O WATERLOO TRICOLOR

O Rio de Janeiro só fala hoje sobre o match que decidiu a Libertadores da América e terminou com um Waterloo tricolor e o consequente título da Liga Desportiva Universitária. Instado a dar meus pitacos sobre a peleja, faço algumas observações a respeito :
* Não há mesmo qualquer racionalidade em relação a escolhas clubísticas, eminentemente emocionais. Tinha eu uns dez argumentos para preferir que o Flu fosse o vitorioso. Não obstante, torci pela LDU. Tenho grandes amigos tricolores, mas a questão aí não é racional; futebol é outra coisa. Não sacanearei os cabras - pelo menos por enquanto, é claro - mas há sentimentos que envolvem a bola que vão além da opção pura e simples. Mal começou o jogo e eu já me comportava como um adepto da Liga. Me senti uma espécie de personagem de desenho animado, daqueles que tem um anjo soprando numa orelha e um diabinho cochichando na outra. O anjo me dizia: - mas e seus amigos? E o Rio de Janeiro? E o Brasil ? Torce pelo Flu... O satanás respondia: - você não gosta do Fluminense; nunca gostou... você detesta o Renato Gaúcho, um playboy falastrão; o Botafogo vai ser o único grande carioca sem a Libertadores; o Equador nunca ganhou um mísero título continental; o Chico Buarque é Flu, o Cartola era Flu, mas o presidente Figueiredo era tricolor e o Lulu Santos e aquele seu ex-vizinho escroto do 107 também são. Enfim, alguns sentimentos absolutamente mesquinhos misturados a uma antipatia de infância ( não se explica! não se explica!) pelo tricolor me levaram a hablar español ontem.
* A elitização dos estádios - ingressos caros, o fim da geral, a inexistência de setores populares, etc - é preocupante. Quem pretendesse encontrar mais de três pretos no Maracanã teria que procurar em campo. Sou do tempo em que casa cheia era jogo com 150 mil pessoas. Agora, 80 mil pagantes é coisa de outro mundo. Tenho saudades daquelas imagens do Canal 100 que mostravam os geraldinos - invariavelmente banguelas, descabelados, vestidos com as bermudas mais vagabundas e preparados para correr como loucos na hora do gol. O que vi ontem foram imagens de torcedoras patricinhas tendo crises histéricas, vestidas com camisas oficiais do clube (daquelas que custam 200 pratas ) , nas cadeiras azuis que substituiram a geral. O povão, definitivamente, foi expulso dos estádios. Temo que o processo seja irreversível. Chegamos a um tempo em que o verdadeiro torcedor não tem como ir ao jogo e um babaca absoluto como Lulu Santos aparece no Maraca (no Flu e Boca) e dá uma entrevista dizendo que a torcida do Flu é a melhor porque é a mais cheirosa de todas.
* Somados os dois jogos, a Liga foi melhor. Deu um passeio em Quito, quando poderia meter fácil uns quatro gols de diferença no Flu, e ontem, reconhecendo as limitações de sua horrorosa defesa e do arqueiro frangueiro, jogou pra frente - amarrando o jogo na catimba quando necessário.
* Pareceu-me que o Flu pagou o preço de achar que os obstáculos mais díficeis tinham sido superados nos jogos contra o São Paulo e o Boca. Entrou desatento no jogo em Quito e tomou uma tunda no primeiro tempo que custou a copa.
* Pênalti não é loteria. Naquele momento, como diria um velho lobo do mar, os homens se diferenciaram dos meninos. A cobrança de Tiago Neves - que fez uma senhora partida - foi de um ridículo absoluto. Caiu na catimba do goleiro e deu um peteleco no meio do gol que até minha mãe defenderia. Isso é o futebol, isso é a vida (êta frase feita da porra! Mas verdadeira). O fracasso e o sucesso andam juntinhos, um dando rasteira no outro. Quem diria que o ex-goleiro em atividade Ceballos (não agarraria na minha pelada de domingo ) fosse se consagrar.
* Aos amigos tricolores, minha solidariedade de torcedor curtido em tragédias nas quatro linhas. Falo pra vocês o mesmo que os inquisidores diziam sobre os hereges: amamos o pecador, mas odiamos o pecado; amo vocês, mas não consigo, desde moleque, gostar do Flu. Tomem minha torcida - silenciosa, recolhida, no cantinho da minha casa - pela LDU como uma prova da grandeza do Fluminense, clube de tradições e, por isso mesmo, digno de despertar a antipatia dos rivais. Triste vai ser o dia - que oxalá nunca chegará! - em que eu sentir pelo tricolor a mesma simpatia que sinto pelo São Cristovão e pelo América. O Flu é grande.
Abraços.

24 Comentários:
pois é, a marra do renato não fez bem ao time. e agora quero ver eles "brincando" no brasileiro
Irrefutáveis (e perfeitos), Simas, os teus argumentos, embora eu estivesse, mesmo, torcendo pela vitória do Fluminense na Libertadores, pelo único fato de o meu pai - a quem não vejo há quatro anos (ele mora em Natal) - ser tricolor.
Quanto ao Lulu Santos (e, em geral, ao enfadonho rock brasileiro), não sei se você viu, mas a Globo exibiu, antes da decisão, um vídeo onde o Paulo Ricardo, tão enfadonho quanto, assassinava o hino do time das Laranjeiras, cantando-o sob arranjos (sic) pop rock (sic, sic). Escroto, isso. Uma vergonha, diria o Casoy.
Simão, vim até aqui apenas para corrigir um erro na décima oitava linha de seu belo texto: Você diz que o Botafogo seria o único carioca sem ter a Libertadores, e aí o engano. O América, único carioca Campeão dos Campeões, não tem esta taça também. Mas estamos com o projeto América campeão da América para 2014. Tá chegando a hora!
Abraço.
BEZERRA, fui poupado do Paulo Ricardo. Graças!
FELIPINHO, perfeita a correção. O Mequinha chegará lá!
NAVARRO, quem fala muito dá bom dia a cavalo.
Simas, me senti exatamente como voce durante o jogo. Tinha todos os motivos para torcer pelo Fluminense e comecei a assistir a partida com esta intencao. Mas logo percebi que nao daria, e terminei torcendo descaradamente pela LDU. Contra paixao nao ha discussao.
Abraco.
Pois eu, Simas, "estive" tricolor até o último minuto da prorrogação. No início, torci discretamente. Depois, apaixonadamente, à medida que ouvia os urros das maltas que viam o jogo em dois bares de merda e na pior padaria do mundo, aqui pertinho de casa, em Piratininga. Urros e foguetório comemorando o único gol da Liga no tempo regulamentar e as presepadas do goleiro equatoriano, como se fosse o Flamengo jogando. Até ontem à noite, apesar de ficar puto com certas coisas, eu não era membro daquilo que os rubro-negros chamam de torcida arco-íris. Desde a noite de ontem (que horas acabou o jogo?), além de botafoguense, passei a me considerar antiflamenguista. Não me importaria de ter como time o único do Rio que não ganhou a Libertadores. O que me irritou profundamente foi o prazer de gozar com o pau dos outros. De certa forma, é como uns e outros que, não tendo condições de ganhar alguma coisa, torcem para que ninguém ganhe. Tô fora. E não sou nem um pouco politicamente correto.
Acho que em grande parte o que nós flamenguistas fizemos foi graças a Cabañas e seus reflexos, tao impedosos naquele maio negro.Duvido que em situaçoes normais se vibrasse tanto
OBS:Como o proprio simas falou, nao foi só rubro negro que vibrou com bolaños,guerron e cia.
ZÉ, adorei saber que você esteve tricolor até o último minuto da prorrogação. Eu também tentei torcer para o Flu, mas não consegui. Não gozei com o pau dos outros, não gritei e não zombei de ninguém, só não consegui mesmo torcer pelo tricolor. Essa coisa de gritar por outro time eu também acho de uma babaquice completa. Eu sucumbi, quietinho no meu canto, logo no início do jogo. Pelo seu comentário, percebo que você não aguentou e passou a torcer pela Liga após o derradeiro minuto da prorrogação; ou seja, nas cobranças de pênaltis. Abração!!
BETINHA, é isso mesmo, não tem como evitar. O que eu tentei me encher de argumentos pró Flu não está no gibi. Mas não deu... Grande abraço!
Não sacaneia. Claro que torci pelo Flu na disputa de pênaltis. Mas aquele goleiro presepeiro eu queria no Botafogo, como reserva do reserva, ou seja, do Renan.
Concordo plenamente com o zé sergio, eu que sou tricolor de coração, fui até o Maraca na quarta e "ouvi" ele se calar. Ao chegar em casa soube que em uma festinha julina aqui próximo havia torcedores do flamengo com suas respectivas camisas e bandeiras enroladas ao corpo, parecendo que havia acontecido naquela quarta feira o jogo da vida deles (acho que isso é gozar com o pau dos outros sim)zoação, faz parte do jogo (é normal), agora desrespeito amigo, o buraco é mais embaixo, e gritar(a favor) pra um time que não é seu é a maior babaquice que um torcedor pode fazer. O caso dos ingressos com preços absurdos é um desrespeito ao torcedor, a estinta geral é cortar um pedaço da história do futebol, é triste ver o futebol arte, o futebol paixão ser ludibriado pela ganância dos cartolas.Quanto ao "lulu" manda esse v... pra PQP (me desculpe os termos) e quanto a você Prof. Simas concordo plenamente, o Flu é GRANDE !
Saudações Tricolores
Ótima resenha, Simas! Meus sentimentos na hora do jogo foram similares e olha que eu estava em um boteco em Buenos Aires onde vários torcedores do Boca faziam questão de acompanhar o jogo torcendo empolgados contra o Flu (e acho que contra qualquer time do Brasil), o que me deixou um pouco constrangido de estar contra um escrete brasileiro.
Quanto ao Zé Sergio assumir que é arco-íris, nada mais normal. Claro que acho a maior babaquice comemorar a desgraça alheia só que parece que todos se esqueceram dos botafoguenses (recém-traumatizados pela perda do estadual) e vascainos que URRAVAM de alegria como animais com os gols do America do México e nos mandavam "voltar para a favela".
Prof Simas, pra seu deleite convido a assistir no próximo dia 26 de julho ao início da Segundona do RJ. No mítico estádio de Figueira de Mello, às 15 horas, o meu (ou nosso) São Cristóvão enfrentará o Bonsucesso, no chamado Clássico da Leopoldina.
Isso sim é clássico de verdade !!! Pena que os "cartolas" não pensem assim. Será que os dirigentes atuais do nosso futebol conhecem a história desses clubes ?
ass.: Tande Biar.
Pois eu assumo a minha babaquice, LDU!!!
mussa
Simas,
Entendo as suas razões, e respeito. Pelo menos vc manteve um postura de homem, e não tripudiou da dor alheia.
Concordo com o Zé Sérgio, além disso achei a atitude de muitos flamenguistas um desrespeito do cacete. Mas, cá entre nós: o que podemos esperar deles (salvo raras exceções, é claro)?
abs.
Daniel A.
Leo, eu não torci pelo América do México. Torci pelo Flamengo, acredite (se quiser) ou não. Você me confundiu com o Felipinho, que torce pra todos os Américas. E sou, sim, agora, ANTIFLAMENGO, COM MUIIITO ORGUUUUULHO, COM MUIIITOOO AMOOOOORRRR (foi só que ouvi na decisão da Libertadores, do pessoal que estava vendo tv na pior padaria do universo).
Errata: Senhoras e Senhores, eu quis dizer "eXtinta". Foi o calor da emoção.
Para Renato Gaúcho:
Quem fala demais dá bom dia a Cevallos!!!!
Aqui em São Paulo o Fluminense é o time que a gente menos respeita do Rio...
Po, o Fluminense nunca ganhou nada demais em sua história (tres nacionais - brasileirão, robertão e copa do brasil e só!!!), caiu pra serie C e só subiu no tapetão.
Antes de sonhar com a America, deveriam ter decencia aqui no Brasil.
abrços
Mussa, meu irmão, eu também, eu também, LDU! LDU!
Ao bom Leonardo Teixeira, que não conheço, apenas registro que os jogos da minha vida rubro-negra (não um, mas dois) remontam ao ano de 1981, quando fomos campeões da Libertadores da América e do Mundo, não há motivo para falar em se valer do pau dos outros, muito menos desse joguinho de quarta-feira, que nos valeu como angostura num dry martini, percebe?
A nossa incomensurável alegria ontem (minha e do magistral Mussa pelo menos) deveu-se ao fato de o fluminense ter sido derrotado e nos livrar de aturar a empáfia de vocês por muito tempo (tenho uma faixa de campeão do flu 2008 lá no escritório, enviada a mim por um dos seus pares, na véspera do grande, maiúsculo, jogo de quarta-feira).
Por último, Daniel querido, a quem prezo de verdade, quando o Flamengo perdeu para o América um par seu, tricolor por evidente, me indagou se eu venderia minha passagem para o Japão com desconto (!!) - o mesmo cidadão, ontem, cortou relações comigo por eu ter perguntado se ele devolveria a passagem em troca da tal faixa de campeão de que falei acima - coisas do futebol...
Saravá!
Valeu, grande Fraga! Também sou do tempo em que sacanear era só sacanear. Hoje virou "tripudiar da dor alheia". Confundiram Maracanã com o Copacabana Palace.
abração
mussa
Alberto, futebol sem sacanagem não existe, tem que sacanear mesmo, concordo. Mas até mesmo em relação à sacanagem do futebol, eu acho que deve haver um mínimo de respeito. É uma opinião minha. Por exemplo: aquele vizinho que fica berrando em direção à sua casa, chamando de filho da puta, mandando tomar no cú e coisas do gênero, assim que sai gol do time adversário. É legal?
Felizmente, eu não tenho um espírito de porco desses morando em frente a minha casa, mas conheço gente que tem. Adivinha qual o time do vizinho?
Esse foi só um exemplo - dentre milhares - de sacanagem que eu, particularmente, não gosto. Essa foto do Boneco de Olinda indo ao Mundial achei ótima, ri pra cacete. Assim como outras, como a do Fraga com o meu amigo. Isso sim faz parte. Espero que tenha me entendido.
Fraga, futebol não é para cortar relações. Tenho certeza que em breve vocês estarão tomando todas e rindo dessa situação.
abs.
Daniel A.
Grande fraga, (a quem eu também não conheço) como havia dito é o calor da emoção, fiquei triste com a perda do título e saber que tem gente que está contra você até a alma é revoltante (pelo menos até a poeira abaixar) depois amigo, é bola pra frente, sem a sacanagem, sem a rivalidade, o futebol não existe, ou então não teria a mesma mágica que tem. Quanto esse seu amigo tricolor, lamento por ele ter dito isso a você (mas você pode ter certeza que eu tenho muitos amigos rubro-negros e alvi- negros "vacilões" também) fica chateado com ele não. Ahhh, em relação aos jogos da sua vida, esse dois no ano de 1981, só a título de curiosidade, sou nascido na data de 13/12/1981, essa data te remete a algum fato importante para seu time??? Irônico não acha?Pois é, e eu sou tricolor de coração.
P.S: Quanto a "angostura" do seu dry martine (se pra você esse foi o gosto do jogo), eu te confesso amigo, afoguei as mágoas na cerveja gelada. Grande abraço Fraga.
Axé
Grande Leonardo,
Cáspite! Nasceste no 13/12/81 e és tricolor?
Apareça pela Folha Seca para uma gelada, ou mesmo para nossa pelada dominical, com direito a "terceiro tempo", a partir das 10 da matina, no Bar Urca.
Saravá!
Hahahaha, pois é Fraga, destino mais irônico esse, não acha?
Cara, te agradeço muito pelo convite, estou muito afim de conhecer esse samba quinzenal aí da ouvidor (em frente a livraria Folha Seca) fiquei sabendo pelo Simas que foi meu professor, agora a pelada, eu tô dentro é só marcar e dizer onde fica que eu dou meu jeito.
Forte abraço Fraga !
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