29/02/2008

OS SENHORES DA GUANABARA

A história da fundação da cidade do Rio de Janeiro está longe de ser um mar de rosas. Até a estátua do Cristo Redentor sabe que os portugueses passaram um sufoco dos diabos para conquistar essas terras da Guanabara. Primeiro foram os franceses, que tentaram fundar por aqui a colônia da França Antártica. Depois de muita quizumba, a turma do Villegaignon foi expulsa pelos homens do governador-geral Mem de Sá.

Resolvida a questão? Nem pensar. Os franceses pularam fora, mas os portugueses tiveram que enfrentar a heróica resistência dos índios Tamoio, senhores da Guanabara. Foi para combater a Confederação dos Tamoio, esse episódio magnífico e pouco mencionado da nossa história, que Estácio de Sá, sobrinho do governador-geral, estabeleceu um arraial no sopé do Pão de Açúcar, no dia 1 de março de 1565. Esse episódio marca a fundação do núcleo original da cidade do Rio de Janeiro, que comemora amanhã, portanto, 443 anos.

Eu sou daqui, vivo e amo a minha cidade, mas confesso: nessa história toda eu prefiro, mil vezes, os Tamoio. Guerreiros incontestes, bravos canoeiros, entrincheirados nas paliçadas de Uruçumirim ( o atual Morro da Glória) , os índios resistiram, infernizaram a vida dos devotos de São Sebastião, foram escravizados, combateram até o final de suas forças e foram relegados ao subterrâneo da história oficial, que prefere louvar Araribóia, o Temiminó que converteu-se ao catolicismo, aderiu aos portugueses, virou cavaleiro da Ordem de Cristo e recebeu, por ter lutado ao lado dos europeus contra os Tamoio, a sesmaria do Morro de São Lourenço, origem da cidade de Niterói. O índio embranquecido e convertido, enfim.

A Confederação dos Tamoio deve receber o mesmo tratamento que o Quilombo dos Palmares recebe como um movimento maior de rebeldia da História do Brasil. Que se comemore - amanhã e todos os anos - o aniversário da cidade, mas que não se perca a dimensão da importância dos Tamoio como os valentes habitantes da Guanabara que morreram lutando pela terra.

Sei, e isso parece paradoxal, que a fundação da cidade marca o início da derrocada da rebelião dos índios. Estou convicto, porém, que é como os guerreiros Tamoio que temos que resistir aos desmandos dos que atentam, cotidianamente, contra nossa aldeia. Salve Estácio de Sá, viva São Sebastião, longa vida ao Rio de Janeiro; que me desculpem, porém, o herói português e o santo padroeiro : nós, cariocas, precisamos da valentia e do amor ao chão dos Tamoio para nos salvar.

Que as flechas sejam tiradas, hoje, amanhã e sempre, do peito do padroeiro e devidamente entregues aos índios guerreiros de Uruçumirim.

27/02/2008

E A LUCIDEZ QUE SE FODA !

O grande jornalista e botafoguense - o maior de todos - José Sergio Rocha mandou um comentário absolutamente passional sobre o Botafogo e a final da taça Guanabara. Zé Sergio discordou de tudo que eu postei sobre a derrota do alvi-negro e apresentou seus argumentos. O malandro acabou escrevendo um texto monumental, apaixonado, sobre as origens do Fogão, descobriu qual é o nosso problema, diagnosticou a solução e fez profecias milenares. Eu não posso permitir que essa página de antologia fique restrita aos comentários. Olha aí o texto do Zé sobre o nosso guri:

Discordo de tudo e de todos, inclusive do amigo professor Simas e do ex-colega de editoria de Esportes do Globo, o sempre lúcido Fernando Calazans, que enxergaram ridículo, patetices e (caso do Simas) até boiolismos na maravilhosa manifestação do grande Bebeto, do grande Cuca (por mim, vai morrer técnico do Botafogo, pois entre os técnicos que já tivemos só mesmo o Saldanha encarnou tanto a alma botafoguense) e do time inteiro no vestiário, após a derrota no 1º turno. E o grande Montenegro também teria sido menos comedido se não tivesse, ano passado, esgotado o próprio repertório. Montenegro falou demais na hora errada e agora está na muda. O que houve naquele momento foi, sim, intempestivo; foi, sim, algo do qual até poderemos nos arrepender algum dia (foda-se, todo mundo se arrepende algum dia das grandes e leves cagadas). Porém, “cena ridícula e patética”, jamais! Aconteceu, apenas, uma maravilhosa catarse, talvez um rito de passagem bonito pra cacete, e se eu estivesse lá teria reação parecida. Quem já foi garoto e rodou na macumba em dia de Cosme e Damião vai entender. Quem já fez bar-mitzvá vai entender. Quem lembra da primeira punheta que tocou vai entender. Quem foi jogado no chuveiro pelo pai ou pelo avô depois da primeira porranca vai entender. É preciso mergulhar um pouco mais na alma botafoguense para entender o que se passou. Somos diferentes, somos assim mesmo. A lucidez que se foda! Quem for lúcido demais corre o risco de não entender totalmente o perispírito, o DNA, a estrutura molecular alvinegra. Leiam melhor o fantástico “Botafogo entre o céu e o inferno”, de autoria do Sérgio Augusto, para saber que é preciso ir mais fundo, além dos heróis que demoliram o tabu de duas décadas sem títulos, das duas gerações de ouro dos anos 60 (a do Jairzinho-Gerson-Roberto e a do Garrincha-Didi-Nilton Santos). Tem que ir muito mais pra trás, antes mesmo do Heleno e até do Carvalho Leite. Somos o único grande clube brasileiro, e talvez o único grande clube do planeta, que foi fundado por um bando de guris e continua existindo, vivo, firme e forte. Eram garotos jogando bola ali onde hoje é a Cobal do Humaitá, uns mequetrefes, e foi a vó (dona Chiquitota) do nosso primeiro presidente (Flávio Ramos) que deu nome definitivo ao time. O Botafogo é (ou era, pois o que aconteceu naquele vestiário), portanto, um eterno adolescente. E vamos continuar sendo um pouco isso. No entanto, depois daquele fuzuê no vestiário, a coisa vai mudar, meus chapas, hãhã, vocês vão ver só o que vai ser bom pra tosse! É simples, caros incréus, o Botafogo está ficando adulto, daí o sagrado descontrole que tomou conta de jogadores, dirigentes e torcedores. A questão é meramente hormonal. Enquanto outros times do primeiro escalão do futebol brasileiro envelhecem, nossa pica acaba de tomar forma. E tomem cuidado, pois a coisa é grande, artefato da melhor envergadura, tipo Djalmão de anedotas. Ouçam bem o que estou lhes dizendo: com exceção do São Paulo, que é um clube sem alma alguma, uma Grande Rio das quatro linhas, uma espécie de Imperatriz Leopoldinense sem Zé Katimba, os grandes times brasileiros têm belas histórias, têm belos passados. Mas no futuro poucos restarão. Assim como o Andaraí, o Mangueira, o Canto do Rio, muitos vão desaparecer do mapa. Aqui, no Rio de Janeiro, arrisco: no ano 2.500, quando o Brasil completar o primeiro milênio, só restarão o Botafogo e, possivelmente, o Flamengo. Sobre o que aconteceu em campo, no domingo, peço licença pra pedir que vocês, que gostam de assistir jogos dos campeonatos europeus, me digam, honestamente: o juiz é personagem nesses jogos? No cu que é. Raramente, sua senhoria européia se torna mais importante em campo do que os atores principais. Por favor, me entendam: não acredito que o Flamengo tenha comprado o Marcelo de Lima Henriques (guardarei este nome pelo resto da vida, junto com o de um sujeito chamado José Marçal Filho), mas este cretino acabou com um jogo que estava bonito e disputado, um jogo em que as faltas demoraram a acontecer (e que começaram porque os dois times perceberam o quão inseguro e incompetente era o apitador), um jogo que só teve impedimento um milhão de minutos depois do apito inicial. E, com certeza, foi determinante para o resultado da partida. Seja a favor do Flamengo ou do Botafogo (é “rúim”, hein?). Portanto, um escroto. Não um canalha, que os canalhas são simpáticos. Marcelo de Lima Henriques é apenas um imenso escroto. Ele, sim, foi patético e ridículo, tal e qual outros safados (incluindo a safada gostosa que armou pro Figueirense). O Botafogo, seus dirigentes (talvez os únicos decentes do futebol brasileiro atual), os jogadores (que elenco! desfalcado e tudo, partiu pra cima até o minuto final) e a torcida (que maravilha de torcida, ninguém vai calar nossa turba!) não mereciam um pilantra como esse. Aguardem que os pelinhos da barba do garoto estão crescendo! O moleque já foi na zona! Tem mais campeonato pela frente. E a lucidez que se foda!!!

25/02/2008

RESPEITEM O BOTAFOGO

O Botafogo, caríssimos leitores, amargou um jejum de 21 anos sem títulos, entre 1968 e 1989. Foi rebaixado para a segunda divisão, sofreu derrotas terríveis e comeu o pão que o diabo amassou e jogou fora. Em nenhum momento, naqueles e em outros tempos de vacas magras, eu assisti a um espetáculo tão ridículo quanto a equivocada entrevista coletiva de jogadores e dirigentes após a derrota para o Flamengo na final da taça Guanabara.

Um desequilibrado Bebeto de Freitas declara que cansou de perseguições, recebe um Jânio Quadros de frente e abre mão da presidência; o jogador Túlio aconselha a torcida a não comparecer mais aos jogos; o técnico Cuca, uma pilha de nervos, diz que o juiz é o verdadeiro campeão e, para completar o circo, o time se apresenta unido, e aos prantos, para apoiar as declarações infelizes do capitão Lucio Flávio. Vamos aos fatos:

*O jogo foi pau a pau. O Botafogo poderia ter sido mais ousado no primeiro tempo, quando o Flamengo estava completamente desarrumado. Não foi, recuou muito e tomou certo sufoco no segundo tempo. Foi um jogo igual, que não comportaria nenhum resultado injusto.

* O juiz (péssimo, diga-se de passagem) não foi determinante para o resultado. Naquele empurra-empurra na zona do agrião, o agarrão do Ferrero na camisa Fábio Luciano foi acintoso. Futebol não é judô, cacete. Pênalti.

* Lucio Flávio não tem condições de ser capitão. Sabendo que já tinha um amarelo, não podia nunca fazer a falta boba e por trás, na intermediária do Flamengo, que motivou sua expulsão. Achei esse o lance capital da decisão. Além disso, é atleta de Cristo, gosta de se ajoelhar quando faz gol e fica gritando "obrigado, Senhor". Um sujeito capaz disso pode ser um belo jogador, mas não tem perfil de capitão.

* Esse discurso de que o Botafogo é a vítima eterna dos deuses e dos homens é de uma babaquice atroz. O Botafogo é um clube glorioso, com uma história magnífica, que não pode vestir essa carapuça de eterno sofredor.

* Juízes erram e acertam. O alvi-negro conquistou uma taça Guanabara recentemente (2006) com o juiz não marcando um pênalti escandaloso a favor do América, que ganhava naquela altura por 1X0. Na Copa do Brasil do ano passado o Botafogo desclassificou o Atlético Mineiro com o luxuoso auxílio do juiz Carlos Simon, que não deu um pênalti clamoroso a favor do Galo. Não enxergo, sinceramente, nenhum complô contra o Botafogo.

* Será que ninguém lembrou que a taça Guanabara é apenas uma etapa do torneio e que o campeonato carioca vai prosseguir, caceta! Aquela exibição de padecimento explícito, com choro coletivo e cenas de desmaio, é típica de quem pensa pequeno. Os caras deviam é gritar um para o outro que semana que vem começa o segundo turno e o time tem que entrar pensando grande.

*Parece até que o Botafogo entregou os pontos do resto do campeonanto. Só faltou alguém anunciar que o departamento de futebol do clube vai ser extinto e não disputaremos mais nenhum torneio de futebol nos próximos cem anos.

* A torcida fez sua parte e o time comportou-se relativamente bem em campo. A auto-flagelação no vestiário foi ridícula e deu a impressão de que somos um bando de viadinhos. A história do Botafogo não merecia isso. Jamais, tenho certeza, jamais um Nilton Santos, um Didi, um Heleno, um Paulo César ou um Manga - todos eles altaneiros, confiantes e quase mesmo arrogantes - se prestariam a esse papel de carpideiras do próprio velório.

20/02/2008

SEQUESTRARAM A CIDADE

Se perguntarem numa dessas pesquisas de rua qual foi o francês que causou mais problemas ao Brasil, aposto na vitória de Zinedine Zidane. Eu creio, porém, que temos uns candidatos mais problemáticos que o craque, verdugo canarinho nas copas de 1998 e 2006. Penso nos piratas e corsários do período colonial, gente perigosíssima e disposta a tudo em troca de uns bons caraminguás.

Pouca gente sabe, por exemplo, que a cidade do Rio de Janeiro foi sequestrada pelos corsários franceses em 1711. Sim, eu me refiro ao sequestro da cidade inteira. Conto como foi.

Em 1710, sob as ordens do rei Luís XIV, o terrível lobo do mar Jean-François Duclerc desembarcou em Guaratiba e, comandando mil e poucos homens, percorreu a zona rural e atacou a cidade pela retaguarda. A idéia do corsário era promover, no mínimo, uma pilhagem monumental e assumir o controle do porto.

O francês não contava com a resistência da população, liderada por estudantes, pretos forros, vagabundos de escol, crianças, barbeiros, mercadores e voluntários de todos os tipos. Foi um pega pra capar dos infernos. A Guanabara assistiu a violentos combates de rua, com tiroteios, facadas, socos, pernadas, dentadas e o escambau. Após alguns dias, os franceses se renderam. O saldo final apontou mais de 300 mortos e uma cacetada de presos, dentre eles o próprio Duclerc.

O corsário, aliás, teve um final terrível. Foi assassinado no cativeiro por dois sujeitos embuçados, provavelmente a mando do governador Francisco de Castro Morais. Todos os franceses presos entraram na porrada.

Seis meses após a morte de Duclerc, e com a justificativa de vingar o colega de rapina, outro francês atacou o Rio de Janeiro. No dia 20 de setembro de 1711, à frente de uma frota com 18 navios, 740 peças de artilharia e quase seis mil homens, o corsário René Duguay-Trouin tomou a cidade, anunciou o sequestro de toda a população e exigiu um resgate de 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois para não destruir completamente o Rio.

O governador, tremendo borra-botas, simplesmente fugiu, acompanhado pelas principais autoridades municipais. Coube ao povo carioca se virar para resolver a escaramuça. Após uma vaquinha épica, cada um doando o que tinha para completar o butim, o francês recebeu o resgate e se mandou. Parece que a noite anterior à partida foi um negócio sério. A francesada encheu o pote nas tabernas mais suspeitas da Guanabara e teve até pirata que se enrabichou por aqui e resolveu ficar.

O governador, evidentemente, foi demitido pelo governo português e ridicularizado pela cidade inteira - recebeu o gracioso apelido de Chico Vaca e teve que escafeder-se do Rio para não entrar no cacete. A população percebeu que não podia contar mesmo com os governantes - os primeiros que sumiram quando o negócio encrencou - e a vida acabou retomando seu curso.

Um português que vivia no Rio, o almoxarife do porto Domingos Cardoso Fontes, escreveu uma carta aos familiares da terrinha com um relato preciso da zorra toda. A missiva do gajo é, inclusive, uma das fontes mais utilizadas pelos historiadores para saber o que se passou naqueles dias. Uma frase do alfacinha merece destaque:

- Essa é uma cidade tão formosa quanto perigosa. Se receberem a infortunada notícia, algum dia, de minha morte por aqui, saibam apenas que de tédio não terei padecido.

Abraços

13/02/2008

LONGA VIDA AO SÃO CRISTOVÃO DE FUTEBOL E REGATAS


No dia 12 de Outubro de 1898 foi fundado, aqui no Rio de Janeiro, o Clube de Regatas São Cristovão, dedicado ao remo. No dia 5 de Julho de 1909 foi criado o São Cristovão Atlético Clube, voltado para a prática do futebol e campeão carioca de 1926. No dia 13 de Fevereiro de 1943 ocorreu a fusão entre os dois clubes do bairro imperial, nascendo então o São Cristovão de Futebol e Regatas, o simpático, tradicional e carioquíssimo São Cri-Cri.

Hoje é, portanto, aniversário do portentoso São Cristovão de Futebol e Regatas. Não sei se ocorrerá alguma atividade especial para louvar a efeméride. Parece que o São Cristovão vai mal, sem um puto de um trocado pra fazer a festa. Eu, que ando preocupado com a situação terminal dos pequenos clubes de futebol dos bairros da cidade, abro a primeira gelada do dia, às margens do Rio Maracanã, ao clube de Figueira de Melo.

Esses clubes de bairro tem uma trajetória muito similar às escolas de samba do carnaval carioca. Mais do que times de futebol, os pequenos clubes representavam espaços em que as comunidades dos bairros estabeleciam estratégias de convívio, expressavam anseios, manifestavam desejos de festa, integração comunitária e participação efetiva no cotidiano de espaços muitas vezes depreciados e esquecidos pelo poder público. Os times de futebol desses bairros não tinham a intenção de vencer ou conquistar títulos ; a vitória, no caso, era simplesmente existir e proporcionar o encontro.

Assim como os desfiles assistiram ao surgimento das super-escolas de samba, caracterizadas pela proliferação de alas comerciais e pela verticalização do cortejo - em que as alegorias e adereços se transformam em parafernálias e o componente vira coadjuvante do delírio visual e da ditadura dos carnavalescos - o futebol se tranformou em negócio milionário, controlado por empresários, holdings e o escambau.

A identificação entre jogador e clube desapareceu, a paixão perdeu espaço para as estratégias de mercado e os clubes que não apresentam potencial de retorno financeiro e capacidade de projeção na mídia ( já que não possuem torcedores, ou melhor, clientes , numerosos) correm o risco de acabar ou, quando muito, disputar campeonatos de divisões intermediárias.

Como pode o São Cristovão se inserir nas estratégias de retorno financeiro e midiático do mundo globalizado (expressões tremendamente pedantes e de natureza excludente) ? Não pode, evidentemente. Quem está errado; o São Cri-Cri? Me parece, definitivamente, que não. Nessa maluquice global, a questão é bem mais profunda : é o bairro que está morrendo. Vivemos tempos estranhos, em que é mais fácil o sujeito saber o que está acontecendo com a bolsa de Cingapura do que descobrir o que ocorre na esquina, na feira, no bairro, no botequim e no pequeno clube da localidade.

A míngua dos pequenos é a agonia de um modelo civilizatório mais humano, cordato, afável, apaixonado, destinado ao festejo, ao compartilhamento da alegria e da dor e ao cotidiano dividido com o jornaleiro, o barbeiro, o feirante, o dono da birosca, o amolador de facas e o velho torcedor; aquele que frequenta sempre, até que morra ele ou o clube, o mesmo lugar na arquibancada.

Longa vida ao São Cristovão!

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11/02/2008

UMA TRAGÉDIA GREGA NO MÁRIO FILHO


Nunca me recuperei do baque que sofri na final do campeonato brasileiro de 1985. Aquele torneio foi, no mínimo, estranho. Basta dizer que as semifinais foram disputadas entre Bangu X Brasil de Pelotas e Coritiba X Atlético Mineiro. No fim das contas passaram o Bangu e o Coritiba, que realizaram a final mais inusitada da história dos certames nacionais.

Acho que aquela foi a única vez que vi as torcidas dos quatro grandes clubes da cidade do Rio de Janeiro torcendo unidas, sem brigas ou provocações entre elas. O Maracanã recebeu mais de 90 mil pessoas, que apoiaram o Bangu o tempo inteiro. Eu estava lá, com meu pai e meu irmão, vibrando com o Banguzinho ao som da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. Honrando a fama de que na Zona Oeste estão os melhores baloeiros do mundo, o que subiu de balão no Maraca naquela noite não está no gibi.

O jogo foi um teste para cardiopatas. Coisa séria. O time do Coritiba começava com um bom goleiro, Rafael ( o sujeito parecia uma mistura de Fred Mercuri com o Principe Valente, com uma vastíssima cabeleira de cuia e um bigodão suspeito) . Possuia um meio de campo sólido e pouco criativo e um ataque com um ponta arisco, o baixinho Lela, que lembrava muito um Lumpa-Lumpa da fabulosa fábrica de chocolates. O centroavante, Índio, era um trombador de chute forte. O técnico do Coxa era o falecido Ênio Andrade, especialista em armar sistemas defensivos sólidos.

O Bangu tinha um bom time, com destaque absoluto para o ponta-direita Marinho, que vinha comendo a bola. Gilmar, Pingo, Israel, Lulinha, Mário e Ado eram outros destaques do time carioca. Os homens fortes do Bangu estavam, porém , nos bastidores. Eram os banqueiros do bicho Castor de Andrade e Carlinhos Maracanã. Naquele ano consta que o Dr. Castor assistia a todos os treinos da equipe com um trêsoitão na cintura e dava tiros para o alto quando achava que os jogadores não estavam se empenhando. Essa , digamos, técnica de motivação funcionou magnificamente ao longo do campeonato.

A partida, disputadíssima, terminou empatada em um gol. O tal do Índio fez um gol de falta do meio da rua e o Bangu empatou num bate-rebate concluído com um chute do Lulinha. Para desespero dos corações dos velhos banguenses, lá foi a partida para a prorrogação.

O tempo extra terminou empatado, e até hoje os banguenses reclamam de um gol do Marinho que teria sido mal anulado pelo juiz, Romualdo Arpi Filho ( esse cabra era, de fato, meio suspeito) .

A decisão foi para os pênaltis. Os leitores sabem que não sou Bangu, mas essa disputa de pênaltis de 85 me deixou muito mais nervoso que a final mixuruca da copa de 94. A primeira série terminou empatada, até que o Ado, habilidoso ponta-esquerda alvi-rubro, mandou a cobrança pra fora. O caboclo tentou deslocar o goleiro e bateu mal pácas. Gomes, um limitadíssimo zagueiro do Coritiba, converteu em seguida e o time do Paraná ficou com o título.

Eu não sei até hoje como o Ado sobreviveu ao drama da derrota. Imaginei que o camarada ia se matar; talvez até no próprio estádio, comendo grama até morrer. Alguns amigos achavam que o sujeito seria liquidado pelos capangas do Castor de Andrade.

Durante muito tempo o Ado encarnou para mim a figura do herói trágico, do sujeito que esteve muito próximo da consagração - foi para muitos o melhor ponta-esquerda do campeonato - e acabou encontrando, diante da chance da vitória, o infortúnio. Durante muito tempo, uma ova. Corrijo. O Ado continua sendo essa figura. É um personagem magnífico, digno das maiores tragédias gregas. Se um Eurípedes estivesse no estádio naquela noite, a dramaturgia trágica ganharia um clássico imediato. O Bangu, ouso afirmar, nunca mais terá a chance de ganhar um título de expressão na história do futebol.

O Ado, naquela noite, morreu para o esporte. Suspeito que até hoje aquele pênalti seja o fantasma que assombra seus dias e apavora seu sono. Tenho por ele, e por figuras que viveram dramas semelhantes, um tremendo respeito. Ado é um dos meus personagens prediletos na história do violento esporte bretão (opa!) e esse Bangu e Coritiba certamente me comove mais como fato histórico do que, por exemplo, as guerras napoleônicas.

Eu, pelo menos, espectador do drama, nunca esqueci.

Abraços.

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09/02/2008

SAMBA NA FOLHA

*Hoje é dia da roda de samba na Rua do Ouvidor, organizada pela Livraria Folha Seca, pelos restaurantes Antigamente e Casual e pelo botequim Toca do Baiacu. Os comandantes do furdunço, Gabriel da Muda e Tiago Prata, prometem homenagens ao glorioso Império Serrano.
*A Folha Seca , e aqui vou fazer a propaganda do meu peixe, já está vendendo o livro O Vidente Míope , sobre o monumental caricaturista carioca J. Carlos. O livro, fartamente ilustrado, retrata a década de 1920 no Brasil a partir dos desenhos que J. Carlos fez para a revista O Malho. Tem de tudo; futebol, carnaval, cidade do Rio de Janeiro, cultura popular e contexto político. Getúlio Vargas, Hermes da Fonseca, Lampeão, Padre Cícero, jogadores de futebol, capoeiristas, políticos corruptos, marafonas, carnavalescos, bandidos, malandros e compositores populares são alguns dos personagens que desfilam pelas 279 páginas da obra. O mestre Cássio Loredano organizou as caricaturas, eu escrevi o texto e a Folha Seca editou.
O lançamento oficial, com noite de autógrafos e o escambau, ocorrerá provavelmente no mês de março. Avisarei devidamente aos amigos e darei mais detalhes sobre o trabalho.
Abraços

08/02/2008

PRENDERAM O CEREAL


Recebi a notícia, em pleno final da quarta feira de cinzas, alarmado: - Felipinho Cereal foi detido no Maracanã. Aos poucos soube do que havia ocorrido com meu amigo tijucano. Explico.

O Felipinho, como até as estátuas da praça Afonso Pena sabem, é um torcedor ferrenho do América, o imortal clube da Rua Campos Sales. Acontece que o América não anda lá muito bem das pernas. A penúria é tanta que, recentemente, a direção do clube leiloou a camisa que o meio-campista Pires usou na final da Copa dos Campeões de 1982, brilhantemente vencida pelo esquadrão rubro. O América está, como diria meu avô, latindo no quintal para economizar o cachorro. Sabedor das dificuldades do clube, Felipinho raspou a poupança e arrematou a peça. Com o dinheiro do leilão a diretoria comprou centenas de barras de cereais para alimentar a equipe americana; desde então essa marcante alcunha - Felipinho Cereal - acompanha nosso herói.

A situação atual do América é alarmante. O clube ocupa a última colocação do campeonato carioca e corre sério risco de ser rebaixado para a segunda divisão do torneio. É uma tragédia que precisa ser evitada. Lembro-me, por exemplo, que o América foi o primeiro time de futebol que encantou a minha meninice. A linha de frente de meados dos anos 70, com Braulio, Edu, Flecha, Luizinho e Gilson Nunes, só perdeu no meu imaginário infantil para o ataque furioso do Vila de Cava F.C. , time de várzea de Nova Iguaçu, formado por Capiroto, Curupira, Corno Manso, Abecedário e Aderaldo.

Saibam os leitores que na quarta feira o América foi derrotado pelo Fluminense por inapeláveis 6 X 1. O Felipinho estava no Maracanã. Ao perceber que o time sofreria uma derrota bíblica, o Cereal resolveu invadir o gramado para pedir raça e esfregar na cara dos jogadores a camisa rubra. Ao se preparar para pular o fosso que separa as cadeiras do gramado, Felipinho foi contido por um policial militar, devidamente assessorado por um cão pastor alemão. O animal era, segundo testemunhas, duas vezes maior que nosso bravo torcedor americano.

Felipinho foi devidamente encaminhado ao setor jurídico do estádio. O responsável pela segurança da partida achou por bem recolher o Cereal a uma sala reservada até o final da peleja. Guarnecido por dois policiais militares, Felipinho acompanhou, visivelmente alterado, o final do jogo pelo rádio de pilha. Foi medicado e, felizmente, liberado algum tempo depois.

Presto minha solidariedade ao Felipinho e clamo aos céus pela recuperação do nosso América. Em um campeonato marcado pela ausência de clubes tradicionais da cidade, como o São Cristovão, o Olaria, o Bangu, a Portuguesa e o Bonsucesso, só falta agora o América parar na segundona. O futebol não merece, a cidade do Rio de Janeiro não merece e os bravos torcedores rubros não merecem.

A detenção de Felipinho Cereal é um desses episódios que diferenciam os meninos dos homens e moldam, para melhor, o caráter de uma pessoa.

Sangueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!