UMA TRAGÉDIA GREGA NO MÁRIO FILHO

Nunca me recuperei do baque que sofri na final do campeonato brasileiro de 1985. Aquele torneio foi, no mínimo, estranho. Basta dizer que as semifinais foram disputadas entre Bangu X Brasil de Pelotas e Coritiba X Atlético Mineiro. No fim das contas passaram o Bangu e o Coritiba, que realizaram a final mais inusitada da história dos certames nacionais.
Acho que aquela foi a única vez que vi as torcidas dos quatro grandes clubes da cidade do Rio de Janeiro torcendo unidas, sem brigas ou provocações entre elas. O Maracanã recebeu mais de 90 mil pessoas, que apoiaram o Bangu o tempo inteiro. Eu estava lá, com meu pai e meu irmão, vibrando com o Banguzinho ao som da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. Honrando a fama de que na Zona Oeste estão os melhores baloeiros do mundo, o que subiu de balão no Maraca naquela noite não está no gibi.
O jogo foi um teste para cardiopatas. Coisa séria. O time do Coritiba começava com um bom goleiro, Rafael ( o sujeito parecia uma mistura de Fred Mercuri com o Principe Valente, com uma vastíssima cabeleira de cuia e um bigodão suspeito) . Possuia um meio de campo sólido e pouco criativo e um ataque com um ponta arisco, o baixinho Lela, que lembrava muito um Lumpa-Lumpa da fabulosa fábrica de chocolates. O centroavante, Índio, era um trombador de chute forte. O técnico do Coxa era o falecido Ênio Andrade, especialista em armar sistemas defensivos sólidos.
O Bangu tinha um bom time, com destaque absoluto para o ponta-direita Marinho, que vinha comendo a bola. Gilmar, Pingo, Israel, Lulinha, Mário e Ado eram outros destaques do time carioca. Os homens fortes do Bangu estavam, porém , nos bastidores. Eram os banqueiros do bicho Castor de Andrade e Carlinhos Maracanã. Naquele ano consta que o Dr. Castor assistia a todos os treinos da equipe com um trêsoitão na cintura e dava tiros para o alto quando achava que os jogadores não estavam se empenhando. Essa , digamos, técnica de motivação funcionou magnificamente ao longo do campeonato.
A partida, disputadíssima, terminou empatada em um gol. O tal do Índio fez um gol de falta do meio da rua e o Bangu empatou num bate-rebate concluído com um chute do Lulinha. Para desespero dos corações dos velhos banguenses, lá foi a partida para a prorrogação.
O tempo extra terminou empatado, e até hoje os banguenses reclamam de um gol do Marinho que teria sido mal anulado pelo juiz, Romualdo Arpi Filho ( esse cabra era, de fato, meio suspeito) .
A decisão foi para os pênaltis. Os leitores sabem que não sou Bangu, mas essa disputa de pênaltis de 85 me deixou muito mais nervoso que a final mixuruca da copa de 94. A primeira série terminou empatada, até que o Ado, habilidoso ponta-esquerda alvi-rubro, mandou a cobrança pra fora. O caboclo tentou deslocar o goleiro e bateu mal pácas. Gomes, um limitadíssimo zagueiro do Coritiba, converteu em seguida e o time do Paraná ficou com o título.
Eu não sei até hoje como o Ado sobreviveu ao drama da derrota. Imaginei que o camarada ia se matar; talvez até no próprio estádio, comendo grama até morrer. Alguns amigos achavam que o sujeito seria liquidado pelos capangas do Castor de Andrade.
Durante muito tempo o Ado encarnou para mim a figura do herói trágico, do sujeito que esteve muito próximo da consagração - foi para muitos o melhor ponta-esquerda do campeonato - e acabou encontrando, diante da chance da vitória, o infortúnio. Durante muito tempo, uma ova. Corrijo. O Ado continua sendo essa figura. É um personagem magnífico, digno das maiores tragédias gregas. Se um Eurípedes estivesse no estádio naquela noite, a dramaturgia trágica ganharia um clássico imediato. O Bangu, ouso afirmar, nunca mais terá a chance de ganhar um título de expressão na história do futebol.
O Ado, naquela noite, morreu para o esporte. Suspeito que até hoje aquele pênalti seja o fantasma que assombra seus dias e apavora seu sono. Tenho por ele, e por figuras que viveram dramas semelhantes, um tremendo respeito. Ado é um dos meus personagens prediletos na história do violento esporte bretão (opa!) e esse Bangu e Coritiba certamente me comove mais como fato histórico do que, por exemplo, as guerras napoleônicas.
Eu, pelo menos, espectador do drama, nunca esqueci.
Abraços.
Marcadores: futebol

18 Comentários:
"A torcida reunida é maior que o Fla-Flu!BANGU!BANGU!BANGU..."
realmente foi a chance de mais um carioca ganhar o brasileiro.uma pena msm
não sei se você lembra, mas o endereço é www.culturaouquase.blogspot.com
Lembro-me como se fosse hoje. Assisti à partida com o Seu Nestor, um vizinho banguense já falecido que morava no 302. Quando o coroa começou a chorar ao mesmo tempo que acariciava seu inseparável chaveiro do Bangu, imediatamente começei a xingar o Ado, acho que foi de filho da puta.
Muito triste esse dia, o Ado não será esquecido nunca.
Simas,
E o que dizer da garfada memorável do José Roberto Wrigth neste mesmo ano. O Castor invadiu o campo transtornado e por pouco não aconteceu uma tragédia sem precedentes. Depois destes episódios, o Bangú nunca mais foi o mesmo. Uma pena.
Saudações,
Daniel Ataide
Eu tinha apenas 4 anos em 85, portanto não tinha noção do evento histórico que acontecia.
Conheço alguns botafoguenses que estavam no estádio no dia....mas torcendo para o Coritiba.
Disseram que era porque não queriam o Bangu campeão Brasileiro antes do Botafogo.
Belo texto e bela lembrança a do Ado.
Abraço,
Eduardo.
Simas, o Bangu, que faz falta a este chocho campeonato carioca, sempre vive dramas em suas finais. Lembra aquele 3 a 0 no Flamengo, na historica decisão, salvo engano, de 68, quando o Almir Pernambuquinho botou meio time do Bangu pra correr? Essa, pra mim, ainda é a final mais marcante que já vi num campeonato, com personagens que ainda hoje vivem aquele drama. Certa vez, botei uma nota no meu blog falando do encontro, na também emblemática Matoso, de dois rivais daquela partida. Vou ver se acho e te mando. Abraço.
Eu estava lá! Fui tbm à semi-final, igualmente histórica, contra o Brasil de Pelotas. Grande lembrança, Simas!
Eu também estava lá e me lembro vagamente de uma bola que bateu numa trave, correu sobre a linha do gol e foi bater na outra, sem entrar.
Você lembra, Simão, de quem foi o chute? Foi do Marinho ou do Ado?
abração
Mussa
FELIPINHO , eu fui incapaz de xingar o Ado. Senti uma espécie de pena do camarada. Se o Bangu fosse meu time, acho que eu iria esperar o cabra na saída do vestiário pra fazer alguma merda.
TARTAGLIA , que encontro! E logo na Matoso. Qualquer dia vou escrever sobre o Pernambuquinho.
DANIEL , nem me lembra disso. Zé Roberto Rato, você quer dizer.
EDUARDO, eu sinceramente não conheci ninguém que não estivesse torcendo para o Bangu naquela ocasião. Foi impressionante.
MARCELO, foi um jogão. 4 X 2 Bangu, se a memória não me trai.
MUSSA, Eu lembro que o Marinho chutou uma bola na trave, mas não me recordo se atravessou a linha e bateu na outra. Deve ter sido esse lance. Foi um jogão e o Bangu martelou o Coritiba o tempo todo.
É isso, então, Simão.
Nesse dia, eu fui Bangu, transitoriamente.
Um detalhe: a final que não deve ser mencionada ocorreu em 66, se naõ me falha a memória. Em 68 o campeão foi o Botafogo.
MUSSA, perfeita lembrança. Em 68 encaçapamos o Vasco: 4X0.
Eu, sinceramente, acho que dependendo de como o pênalti foi batido, não há como se execrar o jogador. O Ado, coitado, deve viver com esse fardo até hoje. Como o Simas disse, deve-se ter respeito pelo cara. Imaginem a angústia que habita o interior do sujeito.
Agora, se bater estilo Marcelinho Carioca, e perder...
De qualquer forma, esse texto fez lembrar um belo time. O Marinho (outro para quem a vida também pregou peças) era o ponta-direita do meu time de botão. Na época, eu tinha 10 anos.
abs.,
Daniel Ataide
Simas,
Se o Alberto foi ao jogo torcer pelo Bangu, este foi o motivo da derrota. O Alberto é muito pé-frio nesse assunto de futebol.
Aí está o culpado.
Um abraço
Edgar
Lembro tbm que o Rafael, goleiro do Coritiba, pegou TUDO naquele dia.
Opa! Essa acusação do Edgard ao Mussa é da maior seriedade. Abração, Edgard!
Edgar quer me forçar a vender as cadeiras para ele. Vem me perseguindo desde o acidente contra o Santo André, que inclusive afastou Joãozinho do Maracanã.
Trata-se, portanto, de uma intriga: estive nas finais de 74, 78, 79, 80, 81, 82 83, 87, 90, 92, 2004, 2006 e 2007.
Acusação improcedente!
abração
O Ado morou um bom tempo na Saúde, Zona Portuária do RJ...cheguei a vê-lo jogando pelada aqui na região. O cara era bom de bola! O pior de tudo é que depois desse lamentável episódio o ponta esquerda do Bangú ouviu diversas vezes o trocadilho infame que corria de boca em boca na Saúde: Vi Ado perdendo o penalti!
Gente, eu estava lá, ví e reví o lance depois, e digo, realmente ele estava impedido e bem impedido, a não ser o lance do Ado o Bangu não tem muito o que chorar, pois veio como melhor dos times considerado "B" o Coritiba melhor do times do grupo "A", jogando UMA só partida, no estádio do clube "B" e pasmem os bandeirinhas eram daqui!! Que saudades do Castor.
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Início