CONFISSÕES DE SEGUNDA - O MEU AMIGO ERASMO CARLOS
Fiz umas oito sessões de psicanálise na minha vida, pressionado por uma ex-namorada que me achava emocionalmente perturbado. Gastei uma baba e a coisa não funcionou. Não foi culpa da psicanalista, digo logo.
Imaginem o que deve ser analisar um sujeito com meu currículo. Alfabetizado durante a ditadura militar, minhas maiores referências infantis foram o velotrol; a dupla Dom e Ravel; o fortificante Calcigenol; o Sujismundo; o exu Seu Sete Rei da Lira - que dava consultas em programas de auditório; a novela Saramandaia - onde um sujeito voava, uma mulher pegava fogo, um velho botava formigas pelo nariz, outro colocava o coração pela boca e um lobisomem vivia deprimido; o sequestro do Carlinhos; a loura morta do banheiro; Benito di Paula; Konga, a mulher gorila do parque de diversões; as chegadas do Papai Noel ao Maracanã com 150 mil crianças berrando; as aparições na tv do fantasma do médico alemão Dr. Fritz - realizando incríveis e sanguinárias operações espirituais; Uri Geller, o paranormal que entortava chaves e talheres e consertava relógios com a força do pensamento e, como se não bastasse, as reuniões familiares natalinas para assistir ao especial de natal do rei Roberto Carlos. Noves fora isso, era um ardoroso torcedor do Dick Vigarista nos desenhos da corrida maluca. Não há análise que resolva um quadro desses.
Hoje quero lhes falar especificamente sobre um desses fatos - o programa natalino do rei Roberto, exibido na rede Globo desde os primórdios da televisão no patropi. Para que os amigos entendam o que vou revelar, preciso fazer breve intróito.
Em todos os programas - rigorosamente todos - Roberto Carlos é surpreendido pela participação especial do parceiro Erasmo Carlos. A cena é a seguinte: a orquestra começa a tocar a introdução da música Amigo. Quando o rei inicia a canção, Erasmo entra sorrateiro pelo fundo do palco. Comovido com a inesperada aparição, Roberto chora. Isso vem acontecendo praticamente desde Pedro Álvares Cabral - e ainda assim é uma surpresa para o rei. Pois bem, a minha falecida tia-avó (leiam sobre ela aqui) também era - todos os anos - surpreendida pela entrada do Erasmo e, emocionada, dava chilique, passava mal e ameaçava empacotar. Era ver a cena e cair em prantos:
-Ai, meu Deus, o Erasmo foi. Ai, eu não aguento. Eles estavam brigados, gente. Fizeram as pazes. Eu vou morrer; eu vou morrer. Ano que vem não estou mais aqui com vocês (todas as velhas da família, aliás, costumavam anunciar no natal a própria morte. No ano seguinte a coisa se repetia).
O fato é que resolvi, numa daquelas cismas de garoto, impedir de todas as maneiras que o espetáculo dramático da minha queridíssima tia se repetisse no próximo especial do Roberto. Bolei uma estratégia muito simples; comecei desde agosto a falar pra velha que o Erasmo era presença certa no natal do parceiro. No dia do programa espalhei uns cartazes pela casa com uma frase curta e grossa - o Erasmo vai ! - e na hora em que a coisa ia começar, falei pra tia que o Erasmo já estava no estúdio, preparado para cantar com o rei. Não tinha como falhar.
Falhou.
Aconteceu o seguinte. Na hora em que a orquestra do maestro Eduardo Lajes atacou com a introdução de Amigo - pápara pápara pápara - a velha virou-se para mim e, sinceramente comovida, disse:
- Meu querido, obrigado por querer me deixar feliz contando uma mentirinha boba. Eu sei que o Erasmo e o Roberto estão brigados e não se falam mais. Li na Amiga do mês passado.
Meu avô, que não tinha a menor paciência pro rei nem pros piripaques da cunhada, falou na hora:
- Já deixei um copo de água com açúcar na mesa da cozinha. Quando ela der chilique, é só pegar.
Foi tiro e queda. No que o Roberto começou a cantar o você meu amigo de fé, ainda joguei a última cartada:
- Tia, o Erasmo vai entrar pelo fundo do palco.
- Que é isso, garoto. Hoje ele não vai, não. Eles estão bri...ai, meu Deus. Não é possível. Erasmo! O Erasmo! É o Erasmo, gente.
E a cena - inédita e surpreendente- se repetia pela décima vez.
Tenho até hoje, acreditem, a firme desconfiança de que não gosto de Natal em virtude daqueles melodramas provocados pelo encontro dos parceiros da jovem guarda e dos pré-infartos da minha tia. Nunca superei o troço.
A coisa é tão feia que termino essas mal traçadas fazendo aos senhores uma revelação forte, daquelas que só pretendia relatar depois de morto, numa carta psicografada, através de um médium de mesa branca.
Recentemente tive um pesadelo natalino. Sonhei, vejam só, que estava na gravação do especial do Roberto, na primeira fila do auditório. Quando o rei começou a cantar Amigo, levantei e gritei feito doido que o Erasmo ia aparecer. Ninguém no teatro me escutou. Subitamente adentrou o palco, com a roupa, os medalhões e as pulseiras de pregos do Tremendão, a minha tia-avó. Mortinha da silva, com algodões nas narinas e o escambau. Acordei aos berros, tremendo feito vara verde. Nunca durmo tranquilo no mês de dezembro.
Abraços
Marcadores: confissões

12 Comentários:
Incrível! O rol dos seus temores cresce a olhos vistos. A mulher loura, Carlinhos, o defunto vivo, Poliana a moça e agora o Tremendão...
Como o post da Poliana foi para o gulag, aproveito este para parabeniza-la! Suas predições se concretizaram. Todas.
Mas parecem que foram augurios não de Poliana, mas sim de Sofia, aquela da Condessa.
Ducaralho! Dizem que o primeiro especial natalino do Roberto foi exibido pela TV Eufrates, afiliada da Globo na antiga Mesopotâmia. Simas, essa tua tia lembra a tia-avó do Marquinho, amigo meu do MP. Segundo ele, a velha (já falecida) todos os dias caprichava no banho, se perfumava, botava brinco e batom para ligar a TV e ver o Leo Batista.
Convoco todos os seus leitores, Simão, a baterem o ponto amanhã no BUTECO. Contarei história elucidativa sobre o tema, sobre a família "Carlos", digamos assim.
Ciao!
Muito bom! Peço de volta o post da mulher loura com o Carlinhos.
HANS E LEO, atendendo aos apelos, republiquei o post da mulher loura e do menino Carlinhos.
Abraços.
Deu no GLOBO ON LINE... o Erasmo, esse ano, NÃO VAI!
"O encontro com Caetano Veloso e o repertório de Tom Jobim fez bem a Roberto Carlos. O disco, que chegou às lojas no fim de semana, continua vendendo como água no deserto, assim como os ingressos para a gravação de seu habitual especial de fim de ano na Globo, que já se esgotaram.
A gravação acontece nesta quinta-feira, às 21h, no HSBC Arena (aquele ginásio construído para o Pan, ao lado do RioCentro), onde, no ano passado, RC já havia feito o especial de 2007.
Entre os convidados do show estarão Caetano, é claro, e ainda Rita Lee (boa surpresa, falta saber qual será a música), Zezé DiCamargo & Luciano e Neguinho da Beija-Flor. Ou seja, Roberto atira para todos os lados."
Pelo amor de Deus!!!
Este teu Blog não tá me deixando trabalhar, Professor!!!
SENSACIONAL, SENSACIONAL, SENSACIONAL!!!!!
Abs alvinegros
Pian
PIAN, saudações as mais alvinegras. Abração!
Não estou só no mundo!!!!!
Tá fantástico seu Blog!
Perdi o programa do Roberto este ano. Erasmo apareceu?
Sensacional o seu blog Simas, tenho me divertido muito com ele. Parabéns!
Foi inevitável lembrar desse texto no último sábado.
Quando o Erasmo Carlos entrou no palco, morri de rir sozinha!!!
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