itália em 1970?

Matutei sobre os feitos do escrete, descartei as finais de 1962, 1994 [essa foi menos emocionante que a Missa do Galo daquele ano] e 2002, cogitei citar o baile que demos na Espanha na fase final da Copa de 1950 mas, na hora de responder, falei de forma automática, feito caboclo de umbanda:

- A maior vitória da história do futebol brasileiro não foi obtida pela seleção. Foi o vareio que o Paysandu de Belém deu no Peñarol do Uruguai em 18 de julho de 1965: 3 X 0 pro Papão no Estádio da Curuzu !

É verdade. Foi mesmo um feito digno de figurar nos anais da história. O Peñarol à época era uma maquina. O time titular era praticamente a seleção do Uruguai. Mazurkiewsk, Forlan, Abbadie, Pedro Rocha e Caetano, por exemplo, envergavam a camisa preta e amarela do time platino. Eram, os gringos, bicampeões da Libertadores da América, bicampeões uruguaios e campeões mundiais interclubes. É mole?

Pois o Paysandu deu um vareio nos homens. Com o ex-tricolor Castilho fechando o arco e um ataque encapetado - Vila, Milton Dias, Pau Preto e Ércio - o Papão não tomou conhecimento da rapaziada do churrasco, jogou pra dedéu e liquidou a fatura de forma inapelável [Ércio, Milton Dias e Pau Preto fizeram os gols].

Ouso dizer que, em se tratando de confontos na América Latina, o que o Paysandu fez com o Peñarol reduz a Batalha Naval do Riachuelo a um evento tão dramático quanto um piquenique em Paquetá, com direito a passeio de pedalinho na praia da Moreninha.

O triunfo do Paysandu virou Belém de cabeça pra baixo. Houve carreata, ponto facultativo, desmaios, infartos, pororoca no Rio Guamá, pato no tucupi, tupi no cu do pato e o escambau. O Liberal, o maior jornal do Pará, estampou na manchete : "Triunfo do Papão é a vitória do Brasil". Estava vingado o maracanazzo de 1950.

Daqui do Rio, basbaque com o triunfo, Nelson Rodrigues - garantindo que assistira ao jogo pelos rumores do vento - não deixava por menos em sua crônica n´O Globo:

"O Paysandu tem camisa. Sendo peciso, sua camisa deixa de ser um trapo qualquer para erguer-se como um estandarte em chama [...] O Peñarol saiu de lá com as orelhas a meio pau. Três a zero! Um banho completo!"

Uma grande história desse jogaço aconteceu nas arquibancadas. Um dos torcedores presentes ao embate, o fuzileiro naval Francisco Pires Cavalcanti, teve um treco durante a partida. Pires era músico da marinha e compositor, mas não conseguia compor nadica de nada há uns vinte e tantos anos. As musas do poeta estavam de férias.

Entusiasmado com o desempenho do seu Paysandu, o fuzileiro Pires teve uma inspiração súbita, uma espécie de estalo de Vieira. Num estado de transe que só o ludopédio proporciona, começou ali mesmo, nas arquibancadas, a compor uma marchinha em homenagem ao Papão e ao chocolate paraense nos uruguaios.

Encerrado o jogo, um eufórico Pires cantava que nem doido para não esquecer a melodia que acabara de fazer : "uma listra branca, outra listra azul, essas são as cores do Papão da Curuzu ..." O fuzileiro acabara de compor a ciranda, cirandinha do futebol do Pará.

Além, portanto, da vitoria acachapante contra os gringos, aquela tarde de sol em Belém viu nascer um dos hinos mais simpáticos dos clubes de futebol do Brasil. Para muitos, inclusive, a marchinha de Pires é o hino oficial do Papão. Não é, mas é como se fosse.

Vou ser sincero - o hino oficial do Paysandu não me comove. Parece uma ladainha de igreja. Ouçam aqui . Já a marchinha do fuzileiro Pires é boa pra burro. Cita o baile no Peñarol e ainda sacaneia o maior adversário, o Clube do Remo, ao se referir a uma biaba que o Papão deu no rival [ um acachapante 7 x 0 ] no verso "pintou o sete numa tela azul". Confiram aqui.

É isso, camaradas. Viva o glorioso Paysandu e viva o grande seu Pires - imortalizado nas arquibancadas da Curuzu toda vez que a torcida do Papão entoa sua marchinha arretada.

Abraços

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20 Comentários:

Anonymous leo boechat disse...

Sensacional.

9:57 AM  
Blogger Casé disse...

Simas,

Do caralho essas histórias dos nanicos do futebol.
Outra façanha do Papão foi em 2003, ganhou do Boca Juniors em pleno La Bombonera. Apenas 3 clubes ganharam do Boca no La Bombonera : Santos, Palmeiras e Payssandu.

Abraços,

12:04 PM  
Blogger Carlos disse...

grande simas,

vai contar estória assim na baixa da égua, rapaz!

como sempre, li em voz alta e a negada do trabalho quase se caga de rir.

porreta demais!

10:51 AM  
Blogger Filipe disse...

Careca,

Quando tiver um tempinho, dá uma olhada no outro blog que eu fiz? http://asprimeiraspalavras.blogspot.com/

Beijo grande!

5:46 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

BEMOREIRA, aguarde os próximos - o CRAC entre eles.

CARLOS, obrigado pelos elogios, meu velho. Vem mais coisa por aí.

CASÉ, você está se referindo só aos clubes brasileiros, não? É verdade, o Papão sapecou o Boca. Pena que no jogo da volta...

COUTO, tô indo lá.

7:02 PM  
Blogger Arthur Tirone disse...

Simão, vou recomendar a leitura deste belo texto sobre o glorioso Papão para a mais fanática de todos os torcedores paraenses: Railídia Carvalho! Antes que eu o faça, porém, te dou um alerta de irmão: Retire urgentemente o marcador "nanicos do futebol".
Beijo.

9:09 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

FAVELA, mano velho, passe para a Rai.
Quanto ao "nanicos", é, como diria o Magri, intirável. No texto em que criei essa série, expus que o "nanicos" se refere aos jogadores e clubes que resistem bravamente - ou são massacados por ele - a esse futebol mercantilizado que acaba com a natureza humaníssima do jogo.
É uma resposta sacana ao título de um livro do Marcos de Castro e do João Máximo, chamado Gigantes do Futebol Brasileiro. O "nanicos", portanto, busca resgatar o futebol naquela dimensão mais profunda - a do jogo como recriação da vida. É a mesma dimensão que faz com que elogiemos profundamente um botequim quando o chamamos de "vagabundo". Há honra maior?
Beijo

10:34 PM  
Blogger Nelson Borges disse...

Grande texto Simas,
realmente emocionante.
Me fez lembrar de algumas histórias do FUTEBOL AO SOL E À SOMBRA do Eduardo Galeano.
Show de bola.
Abraços

1:27 AM  
Blogger Filipe disse...

Simão, sentir-se aprovado pelo ídolo é um bom demais. E fazer parte do seu escrete canarinho é uma honra danada. Que eu esteja à altura! Beijo garnde e abraço forte!

5:36 PM  
Blogger Casé disse...

Simas,

Me referi apenas aos clubes brasileiros.

Abraços,

3:13 PM  
Anonymous Guigo disse...

Opa... o texto sobre o Papão, certamente lido por Dunga et entourage, inspirou nossos canarinhos em terras charruas!

6:35 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Sem falar que o texto, de maneira subliminar, denuncia a criminosa exclusão de Belém como sede desta, desde já, malfadada Copa do Mundo no Brasil.
Abraços,
Marecha

3:56 PM  
Anonymous Katyara disse...

Master Simas!

Comentário no lugar errado, mas que o seja: Luluzinha cresceu. A Turma da Mônica cresceu. Você está ficando velho. E isso tudo é o começo.

O resto é parte da história.

Beijos grandes!

12:55 AM  
Anonymous Daniel disse...

Casé, o Sao Paulo ja derrotou o Boca na Bombonera pela Recopa (acho que foi 3x2 em 1995). E, sinceramente, nao lembro do Palmeiras ter ganho do Boca jogando na Bombonera.

12:29 AM  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bom o texto, esse ano o Papão vai subir!!

4:40 PM  
Blogger Carlos Alberto disse...

Na verdade foram 4 times, Santos, Cruzeiro (não Palmeiras), Paysandu e ano passado o Internacional.

feitos do Paysandu além desse o 6x2 no Cerro Porteño em pleno o Paraguai com vários jogadores da seleção paraguaia em 2003 no mesmo ano que ganhou do Boca

10:37 AM  
Blogger Davi Higino disse...

Nossa!!! Pra um torcedor do Paysandu ler um depoimento com tanta beleza e rica em detalhes é de disparar o coração!
Obrigado amigo, a fiel bicolor agradece esta história imortalizada!

1:39 PM  
Blogger Roney disse...

Muuuito bom ...!!!


Essa historia eu não conhecia assim com tantos detalhes ...

muito bom mesmo ...

SAUDAÇÕES BICOLORES

4:33 PM  
Blogger xcletinho disse...

Orgulho de ser Paysandu!!

12:16 PM  
Blogger Carlos disse...

Paysandu, sempre vai ser e sempre será o orgulho do Norte deste Brasil!

11:27 AM  

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