22/10/2008

O GURUFIM DO POETA

Há que se beber o poeta morto. Foi partindo desse princípio que eu e Pratinha tomamos a decisão de comparecer ao velório de Luiz Carlos da Vila. A quadra da Unidos de Vila Isabel ainda estava vazia quando chegamos. O corpo do homem tava lá, com as devidas homenagens e bandeiras (Vila, Cacique, Botafogo, Império Serrano e outras menos votadas). Fizemos as reverências habituais e fomos tomar umas geladas num boteco perto da quadra.
Aos poucos o boteco, uma mistura de pé sujo com adega que vende cerveja geladíssima e os vinhos mais vagabundos do planeta, começou a ficar cheio pacas. Logo, logo eu e Prata encontramos o Álvaro Costa e Silva, o Marechal, fã incondicional do poeta. Relembramos, entre goles e bolinhos de bacalhau, a noite em que Marechal e eu tomamos um porre ao lado do Luiz Carlos no Democráticos, na Lapa. A história é ótima e um dia prometo contar. Basta por enquanto dizer que quase paramos na delegacia, já que meu amigo não admitiu que cobrassem a conta do grande Luiz Carlos da Vila .
Voltamos à quadra, já meio tocados, e o gurufim tinha começado. O samba comia solto; todos cantavam Solano, poeta negro , obra-prima que Luiz Carlos fez com Nei Lopes e Zé Luiz para o Quilombo do mestre Candeia. Martinho, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Cláudio Jorge, Dorina, Nelson Sargento, Arlindo Cruz e mais uma cacetada de gente prestava reverência ao sambista maior. E tome cana.
A partir de uma certo momento não lembro direito de picas. As cervejas foram descendo, os bares da Vila se entupiram de gente do samba e os taxistas do ponto da quadra colocavam as músicas do mestre em seus rádios. Cheguei perto corpo do poeta e agradeci. Por tudo e por um detalhe especial. Cantei baixinho Princípio do Infinito. Ele, o poeta, sabe a razão; ela, a mulher amada, também.
E de mais não lembro não, que gurufim dos bons é desse jeito.
Abraços.

6 Comentários:

Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Luiz Antonio, meu mano: você vê, nos mínimos detalhes, quando o sujeito é gênio, né, não? Quantos, querido, quantos prometeram à mulher amada subir a pé o pico do Everest, nadar o oceano sem um grito e de joelhos atravessar o agreste?! Quantos, mano?

Não quero ser mais um pentelho a te cobrar isso, mas conta logo a história do Democráticos. À sua moda, evidentemente.

Beijo.

3:13 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Meu irmão, contarei a história no próximo texto. Aguarde. Beijo

3:23 PM  
Blogger Marcelo Moutinho disse...

Também quero ouvir (ler) essa história, Simas.

4:06 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Quem pintou um azul do céu se admirar? Quem adoçou o mar e das pedras, leite fez brotar? Quem, de um vulgar, fez um rei e do nada um império? Foi o poeta que viu que amar é estar além da simples razão...

Foi o poeta! O poeta!

Fico, também, no aguardo do próximo texto.

Abraços!

4:39 PM  
Blogger Juliano disse...

Putz! Perdi esse grande momento, minha homenagem foi solitária.
Abraço.

5:07 PM  
Anonymous pratinha disse...

Eu estava esse dia no Democráticos também... nunca me esquecerei.

Era um show do Moyses Marques convidando o Da Vila.

A unica coisa que eu me lembro (além de ter me ajoelhado no meio do salão do Democraticos enquanto ele cantava), foi de pegar a careca do Simas e do Luiz, grudar uma na outra e dar um beijo em cada uma.

O resto deixo para o Simão contar...

PS: se lembra que o Marecha colocou minha reverencia até na coluna do JB dias depois??

12:37 AM  

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