
Esse negócio de campanha eleitoral é um caso sério. Mencionei outro dia um fato que considero absolutamente extraordinário na história eleitoral brasileira: o Marechal Dutra levantou, na campanha de 1945, um anão num comício em Recife, achando que o prejudicado vertical era uma criança. Testemunhas relatam que o anão, em absoluto pânico, gritava balançando as perninhas:
- Me bota no chão Marechal ! Me bota no chão !
Antes de receber um bico um nos cornos, Dutra percebeu a gafe e depositou o anãozinho em segurança no bravo solo pernambucano. A cena foi percebida por uma pequena multidão. Apesar de tudo o Marechal foi eleito com impressionantes 55,3 % dos votos válidos, derrotando o ínclito Brigadeiro Eduardo Gomes (apud Wilson Leite Passos ) .
(O Brigadeiro, aliás, fez uma campanha absolutamente equivocada. Adotou como lema o "vote no Brigadeiro, ele é bonito e é solteiro". Achou que estaria com isso atraíndo o voto feminino. Perdeu foi o voto de muito macho e se danou. Legou ao Brasil, pelo menos, o nome do doce de chocolate com granulado.)
Figura fundamental do governo Dutra foi a primeira dama, dona Carmela Dutra, mais conhecida pelo apelido de Santinha. Era dela que eu queria falar desde o início desse arrazoado. Dutra e Santinha se conheceram num jantar na casa do avô de Fernando Henrique Cardoso. Muito religiosa, Santinha resistiu enquanto pode ao assédio de Eurico. Era viúva, tinha uma filha, e não achava justo com a memória do falecido contrair novo matrimônio. Acabou cedendo e, dizem, mandou no marido com inquestionável autoridade.
Há quem jure que Santinha convenceu Dutra a decretar a proibição do jogo no Brasil, com o argumento de que os cassinos eram valhacoutos que destruiam a tradicional família brasileira. O texto do decreto era um primor de moralismo:
"Considerando que a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro, é contrária à exploração dos jogos de azar, fica decretado o fechamento dos cassinos em todo o território nacional".
Essa idéia de Santinha, aliás, arruinou parte da minha família. Meu bisavô materno, o italiano Salvatore Grosso, chegou ao Brasil como imigrante, contraiu um empréstimo maluco e aplicou tudo na criação de uma pequena empresa de venda de materiais para cassinos. Os senhores podem imaginar o que o decreto de Dutra gerou.
Santinha também é uma espécie de padroeira do nepotismo no Brasil. Obrigou o marido a nomear trinta e oito parentes, entre irmãos, tios, primos, cunhados e o escambau, para cargos no segundo escalão da administração federal . Foi, porém, uma mulher honesta. Exemplifico.
Quando Dutra se candidatou ao governo, recebeu inúmeras contribuições de amigos militares, comerciantes, fazendeiros e empresários , para arcar com os custos da campanha. Como sobrou dinheiro pácas, Santinha resolveu devolver a grana para os correligionários. Ninguém aceitou o dinheiro de volta. Envergonhada de ficar com uma bolada que não era dela, Santinha gastou tudo na construção da Capela Santa Terezinha, erguida no Palácio Guanabara. Foi, segundo palavras da própria, um presente do casal Dutra a todo povo brasileiro. A capelinha, simpaticíssima, está lá , firme e forte, até hoje.
Nos tempos atuais as sobras de campanha tem finalidades um pouco diferentes, não?
Abraços.