A LOURA MORTA PRECISA VOLTAR
Já escrevi alhures que o medo é um instrumento pedagógico da maior eficácia na educação de uma criança. Um petiz sem receios é tão indomável quanto a pororoca do Amazonas; transforma-se numa espécie de Jairzinho Furacão desbancando as defesas inimigas na Copa de 1970.
Eu cresci convencido de que seria sequestrado como o menino Carlinhos; enterrado vivo feito o ator Sérgio Cardoso; morreria engasgado com uma bala soft; e um dia seria alcançado pelo abraço assassino de Konga, a mulher gorila [escrevi sobre tudo isso nas Confissões publicadas nesse espaço].
Acreditava que todo doce vendido na porta do colégio continha drogas perigosíssimas; que garrafas de Coca Cola vinham com vidro moído; que linhas de pipa com cerol degolavam duas crianças por dia; e que o excesso de bronhas me faria impotente aos dezoito anos e tuberculoso antes dos vinte [esse era o único receio que eu enfrentava com o destemor de um Bufalo Bill].
Minha Tia Lita - fundamental na minha formação - transformou-me em uma criança melhor cultivando com carinho comovente esses temores fundamentais.
Hoje, porém, vivemos a tirania dos psicólogos e terapeutas infantis que acham que as crianças não tem que ter mais medo de coisa nenhuma. É uma lástima. Exemplifico.
Em conversas com amigos professores que trabalham no ensino fundamental, reparo que é comum entre a garotada o truque de pedir para ir ao banheiro para sair de sala de aula. O que tem de moleque que levanta o dedo para pedir pra fazer xixi e se empirulita da aula não está no gibi.
Eis porque defendo, em nome da boa educação, que haja um esforço coletivo - e aí penso em uma ação conjunta que inclua governo, imprensa, família, sociedade civil organizada e o escambau - para fomentar o boato de que em todos os banheiros de colégios existe uma loura morta, com algodões repletos de sangue nas narinas e olhos vazados, atacando crianças.
Eu cresci evitando vigorosamente frequentar banheiros das escolas. Acreditava firmemente na loura defunta, com a mesma crença na vitória que tinha um botafoguense que ia ao Maracanã nos tempos de Garrincha e Nilton Santos.
Preferia mil vezes correr o risco de molhar as calças a ter que me deparar com a assobração terrível em forma de mulher. Ficava com a bexiga explodindo, mas a simples possibilidade de ser estrangulado e afogado na privada pela loura me fazia assistir heroicamente a aula toda. Só corria ao banheiro no recreio, quando a movimentação era bem maior e o número de vítimas potenciais diminuia meus riscos.
As crianças nos tempos do Império temiam o Bicho Papão, a Mula-Sem-Cabeça, o Boitatá e o Curupira.
Meu avô tinha medo do homicida e tarado homossexual Febrônio Índio do Brasil, um assassino de crianças que virou o primeiro paciente do manicômio judiciário do Rio de Janeiro.
Meu pai se borrava nas calças ouvindo o programa de rádio Incrível, Fantástico, Extraordinário; em que Almirante contava com voz assombrosa os casos mais escabrosos de espíritos, almas penadas e quejandos.
E hoje? O que pode impor limites aos mini-adultos ligados na internet, com perfis em sites de relacionamentos e com telefones celulares desde os seis anos de idade.
Eu cresci convencido de que seria sequestrado como o menino Carlinhos; enterrado vivo feito o ator Sérgio Cardoso; morreria engasgado com uma bala soft; e um dia seria alcançado pelo abraço assassino de Konga, a mulher gorila [escrevi sobre tudo isso nas Confissões publicadas nesse espaço].
Acreditava que todo doce vendido na porta do colégio continha drogas perigosíssimas; que garrafas de Coca Cola vinham com vidro moído; que linhas de pipa com cerol degolavam duas crianças por dia; e que o excesso de bronhas me faria impotente aos dezoito anos e tuberculoso antes dos vinte [esse era o único receio que eu enfrentava com o destemor de um Bufalo Bill].
Minha Tia Lita - fundamental na minha formação - transformou-me em uma criança melhor cultivando com carinho comovente esses temores fundamentais.
Hoje, porém, vivemos a tirania dos psicólogos e terapeutas infantis que acham que as crianças não tem que ter mais medo de coisa nenhuma. É uma lástima. Exemplifico.
Em conversas com amigos professores que trabalham no ensino fundamental, reparo que é comum entre a garotada o truque de pedir para ir ao banheiro para sair de sala de aula. O que tem de moleque que levanta o dedo para pedir pra fazer xixi e se empirulita da aula não está no gibi.
Eis porque defendo, em nome da boa educação, que haja um esforço coletivo - e aí penso em uma ação conjunta que inclua governo, imprensa, família, sociedade civil organizada e o escambau - para fomentar o boato de que em todos os banheiros de colégios existe uma loura morta, com algodões repletos de sangue nas narinas e olhos vazados, atacando crianças.
Eu cresci evitando vigorosamente frequentar banheiros das escolas. Acreditava firmemente na loura defunta, com a mesma crença na vitória que tinha um botafoguense que ia ao Maracanã nos tempos de Garrincha e Nilton Santos.
Preferia mil vezes correr o risco de molhar as calças a ter que me deparar com a assobração terrível em forma de mulher. Ficava com a bexiga explodindo, mas a simples possibilidade de ser estrangulado e afogado na privada pela loura me fazia assistir heroicamente a aula toda. Só corria ao banheiro no recreio, quando a movimentação era bem maior e o número de vítimas potenciais diminuia meus riscos.
As crianças nos tempos do Império temiam o Bicho Papão, a Mula-Sem-Cabeça, o Boitatá e o Curupira.
Meu avô tinha medo do homicida e tarado homossexual Febrônio Índio do Brasil, um assassino de crianças que virou o primeiro paciente do manicômio judiciário do Rio de Janeiro.
Meu pai se borrava nas calças ouvindo o programa de rádio Incrível, Fantástico, Extraordinário; em que Almirante contava com voz assombrosa os casos mais escabrosos de espíritos, almas penadas e quejandos.
E hoje? O que pode impor limites aos mini-adultos ligados na internet, com perfis em sites de relacionamentos e com telefones celulares desde os seis anos de idade.
Urge, camaradas, ressuscitar as nossas mais notórias assombrações. Vamos começar a espalhar discretamente o boato em festas infantis, bailes do Gigantes da Lira, creches, programas de auditório e jardins de infância.
Aproxime-se das crianças, leitor, e com voz de dublador de filme de vampiro espalhe a notícia - A loura voltou a fazer vítimas do Oiapoque ao Chuí. A loura está atacando mil rianças por dia !
Nenhum programa de incentivo à educação será plenamente vitorioso sem esse detalhe crucial. A loura defunta, vestida de branco, com algodões em sangue nas narinas e olhos vazados, é tão importante quanto o bolsa-escola para fazer do Brasil o país de crianças bem educadas que sonhamos.
Abraços.
Marcadores: confissões


10 Comentários:
E em paralelo à falta do medo no método educacional, temos o quê?
Lembra-se de nossa conversa domingo pela manhã? Anseio, aliás, por seu texto-comentário sobre o troço...
Temos o glorioso balofo Bolinha, macérrimo e músico (deve frequentar Santa Teresa e marchar pela maconha); o Cebolinha falando corretamente; a Magali de dieta evitando melancia em demasia... um nojo, querido, o mundo está perdido.
A loura do banheiro é um clássico do horror infantil. ELa tinha algodão nas narinas, pq vazava sangue por ali!
Fala Simas,
divertidíssimo o texto,
ainda mais para quem frequentava estes banheiros na década de 70 e que tem a certeza de já ter visto a Mulher Loura, ou pelo menos seu vulto "inconfundível".
Abraços
Há que se resgatar o medo dos ralos de piscina, capazes de sugar uma criança inteira. Eu até hoje não me arrisco no fundo, prefiro ficar bebendo na escadinha.
Também passei muitos anos com esse temor da "Mulher Loura". O banheiro, caindo aos pedaços, do meu colégio também colaborava com o ambiente de terror.
Fenomenal, Simão.
Passamos os medos, sobrevivemos e somos educados.
Urge, meu caro, urge.
Forte abraço.
Simas,
Subscrevo-me, comovido, ao seu ímpeto pedagógico. E aproveito para somar mais uma à lista de atrocidades lembrada pelo Edu. Qye história é essa de rei momo magro? O momo tem que ser um rolha de poço, pô!
Abraço!
Ainda sobre o que o Edu escreveu:
um amigo meu, recentemente, foi contratado para ilustrar livros infantis. Grana boa, editora grande, tudo nos conformes. Aí, ele entrega o trabalho pronto e o trabalho retorna com algumas observações do contratante: "Quituteira gorda não pode, isso é estereótipo; corte o desenho onde o menino está com os pés sobre o sofá ou desenhe-o com os pés descalços, para não incitar maus hábitos; tire a bengala do avô, isso rotula e limita a pessoa da melhor idade". Em suma, um nojo!
Quanto aos personagens adolescentes dos gibis, em especial o Bolinha, de quem sempre gostei: não é que ele tenha se tornado músico. Lembrem-se, ele tocava violino, mas cresceu e descobriu que esse é um instrumento de velhos. Agora, toca guitarra. Enfim...
Não sou do tempo da loira ou de outros mitos, mas quem morou em casa sabe o terror que é descer a escada durante a noite. Favores feitos à vovó eram verdadeiras Cruzadas contra o medo...
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