09/04/2009

CONFISSÕES - EROS, TÂNATOS E AS BALAS SOFT


Já escrevi alhures que fui criado dentro dos mais modernos princípios da psicologia infantil - dentre eles o de que certos medos são fundamentais na educação de uma criança (leiam essa confissão aqui ).

Me lembro, por exemplo, do dia em que uma amiga da minha avó me deu um pacotinho de balas Soft - eu as amava - de variados sabores. Quando fui abrir - contentíssimo - a primeira bala , Tia Lita [ que detestava essa amiga da vó ] discursou pausadamente :

- Essa é a bala que costuma matar as crianças engasgadas. Outro dia li no jornal que é uma morte horrível; a criança não consegue respirar e não tem quem salve. Ontem mesmo morreu um garoto da sua idade perto do meu trabalho. Morrem, em média, vinte crianças por minuto dessa maneira no Brasil. Eu ouvi na Rádio Relógio. Sabe aonde essa bala foi inventada ? Quer que eu diga ? Na União Soviética. Foram os comunistas, que nunca gostaram de crianças vivas.

Pronto. Foi o suficiente para que eu tivesse apenas uma certeza na vida - morreria engasgado se comesse aquela bala. Vivi, desde então , o dilema profundo entre o prazer de chupar balas Soft e o risco de bater as botas engasgado, sem respirar, agonizando no meio da rua, na sala de aula, no recreio do colégio.

Passei a ter, com aquelas balinhas coloridas, a mesma relação doentia que D. João VI tinha com os peixes. Apesar de adorar comê-los, D. João quase morreu engasgado com uma espinha durante um rega-bofe na Quinta da Boa Vista. Coube ao Visconde de Abrunhosa - que era médico de certo renome - livrar o augusto soberano do momento extremo. Desde então, Sua Alteza preferia fazer uma dietinha baseada em inocentes coxinhas de frango [ umas quarenta por dia ].

Quando contei uma vez esse meu dilema de antanho - chupar a bala gostosa x morrer por causa disso - a uma psicanalista, a doutora encarou o troço com seriedade e desfilou uma lenga-lenga interminável sobre as tensões entre Eros e Tânatos e os dilemas do homem dividido entre o prazer e a dor. Antes que a dona descobrisse em mim uma desconhecida propensão a dar o brioco, cortei o assunto e passei a falar do sequestro do menino Carlinhos e do amor entre Dona Redonda e Seu Encolheu na novela Saramandaia ( é uma forma clássica e educada que tenho de dizer não fode).

Hoje - mais maduro - reflito sobre as balas Soft e concluo que elas tinham para mim um significado parecido com a Konga, a mulher gorila. Ao mesmo tempo em que a transformação da mulher em macaca era assustadora - e eu invariavelmente me empirulitava correndo - aquela cena da moça virando fera endurecia meu bilau infantil com rapidez.

De certa forma, caríssimos, esses são mesmo o únicos dilemas relevantes na vida de um cabra : Comemos as balas sob o forte risco do engasgo fatal ? Ficamos na sala esperando a Konga sair enfurecida em nossa direção para ver que bicho vai dar ?

Eu sempre fui, confesso, meio covarde, adepto da solução a D. João VI - entre o prazer de saborear o peixe e o risco da espinha, prefiro mesmo as inocentes coxinhas de frango.

Abraços.

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18 Comentários:

Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Que beleza, querido, que beleza perceber que os métodos utilizados por nossos mais-velhos são (e foram) semelhantes. Ouvi a mesmíssima história, sem tirar nem pôr, e eu me lembro de um pequeno adendo que fez parte de minha infância com relação a isso:

- Há um jeito de salvar a criança engasgada. Um, que a machuca muito, é fazê-la engolir, à força, água fervendo para fazer derreter mais depressa a rolha asfixiante em forma de bala. Outra é virando a criança de cabeça para baixo e sacudindo-a vigorosamente durante alguns minutos.

Minha bisavó tinha um truque para que driblássemos a tragédia:

- Jamais chupe a bala com essa ventosa (e mostrava, de olhos arregalados, aquele buraquinho num dos lados da Soft) para baixo... Grudou na língua, meu filho, não sai mais... e é um pulo pra que você se desespere e acabe engolindo a bichinha por inteiro. Aí, babau!

9:01 AM  
Blogger ione disse...

Oi Simas,
Cheguei ao seu blog pelo Buteco do Edu! Estou impressionada com a história da bala Soft, eu quando criança tinha verdadeiro pânico e fascinação por elas. Eu comia porque meus irmãos maiores me davam escondido da minha mãe (no colégio deles vendia!). Quando ela encontrava alguma perdida pela casa, quebrava com o martelo, pode?
Daí eu comia aquela porra triturada!
Mas eu achei interessantíssimo o dilema que você apontou, e consigo enxergá-lo em diversas outras situações!
Um abraço,
Ione

10:52 AM  
Blogger Juliano disse...

Essa história das balas soft já é tradicional. Eu tive mais sorte, meus avós também gostavam da balinha, então o terror era mais brando: ficava restrito à recomendações repetidas incansavelmente.

10:28 AM  
Anonymous Rafael Porto disse...

Grande Simas!
Sou leitor assíduo do seu blog, embora nunca tenha me manifestado além de uns cumprimentos no Samba da Ouvidor.
Vou confessar que uma vez me engasguei de verdade com uma soft!!
A única coisa que me salvou da morte certa e agoniante foi uma tapa que meu pai me plantou nas costas de tal maneira que a bala, de rolha asfixiante, como disse o Eduardo, quase virou um projétil letal.
Confesso que depois desse episódio fiquei muito mais cauteloso com essas balas...
Grande abraço,
Rafael.

11:19 AM  
Blogger Vicky disse...

O que é isso, Simas! E voce nao desafiava? Quando algum adulto vinha me falar que bala Soft matava, durante o discurso eu ia abrindo a dita e no final do falatório a colocava na boca pontuando com um inocente "é mesmo?". No máximo minha mae depois dizia "quando engasgar nao vá dizer que eu nao avisei." "Legal, mae. Po'dexá."

Acho que isso se deve ao fato de ter crescido numa casa onde nunca me foi ensinado que existia um coelhinho da Páscoa ou cegonha trazendo criancinha. Papai Noel porém, existiu, mas foi brutalmente cortado na minha crenca infantil muito cedo...

11:36 AM  
Blogger Felipinho disse...

Por isso que preferia as balas SUGUS, que eram morder. Não corria o risco de ter esta morte horrível.

12:00 PM  
Blogger José Sergio Rocha disse...

Sua vó estava certa em quase tudo, pois não eram só as crianças que podiam morrer engasgadas com a bala Soft. Uma vez sem nada pra fazer em casa, desci o prédio onde morava, na galeria do Teatro Princesa Isabel, para ver a comédia que estava passando. Entrei com umas duas ou três balas Soft e, numa determinada cena, o acesso de riso se transformou num sufoco literal. Fiquei estrebuchando, me levantei e a coisa foi tão ridícula que a peça parou. No palco, o ator Osvaldo Loureiro interrompeu um esporro engraçadíssimo que estava dando em alguém e só recomeçou quando voltei ao normal. Ele perguntou: "Tá tudo bem agora, amigo?". Eu respondi que sim com o polegar pra cima e só então a peça continuou. Como eu já estava ficando meio cara de pau na época, não saí da cadeira e continuei com meus ataques de riso, mas jogando fora o resto do pacotinho daquela bosta.

2:24 PM  
Anonymous Wellington Campos disse...

Fala aí, grande Simas!

Tem razão quando diz que crescemos sob certos medos. Só não sei até hoje se eles foram/são úteis, mas f***-se, sobrevivemos a eles.

Obviamente, como criança crescida nos 80, escutei a mesmíssima história das paradisíacas balas Soft. Preferi continuar com o hábito e correr o risco, fosse escondido ou na cara de tdo mundo (até hoje meus tios ainda dizem que há de nascer criança na nossa família que seja mais bagunceiro do que fui, espero que não sejam meus filhos).

Quanto à Konga, embora rolasse um cagaço (e como rolava!), dei a cara a tapa e fiquei na tenda. Na minha cabeça eu só pensava "Não virou macaca, fdp, então dá teu jeito e volta a ser a gostosa do início!". Te juro que foi reconfortante presenciar o retorno da gostosa.

Medo por medo, preferi o risco à duvida.

Forte abraço.

3:11 PM  
Blogger Arthur Tirone disse...

Edu, querido: Uma cena que jamais sairá da minha cuca foi quando minha mãe chacoalhou o Bruno de cabeça pra baixo - ele então com coisa de um ano e meio - violentemente. O moleque sufocou. Ela, em desespero, sacudia a criança; e se sacudia junto, sufocada que ficou de ver o filho roxo. Minha mãe parou de respirar também naquele instante, lembro nitidamente. Ao seu redor a assistência (meu pai, o velho Tirone e minha avó Antonia, uma tia minha, Angelo e eu) atônita e desesperada aguardava o desfecho. Mesmo imaginando uma tragédia ninguém se intrometeu, pois não há mão mais cuidadosa que a da mãe. Eu, com seis anos, temi pelo caçula!
A técnica de sacudir o infante vigorosamente é batata (deu certo com o Bruno), mas só pelas mãos da mãe. Só ela - e ninguém mais! - é capaz de tal reação na hora do "vâmo-vê". Instinto puro.

1:21 AM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Alô camaradas que comentaram o texto: Só nos resta uma tarefa - encontrar em algum canto balas Soft para fazer a experiência. As diversas soluções apresentadas - das mais sofisticada, como as do Edu, às mais pragmaticas, como as do Favela - precisam ser definitivamente colocadas em prova.

Abraços

7:52 AM  
Blogger José Sergio Rocha disse...

Proponho que a experiência tenha como cobaia o Felipinho Cereal, enrolado na bandeira do querido América. Como seu porte físico está bem aquém da estatura moral, dois ou três bebuns poderão chacoalhá-lo tal e qual a matriarca dos Tirone fez com o irmão menos doido do Favela.

11:29 AM  
Blogger Monica Araujo disse...

Eu tinha medo mas encarava assim mesmo , porém só ficava aliviada quando ela ficava fininha. Pior era a bala de tamarino azeda que nem o cão, que virou mania e todo mundo dizia que era boa demais e na verdade dava uma dor nos cantos da boca que não tinha explicação, mas eu encarava também.

2:19 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Simão,

Li seu texto pra mamãe que acabou de me revelar que quase morreu engasgada com a bala Soft. De fato, ela nunca me deixou comprá-las. Eu é que sempre fazia às escondidas.

Abraços!

10:18 PM  
Blogger Paulinho Pace disse...

Oi Simas, como de costume é muito legal relembrar esses causos da nossa infância.
Quando vc puder escreve uma coluna sobre o tema: música X período JK. Pois estava relembrando uma palestra sua sobre o uso da música em sala de aula e gostaria muito de conseguir o nome, letra e autor(se possível) de uma música que vc comentou sobre a dificuldade do sistema ferroviário no interior do Brasil, em pleno período do Rodoviarismo.
Para poder ajudar, vai aí um trecho que eu me lembro: ...comendo lenha, soprando brasa e tanto quebra, quanto atrasa...
Abraços. Paulinho Pace(FEUC)

1:05 PM  
Anonymous Leonardo Teixeira disse...

Minha mãe dividia a bala ao meio !

10:54 AM  
Anonymous Helvécio disse...

Apesar das recomendações em contrário eu não reprimia minha paixão pelas balas soft (especialmente as vermelhas). Engolir uma obviamente não me matou, mas doeu e assustou. Todavia, não temi mais a tal morte. Quanto a Konga (ou Monga) uma vez fiquei pra encarar e quase apanhei do fantasiado. Meu irmão até hoje ri quando lembra da minha reação, praticamente chamando o "bicho" pra luta.

2:39 PM  
Anonymous Mariara disse...

Simas!
Obrigada por me lembrar das balas soft!!
Eu sempre morri de medo de me engasgar!
Saudações da Bahia

7:53 PM  
Blogger edson disse...

BALAS SOFT É UMA DELICIA
COMO PODE PESSOAS DESINFORMADAS QUE FALAM QUE AS BALAS TIPO SOFT VEM TRAZER ALGUM RISCO PARA AS PESSOAS .
NAO TEM DIFERENÇA NENHUMA DE QUALQUER OUTRA BALA DURA SEJA DE HORTELA OU DROPS TIPO HALLS.
PIOR SERIA UM CAROÇO DE AZEITONA OU ESPINHA DE PEIXE .
VIVA A BALA SOFT .

9:45 PM  

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