06/05/2009

DOS PRIMEIROS TELEFONES


A coisa está feia, meus camaradas. Escrevo esse arrazoado sob o impacto de uma cena que presenciei ainda agora e me deixou basbaque; impressionado mesmo. [Não, ninguém morreu. Ou já morremos todos, vá saber.]

Acontece que meu vizinho, um pirralho de oito anos de idade e com moderníssimo corte de cabelo, ganhou de presente um telefone celular de última geração e estava na entrada do prédio fazendo suas primeiras ligações. Calçava, o pequeno, inacreditável tênis de jogador de basquete.

De imediato lembrei do meu primeiro telefone. Era uma lata vazia de leite moça com um furo e um barbante que, amarrado em outra lata, permitia a comunicação entre a criançada. Acreditem os senhores que eu fazia uns latafones da melhor qualidade.

[Abro parentese e faço pequeno parágrafo para esclarecer que, na falta da lata, qualquer pote de iogurte, daqueles de plantar feijão no algodão, servia aos propósitos dos pequenos graham bells descalços.]

Fiquei mirando o fedelho virtual, enlouquecido com o aparelhinho, e agarrei de imaginar o seguinte: Será que esse petiz já brincou de cabra-cega, pique bandeira, carniça, lenço atrás, passa anel, esqueleto humano, garrafão, e quejandos ?

Tascará um dia algum beijo tímido, o menino, numas bochechas rosadas na brincadeira do pêra, uva ou maçã? Duvideodó, macaxeira, mocotó, burra velha é sua avó ! Eu, que voltei do Tororó faz tempo, lembro da parlenda.

Aos oito anos, o micro-homem já está devidamente ligado na rede; tem perfil no orkut, página de fotos digitais, escuta música num aparelhinho de ouvido [ esqueci o nome do troço ] , manda mensagens pelo celular e o escambau. É, enfim, um pingo de gente antenado com o mundo. Lamento por ele e, cá com meus botões, matuto.

Alguém, por exemplo, vai ensinar ao garoto que a búlica consiste em um jogo de bola de gude em que são necessários três buracos equidistantes, em fileira, num chão de terra?

Saberá o pirralho que quem consegue lançar a bolinha direto no terceiro buraco - coisa de craque - pode sair matando as bolas dos outros ? Ah, minhas bolas cacarecadas...

Será que um dia o petiz vai deixar o celular um pouco de lado para aprender a debicar uma pipa? Sempre desconfiei que é soltando pipa, tenteando outros papagaios no debique, que a gente aprende um pouquinho a arrodear a vida e driblar o desassossego. O moleque, pelo visto, disso não saberá.

Entendo cada vez menos, meus camaradas, desses tempos de delicadezas perdidas. Só confesso que me bateu uma baita tristeza pelo garoto do celular e, ao mesmo tempo, uma alegria quase triste de lembrar do meu telefone de lata. Funcionava que era uma beleza e eu me comunicava bem à beça.

Disso dou fé com saudade, cada vez mais. E essa saudade, feito cantiga de marujo, é daquelas que não passam [passaraio, passaraio] e nem me deixam eu passar.

Abraços.

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24 Comentários:

Blogger ipaco disse...

Querido Simas, como entendo seu desabafo!

5:10 PM  
Blogger Isaac disse...

Simas , será que esse moleque sabe o que é um carrinho de rolimã ?? será que algum dia ele vai ter o prazer de andar de patinete feito com 2 rodas de bilha e duas tábuas e um engate feito com um pedaço de vergalhão de ferro ??

6:34 PM  
Blogger Monica Araujo disse...

Simas,

muitas brincadeiras se perderam com a p... do computador, mas meus meninos não abrem mão de jogar bola, bicicleta e a pipa só não soltam pois tenho medo (coisa de mãe) de cair da lage ou grudar na rede elétrica, ser atropelado e etc. mas no horto de Niterói e na Quinta da Boa Vista os moleques tiram a barriga da miséria. As meninas aqui de São Gonçalo ainda brincam de queimado e pique bandeira e os meninos dão uns pegas nas meninas no pique esconde. Como vê nem tudo está perdido. Já dei de natal WAR e Banco imobiliário de presente e eles se amarraram. Agora sabe quando eu eu meteria a mão no meu bolso pra dar um celular pra um pirralho de oito anos NUUUNNNNCAAA!!!! Abraços!!!!

7:33 PM  
Anonymous Mariara disse...

Que lindo texto, Simas!
As crianças de hoje tem uma infância tão limitada.
Eu aproveitei bem a minha!!

7:43 PM  
Anonymous Camilo disse...

Simas,
não como a simplicidade das brincadeiras infantis de outrora.

Meu moleque de 17 meses já ganhou um pião. Os times de botão, o campo e o carrinho de rolimã que eram meus estão guardados para o momento certo. De esconde-esconde (pique-esconde no Rio?) a gente já brinca com ele e ele adora. E por aí vai. No que depender de mim ele conhecerá muitas das brincadeiras realmente infantis.

Uma pena que muitos pais não tenham essa preocupação.

9:07 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

PT, o negócio é sério, meu camarada.

ISAAC, que moleque hoje em dia sabe? Pouquíssimos. É pena, meu velho.

MONICA, ainda bem que com os teus é assim.

MARIARA, obrigadíssimo pelo elogio!

CAMILO, aqui é pique-esconde mesmo. E roda o piãodo moleque!

Abraços

9:49 PM  
Anonymous fraga disse...

Meu Velho,

Hábito salutar, nenhum: lascar uma, nem pensar; vai ver que essa miniatura terá como interesse colecionar Barbies, quiçá tatuando-as na virilha ou arredores.

Com a palavra, Mr. Goldenberg.

Saravá!

9:49 PM  
Blogger Marcelo Moutinho disse...

Mestre Simas, estou aqui no Canada, como vc sabe, e vendo que o buraco e ainda mais embaixo... Como vc bem disse, e tempo de delicadezas perdidas mesmo (perdoe a falta de acentos). Vamos tomar umas na volta, hein?

11:00 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

SEU FRAGA, não duvido nada que a coisa termine dessa forma estranha. De nossa parte, viva o Falcon e que o bravo Antônio resgate a dignidade da criançada.

MOUTINHO, camarada, umas não...muitas.

Abração.

5:56 AM  
Anonymous Anônimo disse...

Simas,

Nas minhas pelejas disputadas na terra, búlica era simplesmente o nome do buraco (qualquer um dos três). Jogava-se "à brinca", ou "à vera", onde quem ganhava levava a bola do adversário. Extremamente viciado na brincadeira, acabei me tornando um craque da modalidade. Recentemente, dei minha vasta colação de bolinhas carambolas, leitosas, azuis, verdes (muitas arrematadas no "à vera") a um garoto, filho de um amigo, que, para minha felicidade, pareceu se interessar pela brincadeira.

Desculpe-me a ignorância, mas lenço atrás, esqueleto humano, e quejandos, eu não conheço. De todas as outras, já participei, muito embora, pipa, bola de gude, bafo e botão sempre tenham sido os meus favoritos.

Nesse tempos de orkut e ipods (acabei de adquiri um, confesso), você não acha que seria oportuno lançar uma série sobre essas salutares brincadeiras e suas regras?

Bons tempos...

abs.,

Daniel A.

10:39 AM  
Blogger Szegeri disse...

"De quinze em quinze minutos aumenta o desgaste da nossa delicadeza." (Nelson Rodrigues)

7:28 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Nesses tempos da "economia de velocidade", onde tudo é mais rápido e mais sem graça, talvez o grande Nelson adaptaria suas sábias palavras para "de cinco em cinco", "de dois em dois"... sei lá. Vai saber...

A tecnologia suprimiu a delicadeza do mistério. E a infância virou um troço chato. Estarei atento aos meus filhos.

Abraços!

9:49 PM  
Blogger alberto disse...

voces viram a entrevista do imperador adriano?

importante,
abraço
mussa

5:25 AM  
Blogger Paulinho Pace disse...

Grande reflexão !! Fico logo arrepiado pensando nesse processo de desumanização que estamos assistindo. Com isso as relações estão cada vez mais distantes, seja pelo celular, computador, ou o que for. Tudo muito frio, sem contato, olho no olho... Algumas pessoas vão logo falar na questão da violência, o perigo das crianças sairem de casa, brincar nas ruas etc.Não sei não, acho que de certa forma a violência das ruas nos ensina a nos defender, a amadurecer para enfrentar o mundo. Deixa pra lá, isso é papo pra mais de métro...

9:26 AM  
Anonymous Anônimo disse...

Simas,

Nem tudo está perdido!!! Eu confesso que até cheguei a ficar em dúvida em dar um livro daquele dos carros (do filme) para um pequenino amigo que fazia oito anos. Eu sabia que ele adora o desenho e o livro era cheio de "pra-que-isso". Mas decidi correr o risco e dei um livro que reunia contos da mula-sem-cabeça, curupira, saci,... O livro ainda vinha com cd com uma música para cada conto. Não é que ele simplesmente adorou o presente?!?! Fez mais sucesso que o presente dos tios, aquele videogame que você joga com seus movimentos (sei lá o nome disso). Ganhei o dia!

beijocas, Joaninha

10:01 AM  
Anonymous Camilo disse...

Joaninha,
deveras interessante.
Tens o nome do livro?

Camilo

10:36 PM  
Blogger CH do Amaral disse...

Simas,


Lembro bem do tempo em que brincávamos de carniça, pique-bandeira, corrida de bicicletas e jogávamos cascudinho. Nessa época, você era conhecido como Lula e, parece que tudo era mais simples e divertido do que é hoje para as crianças. Tento fazer com que minha filha se divirta como eu me divertia, mas é díficil. O mundo não é mais o mesmo que era quando éramos crianças.

Abraços,

1:50 AM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Ô CH,eu continuo sendo conhecido como Lula, meu velho. Os da antiga, minha mãe, meus irmãos, meu pai, etc. só me tratam assim. Brincamos muito onde? No Humberto Antunes? Abraço

6:53 AM  
Blogger CH do Amaral disse...

Foi no Humberto Antunes, onde minha avó morava. Eu sempre estava lá com meus irmãos.
Não sei se você ainda lembra, afinal faz muito tempo, mas na época, estávamos sempre juntos, eu, meus irmãos (Eduardo e Marcus), você e o Ale.

8:23 AM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Opa! Lembro, claro. Carlos Henrique. Sua avó morava no térreo, no apartamento de fundo. Faziamos também históricas corridas de bicicleta.

Bons tempos!

11:24 AM  
Blogger CH do Amaral disse...

Nessas históricas corridas de bicicleta, você sempre saía da pista, seu avô corria atrás da gente desesperado, com medo de que atropelássemos alguém e eu quase perdi um dedo, quando bati no muro.
Se bem me lembro, naquela época, acho que você torcia pelo Flamengo...
Eu, continuo sofrendo com o Vasco.

Bom te reencontrar. Abraços.

12:04 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Carlos, é verdade. Eu nasci Flamengo - como quase todo mundo - e me converti ao começar a frequentar o Maraca. Bela lembrança, meu velho, do desespero do meu avô com nossas maluquices. Qualquer hora dessas vamos marcar de tomar uma gelada para relembrar aqueles tempos.

Abraço.

3:47 PM  
Blogger Marcelo Moutinho disse...

Quase todo mundo e o catzo!

12:54 AM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Moutinho, querido, Nelson Rodrigues não me deixa mentir...

abração [e já está no Bananão?]

6:19 AM  

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