31/12/2008

BOM ARROTO NO ANO BOM

Senhoras e senhores, contam os indianos e os persas que Daksa, o criador, maravilhado com o ser humano, resolveu comemorar a criação enchendo a caveira com o mais puro néctar embriagante. Em suma, a divindade tomou um tremendo porre.
Eis que, no meio da porranca, Daksa arrotou escandalosamente. Deste arroto nasceu a Vaca Sourabhi, primeira mãe do mundo. Todas as 41 vacas mães do mundo nasceram assim.
No Brasil, o arroto é visto como um poderoso instrumento de defesa contra feitiços e pragas. Só ele, por exemplo , é capaz de quebrar o encantamento produzido pela Cobra-Grande, essa assombração pavorosa, quando quer atrair os incautos para seus domínios no fundo das águas.
O arroto também foi visto na Península Ibérica, por muito tempo, como um elogio à qualidade da refeição. Era uma honra para qualquer cozinheiro que, ao final do jantar, uma sinfonia de arrotos se transformasse na música ambiente, prova cabal do bom sabor dos acepipes.
Constatando isso, só me resta sugerir, nesse pequeno texto que fecha o ano de 2008 no blog, que os senhores não se avexem e arrotem em profusão na virada do ano. Só pode fazer bem.
Com os arrotos, vão embora as pragas de 2008 e, quero crer, as pragas futuras. Os que arrotam também estarão reproduzindo o elegantíssimo hábito de elogiar as prendas de quem fez a ceia. Coisa fina. Por fim , e o mais importante, assim como Daksa fez , arrotar de porre é um elemento gerador de novas possibilidades de vida.
Encham a cara e arrotem em seguida. Há o risco de surgir uma vaca no meio da ceia. Neste caso, que seja farto o churrasco e que sejam fartas todas as mesas.
Que venha 2009.
Até lá.

22/12/2008

REEDIÇÃO - EU SONHEI EM DEZEMBRO -

Meus amigos, republico hoje um texto alucinado que escrevi em 2006 como uma espécie de delírio da Natividade. Estou passando as festas de fim-de-ano fora do Rio, o que me fará retomar o ritmo mais intenso do blog apenas em 2009, lá pela segunda semana de janeiro. De vez em quando postarei aqui, neste intervalo, alguns textos antigos.
Boa noite, meus senhores todos; boa noite senhoras também. Estamos no mês de dezembro e começou o ciclo de festas natalinas. Nas cidades do norte e do nordeste, as moças começam a arrumar as rendas, anáguas e alfaias para a festa do Pastoril. As mestras e contra-mestras dos cordões azul e encarnado preparam as pastorinhas e ensaiam danças e cantigas para a noite do Deus menino. Do Maranhão às Alagoas não se fala em outra coisa.
No país inteiro, grupos de devotos vão de casa em casa com tambores e violas de fita, recolhendo donativos para os festejos dos Santos Reis. Em qualquer jornal do país se pode perceber a imensa expectativa que cerca o cortejo dos foliões. Há hoje, no Brasil, mais de dez mil grupos de folias de Reis, que travam uma renhida disputa para ver quem borda o estandarte mais bonito para as festas da natividade.
Ontem mesmo estava eu no Centro da cidade quando aproximou-se um colorido cortejo de foliões. Cantavam acompanhados pelo povo das calçadas e escritórios. Os motoristas saíam dos automóveis para saudar a folia:
Deus menino recebeu
Mirra, incenso e ouro
São José agradeceu
A visita e o tesouro...

Quando o cortejo chegou à esquina da Rio Branco com rua do Ouvidor, encontrou um afoxé que tocava os agogôs e atabaques em homenagem a Iansã - senhora dos ventos - cujo dia, 4 de dezembro, é comemorado no país inteiro.
Rabequeiros, ogãs, violeiros , yaôs e yalorixás dançavam no meio do povo. Os restaurantes, para manter a tradição de todos os anos, distribuíam acarajés, comida predileta de Iansã, aos que chegavam pro furdunço.
Enquanto isso, nos colégios, essa é a época em que as crianças aprendem danças e cantigas de marujada, caboclinho,nau catarineta, lapinha, pastoril e outras manifestações da nossa, cada vez mais valorizada, cultura popular.
As samaúmas, maçarandubas, jequitibás, seringueiras, carnaúbas, sucupiras e juazeiros, árvores brasileiras, mais preservadas que nunca, estão enfeitadas com panos, laços e bandeiras coloridas, como se todas fossem a sagrada gameleira branca, anunciando que é chegado o ciclo das festas.
E pensar que, em tempos passados, o natal brasileiro era completamente desvinculado da nossa realidade. Alguém se lembra do Papai Noel, o velho barbudo que se vestia de forma adequada ao frio das Lapônias profundas? A popularidade que tem hoje, entre a petizada, o curupira, o boitatá, a mãe d´Água, a cobra grande, o saci, o jurarazinho, o boi de Catirina, era a que tinha, em antanhos, o roliço Santa Claus.
Os shoppings centers, antigos templos de consumo que foram substituídos pelos mercados populares, fervilhavam com campanhas consumistas e decorações despropositadas. As ceias da noite da natividade eram preparadas com comidas excelentes para um frio de congelar pinguim, capaz de derrotar todos os napoleões. O Natal era, enfim, uma celebração tão alegre como a carta testamento do presidente Vargas e um capítulo do Direito de Nascer.
Senhoras e senhores, estamos em dezembro. É tempo de cajus, cachaças, jabuticabas e castanhas. Pastorinhas, preparem os vestidos. Marujos, empunhem remos e espadas. Foliões, desfraldem estandartes e afinem violas. Gajeiros, verifiquem mastros, vergas e velas. A nau catarineta vai partir. Do convés, Câmara Cascudo, Villa Lobos e Mário de Andrade acenam para quem fica. Aniceto e Candeiam versam um partido na proa da barca encantada. Dos céus, Tupã, Zâmbi e Olorum abençoam cada menino Jesus mestiço do nosso país - berço acolhedor e manjedoura de todos os curumins brasileiros.
Um Feliz Natal, rapaziada.
Abraços.

19/12/2008

SAMBAS-ENREDO DA UNIDOS DO CABUÇU

No início dos anos 80 a escola de samba mais equivocada do carnaval carioca era, sem dúvidas, a Unidos do Cabuçu. Não se sabe por que cargas d´água (o dimdim nem era tão forte assim) a agremiação danou de fazer enredos homenageando personalidades as mais duvidosas - como Xuxa, Roberto Carlos, Milton Nascimento, Maurício de Souza, Os Trapalhões e Adolpho Bloch. Por muito pouco a escola não desfilou homenageando o Papa João Paulo II.

Esquecendo um pouco essa maluquice, acho que a Cabuçu tem excelentes sambas. Um deles é o de 1977, Os Sete Povos das Missões, de Waldir Prateado. É samba denso, sério, condizente com o enredo épico. Ouçam aqui . É ótimo para se usar em sala de aula.

O outro samba é simplesmente o melhor da história da escola e uma obra-prima do gênero. É o de 1983, A Visita do Ony de Ifé ao Obá de Oyó. Melodia inspiradíssima, letra repleta de termos em iorubá, sem concessões ao mais fácil, o samba de Grajaú e Jacob é definitivo. Um dos meus prediletos. A Cabuçu desfilou no grupo B. Ouçam aqui .

Abraços

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18/12/2008

33 - DESTINO D. PEDRO II (PARA LER E OUVIR)


O sujeito, quando é importante mesmo, não vira estátua. Sempre tive, quando criança, a impressão de que o negócio é virar nome de rua, avenida, rodovia, estádio de futebol com capacidade para 120 mil pessoas, ou então aparecer estampado no dinheiro - o que reputo como seríssimo. Durante muito tempo achei que o homem mais importante do mundo tinha sido o Barão do Rio Branco, cuja efígie marcou as notas de mil cruzeiros em tempos d´antanho. Vai ver que vem daí minha conhecida obsessão pela tumba do Barão, no cemitério do Caju - muito mais imponente que o Cristo Redentor.

Disse isso porque, na verdade, quero falar de D. Pedro II. Ou melhor, quero falar da Companhia de Estrada de Ferro D. Pedro II, inaugurada em 1855 com o objetivo de cortar o território brasileiro a partir da cidade do Rio de Janeiro - Município da Corte. Vejam a moral imensa do nosso segundo Pedro - virou em vida, aos 30 anos, companhia ferroviária.

O primeiro trecho da ferrovia, concluído nos idos de 1858, ligou a Estação da Aclamação, aqui no Rio, à Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu ( que hoje atende pelo horroroso nome de Queimados). Os trens percorriam a estação do Campo, Engenho Novo, Cascadura, Maxambomba (minha querida Nova Iguaçu) e chegavam então ao destino.

Pouco depois houve a extensão dos trilhos até a estação de Belém (atual Japeri). Daí em diante, a bichinha foi fazendo piuí-tictac-piuí, transpôs a serra, chegou a Barra do Piraí e tomou o rumo das Minas Gerais.

Quando a turma verde oliva e o pessoal do café proclamaram a República, em 1889, retiraram o nome de D. Pedro II da companhia ferroviária, que passou a se chamar Central do Brasil. Uma pena e uma indelicadeza com o velho imperador, brasileiro de boa cepa. Em 1975 a Central do Brasil virou Rede Ferroviária Federal S.A. . Hoje é a Supervia. Continuo chamando de Central e não discuto.

Mas mudar o nome, como diria o travesti Rogéria, é o de menos. Outros fizeram pior com a ferrovia, sucateada pácas e vítima preferencial da perspectiva rodoviarista que marcou o Brasil a partir da década de 1950 - em especial durante os anos JK, com a duplicação da rodovia Presidente Dutra (trocar D. Pedro II pelo Dutra, aliás, é um disparate). A importância da estrada de ferro diminuiu e desde então o negócio só fez degringolar.

Dizem que hoje a coisa está um pouquinho - só um pouquinho - melhor - mas o fato é que pelo menos até o início dos anos 90 o sufoco da rapaziada que dependia do trem pra se despencar da Baixada Fluminense até o Centro da Cidade do Rio, cortando o subúrbio e vivendo a experiência de sardinha em lata, não era mole. Meu avô dizia que o sujeito dentro do trem, na hora do pega pra capar (os mais descolados preferem a expressão a hora do rush) andava mais apertado que São Jorge na lua minguante - e acabava fazendo o papel do pobre do dragão, que fique claro.

Como, porém, é inerente ao ser humano produzir cultura e reinventar a vida, a coisa terminou em samba - e por essa eu garanto que D. Pedro II, mais chegado num minueto com a Condessa de Barral, não esperava.

Em 1984 a GRES Em Cima da Hora, tradicional agremiação de Cavalcante, desfilou com o enredo 33 - Destino D. Pedro II. O relato sobre o cotidiano da população que depende do trem é comovente e difere completamente de uma certa tradição que marcou durante anos os enredos das escolas - as grandes efemérides, vultos nacionais, heróis da negritude, mitologias indígenas, obras literárias, natureza exuberante e por aí vai.

O negócio foi tão bonito e o defile tão emocionante (vamos sublimar em poesia / a razão do dia a dia/ pra ganhar o pão é das melhores definições sobre como transformar o perrengue em arte que conheço) que o hino cantado na avenida - dos compositores Guará e Jorginho das Rosas - acabou sendo gravado por Jovelina Pérola Negra. É comovente. Coloquei na rede o samba-enredo em sua gravação original. Ouçam aqui.

Salve (m) o trem e a rapaziada que depende dele !

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15/12/2008

MERCADÃO DE MADUREIRA


Perguntou-me outra dia um aluno sobre o governo Juscelino Kubitschek. O mancebo queria minha opinião sobre os anos dourados. Respondi com franqueza, mas acho que o cabra não me levou a sério, o que é uma pena.

Foi o seguinte. Ao indagar sobre a medida mais impactante do período JK, o sujeito esperava certamente escutar coisas como a construção de Brasília, rodovias, sudene, indústria automobilística e outros balacobacos. Fui, porém, sincero e preciso:

- Não tenho dúvidas de que o fato mais significativo de todo o período dos 50 anos em 5 foi a inauguração, com a presença do próprio presidente, do Mercadão de Madureira, na Avenida Edgar Romero. O Mercadão é mais importante do que Brasília, uma cidade sem esquinas e, portanto, sem Exu.

O Mercadão de Madureira, em verdade, surgiu em 1914, nos tempos do Marechal Hermes da Fonseca, como uma quitanda de venda de produtos agrícolas. Mudou de endereço algumas vezes, até que em 1959, com amplo apoio do governo JK, transferiu-se para a Avenida Ministro Edgar Romero e está lá até hoje. A inauguração do Mercadão no endereço definitivo, aliás, foi marcada por uma história monumental.

Acontece que a característica mais marcante do mercado popular de Madureira é a impressionante concentração de lojas de macumba. O camarada chegado numa curimba encontra rigorosamente tudo - bodes, galinhas, patos, codornas, ervas diversas, obis, orôbos, pembas, efuns, sabões da costa trazidos da Guiné, atabaques, ibás, roupas de santo e o escambau. O Mercadão é o principal ponto do país de venda de artigos religiosos afro-brasileiros, batendo inclusive os mercados da velha Bahia. Isso explica o furdunço da inauguração com a presença da comitiva presidencial.

O presidente JK estava, como sempre, tremendamente simpático. Cumprimentava os comerciantes com o sorriso largo, já tinha sido devidamente defumado por mães de santo, até que, na porta de uma das lojas, um funcionário não segurou a peteca, deu uns tremeliques e recebeu uma entidade - um boiadeiro, para ser mais preciso. O do Orum veio que veio, aos berros, dando fortíssimos murros no peito, e fez questão de falar com Juscelino.

Impressionadíssimo com a cena, o presidente, para estupor dos seguranças, aproximou-se da entidade, recebeu um passe, tomou um gole de parati, ouviu uns conselhos, assentiu com a cabeça e seguiu adiante, acompanhado pelos jornalistas. Um deles, porém, preferiu conversar com o espírito para saber quem ele era.

A matéria com o boiadeiro que deu passes em JK foi publicada na revista Umbanda de Luz e no jornal A Luta Democrática e é um espetáculo. Acho eu que é o primeiro registro de uma entrevista feita com um habitante das bandas da Aruanda, bem antes do Exu Seu Sete da Lira virar atração televisiva.

Ao ser indagado sobre sua identidade, o espírito revelou que era o boiadeiro Lourenço Madureira, o sujeito que possuía, na primeira metade do século XIX, as terras do sertão carioca que deram origem ao logradouro do mesmo nome. Estava ali para abençoar o mercado popular e, cáspite, contou um pouco da história da região.

Disse, por exemplo, que nos governos de D. Pedro I (1822-1831) e da Regência (1831-1840), o único meio de se chegar ao local - conhecido como fazenda do Campinho e pertencente a freguesia do Irajá - era mesmo na base do bom e velho cavalo. Em 1858 os trilhos da Central do Brasil chegaram perto, à estação de Cascadura. Só em 1896, nos tempos de Prudente de Moraes e um ano antes da guerra em Canudos, foi inaugurada a estação de trens que recebeu o nome de Madureira. Eu acredito - e não sou maluco de duvidar do relato da entidade que deu origem ao troço todo.

O curioso - e impressionante - de tudo isso é que parte da sede da fazenda do boiadeiro foi destruída por um incêndio no dia 15 de janeiro de 1850. Exatamente 150 anos depois, em 15 de janeiro de 2000, o Mercadão de Madureira foi semi-destruído por um incêndio de proporções catastróficas - e suspeitas, diga-se de passagem.

Eu, que conheci o velho mercado, confesso que não gostei muito do resultado da reconstrução, mas continuo recorrendo a Madureira com frequência grande. Chego de leve, peço licença a Exu, o dono de todos os mercados, faço minhas comprinhas, peço agô a Seu Zé Pelintra - que ronda os corredores pisando manso como bom malandro que foi e é - e canto pra subir. O Mercado é isso.

Longa vida ao nosso Mercadão!

ps: A imagem que abre este texto foi garimpada na rede pelo grande imperiano Carlos Andreazza, do referencial e excelente site Tribuneiros. Leiam os textos do Andreazza aqui.

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UNIDOS DE LUCAS 1982 - LUA VIAJANTE

Atendendo a um pedido do meu irmão Alexandre (leiam o texto abaixo), coloquei na rede o samba da Unidos de Lucas de 1982. Lua Viajante é uma comovente homenagem ao grande Luiz Gonzaga. O samba é de Dagoberto de Lucas, Zeca Melodia e Dona Gertrudes. Abílio Martins é o interprete. O destaque do samba é a participação do próprio Luiz Gonzaga. A cada informação que a letra passa, Gonzagão manda uns "isso" , "tá certo", ""é verdade" , e outros balacobacos. A solução para o refrão final é excelente. Acho que esse samba forma - ao lado de Sublime Pergaminho e Mar Baiano em Noite de Gala - a santíssima trindade dos hinos da escola da Leopoldina. Dos três, Lua Viajante é o meu preferido.
Por fim, aviso que mudei a maneira de colocar os sambas nesse espaço, para permitir que os interessados possam baixar a obra.
Ouça o samba aqui.

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13/12/2008

LUA DO BRASIL


Em Exu, no sopé da serra do Araripe, nasceu, no dia 13 de dezembro de 1912, o brasileiro Luiz Gonzaga do Nascimento. É impossível não se ter o velho Lua como referência quando se vem de uma família nordestina, o que é o caso deste escriba.

Não fui criado pelos meus pais - desde os quatro anos morei com os avós maternos. O meu avô, o jagunço Luiz Orlando Grosso, nasceu no Recife. A avó, Dona Deda, veio ao mundo nos confins das Alagoas, mais precisamente na pequena cidade de Porto Calvo. Vai ver que é por isso que me transformei num sujeito meio grosso (já fui bem mais) e careca - é uma forma meio esquisita de honrar os velhos.

Os dois deixaram o Nordeste no início dos anos cinquenta, com três filhos pequenos (minha mãe, nascida no Recife, estava nessa ). Meu velho foi funcionário de um aviário em Olaria, vendedor de enciclopédias, cobrador da editora Abril e, já aposentado e sem um puto no bolso, trabalhou como uma espécie de faz tudo para um figurão da Beneficência Portuguesa. A avó - filha de santo da famosa Mãe Zefa do Xambá - abriu um terreiro na Baixada Fluminense e viveu literalmente em função de seus orixás e encantados.

O mais impressionante é que, depois de quarenta anos por essas bandas de cá, os dois ainda tinham um sotaque arretado, como se tivessem deixado o Nordeste velho de guerra no dia anterior. Não me parece que tenham criado um amor especial pelo Rio de Janeiro - de vez em quando viviam uma espécie de banzo do Recife.

Um dia meu avô ficou doente. Foi desenganado. A velha, malandra, resolveu rapidinho cantar pra subir e partiu primeiro para a ancestral Aruanda, sob a proteção e ao encontro de seus orixás e caboclos.

Quando meu avô soube da morte da companheira de mais de meio século, fez dois pedidos que me pareceram inusitados (hoje compreendo perfeitamente) - ouvir o hino do Sport Clube do Recife e um baião de Luiz Gonzaga. Coloquei as músicas. Ele chorou, sorriu e, tenho certeza, passeou com a namorada - moça bonita - pelas ruas da Recife velha de Manuel Bandeira . Foi embora três meses depois.

A música de Gonzaga que o meu velho escutou - para celebrar o amor, a vida, a terra e a saudade - foi essa aqui .

Hoje é dia de festa, aniversário de Lua.

Abraços.

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12/12/2008

INCRÍVEL

Amigos, alguém pode me explicar essa homenagem aqui ? Tudo tem um limite.
Abraços.

JUCA , A BALEIA VOADORA

Ronaldo Fenômeno não é, definitivamente, o roliço que mais admiro na história do futebol brasileiro. Meu rolha de poço predileto é, sem dúvidas, Juca Baleia, o goleiro do Sampaio Corrêa do Maranhão entre 1990 e 1993.

Pesando, no melhor da forma, cerca de cento e trinta quilos, Juvenal Marinho dos Passos recebeu o apelido do grande mamífero cetáceo em virtude do filme Moby Dick e de sua notória semelhança com a temível fera dos sete mares.

Com uma aptidão física para jogar no gol semelhante a do cantor Nelson Ned, Juca Baleia destacou-se no confronto entre o Sampaio Corrêa e o Palmeiras, pela Copa do Brasil de 1992. Dando saltos formidáveis, que lhe valeram a alcunha de Baleia Voadora, Juca garantiu que o Sampaio fosse derrotado apenas por 4 X 0 , em um jogo em que o Palmeiras concluiu ao gol mais de setecentas vezes.

Nessa época em que o futebol sofre a excessiva espetacularização midiática do jogo e os jogadores são alçados a categoria de celebridades frequentadoras do jet set internacional, a paquidérmica figura de Baleia se agiganta. O cachalote dos gramados passa, quero crer, a fazer parte de um seleto grupo de mitos do ludopédio, ao lado do magnífico Mauro Shampoo, maior ídolo da história do Íbis - e de toda a linha de frente do Vila de Cava F.C. em 1979, formada pelos incontestes Capiroto, Curupira, Corno Manso, Abecedário e Aderaldo - um ataque infernal, devidamente municiado pelo cérebro do time, o craque Wilsinho Bagunça.

Mas os tempos são outros. Hoje nenhum jogador brasileiro seria conhecido por uns apelidos desses. O empresário, interessado desde sempre em uma projeção do atleta que lhe garanta rápida inserção no mercado da bola e transferência para o exterior (os melhores acabam na Itália, Espanha e Inglaterra e os perebas terminam nas Ucrânias da vida) , já sugere que o garoto adote nos gramados nome e sobrenome - e surgem os Tiago Neves, Leonardo Moura, Rafael Sobes, Daniel Carvalho, Helder Granja, Leandro Amaral, André Dias, Wellington Monteiro, Washington Souza, Wenesday Silva e daí pra baixo. Ouso dizer que se o divino crioulo começasse a jogar bola nos dias atuais, o maior do mundo seria o Edson Arantes, jamais o Pelé. Garrincha seria o Manoel Santos e Zico viraria o Arthur Coimbra.

(Uma pausa histórica. A tradição brasileira de se colocar apelidos em jogadores de futebol vem, provavelmente, da capoeira. Na época em que a capoeiragem era considerada crime, os praticantes usavam apelidos para esconder a verdadeira identidade dos bambas do jogo de Angola - até hoje é costume que, ao ser batizado, o capoeira receba um apelido qualquer. A entrada do negro no mundo do futebol - e muitos clubes de várzea surgiram de maltas de capoeiristas - trouxe a tradição do apelido para os gramados.)

Por isso tudo louvo, nessas mal traçadas, o baleia voadora, o cachalote dos gramados, o lumpa-lumpa maranhense, o paquiderme das balizas, o chupeta do Vesúvio, o elefante negro de São Pantaleão - todas as alcunhas utilizadas para definir o arqueiro de cento e trinta quilos da Bolívia Querida de maior torcida neste Maranhão (trecho do fabuloso hino do Sampaio, que pode e deve ser escutado aqui ).

Abraços

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10/12/2008

A MEDIUNIDADE DO MANOELZINHO MOTTA

Minha tia Lita era uma católica chegada nos balacobacos do além. Falava mal de macumba, mas na hora do pega pra capar recorria a praticamente todo o estafe da Aruanda. Num desses dias em que estava, digamos, com o misticismo aflorado, a velha virou-se para meu avô e disse:

- Ando impressionada com a mediunidade do Manoelzinho.

- Que Manoelzinho, Lita ?

- O Motta, é claro.

Meu avô, evidentemente, achou que era cascata e redarguiu com sua tradicional delicadeza jagunça :

- E desde quando o cachaça do Motta é médium de alguma coisa ? Vou averiguar que merda é essa.

Não havia melhor lugar para checar a informação que o bazar de artigos religiosos O Cantinho da Padilha, na entrada da Dias da Cruz, no Méier. Devo dizer, antes de retomar o fio da meada, que o referido estabelecimento macumbal era conhecido no mundo inteiro por possuir na porta uma estátua do Exu Tranca Rua (chifres, rabo, capa, tridente e o fogo dos infernos incluídos) mais alta que a do Padre Cícero em Juazeiro - e só um pouquinho mais baixa que o monumento ao Cristo Redentor, a estátua da Liberdade e a sepultura do Barão do Rio Branco.

Meu velho sondou a rapaziada da curimba e soube, de fato, que o Motta tinha deixado aflorar recentemente o dom de incorporar todo tipo de espíritos. A informação era impressionante - parece que cinquenta e tantas entidades tinham usado o homem como aparelho em pouco menos de um mês e meio.

A notícia que deixou meu avô basbaque, entretanto, foi dada pelo Nilton:

- E olha, Seu Luiz, ele não tem incorporado só espíritos não.

- Não?

- Não. Parece que ele anda recebendo também os profetas.

- Que profetas ? Os da bíblia ?

- Não. Os profetas do Aleijadinho.

- As estátuas ? Ele tem incorporado as estátuas de pedra sabão ?

- Isso. Já recebeu todas elas. E o transe costuma durar um tempão. Foi assim que o dom se manifestou pela primeira vez.

-Não fode.

- É sério. Vou contar pro senhor como foi.

E o Nilton bateu pro meu velho qual era o babado do mais novo médium da praça. Vou resumir brevemente o que o vô ficou sabendo.

A coisa da incorporação era séria mesmo, e começou num dia em que a Alcione, senhora do Manoelzinho, cometeu tremenda injustiça com o cachaça. Explico.

Uma dessas línguas ferinas que não podem ver a felicidade de ninguém bateu para a Alcione que o Motta estava sendo visto com certa frequência numa casa de amores urgentes na esquina da Rua das Marrecas com a Evaristo da Veiga, no Centro da cidade.

Não sabia, a Alcione, que o Manoelzinho - um faz tudo de mãos cheias - estava apenas cuidando da manutenção da parte elétrica do valoroso lupanar, e só não a deixou inteirada do fato porque, sempre romântico, pretendia fazer uma surpresa pra patroa e aplicar os vencimentos obtidos no serviço em utensílios para o lar; mais especificamente na aquisição de uma geladeira nova. Ademais, o Motta achou que o lugar era um pensionato para moças oriundas do interior.


Picada pela víbora do ciúme, Alcione - com o apoio de quatro falsas amigas que não viam um báculo episcopal há tempos - seguiu o Motta em uma tarde de meio de semana e, ao vê-lo adentrar o recinto suspeito, preparou-se para uma invasão. O estratagema era similar ao utilizado pela swat norte-americana para resgatar reféns sequestrados em embaixadas no Oriente Médio.

No que entrou de forma arrasadora na casa, no estilo blitzkrieg, Alcione encontrou o marido quase pelado, portando apenas um discreto roupão azul bebê. Teve um piripaque, começou a quebrar tudo e, na hora em que retirou da sacola da Imperatriz das Sedas a faca de cozinha com que planejara capar o cônjuge, foi interrompida por uma senhora com fortíssimo sotaque latino e que parecia um mistura da Índia Bartira com o Ted Boy Marino :

- Calma, mi senhora. Jo conheço isso. Este hombre está incorporado !

A cena era, de fato, impressionante. O Motta estava absolutamente paralisado, queixo pro alto e olhos semi-cerrados. Para quem conhece, era mesmo uma manifestação espiritual, não havia a menor dúvida.

Dona Alcione, desconfiadíssima, ameaçou continuar o chilique, mas se tinha coisa que respeitava era isso de mexer com entidades do além. E era evidente demais que ali, paralisado, não estava o Manoelzinho. Até as falsas amigas - surucucus da pior espécie - admitiram isso. Não era mesmo ele.

Uma hora e meia depois, o Motta continuava rigorosamente da mesma maneira - estático. Nesse meio tempo, a dona do pedaço, uma senhora de seus sessenta e poucos anos conhecida pela alcunha de Consuelo, la Índia Paraguaia, esclareceu tudo e acalmou dona Alcione com dois copinhos de água com açúcar. Acaba que a mulher se convenceu do sacrifício que o Manoelzinho estava fazendo para comprar a geladeira de última geração que ela queria tanto. A dona do castelo disse ainda que o roupão azul fora um pedido expresso da entidade, assim que o Motta entrou em transe.

La Índia Paraguaia - segundo ela mesma, com o assentimento de suas funcionárias, sensitiva desde os doze anos - e dona Alcione - com um misto de temor e respeito - aproximaram-se do Manoelzinho e tentaram estabelecer um diálogo. Consuelo indagou a suposta entidade:

- Quien és el senhor ?

- jeremias

- Quien ? Usted pode falar um pouco mais alto?

- jeremias

- Quien ?

- Jeremias, porra !


- Señor Jeremias, o senhor teve la vida terrena ?


- Não. Não tá vendo que eu sou um profeta.


- De la bíblia ?


- Não. De Minas Gerais. Do Aleijadinho, uai. Estou parado porque sou de pedra sabão. Aliás, estátua não fala. Não falo mais nada.


E continuou rigorosamente paralisado.


Na mesma hora dona Alcione entendeu tudo. Ficou comovida. Lembrou das estátuas dos profetas que o casal conheceu numa excursão às cidades históricas mineiras - prêmio cobiçadíssimo que o Manoelzinho ganhou numa rifa organizada por ele mesmo para auxiliar a reconstrução da casa paroquial da igreja do Sagrado Coração de Maria.

Após algum tempo, passado o transe, o Motta não se lembrava de rigorosamente nada. Voltou para casa com dona Alcione, que fez apenas uma admoestação ao amado:

- Nhonhô (era esse o carinhoso tratamento na intimidade) , você não podia escolher um outro lugar para realizar esses serviços elétricos não?

- Nhanhá, foi o sonho da geladeira. Eu queria te fazer um agrado. Nem reparei, com toda a sinceridade, a natureza do estabelecimento. Achei que era mesmo um pensionato.

E assim começou a impressionante trajetória sobrenatural do Manoelzinho, que deu pra incorporar uma plêiade de entidades, estátuas, árvores e animais em momentos os mais delicados. Meu avô, até então homem de pouca fé, acreditou piamente na história e começou a cogitar de também dar passagem pruma rapaziada lá de cima. É que o velho estava fazendo um bico, secretíssimo, como bombeiro hidráulico numa pensão de normalistas na Sacadura Cabral, cheia das boas energias.

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SALVE O CORINTHIANS !!!


Acordei hoje preocupadíssimo com o espaço sideral. Recorri, como primeira leitura do dia, hábito que realizo invariavelmente na privada, a um trechinho do De revolutionibus orbium coelestium , do velho Nicolau Copérnico. O astrônomo polaco sabia das coisas. Destroçou o geocentrismo e lançou as bases da teoria heliocentrica do universo. Disse ele :

"... o universo é esférico; em parte porque essa forma, sendo um todo completo e dispensando toda articulação, é a mais perfeita de todas; em parte porque ela constitui a forma mais espaçosa, que é portanto a mais apropriada a conter e reter todas as coisas; ou também porque todas as partes separadas do mundo, seja o sol, a lua e os planetas, afiguram-se esferas".

Abraços

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08/12/2008

GRANDES SAMBAS-ENREDO - UNIDOS DE LUCAS 1976

Qualquer sujeito que goste um pouquinho de samba-enredo vai responder que a obra-prima do carnaval de 1976 foi Os Sertões, o clássico de Edeor de Paula para a GRES Em Cima da Hora. É uma das famosas verdades indiscutíveis, e eu não sou maluco de negar as evidências.
O que pouca gente sabe, ou se lembra, é que 1976 foi o ano das divindades do mar no carnaval carioca. O Império Serrano desfilou com o Lenda das Sereias, samba que a agremiação reeditará no carnaval de 2009. Um pouco antes do Império, passou a Unidos de Lucas, com um enredo muito parecido com o da verde e branco da Serrinha - Mar Baiano em Noite de Gala (sobre a festa de Iemanjá, em todo dia 2 de fevereiro) . O samba da Amarelo e Ouro de Parada de Lucas, composto por Carlão Elegante, Pedro Paulo e Joãozinho, é monumental. Nunca se homenageou tão bem Iemanjá, a rainha do mar, como naquele ano. Ouçam o samba de Lucas na rara gravação original. Carlão Elegante é o puxador, acompanhado pelo coro do grupo As Gatas. O refrão intermediário (Uma pedra / Uma concha / Pedra e concha tem areia / Quem mora no fundo do mar é sereia ) e a subida para a tonalidade maior no final da melodia fazem parte de qualquer antologia do gênero. É uma aula sobre como compor um samba-enredo. Salve a Unidos de Lucas, escola de coração da grande Elizeth Cardoso. A letra pode ser lida aqui.

Odoiá!


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OXUM

Bruno Ribeiro, grande brasileiro e irmão de ruas e curimbas, faz bela homenagem a Oxum, citando o mestre Nei Lopes. Leiam aqui .
Para completar a homenagem do mano, ouçam o samba de 1974 da União da Ilha do Governador, Lendas e Festas das Iabás, em louvor a todas as orixás femininas, na voz do grande Haroldo Melodia. Que balanço, como não se faz mais. Segura a marimba !!

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CAMPANHA PELO VOVÔ ÍNDIO NO NATAL 2009


Sábado último fui transformado numa espécie de refém no meu próprio bairro. Explico. Moro pertinho do estádio Mário Filho, o gigante do Maracanã. Para meu absoluto desespero, e colapso total do trânsito, houve no fim-de-semana um encontro no maraca entre a apresentadora Xuxa e o Papai Noel, presenciado por milhares de crianças. Dona Maria das Graças recepcionou o velho Santa Claus e entregou ao malandro as chaves da cidade.

Nunca topei o Papai Noel. Eu queria mesmo - e fica aqui a sugestão para a prefeitura e as Organizações Globo produzirem isso no Natal do ano que vem - era assistir a um encontro entre a Hebe Camargo e o Vovô Índio.

Esse personagem, o Vovô Índio, foi criado nos anos 30 pelo jornalista Cristóvam Camargo, adepto do movimento integralista. Nacionalistas radicais, os integralistas resolveram substituir o Papai Noel por um índio amazônico imenso, que saia pelo ciclo da natividade a distribuir presentes brasileiríssimos entre as crianças. O presidente Vargas, nacionalista extremado também, embarcou na idéia e tentou promover a figura do aborígene provedor das criancinhas nas festas de fim-de-ano.

A substituição, porém, nunca colou. É pena. É preciso admitir que as crianças se pelavam de medo do tal do silvícola natalino. O Vovô Índio parecia mais um daqueles caboclos de Umbanda, que dão consultas e passes com charutos. O Estado Novo - através do Departamento de Imprensa e Propaganda - chegou a decretar que se realizassem cerimônias para receber com festas o personagem nacionalista. Não deu certo.

Houve uma ocasião em que a chegada do Vovô Índio a uma festa de Natal promovida pela Casa do Pequeno Jornaleiro, no Estádio de São Januário, campo do Vasco da Gama, terminou em memorável furdunço. A entrada do aborígene no gramado - de cocar, tanga, zarabatana, tacape e saco de presentes - causou verdadeiro pânico entre as crianças. Em meio a um chororô dos infernos e correria generalizada, um moleque encapetado arrancou o cocar do tupi-guarani e se empirulitou. A criançada, para desgosto dos nacionalistas, começou a clamar em coro pela volta do Papai Noel. Depois do fracasso do evento, o Vovô Índio voltou para as profundezas amazônicas e o Bom Velhinho acabou se afirmando com força total.

Apesar do fracasso nos anos 30 e 40, sou pela volta do Vovô Índio - ainda mais num calor senegalesco como o do verão canarinho em tempos de cataclismas ambientais. Aposto que aquele cidadão que descola uns caraminguás no Natal bancando o Papai Noel de shopping center, preferirá meter uma tanga, um cocar vendido por uns merréis no Mercadão de Madureira e chamar os moleques de curumins. Tudo é questão de propaganda - basta vender bem o produto nacional, ora bolas. O negócio agora é a ecologia, a Amazônia é nossa e o índio está na crista da onda. O presidente Lula, aliás, poderá divulgar mundialmente a figura do Vovô Índio em eventos internacionais, como nunca antes na história desse país. Repito e faço fé que se no ano que vem a Hebe for receber o aborígene no Maracanã, comparecerei com o maior prazer. Se os dois resolverem tirar as roupas no meio do gramado, melhor ainda. É Natal !

(Para finalizar, e embarcando no clima do jingle bells, quero dizer que refleti bastante durante o banho de ontem e cheguei a uma conclusão firme. Eu realmente acho que a Xuxa, ao longo da carreira, fez muito bem às crianças, sobretudo em sua trajetória de atriz cinematográfica . O melhor presente que muito moleque gostará de receber neste Natal - acreditem em mim - é uma cópia restaurada do filme Amor, estranho amor)

Abraços.


07/12/2008

CONFISSÕES DE SEGUNDA - O MEU AMIGO ERASMO CARLOS

Fiz umas oito sessões de psicanálise na minha vida, pressionado por uma ex-namorada que me achava emocionalmente perturbado. Gastei uma baba e a coisa não funcionou. Não foi culpa da psicanalista, digo logo.

Imaginem o que deve ser analisar um sujeito com meu currículo. Alfabetizado durante a ditadura militar, minhas maiores referências infantis foram o velotrol; a dupla Dom e Ravel; o fortificante Calcigenol; o Sujismundo; o exu Seu Sete Rei da Lira - que dava consultas em programas de auditório; a novela Saramandaia - onde um sujeito voava, uma mulher pegava fogo, um velho botava formigas pelo nariz, outro colocava o coração pela boca e um lobisomem vivia deprimido; o sequestro do Carlinhos; a loura morta do banheiro; Benito di Paula; Konga, a mulher gorila do parque de diversões; as chegadas do Papai Noel ao Maracanã com 150 mil crianças berrando; as aparições na tv do fantasma do médico alemão Dr. Fritz - realizando incríveis e sanguinárias operações espirituais; Uri Geller, o paranormal que entortava chaves e talheres e consertava relógios com a força do pensamento e, como se não bastasse, as reuniões familiares natalinas para assistir ao especial de natal do rei Roberto Carlos. Noves fora isso, era um ardoroso torcedor do Dick Vigarista nos desenhos da corrida maluca. Não há análise que resolva um quadro desses.

Hoje quero lhes falar especificamente sobre um desses fatos - o programa natalino do rei Roberto, exibido na rede Globo desde os primórdios da televisão no patropi. Para que os amigos entendam o que vou revelar, preciso fazer breve intróito.

Em todos os programas - rigorosamente todos - Roberto Carlos é surpreendido pela participação especial do parceiro Erasmo Carlos. A cena é a seguinte: a orquestra começa a tocar a introdução da música Amigo. Quando o rei inicia a canção, Erasmo entra sorrateiro pelo fundo do palco. Comovido com a inesperada aparição, Roberto chora. Isso vem acontecendo praticamente desde Pedro Álvares Cabral - e ainda assim é uma surpresa para o rei. Pois bem, a minha falecida tia-avó (leiam sobre ela aqui) também era - todos os anos - surpreendida pela entrada do Erasmo e, emocionada, dava chilique, passava mal e ameaçava empacotar. Era ver a cena e cair em prantos:

-Ai, meu Deus, o Erasmo foi. Ai, eu não aguento. Eles estavam brigados, gente. Fizeram as pazes. Eu vou morrer; eu vou morrer. Ano que vem não estou mais aqui com vocês (todas as velhas da família, aliás, costumavam anunciar no natal a própria morte. No ano seguinte a coisa se repetia).

O fato é que resolvi, numa daquelas cismas de garoto, impedir de todas as maneiras que o espetáculo dramático da minha queridíssima tia se repetisse no próximo especial do Roberto. Bolei uma estratégia muito simples; comecei desde agosto a falar pra velha que o Erasmo era presença certa no natal do parceiro. No dia do programa espalhei uns cartazes pela casa com uma frase curta e grossa - o Erasmo vai ! - e na hora em que a coisa ia começar, falei pra tia que o Erasmo já estava no estúdio, preparado para cantar com o rei. Não tinha como falhar.

Falhou.

Aconteceu o seguinte. Na hora em que a orquestra do maestro Eduardo Lajes atacou com a introdução de Amigo - pápara pápara pápara - a velha virou-se para mim e, sinceramente comovida, disse:

- Meu querido, obrigado por querer me deixar feliz contando uma mentirinha boba. Eu sei que o Erasmo e o Roberto estão brigados e não se falam mais. Li na Amiga do mês passado.

Meu avô, que não tinha a menor paciência pro rei nem pros piripaques da cunhada, falou na hora:

- Já deixei um copo de água com açúcar na mesa da cozinha. Quando ela der chilique, é só pegar.

Foi tiro e queda. No que o Roberto começou a cantar o você meu amigo de fé, ainda joguei a última cartada:

- Tia, o Erasmo vai entrar pelo fundo do palco.

- Que é isso, garoto. Hoje ele não vai, não. Eles estão bri...ai, meu Deus. Não é possível. Erasmo! O Erasmo! É o Erasmo, gente.

E a cena - inédita e surpreendente- se repetia pela décima vez.

Tenho até hoje, acreditem, a firme desconfiança de que não gosto de Natal em virtude daqueles melodramas provocados pelo encontro dos parceiros da jovem guarda e dos pré-infartos da minha tia. Nunca superei o troço.

A coisa é tão feia que termino essas mal traçadas fazendo aos senhores uma revelação forte, daquelas que só pretendia relatar depois de morto, numa carta psicografada, através de um médium de mesa branca.

Recentemente tive um pesadelo natalino. Sonhei, vejam só, que estava na gravação do especial do Roberto, na primeira fila do auditório. Quando o rei começou a cantar Amigo, levantei e gritei feito doido que o Erasmo ia aparecer. Ninguém no teatro me escutou. Subitamente adentrou o palco, com a roupa, os medalhões e as pulseiras de pregos do Tremendão, a minha tia-avó. Mortinha da silva, com algodões nas narinas e o escambau. Acordei aos berros, tremendo feito vara verde. Nunca durmo tranquilo no mês de dezembro.

Abraços

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