30/01/2008

PARA QUEM NÃO É DA FOLIA

Gosto de Carnaval. Desde moleque sempre aguardei o tríduo com grande expectativa e me esbaldei na maioria das vezes. É, provavelmente, influência de uma família que sempre gostou da fuzarca de Momo. Lembro-me quando, numa raríssima exceção, embarquei na canoa furada de uma viagem para um sítio na Serra da Mantiqueira durante a folia. Passei, seguramente, alguns dos piores momentos da minha vida entre as matas, os rios, os pássaros e os banhos de cachoeira. Jurei nunca mais me comportar como um sandeu.

Dizem que esse Carnaval ocorrerá debaixo de chuva. Sem problemas. Já brinquei debaixo d´água e sob sol escaldante, como no samba da Tupi de Brás de Pina. Prefiro mil vezes a chuva. Já desfilei em escola de samba dez horas da manhã, com um calor de torrar os miolos do capeta, e por muito pouco não bati o pino. Debaixo de chuva qualquer conhaque vagabundo colabora, sob um calor senegalesco não tem cerveja que resolva.

Mas não quero falar sobre meu passado de folião. Para mostrar que sou tolerante com os que detestam os dias de folia, preparei, consultando jornais, sítios na rede e amigos, uma lista de programas off Carnaval (gostaram da expressão? Copiei de uma revistinha d´O Globo). Vejam como pode também ser divertido ficar alheio ao evento. Eis aí a lista com dez programas para quem não é chegado no ziriguidum:

1- Em São Paulo estão programadas missas com os padres cantores Marcelo Rossi, aquele que canta imitando elefantes e girafas, e Antônio Maria, cujo ápice da carreira sacerdotal foi ter celebrado a histórica união entre Ronaldo Fenômeno e Daniella Cicareli no Castelo Chantilly, na França, sob patrocínio da revista Caras. Programaço.

2- Mostra de filmes inéditos no Centro Cultural Banco do Brasil. Imperdível para os cinéfilos que detestam Carnaval. Enquanto eu estiver me preparando para desfilar no Império Serrano, por exemplo, o sujeito pode assistir "A Culpa de Voltaire", do tunisiano Abdellatif Kechiche, ou ao filme chinês "17 Anos".

3- Teatro. Nada melhor que uma ida ao teatro para os que detestam a folia. A peça "Entropia" estará em cartaz no mesmo Centro Cultural Banco do Brasil. A última vez que fui ao teatro, lá pelos idos de 1985, não foi tão ruim. Eu é que tenho verdadeiro horror de ver alguém no palco representando um texto. É mais fácil me encontrarem visitando o túmulo do Marechal Floriano Peixoto no São João Batista ( jazigo 125 - A, podem conferir) do que numa peça teatral. Aliás, o São João Batista é também uma dica interessante. Para quem preferir o Caju, indico o túmulo do Barão do Rio Branco, em mármore monumental e mais alto que o vão central da ponte Rio-Niterói.

4- Camarotes das cervejarias na Marquês de Sapucaí; sempre repletos de celebridades e personalidades do mundo político. É, sem a menor dúvida, o melhor programa para quem de fato detesta Carnaval. O camarote da Nova Schin, por exemplo, será servido pelo Buffet Fasano Bambi Bi, da cheff Camila Fasano. Essa informação, que reputo como da maior importância, está na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, n´O Globo de hoje. Só não me perguntem que diabos quer dizer Bambi Bi.

5- Em Búzios e no Aterro do Flamengo estão programados festivais de música eletrônica. Ideal para pansexuais suicidas e artistas de vanguarda antenados com a cena eletrônica européia.

6- A catedral mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, na Avenida Dom Helder Câmara, promoverá a "maratona do descarrego". Durante quatro dias pastores estarão realizando exorcismos e descarregos em tempo integral. A igreja promete encerrar o evento com a realização do ritual da fogueira santa de Israel, onde os bilhetes com pedidos dos devotos arderão na pira do Leão de Judá. Classifico também como imperdível esse evento off -folia. Promete ser mais animado que o desfile da Grande Rio falando sobre a importância do gás natural.

7- Mostra "Carl Theodor Dreyer e Lars Von Trien: os cineastas da vida interior". Programaço! Não percam, nessa sexta-feira, na Caixa Cultural Rio/ Cinema 1. Contem-me depois como foi assistir a maratona de filmes instrospectivos, com direito a um debate sobre o cinema dinamarquês ontem e hoje.

8- Caminhadas ecológicas. Eis um programa tremendamente interessante para os anti-carnavalescos. Há uma série de caminhadas ecológicas que podem ser feitas com o auxílio de grupos especializados durante o tríduo momesco. A empresa "Caminhos do Coração", por exemplo, organizará trilhas na Floresta da Tijuca, no Morro da Urca, na Pedra da Gávea e na Serra dos Orgãos, com direito a banhos de cachoeira e paradas para meditação. Deve ser tremendamente divertido, sobretudo se chover.

9- Festa na boate Privilège, em Búzios, com a dupla americana de house music Deep Dish. Em pleno sábado de carnaval, o programa ideal para os descolados e o público que curte (é isso que está escrito na propaganda do evento) a fusão entre música de vanguarda, moda vintage, filosofia e pop art. É o programa mais indicado para bichas sensíveis e jovens lésbicas intelectualizadas.

10- Fim de semana prolongado no Hotel Fazenda Santa Cruz, nas imediações de Barra do Piraí. Leite tirado na hora, diversões temáticas para crianças, sessões de power yoga e tai-shi-shuan para a terceira idade e, importantíssimo, shows de MPB e jazz. Sessões de relaxamento com terapeutas especializados, oficinas de origami e palestras sobre culinária orgânica são opcionais e não estão incluídas no pacote. Aliás, desculpem a ignorância, mas o que é culinária orgânica? Não me parece que a costela no bafo que comi ontem em Benfica esteja incluida nessa categoria.

Queridos, depois dessas dicas que provam, repito, minha compreensão em relação aos não carnavalescos, abrirei a primeira gelada do dia, às margens do Rio Maracanã, colocarei uma farofa nos pés de Exu, que não sou besta, e declararei aberto o meu Carnaval. Esse espaço entra de férias até a quarta-feira de cinzas.

Evoé!

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28/01/2008

BRONCAS

Fica registrado meu protesto contra um futebol cada vez mais mercantilizado, empresarial, transformado em "big business" ( a expressão escrota foi usada por um dirigente de grande clube carioca) , que apresenta um campeonato carioca com Duque de Caxias, Macaé, Resende, Cardoso Moreira e quejandos, enquanto os tradicionais São Cristovão, Olaria, Bonsucesso, Bangu e Campo Grande gramam nas divisões inferiores, fadados ao esquecimento e, quem sabe, ao fim de seus departamentos de futebol profissional.
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Vou aproveitar a bronca e pegar o bonde do carnaval. Essa maluquice no futebol é o mesmo fenômeno que faz com que uma escola de samba importantíssima como a Tupi de Brás de Pina - que desfilou com o seminal samba-enredo "Seca do Nordeste" em 1961 - tenha, por absoluta penúria, deixado de existir, enquanto coisas alheias ao universo do samba, como a Acadêmicos do Grande Rio, estão por aí, confundindo berimbau com gaita.
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A coisa está tão feia que as escolas de samba e os clubes de futebol estão se igualando também na infidelidade de seus membros. Da mesma maneira como o futebol generalizou a presença de jogadores de alta rotatividade - que atuam em vinte e tantos times ao longo da carreira, beijam todos os escudos e sempre declaram estar finalmente jogando no motel, ou melhor, no clube de seu coração - o troca-troca nas escolas passou dos limites e virou suruba. Os puxadores de samba, por exemplo, trocam de agremiação como mudam de cueca. Nêgo, que já foi Beija Flor, Unidos da Tijuca, Grande Rio e Império Serrano, agora defende as cores da Unidos do Viradouro. O compositor Arlindo Cruz, de notória tradição imperiana, largou a escola, fez samba para a Grande Rio e participou de um show para angariar fundos para a Mangueira, pobrezinha de marré-de-si. Existem exemplos aos montes; as exceções apenas confirmam a regra.
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Nessa mesma linha, e para terminar a bronca, o novo jurado de alegorias e adereços do carnaval carioca, Bruno Chateaubriand, declarou que conhece profundamente as escolas de samba e é capaz de julgar qualquer quesito com maestria. O socialite deu como testemunho de seus conhecimentos sobre o balacobaco da Sapucaí a informação de que já desfilou em todas as 12 agremiações do grupo especial, soltando, evidentemente, a franga. É a prova evidente que de escola de samba o menino-pombagira não entende picas (opa!). Um cidadão desse tipo, de resto tão inútil quanto o anjo da guarda da família Kennedy, é a expressão definitiva do que estão fazendo com a nossa paixão.
Abraços

SEM AGENDA

Não dou sorte com agendas. Sempre que um novo ano começa, resolvo organizar um caderninho com telefones, compromissos, aniversários e quejandos. Nunca funciona. Este ano resolvi usar uma agenda como material de consulta indispensável para evitar os furos que costumo cometer com frequência. Concluí que o problema era o seguinte: nunca tive uma agenda que de fato despertasse minha atenção; com uma capa bonita, assuntos relevantes, espaço para informações e o cacete.
Foi por isso que comprei a "Agenda Música Brasileira - 2008 ", com a capa dedicada ao centenário do Cartola ( que não será , vale lembrar, enredo da Mangueira) e uma pá de informações interessantes. Vejam como sou sortudo. Abri hoje a agenda para fazer a primeira anotação do ano. Li a seguinte informação:
Janeiro, 28. Segunda-Feira
Nasce em Campinas(SP) , em 1983, a cantora e atriz Sandy Leah Lima, filha do cantor e compositor Xororó. Formou com o irmão a dupla Sandy & Junior, que começou a cantar em 1989, no programa Som Brasil, da TV Globo.
Fechei a agenda e não anotei o compromisso. Definitivamente, não nasci para isso.
Abraços

26/01/2008

CARNAVALESCAS (IV) - TÁ FEIA A COISA NO REINO DE MOMO

1- O leitor Gustavo, de Brasília, manda uma informação assustadora sobre o carnaval do Distrito Federal (sic). Eu estava lamentando alguns enredos ridículos que as escolas cariocas escolheram para este ano e descubro que a ARUC, maior campeã do carnaval brasiliense, homenageará na avenida um quadro do programa Zorra Total, da Globo. A escola irá desfilar no Ceilambodromo louvando especificamente os personagens Juju e Jajá, representados por atores brasilienses. Leiam a letra do samba que vai sacudir o Ceilambodromo e sintam como o carnaval pode chegar ao fundo do poço:

(Refrão) Brasília consagrou... Jajá está vindo aí
Juju faz a dancinha... faz ... faz...faz-me rir.

Lá na lona, no rádio, no teatro ou na tv
Os humoristas de Brasília fazem o sorriso acontecer
Quá, quá, quá, quá, quá, quá, quá, ARUC vem homenagear
De Carranquinha a Juju, de Cacareco a Jajá...
Respeitável público, o show vai começar.

(Refrão) Eu tô doido, eu tô doido, eu tô doido, eu tô doido
Tô doido pra te alegrar... tô doido pra te ver sorrir
Tô doido pra te ver sambar.

Não sei, realmente não sei, o que dizer sobre isso.

2- Descubro que hoje tem a feijoada de carnaval do Caesar Park, hotel chique de Ipanema. Por R$ 190 o cidadão tem direito a comer a feijoada e assistir a um show de ritmistas da escola de samba Renascer de Jacarepaguá. Cento e noventa paus por uma feijoada com ritmistas da Renascer? Tudo tem um limite.

3- Para quem quiser saber como o Carnaval pode ser mais triste que missa de sétimo dia, creio que há neste sábado um programa imperdível. O hotel Sheraton Barra realizará a Noite das Máscaras. O objetivo é resgatar a tradição do Carnaval de Veneza em plena Barra da Tijuca. Na entrada da festa os foliões (sic) receberão máscaras. Querem saber o preço? R$ 119 (mulheres) e R$ 219 (homens). Bom proveito.

23/01/2008

BOAS NOTÍCIAS PARA A GRANDE RIO

( David Brazil, promoter da Grande Rio, veste a camisa da escola)
* Para a tranquilidade dos torcedores da Acadêmicos do Grande Rio, chega a boa notícia : Kleber Bambam, figura de proa da escola e carnavalesco de escol, confirmou presença no próximo ensaio no clube Monte Líbano e mostrou-se confiante no título do Carnaval de 2008. Sobre o entrevero com a polícia, que gerou a detenção do ex-BBB no último ensaio, Bambam preferiu não se pronunciar. Aliás, está desfeito o mistério. Na hora em que Bambam foi detido, apresentou-se em defesa do folião a atriz Suzana Vieira. Enquanto Suzana argumentava com o policial que prendia Bambam, ouviu-se um comentário esclarecedor :

- Quem disse que a Grande Rio não tem tradição? Olhem a cena. A Velha e o Guarda.

* Está confirmada também a presença do socialite André Ramos, marido do jurado de alegorias e adereços Bruno Chateaubriand, na ala dos amigos da Grande Rio.

* O promoter da escola , David Brazil, promete divulgar nova lista de celebridades que abrilhantarão o desfile da agremiação de Duque de Caxias. O sonho do promoter é ver Hebe Camargo ao lado de Narcisa Tamborindeguy na ala dos amigos da escola.

É por essas e outras que , na hora em que a Grande Rio entrar na avenida, estarei na Intendente Magalhães assistindo aos desfiles do grupo de acesso D.

Abraços

22/01/2008

CARNAVALESCAS III


Parece que o poder público resolveu reprimir a venda e a utilização do spray de espuma no carnaval carioca. Ótimo. Evita, basicamente, que eu seja algum dia processado por infanticídio, já que basta tomar uns gorós para que o desejo de eliminar uma criança fantasiada de Lanterna Verde portando uma latinha de espuma me assalte com assustadora intensidade.

Já que iniciei com esse parágrafo sobre a espuma, permitam-me duas observações. Primeira : será pedir demais que os pais coloquem nas crianças fantasias condizentes com o tríduo momesco? O que tem de criança fantasiada de mutante, super-herói, personagem de desenho japonês e quejandos chega a ser assustador. Vamos, por favor, fantasiar os guris de índios, faraós, soldados romanos, piratas, melindrosas, árabes, malandrinhos, pierrôts, colombinas e por aí vai. Guardemos os mutantes para as festas de aniversário temáticas ( até porque eu não compareço rigorosamente a nenhuma festa temática. Prefiro comparecer a enterros, que me parecem mais saudáveis que essas festas doidas. ) .

O segundo detalhe é o seguinte, já que a espuma está proibida, que voltem com força total as batalhas de confetes. Para quem não sabe, vai aqui uma curiosidade momesca - os confetes surgiram na Itália. Há relatos de que desde o século XVIII era costume no Carnaval de Roma a multidão se reunir na Via del Corso e fazer emocionantes guerras com pequeninos confeitos açucarados ( confetti ) . Esses confeitos foram substituídos por pastilhas de gesso e, posteriormente, por pequenos círculos coloridos de papel. Fica a sugestão.

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Finalmente, para encerrar essas pequenas notas carnavalescas de hoje , duas informações - evidentemente patéticas - sobre a Acadêmicos do Grande Rio, esse nojo em forma de escola de samba. O promoter David Brazil , um dos diretores da escola, presenteou o empresário Silvio Santos com uma camisa da agremiação e convidou celebridades do SBT para o desfile. A segunda notícia é que outro membro da escola, o ex-Big Brother Kleber Bambam , foi preso no final do ensaio que a Grande Rio realizou no clube Monte Líbano, na Lagoa ( a escola diz ser de Duque de Caxias) . Bambam, que declarou-se acelerado pelo batidão do funk que tomou conta da quadra , desacatou um policial e foi em cana. Pagou fiança e garante que estará na avenida no dia do desfile, para defender sua escola de coração.

História boa contou meu mano Edu Goldenberg sobre uma conversa estabelecida no último ensaio entre membros da Grande Rio:

Membro 1 - A nossa Velha Guarda vai participar do ensaio?

Membro 2 - Velha Guarda ? Não temos Velha Guarda.

Membro 3 - Temos sim . A guarda eu ainda não sei quem é, mas a velha é a Suzana Vieira.

Abraços

21/01/2008

SAMBA NA OUVIDOR



Dia 20 de janeiro. Festa do padroeiro, vinte e cinco anos que Mané Garrincha foi oló e aniversário de dez anos da livraria Folha Seca - com direito a roda de samba em plena Rua do Ouvidor. Quando a festa acabou, ao som de Oxóssi, samba primoroso de Roque Ferreira, a impressão era a de que vivemos o maior 20 de janeiro de nossas vidas. Ouvi isso de um bando de gente.


Foi de fato um domingo lendário. Estimulado por uma quantidade industrial de cerveja cheguei a declarar que era o maior momento da história da cidade desde a chegada de D. João VI. Mantenho, absolutamente sóbrio, o que disse. Foi a melhor roda de samba que a Folha Seca realizou nesses dez anos de história - e digo isso porque fui a quase todas as rodas que a livraria promoveu nesta década de vida. A chuva não atrapalhou nada e a homenagem ao Império Serrano foi comovente. Houve uma impressionante onda imperiana que se manifestou na procura pelas camisas-convites que o Marcelo Moutinho - um dos organizadores da festa do imperiano de fé (falarei depois sobre o evento) - levou para vender.


Gabriel da Muda - com repertório primoroso - estava inspirado, Prata fez o diabo com o sete cordas, Pedrinho Amorim foi, como sempre, grande, e os demais músicos mataram a pau. Felipinho trouxe gente da Espanha, Cássio Loredano - desde já o papai do ano - meteu bronca no tamborim, Carlinhos Laguna declarou-se imperiano de coração, Rui Castro compareceu com seu traje de verão e o porre coletivo foi rigorosamente inevitável. Minha mesa, com quatro pessoas bebendo , consumiu cinquenta e duas garrafas de cerveja. Fiz umas cinco amizades de infância durante o evento. Mais do que isso, a cidade que não se acovarda estava ali, ocupando a rua mais tradicional do Centro, mostrando que temos a vocação para a rua, para a festa, para a alegria. Digão e Dani, os pais da criança, estavam visivelmente felizes e a nossa Folha Seca merece os parabéns. Valeu!


(Acabei de receber do Digão a foto acima. Estou cantando algum samba imperiano , vestido com uma camisa em homenagem a Mané Garrincha que só uso em ocasiões rigorosamente especiais.)

Abraços !

12/01/2008

A BOLÍVIA QUERIDA


Sou um simpatizante declarado do Sampaio Corrêa Futebol Clube, o clube de maior torcida do Maranhão. Já começo achando o nome do time interessantíssimo. Sampaio Corrêa II era o nome de um hidroavião que aportou em São Luís no final de 1922; seus comandantes, o brasileiro Pinto Martins e o norte-americano Walter Hinton, tentavam concluir a primeira ligação aérea entre as Américas, dos EUA ao Brasil. Não faço a menor idéia do que ocorreu na viagem, e nem pretendo descobrir. Me basta saber que o hidroavião batizou o clube de futebol e as cores dos uniformes dos pilotos foram adotadas pelo time.

Sou um fascinado, por exemplo, pela escalação do primeiro time da história do grande Sampaio. Experimentem recitar os nomes dos jogadores que em 1925 enfrentaram e venceram o Luso Brasileiro, campeão maranhense de 1924. Quero crer que a sonoridade obtida por essa escalação é digna de um alexandrino de boa cepa: Rato; Zé Novais e João Ferreira; Rui Bride, Chico Bola e Raiol; Turrubinga, Mundiquinho, Zezico, Lobo e João Macaco.

Esse ataque ( repito com prazer : Turrubinga, Mundiquinho, Zezinho, Lobo e João Macaco ) é coisa séria ! Me lembra o esquadrão do Vila de Cava F. C. que, nos anos 80, contava com Capiroto, Curupira, Corno Manso, Abecedário e Aderaldo; uma linha de frente que marcou época nos campeonatos amadores de Nova Iguaçu.

Além das razões citadas, o Sampaio também merece meu apreço por representar algumas coisas que escapam dessa praga do futebol atual, onde só se fala de gestão empresarial, clube empresa, jogador celebridade, futebol enquanto produto (ui!!) e quejandos. O clube maranhense é, por exemplo, conhecido, em virtude de suas cores, pelo apelido carinhoso de "Bolívia Querida". Imaginem o potencial mercadológico disso : nenhum, evidentemente.

Outro fato dignifica o Sampaio. Um dos maiores ídolos da história do clube foi o lendário goleiro Juca Baleia, que jogou no tricolor entre as décadas de 1980 e 1990. Com cerca de 150 quilos, Juca Baleia era, ao lado do cantor Nelson Ned, a pessoa menos indicada do mundo para ser goleiro de futebol. Acabou se consagrando como um arqueiro imponente, de milagrosa agilidade, conhecido pelos epítetos de Moby Dick e " baleia voadora".

É de um jogador do Sampaio o recorde de gols numa partida no Brasil. Em 1939, no jogo em que o clube derrotou o Santos Dumont por 20 X 0 , o atacante Mascote fez 10 gols. O resultado representou a extinção, ainda no gramado, do time que homenageava o inventor do avião. É justo lembrar que o recorde de Mascote foi igualado por Caio Mário (CSA 22 X 0 Maceió , pelo certame alagoano de 1944) e pelo Dario Peito de Aço, o Dadá Maravilha ( Sport 14 X 0 Santo Amaro, pelo campeonato pernambucano de 1976).

É por tudo isso, senhores, que eu tenho pelo Sampaio Corrêa tremendo carinho e formo fileiras com a sua imensa e apaixonada torcida. Em 2009 as metas são ganhar o campeonato maranhense e subir para a série B do brasileirão. Avante, Bolívia querida!

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08/01/2008

MAURO SHAMPOO


Este blog ultimamente tem falado de coisas tristes, como os enredos encomendados das escolas de samba ou a notícia mais patética publicada nos jornais desde Gutemberg: a escolha do socialite Bruno Chateubriand para jurado do desfile do grupo especial do carnaval carioca. É hora de voltarmos a falar de um grande personagem da história do Brasil, do naipe de um D. João VI, João Candido ou Maurício de Nassau. Refiro-me ao centroavante e cabeleireiro pernambucano Mauro Shampoo.

Shampoo foi um menino pobre que cresceu trabalhando como engraxate na praia de Boa Viagem, no Recife, onde nos fins de tarde jogava peladas na areia. Ainda jovem aprendeu o ofício de cabeleireiro, que até hoje lhe garante um sustento digno. A grande paixão de Mauro Shampoo sempre foi, porém, o futebol.

Correndo atrás de sua verdadeira vocação, Shampoo jogou durante dez anos no time de seu coração, o Íbis Sport Club, reconhecido pelo Guiness como a pior equipe do mundo em todos os tempos. A epopéia de derrotas do Íbis começou no dia 15 de novembro de 1938, quando foi criado como equipe de futebol da fábrica Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco. Graças ao abnegado gerente da empresa, Onildo Ramos, o time da fábrica tranformou-se num clube profissional, adotou a ave sagrada do Egito - Íbis - como símbolo, foi o time pelo qual torceu Miguel Arraes e teve em Mauro Shampoo o maior ídolo de sua história.

As estatísticas sobre o Íbis são imprecisas. Um levantamento feito em 2005 apontava 1064 jogos, com 137 vitórias, 145 empates e 782 derrotas. O saldo negativo era, então, de 2221 gols. Entre 1980 e 1984, com Shampoo no ataque, o time não conquistou nenhuma vitória. No campeonato pernambucano de 1983 foram inéditos 23 jogos e 23 derrotas.

Durante os dez anos em que foi o centroavante titular do Íbis, nosso herói marcou um único gol, em um jogo em que seu time saiu na frente do Ferroviário do Recife, sofreu a virada e perdeu por implacáveis 8 X1.

Quero crer que este gol isolado de Mauro Shampoo tem, para a história do futebol, uma dimensão lendária comparável ao milésimo gol de Pelé. Dez anos de carreira jogando no ataque e marcando um mísero tento, cristalino, legítimo, épico, que concentrou em um instante isolado toda a paixão que a bola pode despertar. Logo após marcar o gol, Shampoo declarou ter realizado a obra de sua vida e concretizado seu maior sonho; é, por isso, um sujeito que atingiu a plenitude.

Dizem os que testemunharam o feito histórico que nunca na história do futebol um gol foi comemorado com a euforia do tento de Mauro Shampoo. A vibração do centroavante e da equipe foi tanta que fez a comemoração do gol de Jairzinho, no lendário Brasil e Inglaterra da Copa de 70, parecer algo tão vibrante quanto uma procissão de Corpus Christi no interior de Minas Gerais.

Além de ter sido o maior jogador da história do Íbis, Shampoo virou também ator cinematográfico, no curta metragem "Mauro Shampoo, jogador, cabeleireiro e homem", de Paulo Henrique Fontenelle e Leonardo Cunha Lima. O título, aliás, reproduz a maneira como o próprio personagem se define.

Para conhecer a lenda basta ir a Recife e dar um pulinho em seu salão, onde o ambiente é decorado com mais de 500 fotos do Íbis. Ao contrário dos cabeleireiros tradicionais, onde a fofoca come solta e a mulherada põe as intrigas, venenos e capítulos da novela em dia, no salão de Mauro Shampoo o assunto sempre é o futebol. Para completar a história, o filho do homem , que se chama simplesmente Homed Thorpe, joga no Íbis e é centroavante. Seu maior ídolo é o pai.

O brasileiro Mauro Shampoo, centroavante de um gol, é um homem feliz.

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07/01/2008

A AGENDA DO IMPÉRIO SERRANO

Vejam os detalhes sobre a agenda imperiana no blog do Marcelo Moutinho, indicado ao lado no link "notícias do Império".
abraços.

CARNAVALESCAS

Outro dia, num desses seriados norte-americanos de televisão sobre médicos, hospitais, pacientes e defuntos, um sujeito pegou uma doença grave - não era gonorréia - ao passar oito dias de carnaval na Bolívia, terra das diabladas. O médico, ao saber disso, mostrou grande perspicácia e concluiu que o camarada tinha era passado o carnaval no Brasil. O argumento do doutor era irrefutável:
- Na Bolívia o carnaval tem três dias. No Brasil, tem quarenta. Se ele ficou oito dias na festa, só pode ter sido no Brasil.
É, queridos, a fama do patropi lá fora tá uma beleza. Essa gafe do tal seriado me fez recordar que no ano de 1893 o governo do marechal Floriano Peixoto resolveu transferir o carnaval no Rio de Janeiro para o mês de julho, em pleno inverno, longe do verão e dos riscos de epidêmias contagiosas. O governo decretou que o carnaval só ocorreria no meio do ano e ponto final.
A mudança de data só durou um ano, e olhe lá. Acontece que a população resolveu a coisa da forma mais simples possível; brincou o carnaval em fevereiro e se esbaldou novamente na folia oficial em julho. Antes que os dois carnavais ficassem consagrados, o governo cancelou rapidinho essa idéia de promover o trido momesco no meio do ano. Dizem que, naquele ano, teve gente que sumiu de casa em fevereiro e só reapareceu na quarta feira de cinzas. Cinco meses depois.
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O Império Serrano luta para colocar o carnaval na rua. Sem ligações com o crime organizado, sem esquemas globais de marketing, sem o poder escuso de escolher jurados, o Império conta com a tradição, o peso da camisa, o samba, a excelência no desfile, a melhor bateria do Rio de Janeiro e a paixão de seus componentes e colaboradores para ganhar o carnaval do grupo de acesso e voltar ao grupo especial. O jornalista imperiano Marcelo Moutinho lembra que no dia 16 de janeiro ocorrerá um show no teatro Rival para auxiliar a escola nesta reta final. Alguns dias depois ocorrerá um evento na quadra com o mesmo objetivo. Vou postar, em breve, todos os detalhes sobre os eventos. Ajudar o Império é, sobretudo, auxiliar o carnaval carioca e apostar que as escolas de samba podem ser, ainda e apesar de tudo, expressões maiores do nosso povo. Pertencer ao grupo especial, para o Império, é nada mais que estar em seu lugar natural, de onde nunca deveria ter saído. Para um grupo que conta com uma agremiação venal como a Acadêmicos do Grande Rio, ter o Império é preservar um pedaço da dignidade que vem sendo perdida ao longo dos anos. É o Império Serrano que engrandece qualquer grupo em que desfile, e não o contrário.
Abraços

06/01/2008

CURTINHAS

O jogador de futebol e bom moço Kaká declarou que sua senhora está grávida e atribuiu o estado interessante a uma profecia do apóstolo Estevam Hernandes, fundador da igreja Renascer em Cristo. Eu, que não tenho nada com isso, achava que a gravidez da esposa do rapaz tivesse sido motivada por algo mais trivial. Uma foda, por exemplo.
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A Acadêmicos do Grande Rio começará a ensaiar no clube Monte Líbano, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Os ensaios contarão com a participação de cantores de hip-hop e do dj Malboro e suas tchuchucas do funk. Segundo a diretoria da Grande Rio (que eu não chamo nem a pau de escola de samba) , a agremiação buscará atrair o público jovem e descolado, sintonizado com inúmeras referências musicais e sem preconceitos. Eu, que não sou jovem, não sou descolado , não gosto de música - gosto só de samba, que é outra coisa - e tenho um jardim de preconceitos que cultivo todo santo dia, estou fora.
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A Liga Independente das escolas de Samba do Rio (LIESA) anunciou o novo corpo de jurados para o carnaval de 2008. Parece piada. Um dos jurados de alegorias e adereços será Bruno Chateaubriand, o marido de André Ramos, morador do edifício Chopin cuja diversão predileta é jogar ovos nas pessoas do alto de sua janelinha. A Chateaubrianzinha é amiga de todo o pessoal da Acadêmicos do Grande Rio. Sinto um cheiro de ovo podre no ar. Não se surpreendam se esse lixo travestido de escola de samba ganhar o carnaval. É o fim.
Abraços

02/01/2008

IMPRESSÕES CARNAVALESCAS 2

Escrevi ontem que estou impressionado com os enredos que as escolas de samba apresentarão este ano na Sapucaí. Tenho a impressão de que a safra nunca foi tão ruim. A praga tem, evidentemente, uma explicação : é o tal do enredo patrocinado.
Este ano assitiremos exaltações a Macapá, ao Piauí, a Itaboraí, a Itaguaí, a Macaé e o escambau. Gás natural e pólo petroquímico viraram motivos carnavalescos. Periga algum enredo superar o famoso Trinca de Reis, em que a Mangueira, ao homenagear o filibusteiro Chico Recarey, protagonizou o momento mais constrangedor da história do carnaval brasileiro.
Mas alguns enredos deste ano se caracterizam também pela completa alucinação. A Renascer de Jacarepaguá apresentará o seguinte tema: "É chegado a Portugal o tempo de padecer, se te oprime a cruel França sorte melhor hás de ter" . O personagem central do samba é D. João VI, que, na primeira pessoa, conta sobre a invasão napoleônica e a chegada da corte ao Brasil. No refrão (horroroso) D. João VI afirma:
Expandi a cultura
Dei novos ares
Ao comércio proferi a liberdade
Fiz do progresso meu principal ideal (ideal)
Assim surgiu o patrimônio nacional
Cruzes!
A Estácio de Sá mistura no samba Orfeu, Padre Antônio Vieira, São João Evangelista, pomba gira, fogueiras da inquisição, segredos da lua, buzios, tarô e o "infinito universo estelar"; num enredo sobre profecias. Suspeito que a bateria venha fantasiada de Nostradamus.
Preocupa-me o destino da União do Parque Curicica, do grupo de acesso B. O enredo é "O mundo místico das águas em berço esplêndido derrama ao planeta o seu clamor". O samba tem trechos absolutamente surreais. Após citar a Atlântida, Yara, Oxum e Oxalá, a escola vem com essa pérola:
O homem concede com energia
A água do meu dia a dia
Proporcionando consciência ambiental
Mas o pior promete ser o desfile da Acadêmicos da Vila Kosmos. O enredo é, acreditem, Os cavaleiros do Santo Sepulcro ! Segundo o carnavalesco, a escola falará sobre templários medievais que, secretamente, guarneceram a tumba de Jesus Cristo na Abissínia. O refrão do samba diz simplesmente o seguinte:
Santo Sepulcro
Sou guardião
Santo Sepulcro
Te guardo com emoção
Será, quero crer, imperdível assistir a um negócio desses. Já imagino a comissão de frente inteiramente de preto, com um abre-alas representando uma sepultura. Teremos, certamente, uma exaltação ao que há de mais alegre no espírito carnavalesco. Como nasci dia de finados, e estou portanto fortemente ligado ao vibrante enredo, vou ver se cavo uma vaguinha na bateria da escola. Só uma coisa me intriga - de onde o carnavalesco tirou essa história de túmulo de Cristo na Abissínia? O filho do Homem não morreu, foi enterrado e ressuscitou, por acaso, em Jerusalém?
Abraços

01/01/2008

PRIMEIRAS IMPRESSÕES CARNAVALESCAS

Comecei o ano de 2008 em casa, tomando uma cervejinha e ouvindo o quase centenário Cartola. Aliás, não custa lembrar que no ano do centenário de seu maior sambista, a Mangueira prestará na avenida uma homenagem a outro centenário: o do frevo pernambucano. Nada contra o frevo, mas a efeméride da dança das sombrinhas foi comemorada em 2007. Concluo então que nos 100 anos do Cartola a Manga relembrará os 101 anos do frevo.
Em matéria de enredos a coisa este ano está feia. A Beija-Flor homenageará a cidade de Macapá, a Grande Rio defenderá a importância do gás, a Porto da Pedra falará do Japão e a Portela resolveu defender a preservação da natureza, esperando inclusive contar no seu desfile com o folião Al Gore, o político norte-americano que virou musa da luta contra o aquecimento global. O objetivo da Portela é conscientizar o povo da necessidade da batalha contra o aquecimento. Cáspite. Belo motivo carnavalesco - lembrar que morreremos inundados ou torrados e transformar isso em samba. A Portela, como se vê, promete.
O Salgueiro homenageará o Rio de Janeiro; São Clemente, Mocidade e Imperatriz desenvolverão enredos sobre aspectos da presença de D. João VI no Brasil; a Viradouro tem um enredo com o título "É de arrepiar", do carnavalesco Paulo Barros - ninguém entenderá porra nenhuma do desfile mas o Paulo Barros será novamente considerado gênio. A Unidos da Tijuca falará dos colecionadores e suas obsessões.
Nos grupos de acesso A e B a coisa também está esquisita. Pouca coisa tem condições de acabar em samba. A Santa Cruz falará de Itaguaí, a Caprichosos de Pilares transformou o poló petroquímico de Itaboraí em enredo, a Unidos de Lucas apresentará a história do Piauí, a União de Jacarepagua contará a história da princesinha do Atlântico, a cidade de Macaé!
A preservação da natureza está com tudo. O Boi da Ilha do Governador apresentará o enredo "Gaia, a reação da mãe terra - uma história que deve ser contada de outra maneira". O samba é pra animar qualquer folião. Leiam esse trechinho, por favor:
Ouvindo o som dos quatro cavaleiros
Alertando o mundo inteiro
Tudo vai se acabar
Pois afinal são sinais dos tempos
É a revolta das águas, dos ventos
É o juízo final, o sofrimento
Gaia vai daqui nosso lamento.
Os componentes certamente desfilarão aos prantos com um negócio desses.
Palmas para o meu Império Serrano, que virá com a alegria da pequena notável, Carmem Miranda, e para a valente Paraíso do Tuiuti, que teve a vergonha na cara que faltou aos diretores mangueirenses e homenageará o mestre Cartola.
Abraços