O Império Serrano reeditará na Marquês de Sapucaí o já histórico samba Lenda das sereias . O refrão, belíssimo , merece ser esclarecido. Vamos ver:
Ogunté, Marabô,
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê
Janaína, Iemanjá
Ogunté - É uma qualidade importantíssima de Iemanjá entre os nagôs. Em alguns mitos é a mãe de Ogum; em outros é a mulher de Ogum Alabedé. É uma Iemanjá guerreira, jovem, que quando dança porta uma espada. Cuidado com ela; está muito longe de ser a sereia maternal que o sincretismo consagrou. Ogunté ensinou a Ogum como se guerreia e se apresenta sempre ao lado dele. Imaginem. As filhas de Ogunté que eu conheço são brabíssimas. É o orixá de cabeça do meu Ojubonan, Babalaô Ifayode.
Marabô - Aqui temos um probleminha bobo. Iemanjá Marabô não existe. Marabô é uma corruptela de Barabô, um dos nomes de Exu. A denominação vem de um famoso cântico muito executado no Brasil e em Cuba : Ibarabô, agô mojubá, Elegbara... ( algo como "Eu homenageio e peço a proteção de Elegbara" ) . O que significa, então, o Marabô no samba ?
É provável que a citação do samba a Marabô venha de um dos cânticos mais famosos do candomblé dedicado a mãe das águas. O cântico diz : Awá ààbò à yó, Yemanja ... Em geral o povo de santo canta esse início ( awá ààbò ) dizendo "Marabô a yó..." , o que não tem sentido preciso em português. A frase yorubá significa algo como "estamos protegidos, Yemanjá." Quebrei a cabeça para saber de onde saiu esse Marabô. Meu Oluô Ifalashe é que sugeriu que a citação provavelmente vem do início desse canto. Justifico, portanto, o Marabô no samba dizendo que é uma adaptação para a sonoridade do português da saudação Iemanjá nos protege.
Kayala - É um dos nomes de Quissimbe, o inquice ( quase a mesma coisa que o Orixá para um nagô ) banto responsável pelos mistérios das águas. É corruptela de Nkaia Nsala, que significa literalmente "avó da vida". É uma entidade velha e maternal, cujo culto desenvolveu-se na região do Congo-Angola. Seu culto no Brasil permanece, em larga medida, graças aos conhecimentos da venerável casa de Angola Kupapa Unsaba e pelos descendentes de Tatetu Apumandezo, patriarca do culto muxicongo no Brasil. Mojubá.
Sobá - É uma das formas de se chamar no Brasil uma qualidade de Iemanjá denominada "Assabá". Orixá velho e poderoso, aparece nos mitos de Ifá mancando e fiando algodão. Sua dança é venerável e lenta.
Oloxum - É a denominação dada aos sacerdotes de Oxum, a senhora dos rios e cachoeiras. É também um dos nomes de Oxum no Xambá nordestino - culto em que minha avó foi iniciada. Achei interessante a citação a Oxum - um outro orixá das águas ligado ao instinto maternal - no samba. Abre espaço para que Oxum seja visualmente mostrada no desfile.
Inaê - Um dos nomes da rainha do mar. Segundo Yeda Pessoa de Castro - grande conhecedora das línguas africanas no Brasil - o termo tem origem fon ( povo jeje, do antigo Daomé ) e deve vir de inon (mãe) e nawé (um título respeitoso).
Janaína - Uma das formas sincréticas de se referir as Iemanjá no Brasil. É muito citada nos pontos de umbanda.
Iemanjá - A poderosa orixá que, na África, comanda os rios quando estes estão chegando ao mar. Para os nagôs, o orixá ligado ao axé dos oceânos é Olokum. Como o culto a essa poderosa entidade - Olokum - quase sumiu no Brasil - e está, ainda bem, voltando graças a Ifá e ao contato com babalaôs cubanos (em Cuba o culto se manteve forte) - Iemanjá passou a ser considerada por aqui a senhora das águas marítimas. No país Yorubá as oferendas a Iemanjá são feitas no encontro das águas do rio com o mar. Prevejo uma irresistível pororoca imperiana.
Queridos, só com o refrão dá pra Serrinha fazer um desfile inteiro e diversificado.
Èéru Iya ! ( Mãe das espumas das águas - saudação que faz referência às espumas formadas pelo encontro das águas do rio com as do mar ).
8 comentários:
Meus respeitos a Odo Yá!
Iboru!
Maravilha, Simas! Já coloquei indicação lá no blog.
Diego, Odo yá! Iboru Boya.
Moutinho, valeu. Vi teu blog. A foto está maravilhosa. Que Iemanjá bonita! Abraço.
Simão, maravilha de texto!
Só um comentário:
Janaína tem uma sonoridade bem indígena, mais especificamente tupi. Em tupi antigo, temos mbaeapina = homem marinho.
Creio que Janaína possa significar "senhora marinha", com o jara ou iara clássicos , que significam senhor ou senhora, com assimilação nasal (comum no tupi) que fez o r passar a n.
O interessante é que esse ente mítico não existia entre os tupi. Portanto, revela já uma cultura brasileira em processo de miscigenação: falantes de tupi ou do nheengatu criaram um termo para designar um conceito mítico africano. Do cacete.
abração
mussa
Grande Beto, é a prova contundente da presença de elementos ameríndios na Umbanda e nos candomblés de caboclo. O Brasil, definitivamente, não é para principiantes. Maravilha de informação.
abração
Salve Janaína!
Eis que é o nome da minha irmã...
Ao ser informado do possível óbito fetal durante o parto da dita, meu pai ainda jovem e incrédulo, mas neto de mãe de santo[hahaha]Ofereceu uma promessa. A vida salva seria denominada Janaína.
Assim foi sem derrames, Janaína nasceu sã e é hoje a continuação do legado ancestral-familiar..
Esse samba, foi feito no ano que eu nasci e eu só vim conhecê-lo agora!É acoisa mais linda!!!Sou filha de Oxum,iniciando na Umbanda e orgulhosa deste samba,desta homenagem...Coisa mais MARAVILHOSAAAA!!!!
bem legal esse esclarecimento...
mas será qe MARABÔ não seria uma adaptação de uma qualidade de iemanja chamada na realidade de ARABÔ ...
?
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