22/05/2008

O ENREDO CERTO NA ESCOLA ERRADA.


A escola de samba Acadêmicos do Grande Rio, pela qual não tenho, é bom ressaltar, nenhuma simpatia, anunciou que apresentará no carnaval de 2009 um enredo sobre a França Antártica. É uma ótima escolha feita pela agremiação errada. Não me parece que a Grande Rio, com seus salamaleques e celebridades, esteja a altura do enredo escolhido. É pena, já que o tema é bom pacas.

A França Antártica foi fundada no dia 10 de novembro de 1555 por Nicolas Durand de Villegaignon. Cerca de 150 franceses entraram na baía de Guanabara e ergueram um baluarte de madeira na ilha de Seregipe, que Villegaignon chamou de Forte Coligny - local onde hoje funciona a Escola Naval, em frente ao aeroporto Santos Dumont. Era idéia dos franceses construir uma vila nas cercanias do atual morro da Glória e estabelecer as bases de um império ultramarino na América.

Apesar de inúmeros problemas - escassez de alimentos, soldos baixos, ausência de mulheres, dificuldades para fazer aterros - os franceses até que conseguiram consolidar as relações com os índios Tupinambá e tranformar o Forte Coligny numa fortaleza de respeito. Nada foi mais decisivo, porém, para mandar o sonho de uma França tropical para as cucuias que os conflitos internos gerados, em grande parte, pelo temperamento autoritário de Villegaignon. O homem não era mole.

A coisa começou a ficar esquisita quando, em fevereiro de 1556, o comandante da França Antártica exigiu que um marinheiro gaulês casasse ou se separasse de uma índia que era sua companheira há mais de sete anos (o marujo chegou aqui antes da fundação da colônia francesa). O marinheiro não se conformou com a ordem e planejou uma conspiração para matar Villegaignon. O plano foi descoberto e cinco conspiradores, que juravam inocência, foram presos e executados a mando do chefe.

Após esse incidente, Villegaignon passou a desconfiar de tudo e de todos. Transformou o projeto colonial francês numa bizarrice autoritária recheada por prisões, espancamentos, deserções, assassinatos e o escambau. Para piorar a situação, o sobrinho do comandante, Bois Le-Comte, chegou ao Rio de Janeiro com cerca de 300 homens. Dentre eles havia 14 pastores calvinistas, escolhidos pelo próprio Calvino para instaurar o protestantismo nessas bandas. A presença dos pastores irritou profundamente os católicos, dividiu de vez os franceses e precipitou a volta de Villegaignon para a Europa. Bois Le-Comte assumiu o comando da empreitada.

Divididos os franceses, a tarefa portuguesa de recuperação do território parecia mais fácil. Em 1560 o governador-geral Mem de Sá adentrou a Guanabara com uma frota lusitana que sitiou a fortaleza da ilha de Seregipe. Apenas 74 franceses continuavam resistindo no Forte Coligny, apoiados por cerca de novecentos guerreiros Tupinambá. Com apoio dos Temiminó, inimigos mortais dos Tupinambá, os portugueses conseguiram, após mais de três semanas sitiando a cidadela, que os franceses se rendessem após um marujo doido nadar clandestinamente até a ilha e explodir o paiol de munições do forte.

Mesmo com a rendição do Forte Coligny a coisa não se definiu logo. Alguns franceses e, sobretudo, os Tupinambá ainda resistiram aos portugueses por sete anos nas praias da Guanabara. O marco desse fuzuê foi a famosa batalha das canoas, quando 2 mil índios, em cerca de 200 canoas, atraíram os portugueses para uma reentrância da baía de Guanabara e começaram a descer o sarrafo nos gajos. A portuguesada se safou quando um tiro de artilharia atingiu um depósito de pólvora no interior de uma canoa e um incêndio monumental apavorou os índios. Alguns portugueses juraram que, no meio da fumaça, apareceu São Sebastião, crivado de flechas, para combater ao lado das forças de Portugal. Taí a primeira razão para a escolha do padroeiro do Rio.

No dia 20 de janeiro de 1567 - olha São Sebastião aí de novo - os portugueses, com o apoio dos guerreiros Temiminó chefiados por Araribóia, atacaram os Tupinambá em Uruçumirim (atual Morro da Glória ) e conseguiram, após um dia inteiro de batalha, a rendição dos rebeldes. Nessa batalha o sobrinho do governador geral, Estácio de Sá (que fundara no sopé do Pão de Açúcar, em 1 de março de 1565, um arraial que transformou-se no núcleo original da cidade do Rio de Janeiro), foi ferido por uma flecha envenenada e foi oló após um mês de agonia.

No final das contas, e só depois desse furdunço dos bons, a Guanabara passou a ser controlada pelos portugueses.

Admitamos que essa zorra toda dá um senhor enredo.

Abraços.


8 Comentários:

Anonymous zé sergio disse...

Bruno Chateaubriand vai ser o destaque Villegaignon e o Fallabella, o Bois Le Conte. Araribóia será um cabeleireiro de Niterói conhecido como Sandrinha. O samba enredo vai ser composto pelo MC Leozinho. Narcisa Tamborideguy vai sair na ala das baianas junto com a Suzana Vieira. Ou seja, será um desfile inesquecível.

10:49 AM  
Blogger Diego Moreira disse...

Só não entendi uma coisa. Em tempos de enredos patrocinados, vendidos e comprados, quem será que vai bancar a farra da Grande Rio com esse enredo. Será a turma do Sarkozy?

Abraços!

11:52 AM  
Blogger alberto disse...

Realmente, Simão, a pequena grande rio não merece um enredo desses.

Dois detalhes: os tupinambá, ou tamoio, também viram uma figura na fumaça: a do grande herói Maíra. Num certo momento, parece que as imagens se fundiram, daí o sincretismo de São Sebastião com um índio, índio esse que virou Oxóssi. Pelo menos, é o que dizem.

Segundo detalhe: no século 16, as guerras eram de índios contra índios. Os europeus entravam como fornecedores de armas, principalmente. Tinham uma participação ocasional. Os tamoio, ou tupinambá, perderam mesmo foi para os temiminó. E, é claro, para a gripe e a varíola trazidas da europa, para as quais não tinham defesas biológicas. Anchieta fala que num único surto de gripe morreram 60 mil índios. Foi isso que nos matou.

abração

2:01 AM  
Blogger amoris librarius disse...

Luiz Antonio, boas!

A França Antártica é o motivo de fundação desta cidade.

"A tentativa de ocupação da Baía da Guanabara em meados do século VXI, provocou a reação militar portuguesa, levando a ocupação da área e resultando na fundação da Cidade do Rio de Janeiro". (Rocha Pombo)

Por isso que está escrito da Guanabara, e não de.
Fiquei amarradão,"Brother". Sou louco por França Antártica. Seu "post" tem um pouquinho de Lèry, Thevet e mais alguém que não consegui identificar. Seria o Guilherme de Andréa Frota? Por favor, cite as fontes deste "post".
Estou morrendo de inveja. Não que você não mereça, mas porque eu gostaria de escrever sobre o assunto. Creio que seja o lado bom da inveja: desperta a ambição nas pessoas, não é mesmo?

Parabéns!

3:23 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

ZÉ, será mesmo inesquecível. Sandrinha de Araribóia nao deixará pedra sobre pedra.

DIEGO, a prefeitura do Rio bancará parte do desfile. É mole?

MUSSA, perfeita a colocação. Essa da aparição de Maíra eu não sabia. Abração.

AMORIS, as fontes são essas que você citou, o Singularidades da França Antártica, do Thevet, e a Viagem à terra do Brasil, do Léry. Há uma obra de referência infelizmente inédita em português, a Histoire du Brésil Français au Seizième Siècle, do Paul Gaffarel. É por aí.

5:41 PM  
Anonymous leo boechat disse...

Ótimo assunto, Kamarat LA.

5:59 PM  
Blogger AAM disse...

Valeu, "Brother"!

Conheço Gaffarel. "O Descobrimento do Brasil" (Capistrano de Abreu) tem muita coisa de Gaffarel. Capistrano se refere a "Brésil Français", mas é o mesmo livro.

Reitero agradecimento.

Sucesso!

11:35 AM  
Anonymous Rafa Sampaio disse...

Sem dúvida um senhor enredo, na escola errada, a G.Rio sempre foi atificial demais para o meu gosto. Só que agora com o carnavalesco certo. Quem viu Portela 2008 sabe do que estou falando.
Cahê Rodrigues é um craque da nova geração. A Grande Rio vem forte, com grana, com A BATERIA nota 11. Com comunidade caxiense andando junto, com garra. O que faltou no ano passado, carnaval (carnavalesco) e enredo. Que 2006 foi Amazonia, 2007 foi Gás Caxiense e 2008 Amazonia com Gás. Agora é um enredo com história interessante para contar.
Acho que a G.Rio vem como uma das favoritas em 2009. Coitada da minha Estação Primeira que herdou um alucinado polonês que caiu da G.Rio.
Saudações Mangueirenses

4:05 PM  

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