CONTADAS POR LUIZ ANTONIO SIMAS

20/02/2008

SEQUESTRARAM A CIDADE

Se perguntarem numa dessas pesquisas de rua qual foi o francês que causou mais problemas ao Brasil, aposto na vitória de Zinedine Zidane. Eu creio, porém, que temos uns candidatos mais problemáticos que o craque, verdugo canarinho nas copas de 1998 e 2006. Penso nos piratas e corsários do período colonial, gente perigosíssima e disposta a tudo em troca de uns bons caraminguás.

Pouca gente sabe, por exemplo, que a cidade do Rio de Janeiro foi sequestrada pelos corsários franceses em 1711. Sim, eu me refiro ao sequestro da cidade inteira. Conto como foi.

Em 1710, sob as ordens do rei Luís XIV, o terrível lobo do mar Jean-François Duclerc desembarcou em Guaratiba e, comandando mil e poucos homens, percorreu a zona rural e atacou a cidade pela retaguarda. A idéia do corsário era promover, no mínimo, uma pilhagem monumental e assumir o controle do porto.

O francês não contava com a resistência da população, liderada por estudantes, pretos forros, vagabundos de escol, crianças, barbeiros, mercadores e voluntários de todos os tipos. Foi um pega pra capar dos infernos. A Guanabara assistiu a violentos combates de rua, com tiroteios, facadas, socos, pernadas, dentadas e o escambau. Após alguns dias, os franceses se renderam. O saldo final apontou mais de 300 mortos e uma cacetada de presos, dentre eles o próprio Duclerc.

O corsário, aliás, teve um final terrível. Foi assassinado no cativeiro por dois sujeitos embuçados, provavelmente a mando do governador Francisco de Castro Morais. Todos os franceses presos entraram na porrada.

Seis meses após a morte de Duclerc, e com a justificativa de vingar o colega de rapina, outro francês atacou o Rio de Janeiro. No dia 20 de setembro de 1711, à frente de uma frota com 18 navios, 740 peças de artilharia e quase seis mil homens, o corsário René Duguay-Trouin tomou a cidade, anunciou o sequestro de toda a população e exigiu um resgate de 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois para não destruir completamente o Rio.

O governador, tremendo borra-botas, simplesmente fugiu, acompanhado pelas principais autoridades municipais. Coube ao povo carioca se virar para resolver a escaramuça. Após uma vaquinha épica, cada um doando o que tinha para completar o butim, o francês recebeu o resgate e se mandou. Parece que a noite anterior à partida foi um negócio sério. A francesada encheu o pote nas tabernas mais suspeitas da Guanabara e teve até pirata que se enrabichou por aqui e resolveu ficar.

O governador, evidentemente, foi demitido pelo governo português e ridicularizado pela cidade inteira - recebeu o gracioso apelido de Chico Vaca e teve que escafeder-se do Rio para não entrar no cacete. A população percebeu que não podia contar mesmo com os governantes - os primeiros que sumiram quando o negócio encrencou - e a vida acabou retomando seu curso.

Um português que vivia no Rio, o almoxarife do porto Domingos Cardoso Fontes, escreveu uma carta aos familiares da terrinha com um relato preciso da zorra toda. A missiva do gajo é, inclusive, uma das fontes mais utilizadas pelos historiadores para saber o que se passou naqueles dias. Uma frase do alfacinha merece destaque:

- Essa é uma cidade tão formosa quanto perigosa. Se receberem a infortunada notícia, algum dia, de minha morte por aqui, saibam apenas que de tédio não terei padecido.

Abraços

12 comentários:

leo boechat disse...

Excelente.

Bruno Ribeiro disse...

Simão, essa história é mesmo muito boa. Alguns historiadores atribuem à refrega de 1710 a origem da expressão forçar a barra. Isso porque os brasileiros, depois de expulsar os franceses, passaram a usar como lema a frase ninguém mais vai forçar a barra por aqui, referindo-se à tentativa corsária de forçar a entrada da barra da Baía de Guanabara. Bonito, né?

Outra coisa: há indícios de que a cidade tenha sido vendida pelo governador e seus asseclas. O sobrinho de Francisco de Castro, um tal Xavier, deixou uma carta escrita ao general invasor, Louis de Lagrange, poucos meses depois do grande saque: "Meu senhor, suponho que vive vossa mercê do sentimento do muito que o amo, assim não ignorará o muito que vivo saudoso de sua vista. Razões que me obrigam a pedir a vossa mercê que me dê alívio de novas suas, enquanto o tempo me dilata o de lhe dar muitos abraços e beijar-lhe as mãos".

Querido, o tom é de cúmplices, não de inimigos recém-saídos de uma batalha, certo? Como diria Eduardo Goldenberg: Que nojo!

Luiz Antonio Simas disse...

Brunão, já lhe ocorreu que o governador pode ter mandado apagar o Duclerc para não deixar vestígios sobre uma possível negociata? Quem saberá...não me surpreenderia.

Szegeri disse...

"...o tempo me dilata o de lhe dar..."? Não parecem, exatamente, só cúmplices!

Marcelo disse...

A frase de abertura deste post (sobre o Zidane) é de antologia.

Bruno Ribeiro disse...

Simão: tudo indica que sim. Inclusive na invenção de uma possível pendenga amorosa, contada para explicar seu assassinato. O que me parece lógico é o seguinte: Duclerc desembarcou sabendo que iria encontrar o terreno livre, já que não haveria enfrentamento. Este era o acordo feito com o governador, tanto é que os soldados portugueses abandonaram a cidade logo depois da primeira canhonada francesa. E assim procederam não por falta de armas ou munição – deixadas para trás em grandes quantidades – mas porque foram instruídos a não oferecer resistência. Duclerc desembarcou com poucos homens, poucas armas e pouca munição. Nem de longe parecia preparado para enfrentar oposição. O que ele não contava, porém, era com a resistência do bravo povo carioca, que combateu como pôde e expulsou os corsários com bons chutes nas derrières. O que restava ao governador vendilhão? Dar cabo do sócio. Faz sentido, não faz?

pedro disse...

Seria essa francesada braba um grupo de seguidores de Villegagnon?

Incluo o Zidane sim, nessa cambada de franceses que tetaram fuder o Brasil. Este último, ao contrario dos piratas, com êxito.

Eduardo Goldenberg disse...

E acende-se a idéia... Por que não enchermos de porrada, na rua do Ouvidor, o Sr. César Epitácio Vaia?

alberto disse...

Incrível, incrível, estava pensando precisamente nesse episódio, como enredo...
abração
mussa

Flávio disse...

Muito doída a lembrança do Zidane fumando charuto ou rindo após nossas derrotas.
Quanto ao Rio de Janeiro, continua o mesmo. Pode-se morrer de tudo, menos de tédio.

EDGAR disse...

O ALBERTO REALMENTE ME FALOU SOBRE ESSE FATO HISTÓRICO COMO UM ENREDO. AÍ FUI VER QUE TINHA O ROMANCE "O CORSÁRIO" E AINDA NÃO TINHA LIDO.

BELEZA SIMAS.

EDGAR

zé sergio disse...

Pegando carona do Edu: imagina, professor Simas, qual seria a reação de alguns governantes municipais e estaduais que temos ou já tivemos? Garotinho e/ou Cabral fariam acordo com o corsário e, butim por butim, o Duguay-Trouin acabaria senador pelo PMDB. César Maia ia se esconder em casa, protegido pela Guarda Municipal, e aproveitar o tempo livre para atualizar o ex-blog. Aliás, o que ele tem mais é tempo livre. Benedita tentaria atrair o francês pra seita evangélica dela e arranjaria um carguinho federal. Brizola montaria a rede da legalidade. E a imprensa, hein? O Globo: "EXIGÊNCIAS DE FRANCÊS DERRUBAM CÚPULA DA PM". O Dia: "DUGUAY-TROUIN FOGE COM RESGATE". Jornal dos Sports: manchete - "JOEL E CUCA DISPUTAM PARA PEGAR O PIRATA NA FINAL!".

CONTADOR