31/03/2008

MANO DÉCIO DA VIOLA

Nascido em 1909, em Santo Amaro da Purificação, Bahia, e registrado em Juiz de Fora (MG), Décio Antônio Carlos, o Mano Décio da Viola, chegou ao Rio de Janeiro com pouco mais de um ano de idade. Foi menino de rua, vendeu doce na feira, dormiu nas calçadas do Centro da cidade, morou no Morro da Mangueira, vendeu jornais no Largo da Carioca, aprendeu a tocar violão e bandolim e, como tantos outros, tornou-se sambista. Vendeu muito samba pra levantar um troco. Começou a compor na Escola de Samba Recreio de Ramos e foi diretor do Prazer da Serrinha, até participar ativamente da fundação do GRES Império Serrano.

Em 1949 fez o seu primeiro samba-enredo para a escola imperial, o antológico “Exaltação a Tiradentes”, em parceria com Penteado e Estanislau Silva. A partir daí, o Império desfilou com sambas de Mano Décio em mais de dez carnavais. Foi ele que convenceu Silas de Oliveira, um discretíssimo tocador de surdo do Prazer da Serrinha, a tentar a sorte como compositor. O resto é história. A dupla matou a pau e, de cara, em 1946, saiu uma obra prima do cancioneiro carnavalesco, o seminal “A Paz Universal”. Juntos, e em parceria com Manuel Ferreira, Mano Décio e Silas fizeram aquele que, para muitos, é o maior samba-enredo de todos os tempos, o clássico “Heróis da Liberdade no Brasil”, hino da agremiação verde e branca no carnaval de 1969.

Duas injustiças perseguem a memória de Mano Décio da Viola. A primeira, que talvez se explique pela expressão gigantesca do parceiro, é a de que seria apenas um companheiro menor do mestre Silas de Oliveira. Errado. Mano Décio ganhou uma série de sambas no Império sem a presença de Silas na parceria. “Exaltação ao Brasil Holandês” (com Chocolate e Abílio Martins), “Rio dos Vice-Reis” (com David do Pandeiro e Aidno Sá), “Exaltação à Bárbara Eliodora” (com Nilo de Oliveira e Ramon Russo), o monumental "Batalha do Riachuelo" (com Molequinho e Penteado) e o já citado “Exaltação a Tiradentes” são verdadeiras obras primas que não foram compostas pela dupla.

A outra injustiça é cometida por aqueles que vêem Mano Décio apenas como compositor de sambas-enredos. Foi preciso que, já sexagenário, ele gravasse seus primeiros discos para que o público tivesse acesso a obras primas como “Adeus”, parceria com o portelense Alberto Lonato, e “Hoje Não Tem Ensaio”, com Darcy da Mangueira.

Falecido em 1984, aos 75 anos, Mano Décio permanece ao lado de Mano Elói, Mestre Fuleiro, Silas de Oliveira, Darcy do Jongo, Vovó Maria Joana, Carlinho Vovô, Alcides Gregório, Nilton Campolino, Calixto do Prato e tantos outros, como um ancestral maior da coroa imperial. Há de ser eternamente louvado nas rodas de samba e nos benditos entoados pelos jongueiros que varam a madrugada na mais nobre das serras.

Abraços

27/03/2008

APONTAMENTOS SOBRE SEU NATAL DA PORTELA.


O samba, o jogo do bicho e o futebol, três instituições da cultura carioca, fizeram a história e a fama de Natalino José do Nascimento, o Natal da Portela. Que, aliás, não veio ao mundo no Rio de Janeiro.

Natal nasceu em 1905 na cidade de Queluz, São Paulo , mas chegou ainda menino ao Rio. Depois de um curto período em Cachoeira Grande, entre o Méier e o Lins de Vasconcelos, mudou-se com a família para a esquina da Rua Joaquim Teixeira com a Estrada do Portela, no subúrbio de Oswaldo Cruz. Ali, no quintal da casa do pai de Natal, os bambas Paulo, Rufino, Alvarenga, Heitor, Caetano, Claudionor e Manuel Bam-Bam-Bam fundaram o bloco carnavalesco Vai como Pode, que deu origem a escola de samba da Portela, campeoníssima do carnaval carioca até o arrebatador tetracampeonato do Império Serrano, entre 1948 e 1951.

Natal foi funcionário da Central do Brasil durante seis anos. Trabalhou como cabineiro, condutor de trem e telegrafista. Em 1925 sofreu um acidente, perdeu o braço direito nos trilhos do trem e, inválido para o serviço, parou no olho da rua. Fez muito biscate, foi camelô, penou na mão do rapa e foi chamado de crioulo aleijado. Sem conseguir o famoso trabalho formal, arrumou emprego de anotador do jogo do bicho e foi pro pau.

Natal fez carreira meteórica na contravenção. Nasceu pro troço. De anotador a gerente, de gerente a dono de banca, tornou-se o rei da loteria popular e foi pioneiro da ligação entre o bicho e as escolas de samba. Com ele surgiu a figura do patrono, depois tão comum no meio. Envolvido com o futebol, chegou a diretor do Madureira, o tricolor do subúrbio.

Foi valente pácas. Gostava de um charivari. Sofreu quase quatrocentos processos, foi preso umas noventa vezes, tirou cana quatro vezes na Ilha Grande e uma em Fernando de Noronha. Enfrentou, com um braço só, o lendário matador China Preto, temido pistoleiro do subúrbio nos anos 50. Em certa ocasião matou um sujeito que quis tomar seus pontos do bicho em Madureira. Pela frente, como mandam as regras da valentia.

Natal só andava de chinelos e paletó de pijama. Era assim, em trajes tremendamente informais, que desfilava pela azul e branca de Oswaldo Cruz. No único ano em que convenceram o malandro a desfilar na beca, de terno e sapatos, creditou ao traje requintado a derrota vergonhosa da Portela.

Foi o retrato de um Rio de Janeiro que nos anos 50, auge do seu poder, fugiu ao estereótipo da cidade cantada pela bossa nova, que então surgia com o objetivo de retirar a África do samba. Muito além do barquinho, do cantinho e do violão, a cidade dos subúrbios, dos pequenos times de futebol, do samba e do jogo do bicho, pulsava nos botequins, terreiros e esquinas de Oswaldo Cruz e Madureira. Ali, longe do mar, Natal foi o rei e a lenda. Foi oló em 1975. Gostava de resumir sua vida numa única frase: “Acho que era covardia eu ter dois braços também”.

Abraços

26/03/2008

ONZE HERÓIS E TRÊS IGNORANTES


Os jogadores da seleção brasileira Alexandre Pato, Luís Fabiano e Lucio declararam não saber o nome de nenhum jogador do time campeão mundial de 1958. Não conseguiram citar sequer Pelé e Garrincha. Luís Fabiano argumentou que nasceu em 1980, por isso não poderia conhecer os jogadores de 1958. Deveriam, os três, receber algum tipo penitência. Ajoelhar no milho escutando o último cd do padre Antônio Maria não seria má idéia.

Diante deste descalabro, recomendo, seguindo o sábio conselho do meu chapa Felipinho Cereal, autor do blog Boêmia & Nostalgia, a visita de todos os leitores ao sítio http://www.radionacional.am.br/ . É simplesmente obrigatório.

Abraços.

QUESTIONÁRIO

Recebi um simpaticíssimo correio eletrônico de uma ex-aluna, Marcela, que revelou acompanhar este blog e me mandou um pequeno questionário sobre minhas preferências acerca de temas que este espaço aborda. Vou entrar na brincadeira e responder de bate-pronto. Vai lá:
PERSONAGEM HISTÓRICO MAIS INTERESSANTE DO BRASIL: Elói Antero Dias, o Mano Elói, e D. Pedro I.
EPISÓDIO MARCANTE DA NOSSA HISTÓRIA: O desfile do Império Serrano de 1948, homenageando Castro Alves.
MELHOR PRESIDENTE DO BRASIL: Floriano Peixoto.
PIOR PRESIDENTE DO BRASIL: José Sarney.
MELHOR SAMBA ENREDO: Cinco Bailes da História do Rio
MELHOR JOGADOR QUE VIU JOGAR: Diego Armando Maradona. Brasileiro? Zico.
MAIOR JOGO DA HISTÓRIA: ITÁLIA 4x3 ALEMANHA, na Copa de 1970 (tenho o vídeo da partida).
MAIOR TIME DA HISTÓRIA: O escrete de 1958: Gilmar; Djalma Santos, Orlando, Belinni e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Pelé, Vava e Zagalo.
QUEM FAZ FALTA AO PAÍS: Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Anescarzinho, Noel Rosa de Oliveira, Cartola, Carlos Cachaça, Geraldo Babão, e mais uma pá de grandes compositores de samba enredo.
QUEM NÃO FAZ FALTA NENHUMA: A dupla Cazuza e Renato Russo e o padre Cícero.

24/03/2008

PAU BRASIL OU HY BRAZIL?

Acredito que poucos leitores tenham ouvido falar no cartógrafo genovês Angel Dalorto. Esse camarada, nos idos do século XVI, desenhou em um de seus mapas uma ilha, localizada a oeste do Sul do litoral irlandês. Não foi o único a desenhá-la.

Dalorto acreditava que ali, naquele lugarzinho perdido, o monge irlandês Brandão, que em 565 meteu-se em alto-mar e posteriormente virou santo, teria encontrado uma terra sem males, com temperatura amena, comida em abundância, terras fartas, pássaros canoros e, vejam os senhores, plena igualdade entre os habitantes. Essa ilha se chamava Hy Brazil!

O mais interessante disso tudo é que, segundo a mitologia celta, Hy Brazil era uma ilha movediça, arisca, que desaparecia no horizonte, entre brumas cinematográficas, sempre que algum navegante se aproximava dela. Ao sair para o mar, na companhia de catorze monges, São Brandão não se deixou iludir pelo nevoeiro e chegou finalmente a Hy Brazil, onde viveu até o fim de seus dias.

Chama minha atenção nessa história a cronologia da vida do santo irlandês. Segundo os dados expressos na obra latina Peregrinatio Sancti Brandani (escrita provavelmente no século IX), o nosso Brandão teria nascido na Irlanda, em 460, e morrido em Hy Brazil no ano de 641. Faço rapidamente os cálculos e concluo que o santo partiu para sua peregrinação oceânica aos 105 anos e morreu, quem sabe em plena forma, pouco depois de completar 181 primaveras. Cáspite!

Alguns estudiosos de boa cepa querem crer que o nome que a colônia portuguesa na América recebeu, Brasil, não teria sido inspirado na quantidade de pau de tinta existente na costa, conforme me ensinou no jardim de infância minha tia Sueli, mas sim nos relatos fantásticos sobre a ilha encontrada por São Brandão, que povoou durante séculos a imaginação de gerações de navegadores. Pau Brasil ou Hy Brazil? Cada leitor escolha a origem que lhe apeteça para o nome do patropi.

Abraços.

17/03/2008

LANÇAMENTO DO LIVRO

Queridos, esse é o convite (é só clicar na imagem) de lançamento do meu livro, em parceria com o grande mestre Cássio Loredano, sobre J. Carlos, o grande caricaturista brasileiro do século XX. Serão lançados na ocasião o nosso trabalho - que chama-se O Vidente Míope e busca contar parte da história do Brasil entre 1922 e 1930, a partir de exaustiva pesquisa sobre as caricaturas de J. Carlos para a revista O Malho - e o belo livro de Julieta Sobral,O Desenhista Invisível. O furdunço ocorrerá no dia 25 de março no Paço Imperial, entre as 18 e 21 horas. A editora é a carioquíssima Folha Seca. Conto com a presença de todos.
Abraço

14/03/2008

DOIS PROGRAMAÇOS NA ZONA SUL E UM SAFÁRI EM REALENGO

Tudo tem um limite. Acaba de me ligar, diretamente do salão América - histórica barbearia da Rua Afonso Pena, na Tijuca - o Eduardo Goldenberg. Enquanto aguardava a hora da tosa, Edu estava lendo a Revista Programa, do Jornal do Brasil, com dicas para o fim de semana no Rio de Janeiro. Qual não foi a surpresa do Goldenberg quando deparou-se com uma notinha anunciando o show que farão hoje, no Mistura Fina do Arpoador, Milton Nascimento e Jobim Trio. O ingresso, por cabeça, está saindo a R$ 220. Cáspite!

Amigos, 220 pratas para assistir a um ex-cantor em atividade acompanhado por parte da família Jobim é o fim da picada. Imaginem o casal que faça esse programinha. R$ 440 pra começar a noite. O ideal é que os felizardos saiam do show e jantem no restaurante da chefe Roberta Sudbrak, no Jardim Botânico. Por módicos R$ 180 por cabeça se degusta o "patchwork culinário" (sic) , conforme anuncia hoje a Revista Rio Show, d´O Globo. Nessa brincadeirinha um casal gasta, sem as bebidas, 800 paus para passar uma noite de sexta-feira.

Enquanto isso, na mesma revista do pasquim da família Marinho, a coluna Pé Sujo, do espectro Juarez Becoza, faz a propaganda da Esquina do Bacalhau, em Realengo. Tudo ótimo se um ato falho não esculhambasse a porra toda. Diz o colunista:

Para você, privilegiado leitor que vive do lado de cá do túnel e só usa a Avenida Brasil quando viaja no feriadão, eu afirmo: vale a pena ir até lá. Trata-se do melhor bacalhau da região e um dos melhores do Rio.

Em uma curta passagem tudo se esclarece. Já sabemos onde mora o colunista (do lado de cá do túnel - leia-se Zona Sul) e para quem O Globo é escrito (privilegiado leitor que só usa a Avenida Brasil quando viaja no feriadão). E descobrimos, de lambujem, onde fica Realengo para o jornal. Fica lá. Cuidado, privilegiado leitor.

Abraços.

MAIS TAXADO QUE TIRADENTES !

Vamos ao século XVIII. O ouro tinha sido encontrado em quantidade significativa em algumas regiões do interior do Brasil, nos sertões das Minas. Como as notícias davam conta de que havia ouro pra dedéu, a coroa portuguesa não perdeu tempo. O Conselho Ultramarino - orgão que cuidava dos negócios relacionados aos rincões ultramarinos portugueses - criou um orgão para azucrinar a vida dos mineradores, a Intendência das Minas. Cabia a esse trambolho burocrático, dentre outras coisas, fiscalizar a cobrança de impostos.

Até as montanhas de Ouro Preto sabem que o metal bruto, depois de fundido, era quintado. A quinta parte de todo ouro encontrado caberia , portanto, à Coroa. Outros tributos funcionaram nas Gerais, mas o Quinto Real foi o imposto crucial que sustentou a política fiscal portuguesa nas Minas. Contra o Quinto, considerado justamente uma extorsão, explodiram diversas rebeliões. A mais famosa, evidentemente, foi a Conjuração Mineira, em um contexto em que a Coroa ameaçava confiscar bens dos mineradores para cobrir as dívidas referentes ao pagamento daquilo que os mineradores chamavam de Quinto dos infernos ( taí a origem da expressão, caríssimos leitores).

Por que estou escrevendo sobre isso? Porque estou fazendo a minha declaração do imposto de renda. Porque acabei de ler nos jornais que o governo federal desistiu de aliviar os contribuintes que , como pessoas físicas, pagam 27,5 % dos ganhos para o famigerado Leão. Queridos, alguém aí já se tocou do absurdo que é isso. A tributação sobre o salário dos trabalhadores médios brasileiros é maior que o Quinto Real! Parece piada, não?

Sugiro ao ministro Mantega, com aquela carinha de guri cagado que perdeu o rumo de casa, que o Quinto Real volte. Que eu pague ao governo 20 % dos meus ganhos. Minha campanha agora é essa: Queremos a volta do Quinto dos infernos!

Tiradentes era feliz e não sabia.

Abraços

07/03/2008

VIVA D. JOÃO !

D. João VI não era propriamente um galã. Para ser sincero, o homem era uma espécie de caricatura ambulante. Fazia o tipo roliço, tinha perninhas curtas ( se vivo fosse e morasse aqui na Tijuca seria apelidado imediatamente de "mentira") , pés número 34, mãos de boneca e uma cabeça descomunal. Segundo sua mulher, Dona Carlota Joaquina, tinha pau pequeno e de pouca utilidade. Foi descrito pelo cronista Lopes de Almadia como "o mais horrendo membro de uma casa real européia em todos os tempos".

Dono de apetite voraz, devorava frangos assados com uma volúpia invejável. Meio gago, um tanto covarde, tinha medo de escuro e era inimigo de qualquer contato mais íntimo com a água (consta que nunca tomou um banho de corpo inteiro) . É bom que se diga que tornou-se rei sem jamais ter pretendido o trono - o pai morreu de um piripaque súbito, a mãe ficou tantã e o irmão mais velho foi vitimado pela varíola. Sobrou pra ele.

Regente de um país militarmente fragilizado, espremido entre a França do corso Napoleão e a poderosa Inglaterra, adotou a cautela como modus operandi e, nessa brincadeira, liderou a espetacular transferência da corte portuguesa para os trópicos. Foi o único monarca do ocidente que, literalmente, deixou Napoleão a ver navios.

Elevou o Brasil a reino unido, abriu os portos, permitiu a instalação de indústrias, criou um teatro, uma biblioteca e uma tipografia, modernizou as forças armadas e fez do Rio de Janeiro a única cidade das Américas a sediar uma monarquia européia. Criou o jardim botânico, a fábrica de pólvora, a escola de mineralogia e o observatório astronômico. Estimulou o cultivo de café no vale do Paraíba e a ocupação da serra fluminense. Conseguiu dinheiro para fundar o Banco do Brasil vendendo títulos de nobreza a brasileiros deslumbrados com a sociedade de corte. Transformou traficantes de escravos, comerciantes, fazendeiros e contrabandistas, em cavaleiros, marqueses, barões, condes e viscondes. Em pouco tempo o Brasil iria ter mais nobres que Portugal. Constantemente traído pela mulher, dizem que encontrou o amor nos braços de um camareiro da casa real. Não, eu não digitei errado. O caso foi com um camareiro mesmo, com o no final.

Um aluno, entusiasmado com os feitos do portuga, perguntou-me esta semana se também eram obras joaninas a ponte Rio-Niterói, o aterro do Flamengo e o bondinho de Santa Teresa. Tive vontade de confirmar as suspeitas do jovem, mas não o fiz.

Vítima, enfim, da própria imagem - grotesca, é justo que se diga - D. João foi ridicularizado em livros, filmes e séries de televisão de quinta categoria. Sou seu admirador ( assim como admiro, diga-se de passagem, os dois pedros que ocuparam o trono do Brasil - fomos mais sortudos com monarcas que com presidentes, tenho convicção ) . Amanhã, dia em que se comemora o aniversário de duzentos anos da chegada da família real ao Rio de Janeiro, tomarei minha primeira gelada, às margens do rio Maracanã, em reverência ao monarca. Salve ele!

Abraços

03/03/2008

ZORRA ÀS MARGENS DO SENA

A presença de franceses no litoral brasileiro ao longo do período colonial é por demais mencionada. Por muito pouco não estamos nós aqui a falar a língua do Zinedine Zidane. De todos os episódios envolvendo a francesada e o Brasil, o meu predileto é a desvairada "Festa Brasileira em Rouen", que reputo ter sido a primeira macumba pra turistas, o primeiro show de mulatas da história do país. Vamos aos fatos.

Os armadores e comerciantes de Rouen estavam interessadíssimos nas expedições ao Brasil, sobretudo em virtude do tráfico do pau de tinta e aves tropicais. Para convencer o rei Henrique II e a rainha Catarina de Médici a investir nas expedições ao litoral brasileiro, os homens de negócio organizaram uma festa monumental, com temática canarinho, para receber os reis no dia 1 de outubro de 1550.

Às margens do rio Sena, os franceses montaram um cenário de fazer o Joãozinho Trinta parecer diretor de teatro infantil sem recursos. As árvores foram enfeitadas com frutos e flores tropicais; micos, araras papagaios e tatus foram trazidos do Brasil e soltos no local. Em malocas indígenas construídas especialmente para o evento, circulavam, peladões, trezentos e tantos legítimos Tupinambá, recrutados no Brasil especialmente para o furdunço. Marinheiros normandos que conheciam bem o Brasil e falavam tupi circulavam fantasiados de colonos nos trópicos. Prostitutas foram recrutadas nos lupanares locais para simular danças sensuais e namorar os nativos.

O mais impressionante é que a coisa foi coreografada. Os índios e os figurantes colhiam frutas, carregavam toras de madeira, conversavam com papagaios, deitavam nas redes, simulavam pescarias, comiam frutas, tocavam maracas, caçavam, faziam fogueiras e o escambau. Alguns mais assanhados apalpavam as mulheres e balançavam os cacetes para uma platéia assombrada.

Subitamente, no momento mais desvairado do troço, a aldeia foi atacada por um grupo representando os Tabajara, inimigos dos Tupinambá. A porrada estancou. Árvores foram derrubadas, canoas viradas, figurantes simularam cenas de canibalismo e, no climax absoluto, o cenário foi incendiado. Apesar de simulado, o combate foi violentíssimo e senhoras da platéia chegaram a desmaiar. A quizumba terminou com a celebração da vitória Tupinambá sobre os inimigos.

Além dos reis, de nobres, cardeais, prelados, príncipes e embaixadores, estava presente no evento o capitão Nicolas Villegagnon, que pouquíssimo tempo depois lideraria a tentativa de fundar no Rio de Janeiro a colônia da França Antártica. Os monarcas se declararam estusiasmados com as emoções fortíssimas da vida nos trópicos e prometeram o auxílio do estado às investidas no Brasil.

A rainha, que só conseguia chamar os índios de Tupinambô, declarou-se particularmente impressionada com dois nativos imensos, bronzeadíssimos e musculosos. Ambos permaneceram na França, empregados como serviçais do cerimonial da soberana.

Abraços