MÁRIO VIANNA

Uma vez perguntaram ao zagueiro Domingos da Guia quem teria sido o homem mais valente que o Divino Mestre conheceu nos gramados. O grande Da Guia nem relutou para responder: - Mário Vianna, o único juiz que me expulsou em onze anos de carreira.
A história de Mário Gonçalves Vianna é impressionante. Foi baleiro, engraxate, fiscal da guarda civil, empacotador de velas, coveiro, polícia especial no Estado Novo, técnico de futebol, árbitro e comentarista de arbitragem . Adquiriu, nos tempos da polícia, um preparo físico de gladiador romano. Convencido por um amigo que o viu apitando uma pelada, fez o curso para árbitro da Liga Metropolitana do Rio de Janeiro - foi o primeiro da turma - e se transformou numa legenda da arbitragem brasileira.
Logo no primeiro jogo que apitou, entre Girão de Niterói e São Cristovão, expulsou Mato Grosso, zagueiro do São Cri Cri e tremendo carniceiro, e ameaçou tirar o valentão de campo na base da porrada. O São Cristovão, diga-se de passagem, era o clube de coração de Mário Vianna. Foi a partir daí que a fama de juiz valente, incorruptível e rigorosíssimo começou a surgir.
Houve um Flamengo e Botafogo, em General Severiano, em que Mário Vianna começou a expulsar jogadores do urubu. Na terceira expulsão, justíssima, a torcida rubro-negra, furiosa, passou a lançar garrafas e pedras em direção ao juiz. Sua senhoria nem discutiu; jogou as garrafas de volta às arquibancadas, pulou o alambrado e se atracou com os torcedores. A rádio patrulha salvou a pele da torcida, invadindo a arquibancada para conter um tresloucado Mário Vianna, que distribuia golpes de artes marciais.
Em outra ocasião, mais precisamente no jogo Itália e Suiça pela copa do mundo de 1954, o jogador italiano Boniperti contestou uma marcação de falta e empurrou sua senhoria. O carcamano não sabia com quem estava brincando. Mário Vianna deu um direto no queixo do bonifrate, que foi levado desmaiado para os vestiários. Na mesma copa, aliás, chamou os dirigentes e árbitros da FIFA de "camarilha de ladrões" , após a derrota do Brasil para a Hungria, e foi expulso dos quadros da entidade.
Quando indagado sobre os jogadores que mais trabalho davam em campo, Mário respondia de bate-pronto: Heleno de Freitas e Zizinho. Em certa ocasião, no campo do Vasco, Heleno provocou Mário Vianna ao entrar em campo com um disco de boleros e oferecer ao árbitro. Foi expulso de imediato.
Eu peguei , moleque, o Mário Vianna comentarista de arbitragem da Rádio Globo. Dotado de um vozeirão de dublador do Charles Bronson, Mário criou bordões inesquecíveis. Se o jogador estivesse impedido, gritava de imediato: Banheeeeeeeira. Mão na bola, e lá vinha o brado : La Manooooo...cadê o eco: La Manoooooooo. Gol irregular, e Mário se esguelava: Ilegal!! Ilegal!! Se o juiz cometesse erros crassos, lá vinha a sentença implacável : - Errrrrrrrooouuu. Soprador de apito!! Soprador de apito!! Laaaadrão, canalha, safado!
Em duas ocasiões, quase perdeu o emprego de comentarista. Na primeira disse, com uma incorreção absoluta, que o juiz Abraham Klein além de judeu era ladrão. Na outra criticou os participantes de uma mesa redonda, que fumavam desbragadamente, berrando que a fumaça dos cigarros mataria todos eles. A mesa redonda era patrocinada pela Souza Cruz.
Não se sabe quantas vezes Mário Vianna saiu no braço com técnicos, jogadores e torcedores. Com 1. 74 de altura e 90 quilos, foi nadando três vezes do Rio a Niterói, correu maratonas, imobilizou assaltantes com golpes de judô, quebrou telhas com a cabeça em um programa de televisão, destruiu duas cabines de rádio com socos e pontapés e o escambau. Espírita kardecista, era dado a premonições assustadoras. Avisou ao comentarista Luiz Mendes, durante a copa de 1970 no México, que o irmão de Mendes tinha aparecido durante a noite para avisar que acabara de morrer. Luiz Mendes telefonou para casa e recebeu a notícia de que o irmão de fato tinha falecido durante a madrugada.
Quando escuto - raramente, que eu não sou doido - os comentaristas de arbitragem dos dias atuais - Arnaldo César Coelho, José Roberto Rato, Oscar Roberto de Godoy, Renato Marsiglia e quejandos - sinto uma saudade danada do velho Mário Vianna; polêmico, inventivo, histérico, escroto, incorreto, incontrolável e, sobretudo, original.
Abraços
Marcadores: futebol

8 Comentários:
E tem mais, muito mais:
- Eeeeerrrrrrrrrrou! Vai sentar no trono de ouriço!!!!! Trono! Trono!
Lembra?!
Grande Mário Vianna, que fazia, junto com Jorge Cury, Waldir Amaral, Kleber Leite (ele mesmo...) e Loureiro Neto, a minha alegria com o radinho no ouvido!
Roubava o Flamengo, mas foi um brasileiro!
que saudade!
abração
mussa
Gilberto Agostino, no artigo Aquela Corrente Prá Frente, publicado na Revista História, em dezembro de 2004, revela que o Governo Militar, por intermédio do Serviço Nacional de Informações (SNI), manteve guarda canina sobre os movimentos de João Saldanha - que também era uma figura e amigo de Mário Vianna. Em um informe, datado de maio de 1975, os dois aparecem como alvos de investigação. Lidas hoje, as observações do SNI arrancam risos de qualquer amante de teorias conspiratórias:
"Durante a realização de jogos no estádio Mário Filho, os comentários agressivos promovidos pelo comentarista de arbitragem da rádio Globo, sr. Mário Vianna, vêm provocando na massa de torcedores reações descontroladas (...) consta que essa provocação subliminar tem como criador e orientador o comentarista esportivo João Saldanha, elemento ligado às esquerdas e defensor da ideologia comunista, o qual Saldanha utiliza-se do locutor Mário Vianna, elemento inculto, incapaz de compreender que está sendo utilizado para outros propósitos, mas que, com sua linguagem rude e grosseira, sem dúvida alcança, através dos rádios de pilhas dos torcedores, a fácil comunicação com o alvo desejado, o público presente"
Tem outras histórias fantásticas do Mário Vianna ("com dois enes") contadas pelo Sandro Moreyra. Eu também o ouvia sempre. Abraços.
EDU, meu mano, Mário Vianna viveu a vida inteira na Urca, mas era uma espécie de tijucano honorário.
MUSSA, não sacaneia. Mário Vianna era incorruptível! Abração.
BRUNO, essa história é completamente absurda. Veja onde chegaram os hômi.
CYRNE, sua lembrança é precisa: com dois enes, sempre. Abraços.
Lembrei de outro grito do velho Vianna, quando um árbitro errava:
- Vai comer carne de pescoço!
Saudade danada desse tempo...
Ô Mussa, isso é virtude! rs
Texto simplesmente colossal!
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