11/11/2008

O FIM DE UMA TRADIÇÃO

O Bar Luiz, mais que centenária instituição da boêmia carioca, faz festa sábado para anunciar o fim de uma parceria com a Brahma , que durou cento e vinte anos , e celebrar a união com o chope da Femsa , o intragável chope Sol. Sobre isso escreveu com propriedade meu mano Eduardo Goldenberg. Cliquem ao lado , na chamada do Buteco do Edu , e leiam o texto. Vou pegar carona nesse bonde e dar meu pitaco.

Sou um sujeito apegado a tradição. Refiro-me , aqui , a idéia de uma tradição que não é estática. Falo dela como o ato de transmitir ou entregar algo para que o receptor tenha condições de colocar mais um elo numa corrente. Essa corrente é a cultura de um povo. Posso recorrer a uma velha metáfora , a da árvore que , por ter as raízes mais profundas , cresce mais vigorosa . Cultura é isso; a capacidade de criar e recriar a partir do legado dos ancestrais. Aprendi assim e é assim que enxergo o mundo.

Vivemos, porém, esses tempos desencantados em que acredita-se na tábula rasa. Rompa com o passado , ignore o que é antigo , olhe sempre pra frente , a vida começa agora , o futuro bate a nossa porta, danem-se os cento e tantos anos que passaram - o negócio são os dez anos que virão por aí. Enchamos as burras.

Os donos do Bar Luiz vão justificar a nova parceria com um argumento irretocável - é um ótimo negócio. A Brahma vai dizer que não cobriu a proposta da Sol porque não interessava comercialmente fazer isso . A lógica, dos dois lados da barafunda , é exclusivamente regida pelo bolso. Aposto que em nenhum momento alguém discutiu essa questão com o seguinte argumento : E os cento e vinte anos de parceria , acabam assim ?

E é dessa forma que os botequins são reformulados por programadores visuais , a rua colonial é asfaltada , o velho sobrado é vendido para a imobiliária , a camisa do time de futebol ganha novo desenho para valorizar a marca do patrocinador , a panificadora vira butique de pães , a pequena livraria é engolida pela mega store , o cinema de rua vira igreja , o barbeiro da esquina fica obsoleto , a quitanda desaparece e o lambe-lambe some da pracinha. Em breve , do jeito que a coisa anda, a pracinha sumirá também.

O perverso de tudo isso é que a nova parceria do Bar Luiz será anunciada com um baile da Orquestra Tabajara. Eis aí a tradição , não mais como legado , mas como a alma do negócio. Rompa-se a tradição com o aval dela mesma. E ninguém desconfiará de nada , a Tabajara precisa do cachê e é assim mesmo que a banda toca. Faz parte .

A Brahma não será afetada - os publicitários estão aí para isso mesmo e mafia da Ambev sabe se virar - O Bar Luiz continuará recebendo dezenas de amestrados frequentadores em busca de um simulacro do Rio antigo e a coluna de um jornalista já anunciou a boa nova. O programa da moda vai ser experimentar o novo chope do velho bar.

Diante dessa notícia , quero que a Brahma, a Sol e o Bar Luiz se danem. Eu fico é pensando no cliente tradicional do centenário bar. Aquele que , no fim de tarde , cumpria , numa mesa de canto, um ritual dos tempos do avô de seu avô. Aquele que bebia a alegria de cada fim de expediente como alguém que , em 1888 , certamente comemorou com um chope gelado o fim da escravatura no Brasil.

Mas isso é cultura , não enche o caixa do bar ou os cofres das cervejarias. Em breve ninguém falará mais do caso , plantarão duas ou três notinhas no jornal elogiando a nova parceria , e é como se a parceria antiga nunca tivesse existido. Que o velho frequentador bote a viola no saco, se acostume com o chope da nova marca ou procure um outro canto pra cumprir os rituais cotidianos dos homens comuns.

Eu esperarei por ele, com uma cerveja gelada , um samba no peito e ao lado dos meus camaradas , em algum vagabundo botequim de esquina - para celebrar nossos avós , chorar um pouco e recriar a vida.

Abraços

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16 Comentários:

Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Golaço, Simão! Ô, troço bonito...

Quinta-feira, querido, depois de amanhã, cumpramos esse ritual na semi-centenária QUITANDA ABRONHENSE ao lado do centenário Felipinho Cereal.

Beijo.

1:22 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Mano velho, depois de amanhã e sempre! Beijo

3:04 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Porra! O Bar Luiz não, porra! O Bar Luiz não!

7:19 AM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

DIEGÃO , esqueça o Bar Luiz . O negócio de todo mundo nessa história é grana. Tomara que fique entregue as moscas. Soube, inclusive, que o caminhão do Faustão estará na porta do bar nesse velório de sábado. É mole ? Abração.

7:26 AM  
Anonymous Alexandre Gheventer disse...

Mas o chope da Sol é tão ruim assim? Mas como você bem sabe, mesmo as tradições mais antigas já foram novidade um dia...
Falando em tradição, eu soube que dia 20 será inaugurado um monumento em homenagem à João Cândido, na Praça XV. Certamente, o nosso almirante negro, que não terá mais como monumento apenas as pedras pisadas do cais, merecerá um blog seu.

10:11 AM  
Blogger Marcelo Moutinho disse...

Clap. Clap. Clap.

10:38 AM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

ALEXANDRE, meu velho, é horrível. Mas o mais triste de tudo isso é a tradição de 120 anos jogada no lixo por ambas as partes. Aguarde o João Candido. Abração.

MOUTINHO, valeu ! Saudações imperianas.

10:50 AM  
Anonymous leo boechat disse...

Corretíssimo, Simas.

1:21 PM  
Blogger Xupisco disse...

Merda.
Sempre que tomo conhecimento que algum amigo viajará ao Rio de Janeiro recomendo/encomendo tomar um chopp no Bar Luiz. E faço o mesmo assim que coloco os pés na terra de São Sebastião.

E agora ?

7:50 AM  
Blogger anauel disse...

Nem mais! Faço minhas as palavras de Xupisco.

Eu nunca chego verdadeiramente ao Rio sem uma refeição no Bar Luiz. Bife Milanesa, cortado em duas "meias-luas", a primeira vai abaixo com um chope branco e a segunda com um chope preto. Delícia!


Mas a pergunta que se impõe é: será assim tão má a cerveja da Femsa? Não desistam assim tão facilmente, amigos cariocas. Eu, mal possa, faço questão de ir aí prová-la. Ver para crer, lá dizia o outro.

Saudações lusas.

4:53 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

XUPISCO e ANAUEL , acoisa está feia. O chope da Femsa é, simplesmente, um horror!
Abraços...

9:53 PM  
Anonymous Luciana Rabello disse...

Tomei conhecimento deste blog através de uma amiga que, também revoltada com essa triste noticia, tratou de espalha-la aos amigos que cultivam as tradições cariocas. Fiquei igualmente revoltada e peço licença pra deixar aqui meu comentário em solidariedade.
Mas, como tudo na vida tem sempre um lado positivo, comemorei ler o excelente texto do Luis - a quem não conheço, mas já se tornou meu amigo. Assino embaixo de cada palavra ali escrita. Trouxe-me um conforto enorme saber que existem sim cariocas como eu!
Quanto ao sepultamento do Bar Luiz após a infeliz parceria, pareceu-me semelhante a saber que Jorge Amado não tem uma casa na Bahia que possa abrigar seu acervo. Leio hoje no jornal que a familia vai leiloar obras de Picasso, Portinari, Di Cavalcanti, etc., porque não tem recursos para sua manutenção. O governo da Bahia? Nem aí!
Mas, continuaremos aqui, ensinando a garotada a tocar Choro, fazendo nossos discos de Choro e tocando o barco pesado de manter vivas as melhores tradições do Rio, tendo como combustivel pra essa luta insana a certeza que não existe cultura mais bonita e rica que a nossa.
O pior: depois de mais de 6 anos de batalha, vamos iniciar a reforma de um sobrado que será a Casa do Choro! O local? Em frente ao Bar Luiz! Já me via tomando aquele chopp maravilhoso nos fins de tarde, comendo aquela costeleta, como uma mulher comum do Rio de Janeiro...
Grande abraço,
Luciana Rabello

6:17 AM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

LUCIANA , é um prazer enorme ter você como leitora do blog. Sou um admirador profundo do trabalho que você, Maurício Carrilho, Pedrinho Amorim e outros companheiros seus fazem pelo choro e pela alma carioca. Essa da Casa do Choro é uma bela notícia; mas o Bar Luiz com chope Sol é dose...Mas vamos resistindo!
Abraço forte!

1:37 PM  
Blogger Stupid disse...

Parabéns pelo texto e vamos torcer para que algum lugar, alguém veja o que está acontecendo com o nosso Rio e resolva nos ajudar.

Estão acabando com as tradições e com isso, acabando conosco pouco a pouco.

6:54 PM  
Blogger Fábio Carvalho disse...

Simas, lindo texto, triste noticia.
Eu que adoro um chopp no final do dia, ja havi ficado muito triste quando o Planeta do chopp, em Vila Isabel virou a casaca trocando a Brahma pelo Sol, Logo em seguida um outro "bar" na mesma calçada, trocou pelo pelo da Primus, e ai fico eu orfão de um otimo chopp perto de casa.
Digo isso não pela tradição, pois são lugares "novos", mas preferem ver a grana no caixa e seus frequentadores sumindo aos poucos, pois muitos ja estão nos botecos proximos bebendo uma bela Brahma de garrafa.
Deixo aqui meus sentimentos a todos.
Forte abraço

12:00 PM  
Blogger ACORDABAMBA disse...

Belo texto! O meu repúdio aos dois lados(Bar Luiz e Ambev) que sem considerar os 120 anos de parceria, aprontam essa peça nos frequentadores do tradicional bar. Eu particularmente sempre me sentia tentado, ao passar pela rua da Carioca, a tomar uns chopes e degustar a deliciosa salada de batatas servida por lá....agora com essa de chopp Sol...nem com reza forte!!!

1:23 PM  

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