30 de set de 2008

BOLOS, SORVETES E DOCES DO BRASIL

Dos livros de Gilberto Freyre não há dúvidas sobre a importância seminal de Casa Grande & Senzala. Falar isso é chover no molhado. Acho, porém, que uma pequena jóia que Freire escreveu e podia ser mais divulgada é o Açúcar , uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. O livro teve apenas três edições, em 1939, 1968 e 1997.
Freyre escreveu esse Açúcar no final da década de 1930, com material que começou a recolher para produzir Casa Grande... Talvez tenha feito aí a primeira obra que encara a culinária brasileira como uma síntese de paladares e culturas. Africanos, ameríndios, portugueses, mouros, judeus e árabes teriam moldado a nossa culinária ; vigorosamente ligada ao açúcar e derivados. É ela, ao lado do futebol, da arquitetura, da música e dos gestos um dos elementos que confere a singularidade da cultura brasileira.
Gosto, sobretudo, dos anexos à obra. Freyre publicou fabulosas receitas de doces, bolos e sorvetes pesquisadas em cadernos dos tempos da Colônia , do Império e da Velha República ; heranças de famílias. Eram tempos sem a preocupação histérica com a magreza, o controle do colesterol e quejandos. Comia-se sem culpa. Tem até receitas de doces e bolos recolhidas em Goa - a Índia portuguesa. Vejam a listinha de alguns bolos e doces cujas receitas Freyre transcreveu ( os nomes são também deliciosos) :
- bolo cabano ; bolo Cavalcanti ; bolo Dr. Constâncio ; bolo Fonseca Ramos ; bolo toalha felpuda ; beijos de dondon ; bolo dos namorados ; bolo manuê ; bolo de amor ; bolo Luís Filipe ; bolo espirradeira ; bolo de ouro e prata ; sequilhos de manteiga ; tigelinhas douradas ; bolo de milho seco ; broa de midubi ; bolinhos de milho pau-d´alho ; bolo de milho D. Sinhá ; bolo do coco Sinhá Dona ; bolinhos de goma à moda do Dr. Gerôncio ; bolo de rolo pernambucano ; suspiros de Noruega ; colchão de noiva ; argolinhas de amor ; ciúmes ; bolinhos de Iaiá ; bolo Senhora Condessa ; sonhos de cará ; pudim de cará ; pudim de milho verde ; manuê de cará ; sonhos de freira ; arrufos de Sinhá ; mimos ; pudins de amor ; beijos de D. Aninha ; e muito mais.
Querem exemplos ? Vejam que receitas interessantes, que nomes magníficos, que relação quase sensual com o doce. Atentem para o preparo artesanal, típico de tempos em havia tempo para se fazer um acepipe com carinho:
Beijos de cabocla à moda do Engenho Noruega
De 1 coco bem ralado tira-se bem o leite. 200 g de açúcar em ponto de fio e depois de fria a calda, 50 g de manteiga sem sal , 30 g de farinha de trigo , 1 ovo com clara e 2 gemas batidas levemente. Junta-se a isto o leite de coco, mistura-se tudo muito bem misturado e leva-se a assar em forminhas, em forno regular. Depois de tudo frio, despeja-se sobre os pratos, tendo o cuidado de não pôr um por cima do outro.
Tigelinhas Douradas
10 gemas, 1 coco ralado , açúcar a gosto , duas colheres bem cheias ( 100 g bem pesadas ) de manteiga. Forminhas untadas com manteiga. Forno quente. Tira-se com muito cuidado da fôrma porque é bolo muito dengoso.
Bolo Toalha Felpuda
9 ovos ( 5 com gemas ) , 250 g de açúcar , 250 g de farinha de trigo , 500 g de manteiga. Bate-se tudo muito bem batido e leva-se ao forno numa folha-de-flandes untada com manteiga. Forno regular. Depois de assado, cobre-se com suspiro e polvilha-se com coco ralado. Vai ao sol a enxugar.
Volto ao tema em breve.
Abraços

2 Comentários:

Blogger Bruno Ribeiro disse...

Simão, comprei este livro no começo do ano e também gosto muito dele! Vale citar, como curiosidade, a preferência de brasileiros ilustres por doces (pág. 203). Citarei alguns:

"Machado de Assis, doce de coco; Dom Pedro II, doce de figo; Rui Barbosa, doce de batata; Ataulfo Alves, goiabada com queijo; Juscelino Kubitschek, baba-de-moça; Carlos Drummond de Andrade, leite-creme (leite, ovos, açúcar e mistério); Chico Buarque de Hollanda, doce de abóbora cremoso; Rachel de Queiroz, cocada; Roberto Burle Marx, doce de jenipapo; Guimarães Rosa, doce de laranja-da-terra (caseiro); Graciliano Ramos, doce de laranja cristalizado; João Goulart, doce de coco amarelinho; Ariano Suassuna, massas de goiaba; Roberto Carlos, doce de abóbora; Rubem Braga, doce de coco; Delfim Neto, papo-de-anjo"

O último parágrafo deste capítulo é delicioso:

"Esta lista de preferências por doces, da parte de brasileiros ilustres, conseguiu levantá-la o autor com grande dificuldade, pois há, ao que parece, uma espécie de complexo de pecado - ou de pecadilho - que perturba a consciência de certos apreciadores de doces, fazendo com que hesitem em confessar suas predileções. Vê-se, pela lista incompletíssima mas, mesmo assim, sugestiva, que aqui se apresenta, ganhar o doce de coco o primado como doce preferido por brasileiros ilustres".

Beijo!

PS: sei que não sou ilustre, mas o meu doce preferido é o clássico Romeu e Julieta", o queijo com goiabada.

8:33 PM  
Anonymous Anônimo disse...

"beijos de Dondon"??? Porra, então ele jogava no Andarí bem antes do que eu imaginava

10:31 PM  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Início