CONTADAS POR LUIZ ANTONIO SIMAS

25/08/2008

O REFRÃO DO IMPÉRIO SERRANO E O CULTO A IEMANJÁ

O Império Serrano reeditará na Marquês de Sapucaí o já histórico samba Lenda das sereias . O refrão, belíssimo , merece ser esclarecido. Vamos ver:

Ogunté, Marabô,
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê
Janaína, Iemanjá

Ogunté - É uma qualidade importantíssima de Iemanjá entre os nagôs. Em alguns mitos é a mãe de Ogum; em outros é a mulher de Ogum Alabedé. É uma Iemanjá guerreira, jovem, que quando dança porta uma espada. Cuidado com ela; está muito longe de ser a sereia maternal que o sincretismo consagrou. Ogunté ensinou a Ogum como se guerreia e se apresenta sempre ao lado dele. Imaginem. As filhas de Ogunté que eu conheço são brabíssimas. É o orixá de cabeça do meu Ojubonan, Babalaô Ifayode.

Marabô - Aqui temos um probleminha bobo. Iemanjá Marabô não existe. Marabô é uma corruptela de Barabô, um dos nomes de Exu. A denominação vem de um famoso cântico muito executado no Brasil e em Cuba : Ibarabô, agô mojubá, Elegbara... ( algo como "Eu homenageio e peço a proteção de Elegbara" ) . O que significa, então, o Marabô no samba ?

É provável que a citação do samba a Marabô venha de um dos cânticos mais famosos do candomblé dedicado a mãe das águas. O cântico diz : Awá ààbò à yó, Yemanja ... Em geral o povo de santo canta esse início ( awá ààbò ) dizendo "Marabô a yó..." , o que não tem sentido preciso em português. A frase yorubá significa algo como "estamos protegidos, Yemanjá." Quebrei a cabeça para saber de onde saiu esse Marabô. Meu Oluô Ifalashe é que sugeriu que a citação provavelmente vem do início desse canto. Justifico, portanto, o Marabô no samba dizendo que é uma adaptação para a sonoridade do português da saudação Iemanjá nos protege.

Kayala - É um dos nomes de Quissimbe, o inquice ( quase a mesma coisa que o Orixá para um nagô ) banto responsável pelos mistérios das águas. É corruptela de Nkaia Nsala, que significa literalmente "avó da vida". É uma entidade velha e maternal, cujo culto desenvolveu-se na região do Congo-Angola. Seu culto no Brasil permanece, em larga medida, graças aos conhecimentos da venerável casa de Angola Kupapa Unsaba e pelos descendentes de Tatetu Apumandezo, patriarca do culto muxicongo no Brasil. Mojubá.

Sobá - É uma das formas de se chamar no Brasil uma qualidade de Iemanjá denominada "Assabá". Orixá velho e poderoso, aparece nos mitos de Ifá mancando e fiando algodão. Sua dança é venerável e lenta.

Oloxum - É a denominação dada aos sacerdotes de Oxum, a senhora dos rios e cachoeiras. É também um dos nomes de Oxum no Xambá nordestino - culto em que minha avó foi iniciada. Achei interessante a citação a Oxum - um outro orixá das águas ligado ao instinto maternal - no samba. Abre espaço para que Oxum seja visualmente mostrada no desfile.

Inaê - Um dos nomes da rainha do mar. Segundo Yeda Pessoa de Castro - grande conhecedora das línguas africanas no Brasil - o termo tem origem fon ( povo jeje, do antigo Daomé ) e deve vir de inon (mãe) e nawé (um título respeitoso).

Janaína - Uma das formas sincréticas de se referir as Iemanjá no Brasil. É muito citada nos pontos de umbanda.

Iemanjá - A poderosa orixá que, na África, comanda os rios quando estes estão chegando ao mar. Para os nagôs, o orixá ligado ao axé dos oceânos é Olokum. Como o culto a essa poderosa entidade - Olokum - quase sumiu no Brasil - e está, ainda bem, voltando graças a Ifá e ao contato com babalaôs cubanos (em Cuba o culto se manteve forte) - Iemanjá passou a ser considerada por aqui a senhora das águas marítimas. No país Yorubá as oferendas a Iemanjá são feitas no encontro das águas do rio com o mar. Prevejo uma irresistível pororoca imperiana.

Queridos, só com o refrão dá pra Serrinha fazer um desfile inteiro e diversificado.

Èéru Iya ! ( Mãe das espumas das águas - saudação que faz referência às espumas formadas pelo encontro das águas do rio com as do mar ).

8 comentários:

Diego Moreira disse...

Meus respeitos a Odo Yá!
Iboru!

Marcelo Moutinho disse...

Maravilha, Simas! Já coloquei indicação lá no blog.

Luiz Antonio Simas disse...

Diego, Odo yá! Iboru Boya.

Moutinho, valeu. Vi teu blog. A foto está maravilhosa. Que Iemanjá bonita! Abraço.

alberto disse...

Simão, maravilha de texto!

Só um comentário:

Janaína tem uma sonoridade bem indígena, mais especificamente tupi. Em tupi antigo, temos mbaeapina = homem marinho.
Creio que Janaína possa significar "senhora marinha", com o jara ou iara clássicos , que significam senhor ou senhora, com assimilação nasal (comum no tupi) que fez o r passar a n.
O interessante é que esse ente mítico não existia entre os tupi. Portanto, revela já uma cultura brasileira em processo de miscigenação: falantes de tupi ou do nheengatu criaram um termo para designar um conceito mítico africano. Do cacete.
abração
mussa

Luiz Antonio Simas disse...

Grande Beto, é a prova contundente da presença de elementos ameríndios na Umbanda e nos candomblés de caboclo. O Brasil, definitivamente, não é para principiantes. Maravilha de informação.
abração

Bruno Reis disse...

Salve Janaína!
Eis que é o nome da minha irmã...
Ao ser informado do possível óbito fetal durante o parto da dita, meu pai ainda jovem e incrédulo, mas neto de mãe de santo[hahaha]Ofereceu uma promessa. A vida salva seria denominada Janaína.
Assim foi sem derrames, Janaína nasceu sã e é hoje a continuação do legado ancestral-familiar..

Jussara disse...

Esse samba, foi feito no ano que eu nasci e eu só vim conhecê-lo agora!É acoisa mais linda!!!Sou filha de Oxum,iniciando na Umbanda e orgulhosa deste samba,desta homenagem...Coisa mais MARAVILHOSAAAA!!!!

Anônimo disse...

bem legal esse esclarecimento...
mas será qe MARABÔ não seria uma adaptação de uma qualidade de iemanja chamada na realidade de ARABÔ ...
?

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