BODAS DE PRATA
Este ano de 2009 guarda, para esse escriba, uma efeméride da maior importância - daquelas que merecem especial destaque e grande comemoração. Estou completando vinte e cinco anos sem ir ao teatro. Bodas de prata.
A última vez em que compareci a uma peça foi nos tempos de colégio. Um camarada da minha turma fazia parte de um grupo de teatro comandado pelo diretor Damião - um cabra que trabalhava com jovens e ficou conhecido pela montagem de Capitães de Areia, com Alexandre Frota e Roberto Battaglin no elenco.
Um dia esse Damião resolveu montar O Guarani, baseado na obra de José de Alencar. O meu colega de escola estava no elenco e, por causa disso, a turma resolveu comparecer para prestigiar o nosso astro. Fiquei meio desconfiado, mas entrei no barco rumo ao Teatro Galeria, no Flamengo.
Para começar, estávamos todos na entrada do teatro quando o colega chegou. Alguns companheiros tentaram falar com ele, mas o cidadão passou batido, sem cumprientar ninguém. Uma amiga dele nos explicou:
- Ele já está concentrado no personagem e por isso não pode parar para conversar aqui fora. Ele já está dentro do personagem. É como uma incorporação.
Eu achei tremenda falta de educação, mas relevei.
A peça era inacreditável. Basta dizer que Maurício Mattar era Peri. O impressionante é que, depois de uma hora de exibição, nada do colega de classe aparecer no palco. Até que - subitamente - o índio Peri declama alguma coisa enquanto no fundo do palco, na penumbra, passam alguns homens carregando sacas e sofrendo. Eram escravos.
Um deles, acreditem, era o astro do colégio. O cidadão atravessou o palco fazendo expressão de sofrimento e...não voltou mais. Toda aquela papagaiada de concentração, entrega ao personagem e o escambau, se resumiu a esse momento impactante da dramaturgia mundial - o cabra atravessou o palco no escuro, carregando uma saca nas costas, enquanto Maurício Mattar, seminu e fantasiado com um cocar de caboclo de umbanda, recitava alguma coisa.
Naquele momento decidi nunca mais me submeter a isso. Acontece que eu tenho uma característica que é a seguinte - fico constrangido pelos outros. Todo sujeito se exibindo em um palco, falando alguma coisa e representando um personagem é, para mim, absolutamente constrangedor.
Os amigos podem argumentar que essa peça era uma porcaria. Era mesmo, mas não vale o argumento. Eu já tinha assistido, por exemplo, a uma peça com a diva Fernanda Montenegro e tenho que lhes confessar : pareceu-me, a Fernandona, uma iguana velha estragando um texto clássico [se a memória não me falha, era Fedra, do grande Eurípedes ].
Alguém pode argumentar que a minha antipatia pelo teatro vem do fato de que namorei, em antanhos, uma atriz. Pode ser. Confesso que me surpreendia com as impactantes demonstrações de sensibilidade à flor da pele e carinho uns pelos outros que os atores demonstravam. Eu me sentia uma espécie de homem de gelo, um Bjorn Borg com toques de Dick Vigarista - não me comovia com coisas que deixavam os sensíveis companheiros da minha namorada em frangalhos emocionais.
Uma vez, estarrecido com um chilique que um amigo dessa minha namorada deu ao ouvir a música Romaria, interpretada pela cantora predileta de todos os atores, Elis Regina [o cabra estava prestes a cortar os pulsos de emoção] , perguntei :
- Ele não está exagerando um pouco nessa emoção? Será que ele está morrendo? É melhor chamar a ambulância.
A resposta foi inesquecível :
- É normal. Nós, atores, somos bichos estranhos. Temos um outro canal de sensibilidade.
O namoro, evidentemente, foi para o beleléu com certa rapidez.
Dia desses alguém, que por óbvio me conhece pouco, perguntou se eu tinha assistido Hamlet, com Wagner Moura no papel do príncipe da Dinamarca. Respondi de forma muito simples:
- Não. Eu já li a peça e é suficiente. Quero continuar gostando do Shakespeare e não piso num teatro nem debaixo de vara de marmelo.
Enfim, meus amigos, sei que esse é um texto que vai causar profunda decepção em alguns leitores desse blog. Paciência. Eu só pretendia confessar de público meu horror ao teatro [que poderia ser ótimo se não fosse por um detalhe - o ator ] após a morte, baixando em algum médium em uma sessão espírita de mesa branca. A efeméride dos vinte e cinco anos distante das platéias, porém, me parece especial demais para ser ignorada.
[ Cometi um equívoco, mas estou com preguiça de mudar o texto todo. Eu escrevi várias vezes a palavra peça. Esqueci que, para meus amigos atores, peça não existe. O correto é usar a expressão espetáculo. Onde escrevi peça, então, leiam espetáculo que tá tudo em casa.]
Abraço
Marcadores: confissões


17 Comentários:
Concordo em gênero, número e grau. Outro porre (No mau sentido), com raríssimas exceções, são os filmes 'musicais'.
Levi.
Belo texto,Simas!
Pelo título achei que vc estava falando do seu casamento.
Ás vezes, é melhor nem ir ao teatro mesmo. Só vou ao teatro pouquíssimas vezes. Aqui em Salvador as peças geralmente são super caras(qdo vem montagens de "fora").
Minha última peça foi "Shirê Obá- O banquete do Rei", foi bem legal. Meu único problema foi com o ator que fazia Exu,ele me olhava tanto que quase passei mal!
Abraço!
Simas, você precisa abrir a sua mente e trabalhar a sua sensibilidade. Recomendo que fume um baseadinho para relaxar, pare de andar com esses seus amigos machistas e procure fazer análise com um psicólogo freudiano. Esta sua implicância com o teatro deve ser fruto do trauma sofrido por ter sido o seu amigo, e não você, o escolhido para fazer o papel de escravo na peça citada em seu texto. Pense nisso.
kkkkkkkkk... divertido !!
Como dizia a turma do "Casseta e Planeta", no tempo em que eram egraçados,
"Vá ao teatro... mas não me chame !"
Abraços
Helvécio
Simão,
E cá entre nós, chamar o Damião de "cabra" só mesmo a título de blague ...
Saravá!
Simas ,
quem me levou a primeira vez ao teatro foi justamente o colégio Paulo de Frontim, ai na Barão de Ubá , exatamente nesta montagem do Damião de capitães de areia , mas sinceramente o que mais marcou minha memória eram os corpões do Bataglin, Frota que na época eu acreditava ... e no Mauricio Mattar. Fazer o que , era inevitável...
Luiz Antonio: os atores, meu velho, os atores são, as mais das vezes, isso mesmo, do alto da cabeça à sola dos sapatos (quando usam sapatos, eis que atores são mais dados ao uso de sandálias de couro cru). Não sou amigo de nenhum ator e o último com quem esbarrei foi com um que é, segundo o cada vez mais lamentável Joaquim Ferreira dos Santos, o maior colecionador de bonecas Barbie (sem o negrito, é evidente, que essa porra não é gente) do Brasil. Encontramo-nos numa audiência num Juizado Especial Criminal em que eu figurava como réu (autor do dano) e ele como... como... como... autor (a vítima)! Em brevíssimo conto a você, lá pelo BUTECO (também não é gente, mas o blog é meu), o que foi que aconteceu (a sentença etc etc etc). As únicas peças a que assisti na vida - as únicas!!!!! - foram todas escritas pelo Nelson Rodrigues. E assassinadas pelas "estrelas" do espetáculo. Como disse o Andreazza, eis aí um texto que eu gostaria de ter escrito (como tantos outros, aliás, publicado aqui, no melhor do Brasil). Beijo grande. Ah, só mais uma coisa (anseio por sua opinião sobre o troço): por quê, meu Deus, por quê?, atores e atrizes, diretores e contrarregras (ficou assim depois da reforma ortográfica?) ficam dizendo "merda pra você", "merda pra você" antes de entrarem no palco? Por quê?
Eu acho que o Simas queria ter sido ator, e de teatro.
Digo, Paulo de Frontin.
EDGAR, eu no fundo queria ter sido membro da comissão de frente da Imperatriz naquele ano em que todo mundo desfilou de cisne.Já pensou? Com a barriguinha de fora?
EDU, eis um enigma. Merda...pesquisarei sobre o momentoso tema.
BRUNO, acho que vou procurar um analista. Que tal?
FRAGA, de fato, cabrita ficaria melhor...ou ovelha?
Ouvi dizer por aí que o hábito de desejar "merda" aos companheiros de cena nasceu na França. No tempo em que a galera ia assistir as peças, ou melhor, os espetáculos de carruagem o sucesso dos mesmos poderia ser medido pela quantidade dos rastros deixados pelos bichinhos. Ou seja, a "merde" era sinônimo de casa cheia.
Virei assídua aqui do blog, professor. Abraço!
grande simas,
imagine se o amigo morasse nessas bandas de fortaleza e fosse assistir peças caça-níqueis com atores da globo. um porre.
a última vez que fui, ainda namorava minha mulher - hoje já tenho uma neta, foi um tal de esperando godot ou a volta dos que não foram de moliére. uma verdadeira bosta pra ficar no popular.
voltei aos teatros da vida quando fui estudar no rio. achei interessante as peças é do millor com a fernandona e as lágrimas amargas de petra van kan ou, coma apelidaram, os sapatões do apocalipse.
no fim preferia o teatro rival com costinha e cia. bem melhor e mais saudável e ainda se podia tomar uma ceva decente.
abçs
Posso esclarecer a dúvida do Edu. É que antigamente o público ia ao teatro a cavalo ou em carruagens e estas ficavam ficavam na porta do teatro, com os animais fazendo por lá suas necessidades fisiológicas. Então, se sabia a quantidade de público pela quantidade de merda na porta do teatro. Por isso quando tinha muita merda é pq a peça(espetáculo) era um sucesso. A partir daí os atores passaram a desejar merda uns aos outros.
Abraço,
Arthur Mitke
SENSACIONAL!! Admito que sempre tive um certo pudor em confessar o mesmo: tenho horror a teatro e não vou mesmo! Nem adianta convidar.
Não é preciso dizer o que é esse "outro canal de sensibilidade"...
Luiz.
Luiz Antônio,
Ontem fui a uma estreia horrível. O bel mondo estava lá, até a Heliodora estava lá. Ao fim do desastre, aplausos comedidos.
Um filme ruim, a gente esquece num chope. Uma peça ruim é um trauma inesquecível.
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