CONFISSÕES - A PRIMEIRA [E QUASE ÚLTIMA] BARBA A GENTE NUNCA ESQUECE

Nutro um profundo horror ao hábito de fazer a barba. Não meto a lâmina no rosto quase em nenhuma circunstância - o máximo a que me permito é tratar relativamente bem da dita cuja [sem frescuras], dar uma aparada de vez em quando, evitar que o bigode invada os lábios, etc. Faço, enfim, os procedimentos básicos indicados aos que - como eu - cultivam os pêlos do rosto.
Desconfio que a completa aversão que tenho a me escanhoar seja motivada por um trauma infantil. Explico e confesso.
Quando era um moleque com o diabo no corpo [apud minha tia Lita] havia uma propaganda da Gillette na televisão que me perturbava profundamente. Um sujeito aparecia em frente ao espelho do banheiro preparando-se para fazer a barba. O malandro besuntava creme no rosto e pegava a lâmina para começar a se barbear. Até aí, tudo nos trinques.
De repente aparecia no banheiro, de maneira fantasmagórica, uma loura gostosíssima, daquelas de fechar o comércio. O pedaço de mau caminho acariciava o caboclo por trás, agarrava o cabra pela nuca e dizia, com voz tremendamente sensual, algo do tipo:
- Você sabe quem sou eu? Eu sou a Platina da Platinum Plus. É graças a mim que você faz melhor a sua barba.
Era demais para meus dez anos. Comecei a delirar - e tome de cinco contra um - com a possibilidade de encontrar a loura da Platinum Plus em frente ao espelho. Movia-me, inclusive, a convicção de que a boazuda estava pelada. Até então, a única loura que um sujeito da minha idade arriscava encontrar no banheiro era a morta com algodões ensanguentados nas narinas.
Dotado de coragem tamanha, tomei uma daquelas decisões que transformam os meninos em homens - resolvi que era a hora de fazer a minha primeira barba, evidentemente com a lâmina platinum plus. Não tinha ainda um único pêlo no rosto, mas algo me dizia que o momento era aquele.
Juntei uns caraminguás que ganhava para ir ao colégio [cheguei a passar fome] e comprei numa farmácia da Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, meu primeiro aparelho de barbear. Uma Gillette Platinum Plus.
Tranquei-me no banheiro. Tive o cuidado de avisar antes pra minha tia Lita :
- Vou demorar muito. Estou com uma dor de barriga terrível.
Emocionadíssimo, enfiei o creme de barbear do meu avô no rosto, passei o pincel, abri a Gillette e, trêmulo, tive a certeza de que alguma coisa aconteceria. Eu, no mínimo, sentiria a presença da Platina de Platinum Plus.
O resultado foi devastador. Passei o aparelho de forma demasiada, com a fúria de uma vara de javalis. Acho que me inspirei nos aparadores de grama. Era a minha primeira barba, tão escondida quanto a primeira punheta.
O resultado foi impressionante. Por pouco, muito pouco, não retalhei inteiramente meu rosto e precisei de uma plástica. Apavorado, diante do sangue que jorrava, abri a porta e pedi socorro. Minha tia e minha avó correram para ver o que tinha ocorrido e lá estava eu, cheio de cortes na carinha de bunda.
As duas resolveram então me inundar com a loção após barba do meu avô - vagabundíssima. Nunca, confesso aos amigos, senti algo arder tanto como aquela loção de cangaceiro no meu rosto. Minha tia, previdente, ainda deu um banho de mertiolate nos cortes para evitar inflamações. Quem se lembra como ardia o mertiolate em antanhos sabe o que isso significa.
Foi um fiasco, essa escanhoada inaugural. Tomei verdadeiro horror ao ato de fazer a barba, que desde então me parece de um primitivismo atroz. Não é coisa de gente civilizada.
O pior foi explicar para minha avó a razão de ter cometido aquele desvario. Não me sentia a vontade para falar da loura gostosa da Gillette - a verdadeira razão de meu gesto. Inventei a única coisa que me pareceu plausível no momento - disse que a minha barba estava crescendo rápido demais, a professora no colégio tinha reparado e alguns amiguinhos estavam me chamando de homem das cavernas [os burraldinos] e D. Pedro II [os sabichões]. A vó não acreditou muito, não.
Ao chegar do trabalho, meu avô soube da lambança e me deu um esporro básico. Com o vô, porém, abri o verbo. Falei da esperança de sentir a carícia da loura fatal e outros salamaleques. Ele entendeu e acho até que se orgulhou da merda que fiz - a causa era nobre.
Algumas pessoas identificam a perda da inocência no momento em que descobrem a inexistência do Papai Noel. Eu pouco me importei quando descobri que o Bom Velhinho era apenas uma conversa mole pra boi dormir e deixar a criançada na ilusão de que a vida é boa.
O que destruiu mesmo minhas fantasias mais inocentes foi saber - de forma dolorosa - que a Platina da Platinum Plus era uma ilusão sem vergonha, fomentada por uma propaganda desonesta. Eu nunca seria atacado no banheiro por uma mulher daquela.
Quero crer que foi ali, no meio do Amazonas de sangue que jorrou no rosto do moleque, que nasceu esse careca barbado que hoje sou.
Abraços
Marcadores: confissões

8 Comentários:
Grande história, Luiz. Já eu não consigo passar mais de 4 ou 5 dias sem fazer a barba...
Andei lendo outros textos e gostei do seu estilo, feed assinado.
Abraço.
Rindo bastante, Simas... ótimo texto e ótima história!!!
Também cultivo barba, estilo ogro, por vezes capaz de alimentar pogonofobias em petizes e donzelas.
Abs.
grande simas,
que crônica, meu amigo!
quase me lasquei de rir. e então a estória do cinco contra um me fez voltar à covardia que praticávamos prazerosamente sem nunca ter nascido, até onde sei, pelos nas mãos.
parabéns.
Sensacional, Simas!
Sensacional!
Do que é (ou era, sei lá essa molecada de hoje) capaz a mente de um moleque cabra macho, hein?
Abraço!
Muito bom o texto!
Voce realmente tem o dom para contar historias!
Legal pacas Simas!!!
Muito bom.
Eu estava mesmo precisando rir!
Saudações!
Simas!
Mto bom mesmo!!
O que uma propaganda não faz com uma pessoa....rs
Beijos
Simas vc é uma figura!
Eu me divirto com as suas confissões.
Não sei se você sabe quem eu sou...
Sou sua aluna no pH de niterói.
Você com toda certeza, escolheu a profissão certa. Rs
Beijos
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