23/05/2009

SEM O CARRO, COM JOÃO E LUA


Tomei, no ano passado, uma das mais sensatas decisões de minha vida; deixei de ter carro. A motorista, aqui em casa, é a mulher. A vida sem automóvel é uma belezura - ando de ônibus, barcas e metrô; prefiro beber mesmo em botequins perto de casa; não fico doido em engarrafamentos; gasto de táxi muito menos do que gastaria pagando IPVA, pedágios, seguro e estacionamentos; não sou extorquido por guardadores; e não preciso enfrentar os visigodos do trânsito carioca. Acordo meia horinha mais cedo para trabalhar, mas os ganhos que obtive com essa decisão foram imensos. Sei que muita gente depende do carro - por razões de trabalho e por conta das deficiências grosseiras do transporte público. Eu tenho a sorte de não precisar.

Já esculhambei alhures o governo de Juscelino Kubitschek por causa do desvario rodoviarista dos anos dourados. Além da opção rodoviarista propriamente dita, os anos JK começaram a criar no Brasil um troço terrível; o culto ao automóvel como símbolo de projeção social. O automóvel é o epítome de um Brasil que foi perdendo a delicadeza. O culto ao defunto Airton Senna [um sujeito que conseguiu namorar a Xuxa, apoiar o Maluf e ser amigo íntimo do Galvão Bueno; e cujo talento maior foi o de ficar dando voltas em alta velocidade numa banheira de gasolina] é a sua expressão mais macabra.

Comecei fazendo esse arrazoado contra o automóvel para contar uma história curiosa. Em 1957, em plena euforia desenvolvimentista, o país gastava os tubos construíndo rodovias de integração nacional e sucateava de forma suicída a malha ferroviária. Enquanto o asfalto cortava o país, a Estrada de Ferro Teresina-São Luís, por exemplo, continuava trafegando com máquinas movidas a lenha.

Puto dentro das calças com essa história, o grande João do Vale resolveu fazer uma música denunciando o abandono e a lerdeza da ferrovia. Foi assim que surgiu o xote De Teresina a São Luís - uma das mais elegantes, bem-humoradas e contundentes críticas ao abandono criminoso das ferrovias brasileiras e, ao mesmo tempo, uma crônica magnífica do que era viajar de trem naquelas plagas distantes do Brasil dourado de Juscelino; esquecidas pelo Plano de Metas do simpático Nonô.

O resto é História [maiúscula]. Luiz Gonzaga gravou e a música fez um sucesso danado. Foi o suficiente para que os políticos espertalhões da região providenciassem a mudança; trocassem a lenha pelo óleo diesel e colocassem nas duas locomotivas que faziam a rota nomes de canções de João do Vale. O trem que subia para Teresina foi batizado de Pisa na Fulô, e o que descia para São Luís, de Peba na Pimenta.

Ouçam aqui o Velho Lua cantando essa maravilha que é De Teresina a São Luís.

Abraços.

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9 Comentários:

Anonymous Guigo disse...

Como engenheiro ferroviário, deslocado para a área de petróleo, posso dizer que esta crônica tocou-me profundamente, Simas... espero um dia podermos sentar e conversar e incluir este assunto na pauta. Apesar de todas as desventuras de nossas ferrovias (linhas de passageiros, principalmente), sou otimista e ainda tenho esperança de dias melhores - mas não ficaria triste se alguns senhores que destruíram a nossa malha, e que ainda perambulam por aí, pudessem encarar um paredón.

3:31 PM  
Blogger Monica Araujo disse...

Pois é, como eu disse.. Como se aprende nesse blog. Só tenho a dizer parabéns Simas por tudo que publica.

6:57 AM  
Blogger Roberto Fraga Jr (Uncle Bob) disse...

Que inveja de ti Simas.

Morando no Lins e trabalhando em Botafogo ...com um horário maluco... seria impossível viver sem carro.

Quem sabe na minha aposentadoria ,em 2034, eu possa viver assim.

Em relação aos taxistas, eu adoro esses caras (diversão garantida).

Saudações!

7:22 PM  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Querido, o ideal é não ter carro e nem telefone. Aliás, o ideal é ter pouca coisa para poder usufruir de tudo. Beijo grande!

6:47 PM  
Blogger Carlos Andreazza disse...

Simas, grande!, não me sinto muito à vontade para falar a respeito, você sabe; mas: pior que a opção rodoviária brasileira é o absoluto abandono de nossas estradas por todos os governos desde José Sarney - o pior presidente da história. (E isso, tamanho descaso, sem que tivessem investido em ferrovias ou em alguma alternativa de transporte para longas viagens)...

Forte abraço!

2:43 PM  
Blogger Carlos disse...

grande simas,

tô na mesma pisada, meu camarada.
a consorte assumirá a direção aqui em casa, pois no começo do próximo ano virarei vagabundo, como diria o intimorato fhc, vulgo farol de alexandria.

essa breve história das ferrovias de pindorama, junto com o "puto dentro das calças" do joão do vale foi porreta demais.

valeu, rapaz!

4:24 PM  
Anonymous Julio Vellozo disse...

Simas,

2009 são vinte anos da morte do Gonzagão, agosto se não estou enganado.

abraços,

Julio Velloz

5:27 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

GUIGO,isso pode mesmo render um bom papo. Valeu!

MONICA, obrigadíssimo !

ANDREAZZA, você está rigorosamente correto. Abração.

BRUNO, concordo completamente. É exatamente isso! Beijo.

CARLOS, valeu, meu camarada!

FRAGA Jr. imagino o perrengue. O trânsito de Botafogo é o inferno. Abraço.

JULIO, meu camarada, acho
que é isso mesmo. É, portanto, ano de louvar o imenso Lua. Abração!

10:18 PM  
Blogger Paulo disse...

Na sua próxima história,postarei novidades da música indiana,que vou querer que você discorra sobre.
Sou aluno do curso tijuca,sempre estou por aqui lendo.
abraço

7:31 PM  

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