DIA DO BOI

Hoje é dia 24 de abril. Movido pela mais absoluta curiosidade inútil [são as melhores], abro um desses sítio malucos da grande rede para saber se é ocasião de se comemorar alguma coisa importante na Ilha de Vera Cruz.
Descubro, por exemplo, que hoje é aniversário de nascimento do senador José Sarney. O homem que desmoralizou o uso do bigode como símbolo de decência, veio ao mundo em um 24 de abril de 1930. Eis um bom motivo para se tomar umas geladas mais tarde - esquecer essa extração completa do corpo da mãe que colocou o Ali Babá maranhense entre nós. Gol contra.
Para piorar a fama do dia 24 de abril, foi nessa data - em 1982 - que o grande historiador, escritor e professor Sérgio Buarque de Holanda cantou para subir. Mojubá.
Sacanagem igual [ Sarney nascer e Sergio Buarque morrer na mesma data só pode ser uma artimanha dos deuses mais sacanas] só mesmo o fato de Noel Rosa ter morrido em um dia 4 de maio [1937] e Lulu Santos ter nascido no mesmíssimo dia e mês [1953]. O 4 de maio deveria ser considerado dia do luto na história da música do Brasil, tanto pela morte de Noel como pelo nascimento de Lulu.
Aprendo ainda que neste 24 de abril o Brasil comemora quatro eventos. É dia do agente de viagem ; dia do agente penitenciário ; dia do samurai [ sim, 24 de abril é considerado pela lei brasileira dia do samurai e faltam-me palavras para dar conta da importância do fato] ; e dia do boi.
Pronto. Me reconciliei com o 24 de abril. Hoje é dia do boi. Tenho pelo boi um respeito profundo; estou convencido de que sem o gado o Brasil não existiria. Explico.
Nos tempos coloniais, a Coroa proibiu a criação de gado no litoral brasileiro. A lógica era simples - a costa, com seu solo propício à produção em larga escala de cana-de-açúcar, não poderia ser utilizada como pasto. Lá foi o boi, então, desbravar os limites de Tordesilhas.
Graças a interiorização de rebanhos, fomos povoando o sertão nordestino, o vale do rio São Francisco, as campinas do Sul, a amazônia marajoara e o escambau. A pecuária dinamizou a economia interna e bordou o Brasil de folguedos, toadas, batuques e visagens assombradas do ciclo do gado. O boi virou poesia do homem brasileiro.
Hoje é dia, portanto, de render loas ao boi e aos homens que fazem das folganças do bumba e da arte de tanger gado essa belezura brasileira de recriação da vida.
Um único boi - qualquer boi : novilho, almalho, magricela, um qualquer - fez mais pelo país do que José Sarney em cinquenta e tantos anos de vida pública.
Abraços.
[ouçam aqui um belíssimo ponto de umbanda em louvor aos caboclos boiadeiros, encantados tocadores das boiadas do Brasil ]
Marcadores: Boi, boiadeiros


9 Comentários:
Simas, já reparaste que sempre que o nome "Sarney" aparece, no noticiário, vem sempre notícia ruim (não importa o primeiro nome: José, José Filho, Roseana)?
Mas o que importa é mesmo o Boi, nosso lídimo representante artiodáctilo, desbravador de continentes e alargador de fronteiras. Viva o BOI!!!
E VIVA O BOI!!!
Maravilha, Simão! Sem falar que, por causa do boi, inventou-se no Brasil um dos cantos mais tristes e profundos de nossa alma sertaneja que é o aboio. Dizem os vaqueiros mais velhos que o aboio é a própria voz do boi no lamento do homem.
É Simas, ler seu blog tem se tornado, cada vez mais, uma alternativa de suprir a falta das suas aulas de quinta-feira...
Estive hoje na casa de um descendnte de samurai. Tio Augusto Abe é netode Akira Muramoto, que lutou na resistência contra o fim do Xogunato Tokugawa. Japonês porradeiro. Valorizo a contribuição deles para o Brasil.
Fiquei com nojo ao descobrir uma frase do Oliveira Vianna, teórico da eugenia brasileira, que disse o seguinte:
"O japonês é como o enxofre: insolúvel". Um escroto.
Quanto ao boi, motivo desse belo texto, manifesto aqui que a forma que ele mais me apetece é assado na brasa, acompanhado de cerveja gelada, muita batucada e cachaça de litro.
Abraços!
ah, e vale lembrar também, na linha do ponto que voce ligou, uma cantiga de boi gravadfa pela antiga alcione, dos velhos tempos:
no lombo do meu boi
tem um céu todo estrelado:
ferro em brasa não encosta
meu boi é mimoso
meu boi é mimado
etc..
simão, vale lembrar que foi esse processo, a busca pelos pastos, que originou a guerra dos bárbaros e a sua resposta, a confedaração dos cariris.
entre mortos e feridos, nasceu o samba rural, o samba de caboclo, qua ainda hoje a gente escuta nas margens do são francisco.
viva o boi!
abração
Ótimo texto.
Apenas um detalhe: Ali Babá não fazia parte do grupo de quarenta ladrões. Ele foi quem descobriu o escoderijo.
abraços
Helvécio
Helvécio, perfeito. Como Ali Babá ficou com a grana dos ladrões, considere Sarney como o presidente da ARENA que terminou sendo o presidente do país na redemocratização.
Abração.
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