01/06/2009

A LOURA MORTA PRECISA VOLTAR

Já escrevi alhures que o medo é um instrumento pedagógico da maior eficácia na educação de uma criança. Um petiz sem receios é tão indomável quanto a pororoca do Amazonas; transforma-se numa espécie de Jairzinho Furacão desbancando as defesas inimigas na Copa de 1970.

Eu cresci convencido de que seria sequestrado como o menino Carlinhos; enterrado vivo feito o ator Sérgio Cardoso; morreria engasgado com uma bala soft; e um dia seria alcançado pelo abraço assassino de Konga, a mulher gorila [escrevi sobre tudo isso nas Confissões publicadas nesse espaço].

Acreditava que todo doce vendido na porta do colégio continha drogas perigosíssimas; que garrafas de Coca Cola vinham com vidro moído; que linhas de pipa com cerol degolavam duas crianças por dia; e que o excesso de bronhas me faria impotente aos dezoito anos e tuberculoso antes dos vinte [esse era o único receio que eu enfrentava com o destemor de um Bufalo Bill].

Minha Tia Lita - fundamental na minha formação - transformou-me em uma criança melhor cultivando com carinho comovente esses temores fundamentais.

Hoje, porém, vivemos a tirania dos psicólogos e terapeutas infantis que acham que as crianças não tem que ter mais medo de coisa nenhuma. É uma lástima. Exemplifico.

Em conversas com amigos professores que trabalham no ensino fundamental, reparo que é comum entre a garotada o truque de pedir para ir ao banheiro para sair de sala de aula. O que tem de moleque que levanta o dedo para pedir pra fazer xixi e se empirulita da aula não está no gibi.

Eis porque defendo, em nome da boa educação, que haja um esforço coletivo - e aí penso em uma ação conjunta que inclua governo, imprensa, família, sociedade civil organizada e o escambau - para fomentar o boato de que em todos os banheiros de colégios existe uma loura morta, com algodões repletos de sangue nas narinas e olhos vazados, atacando crianças.

Eu cresci evitando vigorosamente frequentar banheiros das escolas. Acreditava firmemente na loura defunta, com a mesma crença na vitória que tinha um botafoguense que ia ao Maracanã nos tempos de Garrincha e Nilton Santos.

Preferia mil vezes correr o risco de molhar as calças a ter que me deparar com a assobração terrível em forma de mulher. Ficava com a bexiga explodindo, mas a simples possibilidade de ser estrangulado e afogado na privada pela loura me fazia assistir heroicamente a aula toda. Só corria ao banheiro no recreio, quando a movimentação era bem maior e o número de vítimas potenciais diminuia meus riscos.

As crianças nos tempos do Império temiam o Bicho Papão, a Mula-Sem-Cabeça, o Boitatá e o Curupira.

Meu avô tinha medo do homicida e tarado homossexual Febrônio Índio do Brasil, um assassino de crianças que virou o primeiro paciente do manicômio judiciário do Rio de Janeiro.

Meu pai se borrava nas calças ouvindo o programa de rádio Incrível, Fantástico, Extraordinário; em que Almirante contava com voz assombrosa os casos mais escabrosos de espíritos, almas penadas e quejandos.

E hoje? O que pode impor limites aos mini-adultos ligados na internet, com perfis em sites de relacionamentos e com telefones celulares desde os seis anos de idade.

Urge, camaradas, ressuscitar as nossas mais notórias assombrações. Vamos começar a espalhar discretamente o boato em festas infantis, bailes do Gigantes da Lira, creches, programas de auditório e jardins de infância.

Aproxime-se das crianças, leitor, e com voz de dublador de filme de vampiro espalhe a notícia - A loura voltou a fazer vítimas do Oiapoque ao Chuí. A loura está atacando mil rianças por dia !

Nenhum programa de incentivo à educação será plenamente vitorioso sem esse detalhe crucial. A loura defunta, vestida de branco, com algodões em sangue nas narinas e olhos vazados, é tão importante quanto o bolsa-escola para fazer do Brasil o país de crianças bem educadas que sonhamos.

Abraços.

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10 Comentários:

Blogger Eduardo Goldenberg disse...

E em paralelo à falta do medo no método educacional, temos o quê?

Lembra-se de nossa conversa domingo pela manhã? Anseio, aliás, por seu texto-comentário sobre o troço...

Temos o glorioso balofo Bolinha, macérrimo e músico (deve frequentar Santa Teresa e marchar pela maconha); o Cebolinha falando corretamente; a Magali de dieta evitando melancia em demasia... um nojo, querido, o mundo está perdido.

4:30 PM  
Blogger Marcelo Moutinho disse...

A loura do banheiro é um clássico do horror infantil. ELa tinha algodão nas narinas, pq vazava sangue por ali!

11:39 AM  
Blogger Nelson Borges disse...

Fala Simas,
divertidíssimo o texto,
ainda mais para quem frequentava estes banheiros na década de 70 e que tem a certeza de já ter visto a Mulher Loura, ou pelo menos seu vulto "inconfundível".

Abraços

8:17 AM  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Há que se resgatar o medo dos ralos de piscina, capazes de sugar uma criança inteira. Eu até hoje não me arrisco no fundo, prefiro ficar bebendo na escadinha.

11:00 PM  
Anonymous leo boechat disse...

Também passei muitos anos com esse temor da "Mulher Loura". O banheiro, caindo aos pedaços, do meu colégio também colaborava com o ambiente de terror.

11:09 AM  
Anonymous Wellington Campos disse...

Fenomenal, Simão.

Passamos os medos, sobrevivemos e somos educados.

Urge, meu caro, urge.

Forte abraço.

11:49 AM  
Blogger Diego Moreira disse...

Simas,

Subscrevo-me, comovido, ao seu ímpeto pedagógico. E aproveito para somar mais uma à lista de atrocidades lembrada pelo Edu. Qye história é essa de rei momo magro? O momo tem que ser um rolha de poço, pô!

Abraço!

8:30 PM  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Ainda sobre o que o Edu escreveu:

um amigo meu, recentemente, foi contratado para ilustrar livros infantis. Grana boa, editora grande, tudo nos conformes. Aí, ele entrega o trabalho pronto e o trabalho retorna com algumas observações do contratante: "Quituteira gorda não pode, isso é estereótipo; corte o desenho onde o menino está com os pés sobre o sofá ou desenhe-o com os pés descalços, para não incitar maus hábitos; tire a bengala do avô, isso rotula e limita a pessoa da melhor idade". Em suma, um nojo!

Quanto aos personagens adolescentes dos gibis, em especial o Bolinha, de quem sempre gostei: não é que ele tenha se tornado músico. Lembrem-se, ele tocava violino, mas cresceu e descobriu que esse é um instrumento de velhos. Agora, toca guitarra. Enfim...

8:49 PM  
Anonymous Fábio disse...

Não sou do tempo da loira ou de outros mitos, mas quem morou em casa sabe o terror que é descer a escada durante a noite. Favores feitos à vovó eram verdadeiras Cruzadas contra o medo...

10:52 PM  
Blogger Nelson Borges disse...

Esta postagem foi removida pelo autor.

5:41 AM  

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