CURIMBA DE MOLEQUE E A QUE NOS ALUMEIA
Dia desses estava relembrando, entre alguns malungos numa mesa farta, uns pontos de umbanda e encantaria que marcaram profundamente a infância que vivi e meu gosto musical - forjado ali, no Tempo, onde as coisas se firmam, descansam em algum canto da alma e vez por outra desadormecem.
Cantei, dentre vários, a chamada de encantaria de caboclos boiadeiros Pedrinha Miudinha. Acho que desde que me conheço por gente escuto isso e não me canso. Ultimamente tenho, inclusive, me comovido mais ainda com as curimbas que ouvi menino. Como essa.
Quase todos à mesa conheciam a música - das gravações de Maria Bethania e do Cordel do Fogo Encantado. Pouquíssimos sabiam, entretanto, que Pedrinha Miudinha é um ponto de fundamento da maior seriedade. É macumba, rapaziada. Quem viu um caboclo do Brasil dançando ao som dessa cantiga sabe a profundidade do negócio.
Por isso, nesse varandão sonoro dos sábados, coloquei aqui uma gravação de Pedrinha Miudinha do meu acervo de cantos de umbanda e encantaria. Essa gravação está nos conformes, como deve ser, no terreiro, com atabaque e coro.
A foto que ilustra esse varandão é minha, tocando atabaque no terreiro de minha avó, ao lado de meu irmão Alexandre. Eu sou o mais velho, olhando para a câmera. Quem sabe não estávamos, Ale e eu, tocando - e aprendendo, com a curimbeira de mão cheia e sabedora das coisas do Pará e do Maranhão, Dona Mundica - Pedrinha Miudinha?
Bisbilhotando no youtube, encontrei também um vídeo em que Teresa Cristina canta, acompanhada pela rapaziada do Grupo Semente, esse ponto maravilhoso, numa levada menos crua, mas ainda assim típica de quem conhece do babado. Vejam só e prestem atenção nessa versão da letra [ conheço três versões para essa curimba; todas com o mesmo sentido de louvor ao que é, aparentemente, irrelevante ] :
Uma é maior, outra é menor : A miudinha é que nos alumeia ! Quer frase mais séria que essa, meu velho? O mistério está na pixototinha, como costumava chamar - as coisas miúdas - a minha avó.
A pedra grande, espalhafatosa, a que ocupa demasiado espaço, é a que impressiona os homens e parece ofuscar tudo a sua volta, na imensidão de seu tamanho. Mas é a miudinha - em geral ignorada - que nos alumeia e concentra o silêncio sábio do mistério.
Ela, a miudinha, tempera os tempos, como certa vez disse um caboclo. E se ele assim disse, eu é que não duvido, pois disso sei porque vivi : andei me deixando levar por pedras grandes, enganadoras, mas estou redescobrindo a miudinha que nunca deixou de zelar por mim e pelos meus camaradas - mesmo quando estive distante.
Viva os caboclos do Brasil e que eles me guardem sempre - como sempre fizeram.
Saravá
Marcadores: encantaria, pontos de macumba, umbanda, varandão sonoro

7 Comentários:
Simão, viva os caboclo do Brasil!
Certa vez ouvi um grupo cantar a pedrinha batendo um arujá pra Xangô. Coisa linda, malandro!
Abraço!
Que beleza isso, Simao.
Tá no sangue. É coisa que emociona quem já se alumbrou com a força dos orixás. É coisa que emociona quem racionaliza o significado e explora o mistério. É coisa que alumeia!
Meu saravá e minha reverência, meu careca querido!
Simas,
Quando era pequena que minha mãe me levava ao terreiro do Pena Verde aí na Pereira Nunes, lembro-me de uma figura , que funcionava mais ou menos como o “puxador” (sei lá que termo uso) dos cantos das sessões. Os dois que faziam este papel tinham vozes fortes e belas, e quando puxavam o ponto, cantavam toda a primeira parte anunciando qual “gira” seria celebrada naquele dia e na segunda entrava o coro do restante do povo. Tudo instintivamente, nunca se ensaiou nunca se conversou como deveria ser, mais nos filmes da minha vida, foram um dos melhores musicais que já assisti e ouvi. Depois de ler este texto fiquei com um canto na cabeça que não sai mais ...
“Quem manda na mata é Oxossi,
Oxossi é caçador, Oxossi é caçador...
... é na Aruanda ê...”
DIEGÃO, tô no aguardo pra gente bater um tambor em breve, meu velho. Abração.
MARCELO, o que tem de ponto bonito não está no mapa. É muita coisa, meu camarada.
COUTO, meu querido, e vai sempre nos alumiar! Saravá.
MONICA, será que esse terreiro ainda existe? Vou procurar saber. Vou ver se tenho entre minhas coisas um ponto bacana de Oxossi pra botar na rede. Abraço.
Você me falou do texto, e nós ainda estavámos no Rio! Adorei...muito, muito lindo! Com certeza, apenas você com a sua sensibilidade peculiar conseguiria colocar tanta emoção no texto! A foto também, surreal! Parabéns, querido! Grande beijo, Mari.
SImas, qu ebelo texto!!! Como não vi isso antes, meu velho??? Parabéns!! E nos visite sempre!!! Que agora eu virei sempre aqui, na suma Guma!
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