27/08/2008

SÓ PARA O POVO DO SANTO

Amigos, abri um novo blog na rede. Não, não significa que o Histórias vai acabar. O novo espaço, que aliás já está no ar, falará especificamente de temas ligados ao culto de Orixás, Eguns (minha praia, diga-se de passagem) e demais espiritualidades do complexo religioso afro-cubano-brasileiro. Repito com ênfase : afro-cubano-brasileiro. O endereço da nova página é http://ifabiyi.blogspot.com/ Quem tiver algum interesse no tema, será bem-vindo. Por conta disso, a temática afro-religiosa não aparecerá mais no Histórias.
A página entrou no ar discretamente. Sobre ela, faço alguns breves comentários:
- Por enquanto não postarei nada inédito. Divulgarei apenas textos que venho produzindo nos últimos anos , resenhas de livros que fiz sobre religiosidade para o caderno Idéias do Jornal do Brasil e material que preparei para o curso de pós-graduação em História e Literatura Africanas da Atlântica Educacional - Faculdade de Petrópolis , onde leciono nos últimos três anos a cadeira de Mitologias Africanas. Colaborações serão bem-vindas.
- Minha formação religiosa é a de adepto da religião de Ifá e sacerdote de Orunmilá. Minha casa de culto é uma casa de Ifá. Somos da turma do opelê e dos ikins. Respeitamos com reverência, e nossas ebômis usam, o dilogum. Para bom entendedor, meias palavras bastam. Esse esclarecimento evitará aborrecimentos.
- A divulgação dos textos foi autorizada por Ifá.
Iboru Boya ! Ifareô, Orunmilá !
obs: A página já estava na rede, com texto publicado. Resolvi não divulgá-la inicialmente e nem sabia se ela teria continuação. Eleguá , entretanto, deu um jeito de que ela fosse devidamente descoberta. Se é assim que Eleguá quer , que assim seja.

25/08/2008

O REFRÃO DO IMPÉRIO SERRANO E O CULTO A IEMANJÁ

O Império Serrano reeditará na Marquês de Sapucaí o já histórico samba Lenda das sereias . O refrão, belíssimo , merece ser esclarecido. Vamos ver:

Ogunté, Marabô,
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê
Janaína, Iemanjá

Ogunté - É uma qualidade importantíssima de Iemanjá entre os nagôs. Em alguns mitos é a mãe de Ogum; em outros é a mulher de Ogum Alabedé. É uma Iemanjá guerreira, jovem, que quando dança porta uma espada. Cuidado com ela; está muito longe de ser a sereia maternal que o sincretismo consagrou. Ogunté ensinou a Ogum como se guerreia e se apresenta sempre ao lado dele. Imaginem. As filhas de Ogunté que eu conheço são brabíssimas. É o orixá de cabeça do meu Ojubonan, Babalaô Ifayode.

Marabô - Aqui temos um probleminha bobo. Iemanjá Marabô não existe. Marabô é uma corruptela de Barabô, um dos nomes de Exu. A denominação vem de um famoso cântico muito executado no Brasil e em Cuba : Ibarabô, agô mojubá, Elegbara... ( algo como "Eu homenageio e peço a proteção de Elegbara" ) . O que significa, então, o Marabô no samba ?

É provável que a citação do samba a Marabô venha de um dos cânticos mais famosos do candomblé dedicado a mãe das águas. O cântico diz : Awá ààbò à yó, Yemanja ... Em geral o povo de santo canta esse início ( awá ààbò ) dizendo "Marabô a yó..." , o que não tem sentido preciso em português. A frase yorubá significa algo como "estamos protegidos, Yemanjá." Quebrei a cabeça para saber de onde saiu esse Marabô. Meu Oluô Ifalashe é que sugeriu que a citação provavelmente vem do início desse canto. Justifico, portanto, o Marabô no samba dizendo que é uma adaptação para a sonoridade do português da saudação Iemanjá nos protege.

Kayala - É um dos nomes de Quissimbe, o inquice ( quase a mesma coisa que o Orixá para um nagô ) banto responsável pelos mistérios das águas. É corruptela de Nkaia Nsala, que significa literalmente "avó da vida". É uma entidade velha e maternal, cujo culto desenvolveu-se na região do Congo-Angola. Seu culto no Brasil permanece, em larga medida, graças aos conhecimentos da venerável casa de Angola Kupapa Unsaba e pelos descendentes de Tatetu Apumandezo, patriarca do culto muxicongo no Brasil. Mojubá.

Sobá - É uma das formas de se chamar no Brasil uma qualidade de Iemanjá denominada "Assabá". Orixá velho e poderoso, aparece nos mitos de Ifá mancando e fiando algodão. Sua dança é venerável e lenta.

Oloxum - É a denominação dada aos sacerdotes de Oxum, a senhora dos rios e cachoeiras. É também um dos nomes de Oxum no Xambá nordestino - culto em que minha avó foi iniciada. Achei interessante a citação a Oxum - um outro orixá das águas ligado ao instinto maternal - no samba. Abre espaço para que Oxum seja visualmente mostrada no desfile.

Inaê - Um dos nomes da rainha do mar. Segundo Yeda Pessoa de Castro - grande conhecedora das línguas africanas no Brasil - o termo tem origem fon ( povo jeje, do antigo Daomé ) e deve vir de inon (mãe) e nawé (um título respeitoso).

Janaína - Uma das formas sincréticas de se referir as Iemanjá no Brasil. É muito citada nos pontos de umbanda.

Iemanjá - A poderosa orixá que, na África, comanda os rios quando estes estão chegando ao mar. Para os nagôs, o orixá ligado ao axé dos oceânos é Olokum. Como o culto a essa poderosa entidade - Olokum - quase sumiu no Brasil - e está, ainda bem, voltando graças a Ifá e ao contato com babalaôs cubanos (em Cuba o culto se manteve forte) - Iemanjá passou a ser considerada por aqui a senhora das águas marítimas. No país Yorubá as oferendas a Iemanjá são feitas no encontro das águas do rio com o mar. Prevejo uma irresistível pororoca imperiana.

Queridos, só com o refrão dá pra Serrinha fazer um desfile inteiro e diversificado.

Èéru Iya ! ( Mãe das espumas das águas - saudação que faz referência às espumas formadas pelo encontro das águas do rio com as do mar ).

20/08/2008

QUEM FOI LÚCIO DE MENDONÇA ?

Moro na Rua Lúcio de Mendonça, pertinho do estádio Mário Filho, o grande Maracanã. Não sei quem foi Lúcio de Mendonça. Não estou disposto também a descobrir quem foi o cabra pesquisando na rede. Aliás, pelo jeito, a prefeitura do Rio também não sabe de quem se trata. As placas das ruas da região do Maracanã foram trocadas recentemente e trazem informações sobre quem são os homenageados. Só não há isso na Lúcio de Mendonça .
Descobri, fuçando as placas , que Mariz e Barros (faz esquina com a minha rua) foi o Almirante que comandou o encouraçado Tamandaré, lendário navio de guerra brasileiro. O Professor Gabizo - outro homenageado por essas bandas - foi médico e - evidentemente - professor. Já o General Canabarro foi um revolucionário farroupilha que proclamou a independência de Santa Catarina durante a Guerra dos Farrapos. Esse eu já sabia. A rua que o homenageia é endereço do glorioso botequim da Confraria do Bode Cheiroso, uma espécie de meu segundo lar.
O famoso Haddock Lobo, que dá nome ao logradouro onde fica o edifício do bardo tijucano Eduardo Goldenberg, foi de tudo um pouco. Tá escrito o seguinte na placa da rua : médico, advogado, escritor, professor e delegado de polícia. Um sujeito prendado, o "Seu" Haddock. Não duvido, porém, que no ano de 2150 a Haddock Lobo se chame Rua Eduardo Goldenberg, em louvor ao ilustre morador da área.
Tivesse eu algum poder para isso, mudaria os nomes de todas as ruas próximas ao Maracanã para homenagear os craques que passaram pelos gramados do maior do mundo. Gostaria, por exemplo, que minha rua se chamasse Moacyr Barbosa, o goleiraço do escrete na Copa de 1950, injustamente crucificado após o Maracanazzo uruguaio. A Moraes e Silva poderia se chamar Zizinho e a Mariz e Barros, Rua Pompéia, em louvor ao goleiro malabarista do América. A Canabarro ficaria melhor como Rua Geraldo Assoviador. Combina mais com o Bode Cheiroso.
Por falar em ruas e logradouros, uma curiosidade que tenho é saber o que a prefeitura escreveu na placa do famoso Viaduto dos Cabritos, na Avenida Brasil. Acontece que o nome oficial do lugar é Viaduto Oscar Brito, que, salvo engano, foi um engenheiro. De Oscar Brito, o viaduto virou, com inestimável colaboração popular, dos Cabritos. Como a voz da massa é soberana, proponho que se legitime de uma vez por todas a homenagem da população ao bode jovem. Eu só me refiro ao viaduto como dos cabritos e pronto. O engenheiro Oscar Brito que me desculpe, mas nessa ele dançou.
Há outros fatos curiosos que a municipalidade poderia explicar nas placas. Exemplifico : o Quinto Alqueire ( V , na grafia romana ) acabou virando Valqueire e ficou por isso mesmo. A Ilha de Guaratiba não é ilha coisa nenhuma. A culpa da confusão é de um gringo que morou por lá chamado William e foi uma espécie de rei da cocada preta do pedaço , dono de propriedades na região . Mandava em tudo. Como pronunciar o nome do camarada era meio complicado , o William virou Ilha. As terras dali pertenciam ao "Seu" Ilha de Guaratiba. É mole ?
Fico por aqui com um pedido : Alguém, afinal, pode me informar quem foi Lúcio de Mendonça?
Abraços.

11/08/2008

A BATALHA DE BERNA - PARTE II - O JOGO


O técnico Zezé Moreira insistiu na recomendação aos jogadores: a chave para a vitória contra os húngaros era resistir os primeiros dez minutos e depois partir para o ataque. Não deu certo. Com oito minutos do primeiro tempo a Hungria já tinha feito dois gols em Castilho.

Com surpreendente poder de reação, o Brasil descontou aos 17 minutos, em um pênalti bem cobrado por Djalma Santos. A partir daí o jogo foi pau a pau, com nosso ponteiro Julinho Botelho fazendo o diabo em campo. Não empatamos na primeira etapa por pouco.

O segundo tempo foi eletrizante. Os húngaros fizeram o terceiro gol - Lantos de pênalti - mas o Brasil descontou logo com Julinho. Mandamos duas bolas na trave, pressionamos, perdemos Nilton Santos e Humberto expulsos, eles perderam Bozski e, em vantagem no número de jogadores, liquidaram o jogo com um gol de Cocsis aos 42 do tempo final : 4 X 2 para a Hungria.

Mal o juiz Mr. Ellis apitou o fim do jogo e a verdadeira batalha começou. Puskas, que assistira ao prélio das arquibancadas , desceu ao gramado e provocou Pinheiro na entrada do vestiário. O zagueiro canarinho revidou e os 22 jogadores se envolveram na pancadaria.

Um policial imenso, com mais de 130 quilos, foi correndo apartar a briga, tomou uma rasteira do radialista brasileiro Paulo Planet Buarque e caiu estatelado no gramado, para delírio do público. A polícia revidou e jornalistas e dirigentes acabaram se envolvendo no furdunço. O técnico Zezé Moreira viu um gringo de terno correndo em direção ao vestiário e não teve dúvidas, enfiou o cacete no cabra com as chuteiras que Didi trocara durante o jogo e estavam em suas mãos. O agredido era o ministro do Esporte da Hungria, Gustavo Sebes.

No setor reservado às estações de rádio, para a surpresa dos discretos suiços, o árbitro brasileiro Mário Vianna urrava nos microfones impropérios contra o juiz inglês : Ladrãããão. Safaaaado. Comunistaaaa. Covarrrrrde. Rateeeeiro. Escroooooque. Apoplético, e insistindo na tese de que foramos vítimas de uma conspiração dos comunas, Vianna tentou invadir o vestiário do árbitro para, segundo suas palavras, aplicar-lhe um corretivo e desafiar os espiões de Moscou.

O final dessa zorra foi o mais inesperado e surreal da história das copas. No Brasil, a população acompanhou o match pelas rádios e, insuflada sobretudo pelas acusações de Mário Vianna, resolveu agir. No Rio de Janeiro, por exemplo, a massa partiu para a vingança imediata. Perdemos o jogo para a Hungria, a copa foi na Suiça mas, no calor das emoções, os indignados torcedores canarinhos erraram o alvo e quebraram a embaixada da Suécia.

Coisas do futebol.


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08/08/2008

A BATALHA DE BERNA - PARTE I


Não acho que a maior batalha que envolveu o Brasil em sua retumbante história militar tenha sido a de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial. Meu voto vai para a Batalha de Berna, título pelo qual foi imortalizado o épico jogo entre o Brasil e a Hungria pela copa do mundo de 1954 , realizado naquela cidade suiça. Justifico a escolha.

O regulamento do certame de 1954 foi o mais doido da história dos mundiais. Seja como for, e para poupar os leitores da maluquice dos cartolas, vamos ao que interessa: Brasil e Hungria se enfrentaram nas quartas de final. Nossa seleção, mal saída do trauma da derrota de 1950 - a maior tragédia da história brasileira desde 1500 - encarou o esquadrão húngaro dos cracaços Czibor, Cocsis, Toth e Hidegkuti (Puskas, contundido, não jogou). O retrospecto da Hungria naquela copa foi assustador - 9 X o na Coréia do Sul e 8 X 2 na Alemanha Ocidental. A mesma Hungria, pouco antes da copa, deu uma surra histórica , 6 X 3 , no English Team em pleno estádio de Wembley, onde os súditos da rainha eram até então considerados imbatíveis.

Pouco antes do início da partida o vestiário do Brasil foi invadido por dirigentes dispostos a estimular o time a um milagre com exortações patrioticas. João Lira Filho fez um discurso exaltado, comparando os jogadores aos inconfidentes mineiros e desfilando com uma bandeira usada pela Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Obrigou os jogadores a beijar a bandeira e, aos prantos, declarou que naquele jogo contra os húngaros os canarinhos deveriam se empenhar para vingar os mortos de Pistóia - cemitério italiano onde foram enterrados os pracinhas que morreram na guerra. Não ocorreu a ninguém recordar ao dirigente que os brasileiros e os húngaros não se enfrentaram no charivari armado por Hitler e Mussolini.

Segundo o testemunho do insuspeito Nilton Santos, o time entrou em campo com os nervos em frangalhos. Brandãozinho, um dos nossos meio-campistas , ainda estava assustado com a cena de João Lira Filho o segurando pelos ombros e dizendo aos berros :

- Como é o seu nome?

- Brandãozinho.

- Não ! Você hoje se chama Ignácio de Alvarenga Peixoto. Você é um inconfidente ! Você é um inconfidente !

O pobre Brandãozinho, semi-alfabetizado, não entendeu bulhufas. Didi, comparado a Tiradentes, começou a achar que Lira Filho tinha enlouquecido. O técnico Zezé Moreira tentou expulsá-lo do vestiário, mas o patriótico dirigente estava com a corda toda. Nilton Santos , até ele , tentou estimular o goleiro Castilho com um argumento inusitado:

- Olha Boris ( Nilton chamava Castilho de Boris Karloff por sua semelhança com o ator de filmes de terror ) : confio em você. Os húngaros são comunistas. São ateus. E você é o São Castilho. E santo não perde para ateu.

Zezé Moreira armou uma estratégia para segurar o jogo nos primeiros dez minutos, formando uma barreira inexpugnável na retaguarda canarinho. Resistindo os primeiros momentos, calculou Zezé , partiriamos para dentro dos adversários.

Foi nesse clima que o escrete brasileiro entrou em campo, escalado com Castilho, Djalma Santos, Pinheiro e Nilton Santos ; Brandãozinho e Bauer ; Julinho, Didi, Índio, Humberto e Maurinho. A Hungria veio de Grosics, Buzansky, Lantos e Zakarias; Bozsik e Lorant ; M. Toth, Cocsis, Hidegkuti, Czibor e L. Toth. No apito, o árbitro inglês Arthur Ellis.

O que se viu a partir da entrada dos times no gramado, debaixo de uma chuva bíblica , foi um dos jogos mais emocionantes, violentos e desvairados da história do futebol .

Conto como foi na próxima postagem.

Abraços.

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06/08/2008

A MORTE DE AFONSINHO

O primeiro juiz da história do futebol carioca a ficar famoso foi Juca da Praia, árbitro mais importante da cidade do Rio durante a bela época do esporte. Depois de pendurar o apito, no início dos anos de 1940, Juca foi técnico do time do Flamengo. É sobre um episódio envolvendo Juca da Praia, em seus tempos de juiz, que quero lhes contar.

Jogavam Flamengo e América. Quase no final da peleja, jogo disputadíssimo, o urubu Afonsinho cometeu um pênalti escandaloso em um atleta rubro. Percebendo imediatamente a falta grosseira que tinha feito, Afonsinho tomou uma decisão rápida e eficiente: morrer em campo. Caiu durinho da silva. Parou de respirar.

Assustado, Juca da Praia correu para socorrer Afonsinho. Como na época não existia maca para retirar os contundidos do gramado, coube ao próprio juiz carregar o desfalecido flamenguista nos braços. Passo a palavra ao grande Mário Filho, que assistiu a cena e a relatou no Sapo de Arubinha :

"Afonsinho, ainda morto, aconchegou-se nos braços de Juca, encostou a cabeça no peito de Juca. E Juca feito carregador de piano, que não era nem nunca fora, pelo contrário. Até que Juca depositou, cuidadosamente, com carinho mesmo, Afonsinho atrás do gol. Foi Juca dar as costas, foi Afonsinho pular feito um daqueles bonecos de mola que saltam quando a gente abre a caixa. A multidão, quá-quá-quá. Juca voltou-se , deu com Afonsinho de pé, rindo, fora do campo".

O mais impressionante da história toda é o seguinte: Juca da Praia se esqueceu de marcar o pênalti contra o Flamengo. Nem o time nem a torcida do América reclamaram do jogo prosseguir. O importante era ver Afonsinho, mais vivo do que nunca, em campo.

Eram bons tempos, aqueles.

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