29 de jan de 2009

A MARCHA DO REMADOR (REEDIÇÕES CARNAVALESCAS)


Há algumas composições carnavalescas que, definitivamente, estão entranhadas na alma do sujeito como um daqueles encostos brabos, que não tem descarrego que faça ir embora. São as trilhas sonoras do nosso mapa sentimental, habitantes que somos da mui leal e heróica cidade de São Sebastião, cenário por excelência das marchinhas mais sacanas.

Digo isso para confessar que tenho uma relação doentia com a Marcha do Remador , de Antonio Almeida e Oldemar Magalhães, gravada pela favorita da marinha, Emilinha Borba, a homenageada deste texto.

Toda vez, por exemplo, em que vou entrar num avião, sempre com a firme convicção de que o bicho vai cair, me preparo para fazer algumas orações aos deuses. Invariavelmente, na hora em que começo a rezar, esqueço as palavras sagradas e sou martelado pelo refrão :

Se a canoa não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Houve uma ocasião em que o bicho pegou. Estava indo à Cuba (não, não fui ver a revolução ou encontrar o comandante Fidel Castro; fui ver la santería mesmo) em um avião da Cubana de Aviacion. Aliás, avião coisa nenhuma. O dito cujo, um Antonov de fabricação soviética, era, para usar o termo apropriado, uma banheira. Embarquei movido a uma quantidade industrial de álcool, que eu não sou trouxa de chegar de cara limpa pro acerto de contas com o Todo Poderoso.

Mal aquele carro de boi com asas começou a se preparar para a decolagem, veio o sinal de alerta. Água no combustível. Saiu todo mundo. Mais bebida, que ninguém é de ferro.

Voltamos ao avião. Preparada a decolagem e...nada. Pane no sistema de refrigeração. Descemos novamente. Fui tomar um negocinho pra descontrair. Há que se ter um mínimo de dignidade na hora de cantar pra subir e quero ir oló honrando o que carrego dentro das calças, cacete.

De volta ao avião. O clima entre os passageiros era de comoção absoluta. Pairava entre as poltronas a sombra da indesejada das gentes, epíteto do poeta para a sinistra senhora.

Uma dona, que tentava manter a calma, sugeriu que os passageiros orassem pelo sucesso da empreitada. Ela mesma puxou um Pai Nosso e uma Ave Maria. Me pareceu, confesso, que aquilo estava mais para extrema-unção coletiva que outra coisa. Em desespero, um cidadão ao meu lado jurou que a velha tinha terminado a reza com um profético "agora é a hora de nossa morte, amém".

Ela perguntou, então, se alguém gostaria de orar representando algum outro credo religioso. Cheio de goró, considerei minha função rezar pros orixás, caboclos e encantados. Com o arrojo de um Garrincha deixando o João estatelado, gritei:

- Eu rezo!

Concentrei-me e mandei na lata. Quem disse que saiu alguma rogação? Nem a pau. Como por encanto, da minha boca saíram os versos da Marcha do Remador, cantados, inclusive, com a modificação singela que as torcidas faziam no Maracanã:

Se essa porra não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Subitamente, em completo descontrole (é o medo da morte, meu velho, é o medo da morte) , comecei a pular como um troglodita, um animal, cantando a marcha aos berros.

Pensam que fui seguido por um coro? Nadica. Pelo contrário. A senhora ficou puta nas calças, os passageiros me chamaram de palhaço pra baixo e eu, solitário, encolhido como pinto em ovo, afundei-me na poltrona e fechei os olhos.

O Rodrigo, camarada que viajava comigo, foi sincero:

- Você tem sérios problemas.

É, talvez tenha. Como acredito, porém, que maiores são os poderes do povo, desisti de lutar contra o que é muito mais forte que eu. Hoje, se a onça ameaça beber água, não tem Pai Nosso, Ave Maria, ponto de macumba ou coisa que o valha. Mando logo uma pra dentro em honra do compadre, seguro firme a guia do Azulão e digo na lata, caprichando no gogó, a Marcha do Remador.

É que nem São Longuinho, rapaziada. Ninguém leva fé mas funciona que é uma beleza.

Evoé !

5 Comentários:

Blogger Marcelo Moutinho disse...

Caraca, Simas, tô rindo pra cacete!

1:15 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Também na volta de uma viagem a Cuba passei pela primeira e espero ultima tempestade tropical da minha vida. É que tinha um frei no avião, muito conhecido aqui e lá, e deu o maior azar.
Conheci lá, numa outra vez, um babaláo e sua família, gente fina.deu pra gente uma caixa de charutos jóia.engraçado se ouvir babaLÁO e não babalaô, né?
elizabeth

11:16 PM  
Anonymous Carolina disse...

Simas: vc tem sérios problemas!!!
Eu ri descontroladamente...
Imagina se vc faz isso pós 11 de setembro?????

2:04 PM  
Blogger Flávia Menna Barreto disse...

Sensacional! Estou rindo muito. Já fui sua aluna e amava suas alunas. E, hoje, sou frequentadora assídua do blog. Você está falando de Bueno? Ele sempre contava nas aulas histórias de uma viagem de vocês à Cuba. Conte-nos mais histórias desta viagem também.

8:53 AM  
Anonymous Natasha Zadorosny disse...

É Simas... Essa parte das histórias de vocês o Rodrigo Bueno não contou, hehehe... Mas Cuba sempre foi um clássico!

Abraços

9:17 PM  

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