O GURUFIM DO POETA
Há que se beber o poeta morto. Foi partindo desse princípio que eu e Pratinha tomamos a decisão de comparecer ao velório de Luiz Carlos da Vila. A quadra da Unidos de Vila Isabel ainda estava vazia quando chegamos. O corpo do homem tava lá, com as devidas homenagens e bandeiras (Vila, Cacique, Botafogo, Império Serrano e outras menos votadas). Fizemos as reverências habituais e fomos tomar umas geladas num boteco perto da quadra.
Aos poucos o boteco, uma mistura de pé sujo com adega que vende cerveja geladíssima e os vinhos mais vagabundos do planeta, começou a ficar cheio pacas. Logo, logo eu e Prata encontramos o Álvaro Costa e Silva, o Marechal, fã incondicional do poeta. Relembramos, entre goles e bolinhos de bacalhau, a noite em que Marechal e eu tomamos um porre ao lado do Luiz Carlos no Democráticos, na Lapa. A história é ótima e um dia prometo contar. Basta por enquanto dizer que quase paramos na delegacia, já que meu amigo não admitiu que cobrassem a conta do grande Luiz Carlos da Vila .
Voltamos à quadra, já meio tocados, e o gurufim tinha começado. O samba comia solto; todos cantavam Solano, poeta negro , obra-prima que Luiz Carlos fez com Nei Lopes e Zé Luiz para o Quilombo do mestre Candeia. Martinho, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Cláudio Jorge, Dorina, Nelson Sargento, Arlindo Cruz e mais uma cacetada de gente prestava reverência ao sambista maior. E tome cana.
A partir de uma certo momento não lembro direito de picas. As cervejas foram descendo, os bares da Vila se entupiram de gente do samba e os taxistas do ponto da quadra colocavam as músicas do mestre em seus rádios. Cheguei perto corpo do poeta e agradeci. Por tudo e por um detalhe especial. Cantei baixinho Princípio do Infinito. Ele, o poeta, sabe a razão; ela, a mulher amada, também.
E de mais não lembro não, que gurufim dos bons é desse jeito.
Abraços.

6 Comentários:
Luiz Antonio, meu mano: você vê, nos mínimos detalhes, quando o sujeito é gênio, né, não? Quantos, querido, quantos prometeram à mulher amada subir a pé o pico do Everest, nadar o oceano sem um grito e de joelhos atravessar o agreste?! Quantos, mano?
Não quero ser mais um pentelho a te cobrar isso, mas conta logo a história do Democráticos. À sua moda, evidentemente.
Beijo.
Meu irmão, contarei a história no próximo texto. Aguarde. Beijo
Também quero ouvir (ler) essa história, Simas.
Quem pintou um azul do céu se admirar? Quem adoçou o mar e das pedras, leite fez brotar? Quem, de um vulgar, fez um rei e do nada um império? Foi o poeta que viu que amar é estar além da simples razão...
Foi o poeta! O poeta!
Fico, também, no aguardo do próximo texto.
Abraços!
Putz! Perdi esse grande momento, minha homenagem foi solitária.
Abraço.
Eu estava esse dia no Democráticos também... nunca me esquecerei.
Era um show do Moyses Marques convidando o Da Vila.
A unica coisa que eu me lembro (além de ter me ajoelhado no meio do salão do Democraticos enquanto ele cantava), foi de pegar a careca do Simas e do Luiz, grudar uma na outra e dar um beijo em cada uma.
O resto deixo para o Simão contar...
PS: se lembra que o Marecha colocou minha reverencia até na coluna do JB dias depois??
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