27/05/2008

ODE A GERALDO ASSOVIADOR


Poucas coisas me fascinam mais em relação ao Brasil do que a impressionante capacidade que o povo brasileiro teve de apropriar-se do futebol europeu - o violento esporte bretão - e reproduzi-lo não como simulacro, mas como reinvenção. Esse talvez seja o traço distintivo mais importante de um certo modo de ser brasileiro; a capacidade de apropriação de complexos culturais estranhos e a reprodução deles como elementos originais; brasileiríssimos. Não consigo pensar, em suma, o Brasil sem refletir sobre o futebol e a criação de um modo brasileiro de jogar bola completamente diferente do sisudo jogo inventado pelos britânicos. Isso vale para a música, a dança, a culinária, as formas de amar, sofrer, chorar, enterrar os mortos e celebrar a vida. Amamos, dançamos, morremos, choramos, celebramos, comemos e tomamos cachaça, enfim, da mesma forma como jogamos bola.

Digo isso e penso, imediatamente, na figura maior de um craque que, infelizmente, não tive a oportunidade de ver nos gramados como deveria. Falo do meio-campista do Flamengo de meados da década de 1970 Geraldo Cleofas Dias Alves, o Geraldo Assoviador. Lembro-me que, eu menino, quase adolescente, ouvia impressionado meu avô contar sobre uma mania que Geraldo tinha durante as partidas, a de assoviar enquanto realizava as jogadas mais inusitadas em campo.

Esse hábito de jogar assoviando deu a Geraldo a fama de irresponsável, irreverente, descompromissado, chupa sangue e outras baboseiras do gênero. Queriam que o neguinho Geraldo, mineiro de Barão de Cocais, se comportasse como um respeitável centro-médio europeu, de cenho franzido e olhar de touro brabo, uma espécie de candidato a titular da seleção da Escócia. Mas Geraldo era brasileiro.

Não percebiam, os senhores críticos, que Geraldo jogava bola com a mesma naturalidade com que cruzava uma esquina, comia um tutu com torresmo ou tomava uma abrideira para chamar o apetite. Geraldo jogava como vivia - ou vivia como jogava, vá lá. Imagino uma cena ( será que ocorreu?) que é a seguinte: durante um clássico no Maracanã, estádio lotado, uma pipa cai no meio do campo; Geraldo captura, com jeito moleque, o papagaio e começa a empiná-lo, enquanto dribla os adversários e assovia em direção ao gol.

Lembro-me, impressionadíssimo, quando numa certa tarde de 1976 recebi a notícia de que Geraldo, o craque que assoviava, tinha acabado de morrer, aos 22 anos de idade, em consequência de uma parada cardíaca sofrida durante uma operação de amígdalas. Quero crer que aquela foi a primeira notícia de morte que recebi na minha vida. Nunca mais esqueci. Meu avô, chorando copiosamente, repetia apenas: - cracaço! cracaço! Que pena. Você, que gosta tanto de futebol, não viu esse garoto jogar.

Muito tempo depois - meu avô já tinha ido oló - eu estava num terreiro de candomblé para assistir a um xirê em homenagem a meu pai Ogum, o poderoso orixá dos metais e da guerra. Durante a festança, Exu tomou o corpo de uma yaô para participar da alegria de Ogum, seu dileto irmão. Imediatamente, para se fazer reconhecido na terra, Exu gingou como exímio capoeirista e deu o seu ilá - o som que o orixá emite quando sai do Orum, a morada dos deuses, e vem ao Ayê , o nosso mundo, para comungar com os homens. O ilá de Exu, meus senhores, era um assovio longo e afinado.

Ê, meu avô, eu queria que o senhor soubesse que ali, na ginga e no assovio do compadre, eu vi Geraldo - um cracaço ! - jogar.

Abraços.

Marcadores:

26/05/2008

MAIS UMA JOGADA DE DOMINGOS

Foi em 1931, no Estádio das Laranjeiras, em um disputadíssimo Brasil versus Uruguai pela Copa Rio Branco. Campeões olímpicos em 1924 e 1928 e mundiais em 1930, os uruguaios eram favoritíssimos. O Brasil, porém, tinha Domingos da Guia, o Divino Mestre. Foi ele que protagonizou, naquela partida, uma das maiores jogadas da história do futebol, devidamente relatada pelos grandes Mário Filho e Ivan Sotter, maiores conhecedores da história do escrete e incapazes de contar mentiras. Aos fatos.

O jogo estava equilibradíssimo quando o atacante uruguaio Dorado, conhecido por sua velocidade de corredor de cem metros e temível artilheiro, partiu com a pelota em direção ao gol brasileiro. Domingos emparelhou com o uruguaio, que acabou deixando nosso zagueiro pra trás, driblou o goleiro Veloso e foi parar dentro das redes. Os uruguaios correram para abraçar Dorado e comemorar o tento conquistado. Festa da pequena torcida celeste, muxoxos nas arquibancadas brasileiras. Mas faltava alguma coisa naquele golaço.

Observando a cena, rigorosamente parado, em pose majestosa, Domingos da Guia estava com a bola nos pés. Sem que Dorado, os uruguaios, os brasileiros, os torcedores e os juízes percebessem, Da Guia tirou a pelota do adversário, colocou o pé direito sobre o balão e aguardou, com a compostura e a paciência de um gentleman, o fim da comemoração do gol que não houve para prosseguir jogando.

A torcida, a princípio, gargalhou. Logo, logo, começaram os aplausos. O valente Dorado, um velocista inconteste, saudou o zagueiro brasileiro com uma discreta mesura.

Quanto foi o jogo? Dois a zero para o Brasil.

Abraços.

Marcadores:

PROCURA-SE UM ARARIBÓIA


A Acadêmicos do Grande Rio, conforme relatei no texto abaixo, desfilará no carnaval carioca com um enredo sobre a França Antártica. Nada contra o enredo - a idéia é ótima - mas a Grande Rio não é, definitivamente , o que imagino ser uma escola de samba. O jornalista Zé Sergio Rocha, por exemplo, já anda imaginando o que os camaradas farão com um tema desses. O Zé profetiza que o socialite Bruno Chateaubriand será o destaque Villegaignon e Miguel Fallabella, o Bois Le Conte. Afirma ainda que um cabeleireiro de Niterói, conhecido como Sandrinha, representará na avenida o índio Araribóia (Cobra Feroz, em tupi). Não duvido, mas apostaria no Victor Fasano, tradicionalíssimo folião da agremiação de Duque de Caxias, no papel do cacique temiminó. Na escola fala-se também no promoter David Brazil e no ex-jogador Ronaldo Fenômeno como possíveis representantes do famoso índio no desfile.

Araribóia, aliás, é um personagem interessantíssimo, e é dele que queria falar desde a primeira linha desse arrazoado. Retomo a proposta.

Os índios temiminó - inimigos de morte dos tupinambá - eram os senhores da ilha de Paranapuã, a atual Ilha do Governador, na Baía da Guanabara. Expulsos pelos tupinambá, os temiminó deixaram a ilha e foram se refugiar no Espírito Santo. Vingaram-se depois, aliados aos portugueses, atuando de forma decisiva para que os tupinambá, e seus comparsas franceses, fossem derrotados nas praias da Guanabara. Mais do que uma pancadaria entre lusos e gauleses, a guerra na Guanabara foi um arranca rabo dos diabos entre os tupinambá e os temiminó.

Vitorioso na guerra, Araribóia adotou o nome português de Martim Afonso, recebeu a comenda de cavaleiro da Ordem de Cristo e ganhou uma sesmaria no Morro de São Lourenço, que deu origem a cidade de Niterói. Sempre altaneiro e temperamental, o guerreiro temiminó rompeu com os portugueses quando o governador Antonio Salema chamou sua atenção por haver, numa solenidade, cruzado as pernas na presença de autoridades lusitanas. É mole?

Furioso com a reprimenda do governador, Araribóia esqueceu esse troço de Martim Afonso, voltou a adotar o nome temiminó, isolou-se na aldeia de São Lourenço e não manteve mais contato com os portugas. Acredita-se que tenha sido uma das vítimas de uma epidemia de varíola que liquidou grande parte dos temiminó e arrasou Niterói no ano de 1589.

Nem o cabeleireiro Sandrinha, o amigo niteroiense do Zé Sergio, nem o Victor Fasano, o David Brazil e o Fenômeno, me parecem ter as qualidades necessárias para representar o guerreiro temiminó na Marquês de Sapucaí, a despeito da reconhecida simpatia dos quatro pela Cobra Feroz. A conferir no carnaval.

Abraço

22/05/2008

O ENREDO CERTO NA ESCOLA ERRADA.


A escola de samba Acadêmicos do Grande Rio, pela qual não tenho, é bom ressaltar, nenhuma simpatia, anunciou que apresentará no carnaval de 2009 um enredo sobre a França Antártica. É uma ótima escolha feita pela agremiação errada. Não me parece que a Grande Rio, com seus salamaleques e celebridades, esteja a altura do enredo escolhido. É pena, já que o tema é bom pacas.

A França Antártica foi fundada no dia 10 de novembro de 1555 por Nicolas Durand de Villegaignon. Cerca de 150 franceses entraram na baía de Guanabara e ergueram um baluarte de madeira na ilha de Seregipe, que Villegaignon chamou de Forte Coligny - local onde hoje funciona a Escola Naval, em frente ao aeroporto Santos Dumont. Era idéia dos franceses construir uma vila nas cercanias do atual morro da Glória e estabelecer as bases de um império ultramarino na América.

Apesar de inúmeros problemas - escassez de alimentos, soldos baixos, ausência de mulheres, dificuldades para fazer aterros - os franceses até que conseguiram consolidar as relações com os índios Tupinambá e tranformar o Forte Coligny numa fortaleza de respeito. Nada foi mais decisivo, porém, para mandar o sonho de uma França tropical para as cucuias que os conflitos internos gerados, em grande parte, pelo temperamento autoritário de Villegaignon. O homem não era mole.

A coisa começou a ficar esquisita quando, em fevereiro de 1556, o comandante da França Antártica exigiu que um marinheiro gaulês casasse ou se separasse de uma índia que era sua companheira há mais de sete anos (o marujo chegou aqui antes da fundação da colônia francesa). O marinheiro não se conformou com a ordem e planejou uma conspiração para matar Villegaignon. O plano foi descoberto e cinco conspiradores, que juravam inocência, foram presos e executados a mando do chefe.

Após esse incidente, Villegaignon passou a desconfiar de tudo e de todos. Transformou o projeto colonial francês numa bizarrice autoritária recheada por prisões, espancamentos, deserções, assassinatos e o escambau. Para piorar a situação, o sobrinho do comandante, Bois Le-Comte, chegou ao Rio de Janeiro com cerca de 300 homens. Dentre eles havia 14 pastores calvinistas, escolhidos pelo próprio Calvino para instaurar o protestantismo nessas bandas. A presença dos pastores irritou profundamente os católicos, dividiu de vez os franceses e precipitou a volta de Villegaignon para a Europa. Bois Le-Comte assumiu o comando da empreitada.

Divididos os franceses, a tarefa portuguesa de recuperação do território parecia mais fácil. Em 1560 o governador-geral Mem de Sá adentrou a Guanabara com uma frota lusitana que sitiou a fortaleza da ilha de Seregipe. Apenas 74 franceses continuavam resistindo no Forte Coligny, apoiados por cerca de novecentos guerreiros Tupinambá. Com apoio dos Temiminó, inimigos mortais dos Tupinambá, os portugueses conseguiram, após mais de três semanas sitiando a cidadela, que os franceses se rendessem após um marujo doido nadar clandestinamente até a ilha e explodir o paiol de munições do forte.

Mesmo com a rendição do Forte Coligny a coisa não se definiu logo. Alguns franceses e, sobretudo, os Tupinambá ainda resistiram aos portugueses por sete anos nas praias da Guanabara. O marco desse fuzuê foi a famosa batalha das canoas, quando 2 mil índios, em cerca de 200 canoas, atraíram os portugueses para uma reentrância da baía de Guanabara e começaram a descer o sarrafo nos gajos. A portuguesada se safou quando um tiro de artilharia atingiu um depósito de pólvora no interior de uma canoa e um incêndio monumental apavorou os índios. Alguns portugueses juraram que, no meio da fumaça, apareceu São Sebastião, crivado de flechas, para combater ao lado das forças de Portugal. Taí a primeira razão para a escolha do padroeiro do Rio.

No dia 20 de janeiro de 1567 - olha São Sebastião aí de novo - os portugueses, com o apoio dos guerreiros Temiminó chefiados por Araribóia, atacaram os Tupinambá em Uruçumirim (atual Morro da Glória ) e conseguiram, após um dia inteiro de batalha, a rendição dos rebeldes. Nessa batalha o sobrinho do governador geral, Estácio de Sá (que fundara no sopé do Pão de Açúcar, em 1 de março de 1565, um arraial que transformou-se no núcleo original da cidade do Rio de Janeiro), foi ferido por uma flecha envenenada e foi oló após um mês de agonia.

No final das contas, e só depois desse furdunço dos bons, a Guanabara passou a ser controlada pelos portugueses.

Admitamos que essa zorra toda dá um senhor enredo.

Abraços.


15/05/2008

PEQUENA CONSTATAÇÃO DE UMA TARDE DE FUTEBOL

Assisti ontem a tarde aos jogos Vasco X Corinthians de Alagoas e Glasgow Rangers X Zenit , este último pela final da Copa da UEFA. Conclui que o problema do Corinthians alagoano foi ter enfrentado, pela Copa do Brasil, o apenas razoável time vascaíno. Tivesse jogado contra o Rangers ou o Zenit e o Coringão do nordeste seria campeão europeu. Os times do velho mundo são horrorosos.

UMA JOGADA DE DOMINGOS


Conta Mário Filho, na crônica Jogadas de Domingos, publicada em O Sapo de Arubinha, que durante um Flamengo X Botafogo disputado em Álvaro Chaves, campo do Fluminense, Domingos da Guia rebateu de forma atabalhoada uma bola para fora e foi vaiado pelos sócios do Flu que assistiam ao jogo das sociais. A torcida não admitia que Domingos, um esteta da pelota, rebatesse uma bola daquele jeito.

Da Guia não se fez de rogado. No lance seguinte, pisou na bola a um metro do gol do Flamengo e chamou com gestos provocativos todo o ataque do Botafogo para cima dele. Os botafoguenses, liderados por Heleno, partiram feito loucos na direção do Divino. Heleno, principalmente, foi em direção a Domingos com a fúria de um Miura cego. Em duelo anterior, o atacante do Botafogo fora driblado por Domingos mais de vinte vezes seguidas e caira estatelado no gramado, num dos lances mais espetaculares da história do futebol. Era a oportunidade da vingança do botafoguense. Pressionado pelos atacantes adversários, Da Guia driblou em curtíssimo espaço de campo os cinco alvinegros e fez um lançamento de cinquenta metros para o ponta esquerda Vevé.

Passo a palavra ao grande Mário Filho:

Então Domingos da Guia se voltou para a social do Fluminense, perfilou-se, depois se curvou e estendeu o braço direito, num daqueles cumprimentos rasgados que exigiam um chapéu com penacho para varrer o chão.

Os torcedores das sociais das Laranjeiras, diante da mesura de Domingos, levantaram-se e aplaudiram o zagueiro como se estivessem assistindo a um recital de um gênio.

E estavam.

Abraços.

Marcadores:

14/05/2008

UM GRANDE BRASILEIRO


Este espaço deixou passar, por descuido imperdoável, uma data fundamental para o Brasil neste mês de maio. Foi em 5 de maio de 1865 que nasceu um brasileiro maior, o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.

Matogrossense de Mimoso, Rondon , em suas dezenas de expedições pelos cantos mais isolados do país, demarcou fronteiras, mapeou 12 rios, corrigiu o traçado de uns trinta, construiu mais de 5500 quilômetros de linhas telegráficas, pacificou os temíveis botocudos e caingangues sem disparar um único tiro, criou o Serviço de Proteção ao Índio e elaborou a proposta de criação do Parque Nacional Indígena do Xingu, tarefa levada adiante pelos irmãos Vilasboas.

Manteve sempre hábitos rigorosamente espartanos. Dormia menos de cinco horas por noite e acordava antes das 4 da manhã. Invariavelmente tomava banho de rio antes do nascer do sol. Era leitor compulsivo; tinha o costume de ler até enquanto cavalgava.

Morreu, em 19 de janeiro de 1958, pobre de marré-de-si.

Não me recordo - que me auxiliem os amigos que entendem do riscado - se Rondon foi enredo de alguma escola de samba. Acho que não. Renderia um desfile da melhor qualidade e seria justíssima a homenagem.

Está feito o breve registro.

Abraços.

13/05/2008

HOMENAGENS AOS CRAQUES

O leitor Felipe Castro acabou de me enviar uma mensagem com uma pergunta porreta: quer saber sobre hinos de clubes de futebol que citem em suas letras jogadores importantes na história dos times. Sem fazer uma pesquisa, por absoluta falta de tempo, que seria conveniente e bem interessante, me ocorrem agora, de sopetão, três exemplos para responder ao Felipe.

O hino do Grêmio, de Lupicínio Rodrigues, cita o lendário goleiro Eurico Lara. O trecho é o seguinte:

Lara o craque imortal
Soube seu nome elevar
Hoje com o mesmo ideal
Nós saberemos te honrar.

O hino do Bangu, de Lamartine Babo, homenageia o grande Domingos da Guia:

O Bangu tem também a sua história, a sua glória,
Enchendo seus fãs de alegria.
De lá, pra cá, surgiu o Domingos da Guia.

Outro hino composto pelo Lalá, o do São Cristovão, homenageia o não menos lendário João Cantuária, craque do time de 1918 do São Cri-Cri ( Eu tinha um time de botão com essa escalação: Carnaval; Moura e Reynaldo; Luis Vinhais, Cantuária e Martins; Renato Vinhaes, Aparício, Heitor, Leão e Barcellos). Prematuramente falecido em virtude da epidemia de gripe espanhola que matou gente pácas no Rio de Janeiro naquele ano, Cantuária foi imortalizado no hino do clube de Figueira de Melo:

São Cristovão, São Cristovão
Teu passado é tão belo.
Quantas vitórias em Figueira de Melo.
Quando vences outro clube
Oh! São Cristovão pertences
Aos corações sãocristovenses.
Estimulam sua fibra extraordinária
Os grandes feitos do saudoso Cantuária.

Estou, não custa repetir, sem tempo para fazer uma pesquisa que contemple melhor a pergunta bem interessante do Felipe. Se os leitores do blog, sobretudo os admiradores do futebol, lembrarem de algum hino que cite jogadores, é só mandar para os comentários da postagem.

Desde já manifesto uma curiosidade: será que o hino do Íbis cita o imortal Mauro Shampoo?

Abraços.

Marcadores:

12/05/2008

O GÊNIO QUE NÃO ENTENDEU NADA

O advogado baiano Rui Barbosa nunca gostou das coisas do povo. Sabe-se que o jurista foi, por exemplo, inimigo mortal da música popular brasileira, considerada pelo tribuno coisa de gente grosseira e desqualificada. É famoso o discurso em que o Águia de Haia desancou no Senado Federal a maestrina Chiquinha Gonzaga, considerando o Corta-Jaca um ritmo de uma gentalha inimiga dos valores da civilização.

O homem não topava também com jogadores de futebol. Em 1916, ensina o mestre Ivan Soter em sua Enciclopédia da Seleção Brasileira, o Brasil foi disputar o I Campeonato Sul-Americano, na Argentina. Estava tudo certo para que o escrete fosse a Buenos Aires no navio Júpiter. O problema é que no mesmo navio iria a comitiva diplomática do Brasil para as comemorações do centenário da independência argentina. O chefe da comitiva era ele mesmo, o conselheiro Rui Barbosa. Ao saber que os diplomatas viajariam no navio dos jogadores de futebol, o baiano foi peremptório: com jogadores de futebol ele não viajaria em hipótese alguma. Explico a recusa.

O sabichão considerava o esporte bretão coisa de vagabundos desocupados. Nem mesmo o argumento de que o time era formado por estudantes, comerciantes e profissionais liberais de boas famílias convenceu o conselheiro. Ou eles ou eu, era o dá ou desce do tribuno. Diante da intransigência de Rui, os jogadores brasileiros tiveram que ir de trem para disputar o certame.

É suspeitíssimo também o papel desempenhado pelo baiano no processo de abolição da escravatura. Sabe-se que Rui foi um dos defensores da idéia de se botar fogo em milhares de documentos sobre o cativeiro negro no Brasil. Os admiradores do jurista dizem que Rui queria apagar da nossa história o triste passado escravocrata. Outros, menos simpáticos ao homem, afirmam que Rui queria evitar futuros processos que, com base na documentação existente, fossem movidos por ex-escravos. As duas hipóteses me parecem medonhas.

Rui Barbosa é visto como grande tribuno, orador de escol, homem público incorruptível e o cacete a quatro. Foi saudado como gênio da civilização até em samba-enredo, como no belíssimo Benfeitores do Universo, cantado em 1953 pela Cartolinhas de Caxias. Não me convence.

O tribuno baiano representa o bacharelismo pedante e falsamente democrático que é tão característico de uma parcela das elites brasileiras. É aquela velha visão de que a solução para o país passa pela adequação a padrões civilizacionais eruditos, o que incluiria, evidentemente, o repudio às manifestações populares. Até o futebol, que em 1916 ainda era um esporte predominantemente elitista, Rui considerava demasiadamente popular.

Imaginem se o homem não tivesse morrido em 1922 e assistisse a popularização de fato do futebol e do samba. Se vivesse um pouquinho mais, Rui saberia do título do Vasco da Gama no campeonato carioca de 1923, com um time formado por negros e operários; teria visto a consagração do mulato Sinhô como o Rei do Samba (o mesmo Sinhô que fez um samba, Fala Meu Louro, sacaneando o sabichão) ; saberia do sucesso de Pixinguinha, João da Baiana e Donga. Morreria de desgosto, provavelmente.

Rui Barbosa, um gênio, uma capacidade, uma sumidade absoluta, no fundo não entendeu nada.

Abraços.

11/05/2008

O BANGU DE FRANCISCO CARREGAL

(O pioneiro time do Bangu de 1905. Ao centro, com a bola, o operário negro Francisco Carregal)

O The Bangu Athletic Club, um dos clubes de futebol pioneiros na prática do esporte no Brasil, foi fundado em 1904 por ingleses que trabalhavam na Companhia Progresso Industrial do Brasil, a fábrica de tecidos do bairro. Possuia no início, assim como o Paissandu Cricket Club e o Rio Cricket and Athletic Club (esse, de Niterói) , jogadores majoritariamente ingleses em seus quadros.

Em 1905 o time do Bangu era formado por cinco ingleses (Frederick Jacques, John Stark, Willlian Hellowell, W. Procter e James Hartley) , três italianos (César Bocchialini, Dante Delloco e Segundo Maffeo), dois portugueses ( Francisco de Barros, modesto guarda da fábrica conhecido como Chico Porteiro, e Justino Fortes) e um brasileiro ( o operário negro Francisco Carregal).

O jornalista Mário Filho, autor do imprescindível O Negro No Futebol Brasileiro - livro que reputo tão importante para entender o Brasil como um Casa Grande e Senzala - verificou um detalhe significativo na foto da equipe banguense que abre esse texto do blog. Dos onze jogadores, o mais bem vestido era exatamente o negro Francisco Carregal. Reparem só na beca do malandro.

O fato é que Carregal foi um pioneiro na história do futebol do Rio de Janeiro. Não há referência anterior a ele de um negro e operário - Carregal era tecelão da fábrica - praticando o violento e então elitista esporte bretão em terras cariocas. Cercado de estrangeiros, todos eles brancos, Carregal caprichava na beca para diminuir o impacto de sua condição como praticante de um esporte de almofadinhas, fato compreensível naquelas primeiras décadas pós-abolição.

Creio que o traje requintado de Carregal pode ser comparado ao esmero com que se vestia, nos anos de 1930, o sambista Paulo da Portela, sempre de gravata e sapatos. Paulo sabia que, naquele contexto, o negro precisava conquistar um espaço que só viria com um comportamento firme e exemplar. O branco tinha o salvo-conduto da cor da pele. O buraco, para o negro, era mais embaixo.

Alguns meses depois de sua fundação o Bangu colocava, sem restrições, operários e negros no time, misturados aos mestres ingleses. Enquanto o Fluminense e o Botafogo jamais conceberiam isso, a equipe banguense abria suas portas para outros jogadores como Carregal, a exemplo do goleiro Manuel Maia, um goalkeeper crioulo retinto.

Foi também o time da fábrica que aboliu a distinção entre os torcedores nos estádios. Na maioria dos campos os pobres ou mal ajambrados não podiam assistir aos jogos nas arquibancadas, espaço reservado aos distintos chefes de família, aos jovens promissores e as raparigas em flor. Ao poviléu cabia um espaço separado, logo chamado de geral, que distinguia, segundo um jornal do início do século, a platéia dos espetáculos, sempre bem trajada e ocupando o espaço nobre no field, do torcedor comum. O Bangu cometeu, desde o início, a bendita ousadia de não compartimentar o público de seus jogos em espaços separados.

Independentemente de análises sociológicas que não interessam a esse espaço, resgatar um pouco essa trajetória do Bangu serve também para quebrar o mito de que o primeiro clube carioca a aceitar negros e operários foi, na década de 20, o Vasco da Gama. O time da cruz de malta foi, e é fato incontestável e para sempre louvável, o primeiro dos quatro grandes do Rio a aceitar em seus quadros os negros e operários. Clubes ditos pequenos, porém, faziam isso desde o início do século XX, como é o caso do pioneiro - esse sim! - Bangu de Francisco Carregal e dos suburbanos times do Esperança e do Brasil (escreverei em breve sobre eles).

Nessa semana em que o aniversário da abolição da escravatura estimula a reflexão sobre a questão do negro na sociedade brasileira, o Histórias do Brasil se dedicará a personagens marcantes da trajetória dos descendentes de escravos em nosso país.

Chama Francisco Carregal !

Abraços.

Marcadores:

09/05/2008

SOY LOCO POR TI, AMERICA !


O grande Deus Quetzalcoatl é a divindade Asteca, civilização originária do planalto do México, que controla os ventos, a criatividade e a fertilidade. É representado por uma serpente de plumas; daí o nome, em idioma náuatle, de Quetzal (plumas) Coatl (serpente).

Para os mexicas ( como os astecas se denominavam) é a Serpente de Plumas que controla as energias de Vênus, a estrela da manhã. Devemos ainda a essa poderosa divindade a criação do calendário, das artes e da escrita. Quetzalcoatl, com seu imenso poder, é capaz de selar o destino de qualquer atividade humana.

Em honra a Quetzalcoatl os astecas tinham como um de seus deveres a contemplação do céu. Tinham, por isso, conhecimentos precisos sobre a duração do ano, determinavam os solstícios, as fases e eclipses da lua e conheciam as revoluções de Vênus e constelações como a Ursa Maior.

Os sacerdotes do culto a Quetzalcoatl bebiam em seu louvor uma beberagem quente feita a partir do cacau, fruto originário das Américas. A bebida era chamada pelos méxicos de xocoatl (bebida da serpente) , e deu origem ao chocolate nosso de cada dia. E que chocolate !

SOY LOCO POR TI, AMERICA !

Abraços

CURTÍSSIMAS

O piloto Rubinho Barrichello deve bater, no grande prêmio da Turquia, o recorde de largadas na história da Fórmula 1. Rubinho superará as 256 largadas do italiano Ricardo Patrese.
O recorde do piloto me fez recordar uma notícia que li em um jornal do início do século XX, durante uma pesquisa no setor de microfilmes da Biblioteca Nacional. Em 1909 a cidade de Itabuna, na Bahia, possuia apenas dois automóveis. Para estupor dos moradores, um choque frontal envolveu os dois veículos no centro da cidade baiana. Não houve feridos, mas é o único relato que conheço de um acidente que envolveu toda a frota de automotores de uma cidade.
*
Fiz uma pergunta em sala de aula sobre a conquista do Acre e a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. A resposta mais original que recebi foi de uma aluna que, com absoluta correção, destacou que o Acre foi comprado pelo Brasil após longos conflitos com a Bolívia; negociação firmada no Tratado de Petrópolis. O final da resposta da moça, porém, não foi dos mais felizes:
- E o Brasil se comprometeu a construir a ferrovia Montanha-Maomé.
*
Abraços

08/05/2008

ELEGÂNCIA NOS GRAMADOS

Outro dia me perguntaram qual é o meu livro de cabeceira. Respondi sem titubear: a Enciclopédia da Seleção - As Seleções Brasileiras de Futebol , do meu amigo Ivan Soter.
Foi lendo o Ivan que soube de um histórico Brasil e Argentina, jogado em Buenos Aires, em disputa da Copa Roca de 1940.
Vejam os amigos que a peleja estava empatada em um gol quando o argentino Garcia chutou e a bola bateu na mão de Zezé Procópio. Bola na mão. O juiz Bartolomé Macías considerou o toque intencional e marcou pênalti contra o Brasil. Os canarinhos reclamaram pra dedéu.
Quando o argentino Moreno preparou-se para a cobrança, o capitão platino, Arico Suárez, mandou que ele esperasse um momento. Suárez cochichou alguma coisa com o juiz, afastou Moreno e encaminhou-se para a pelota. Para completa estupefação de todos, chutou o pênalti propositalmente para fora, num gesto de raríssima elegância no violento esporte bretão. O Brasil acabou ganhando o jogo por 3X2.
Abraços.

Marcadores:

03/05/2008

4 DE MAIO - LUTO NA MÚSICA BRASILEIRA

O 4 de maio deveria ser declarado "dia nacional do luto na música brasileira". Não pode ser coincidência que duas das maiores desgraças para a história da música do Brasil tenham ocorrido nessa infausta data.
Foi num dia 4 de maio, em 1937, que o monumental Noel Rosa morreu, aos 26 anos de idade. Deixou um legado de dezenas de obras geniais e é um dos pilares incontestáveis da música popular brasileira. Nunca compôs um samba ruim.
Foi num dia 4 de maio, em 1953, que nasceu o cantor e compositor Lulu Santos.
Noel morre e Lulu nasce num 4 de maio.
Os deuses só podiam estar, nos dois casos, de sacanagem com a música do Brasil.
Abraços.

01/05/2008

O ZAIRE NA COPA E OUTROS BABADOS DE 1974


O querido Leonardo Boechat desvendou o segredo. As novas cores do blog não são referentes ao Brasil. Se referem ao uniforme do selecionado do Zaire na copa do mundo de 1974; primeira equipe da África negra , diga-se de passagem, a participar de um mundial.

Há que se admitir que o desempenho da seleção zairense não foi dos mais animadores. O time perdeu de 2X0 da Escócia, tomou um acachapante 9 X0 da Iugoslávia e despediu-se com uma derrota por três gols a zero para o escrete brasileiro, com direito a um frango monumental do goleiro Kazadi. Foi, enfim, um dos piores desempenhos de uma seleção na história das copas do mundo.

Não me recordo de quase nada da copa de 74, mas não tenho qualquer simpatia por ela. Para início de conversa, foi a primeira copa marcada pela chegada ao poder na FIFA do senhor Jean Marie Godefrois Etienne Havelange, esse brasileiríssimo dirigente esportivo com ares de gangster internacional. Para chegar a presidência da entidade, Havelange bajulou com presentes sofisticados e viagens caríssimas presidentes das federações mais esquisitas do planeta. Foi eleito.

A delegação do Brasil ao certame refletia o recrudescimento da ditadura militar, naquele pega pra capar que foi o ano de 1974. O chefe da delegação era o coronel Eric Tinoco; os secretários, os capitães Kleber Camerino e Oswaldo Costa Lobo; o supervisor, o major Carlos Alberto Cavalheiro; os preparadores físicos, os capitães Cláudio Coutinho e Raul Carlesso. Mandamos, enfim, um contingente militar para coordenar a tropa canarinho nos gramados da Alemanha, com direito a vários milicos encarregados da segurança dos jogadores, comandados por um certo Capitão Guaranys, homem de poucas palavras e indefectíveis óculos escuros, que não tirava nem para dormir.

Para piorar, o técnico Zagallo deu pitis em entrevistas quando perguntado sobre a surpresa tática do carrossel holandês. O velho Lobo declarou que o Brasil não precisava se preocupar com ninguém, que o carrossel era uma farsa e referiu-se ironicamente ao craque Cruyff como Crush, um refrigerante horrendo que se bebia no Brasil naqueles tempos. Foi a Holanda, do carrossel e de Cruyff, que nos eliminou da disputa pelo título, ao bater o escrete por inapeláveis 2X0.

Naquele Brasil e Holanda, aliás, houve um momento curiosíssimo. O rei Pelé assistiu ao jogo na tribuna de honra do estádio trajando um sobretudo de pele caríssimo, feito sob medida por um costureiro famoso. Foi o que bastou para que um grupo de mulheres horrorosas rompesse, aos berros, o cordão de isolamento para atacar o craque. A principio achou-se que as donas, típicas cinquentonas, eram taradas que queriam deixar o divino crioulo pelado. Foram detidas por atentado violento ao pudor. Mais tarde descobriu-se que a razão do ataque era outra. As senhoras eram militantes de uma entidade de defesa dos animais que promovia manifestações contra personalidades que usavam casacos de pele e queriam retalhar o sobretudo caríssimo do negão.

Abraços.

Marcadores: