A história da fundação da cidade do Rio de Janeiro está longe de ser um mar de rosas. Até a estátua do Cristo Redentor sabe que os portugueses passaram um sufoco dos diabos para conquistar essas terras da Guanabara. Primeiro foram os franceses, que tentaram fundar por aqui a colônia da França Antártica. Depois de muita quizumba, a turma do Villegaignon foi expulsa pelos homens do governador-geral Mem de Sá.
Resolvida a questão? Nem pensar. Os franceses pularam fora, mas os portugueses tiveram que enfrentar a heróica resistência dos índios Tamoio, senhores da Guanabara. Foi para combater a Confederação dos Tamoio, esse episódio magnífico e pouco mencionado da nossa história, que Estácio de Sá, sobrinho do governador-geral, estabeleceu um arraial no sopé do Pão de Açúcar, no dia 1 de março de 1565. Esse episódio marca a fundação do núcleo original da cidade do Rio de Janeiro, que comemora amanhã, portanto, 443 anos.
Eu sou daqui, vivo e amo a minha cidade, mas confesso: nessa história toda eu prefiro, mil vezes, os Tamoio. Guerreiros incontestes, bravos canoeiros, entrincheirados nas paliçadas de Uruçumirim ( o atual Morro da Glória) , os índios resistiram, infernizaram a vida dos devotos de São Sebastião, foram escravizados, combateram até o final de suas forças e foram relegados ao subterrâneo da história oficial, que prefere louvar Araribóia, o Temiminó que converteu-se ao catolicismo, aderiu aos portugueses, virou cavaleiro da Ordem de Cristo e recebeu, por ter lutado ao lado dos europeus contra os Tamoio, a sesmaria do Morro de São Lourenço, origem da cidade de Niterói. O índio embranquecido e convertido, enfim.
A Confederação dos Tamoio deve receber o mesmo tratamento que o Quilombo dos Palmares recebe como um movimento maior de rebeldia da História do Brasil. Que se comemore - amanhã e todos os anos - o aniversário da cidade, mas que não se perca a dimensão da importância dos Tamoio como os valentes habitantes da Guanabara que morreram lutando pela terra.
Sei, e isso parece paradoxal, que a fundação da cidade marca o início da derrocada da rebelião dos índios. Estou convicto, porém, que é como os guerreiros Tamoio que temos que resistir aos desmandos dos que atentam, cotidianamente, contra nossa aldeia. Salve Estácio de Sá, viva São Sebastião, longa vida ao Rio de Janeiro; que me desculpem, porém, o herói português e o santo padroeiro : nós, cariocas, precisamos da valentia e do amor ao chão dos Tamoio para nos salvar.
Que as flechas sejam tiradas, hoje, amanhã e sempre, do peito do padroeiro e devidamente entregues aos índios guerreiros de Uruçumirim.
14 comentários:
Salve o arraial entre o Pão de Açúcar e o Cara de Cão. Salve o Morro do Castelo, a Misericórdia, a Praia de Santa Luzia, de Ramos, de Inhaúma, Flamengo, Botafogo, Urca, o Forte de São João e praia Vermelha.
Salve as praias de São Bento, Galeão, Engenho Velho, Bica, Ribeira, Engenhoca, Pitangueiras, Bandeira, Barão de Capanema, Guanabara, e Pelônias - todas na Ilha do Governador.
Salve a Paquetá da Imbuca, da Praia Grossa, dos Tamoios - os grandes Tamoios são lembrados lá! -do Catimbau, Pintor Castagneto, de Moema e Iracema, da Moreninha, do Lameirão, de São Roque, da Guarda, dos Frades e das Gaivotas.
Salve Ipiranga, Mauá - antiga Vila Estrela, da velha estrada real - Anil e Piedade - todas no solo de Magé.
Salve o Axé dos Tamoios que batizaram a Guanabara - "o seio onde brota o mar". Quantas saudades!
Axé!
Professor
Lembro de você ter me dito, certa vez, que a intenção primeira deste blog era a de divulgar eventos marcantes (e às vezes pouco mencionados) da nossa história. Por isso, fico muito feliz quando vejo este objetivo concretizado, e quando, mesmo não sendo seu aluno, me sinto como um deles, lendo seus textos e aprendendo como se estivesse em sala de aula. O ofício do Professor e as tramas da nossa História alcançam, assim, distâncias muito maiores que as dimensões reais de uma classe poderiam abarcar.
Obrigado, mais uma vez, por fazer, de seus leitores, alunos.
Até tu, ó 4rthur?
Prof Simas
mesmo sem poder ir la na Ouvidor esse sabado, deixo aqui registrado os meus parabens pra grande cidade dos bravos Tamoios!
abraço
p.s:Qual e o nome dakele xote de que falou na aula esses dias?
sobre o vaqueiro eu acho...
Luiz,
Bom dia. Tb sou Imperiano. Escrevi um livro que fala dos feitos de D. João no Rio, esta história é contada por um imperiano, o personagem Tião Baleiro.
Depois visite meu blog.
http://delacerda.wordpress.com/
um abraço,
André
andredelacerdaferreira@gmail.com
Concordo com o 4rthur, adoro ler as histórias que você conta, e conhecer outra parte da história. Obrigada por manter o espaço e nos brindar com estas histórias.
Duas perguntas idiotas: em relação ao que o Diogo escreveu acima, eram os Tamoios que habitavam a Ilha do Governador e Paquetá? Onde ficam as praias de Engenho Velho, Barão de Capanema e Pelônias?
Bem colocado, Simas!Os índios foram esquecidos da nossa historia mesmo sendo uns dos principais personagens dela. Nosso sangue Tamoio não pode ser enterrado nas lembranças de um passado distante e inferior. Somos descendente de índios e não podemos negar nossas origens. Abraços, Grande Mestre.
Careca, se me permite a resposta à dúvida da Anna...
Anna, a nação dos índios Tamoios territorializava-se na área que vai desde Cabo Frio (no litoral norte do Rio de janeiro) até Ubatuba (no litoral norte de São Paulo). A Ilha Grande era por eles ocupada e chamada de Ipaum Guaçu, do Tupi, Ilha Grande. Muito difícil eles não estarem presentes em Paquetá e na Ilha do Governador...
E as praias do Engenho Velho, Barão de Capanema e Pelônias ficam na Ilha do Governador.
Abraço!
Valeu, Diego.
André, tô indo visitar teu blog.
Oi Diego, obrigada pela resposta sobre os índios.
Eu queria saber mesmo em que lugar da Ilha elas ficam, porque morei lá muitos anos e não conheço esses nomes, só curiosidade mesmo.
Abraço.
Grande Simão, amigos em geral, André Thevet, que é uma fonte confiável, esteve na ilha do Governador, que ele chama de ilha dos maracajás. Maracajá era um nome pejorativo, aplicado pelos tupinambá (ou tamoio, mesma coisa) aos temiminó, que viviam na banda oriental da baía de Guanabara.
Não acredito que o litoral de Cabo Frio ao Rio fosse totalmente tupinambá, até porque os tupi tinham uma necessidade vital de inimigos próximos. O inimigo comido em banquete canibal era a única coisa que garantia a eles a vida eterna, a salvação da alma. Tupi sem inimigo próximo era tupi no inferno.
abração
Muito bem lembrado.
Corrigindo apenas que a etnia é a Tupinambá. Não teria havido esse povo, Tamoio, que tem uma explicação lógica.
Os portugas, onde chegavam nas terras hoje conhecidas como cariocas e fluminenses, ouviam sempre dos indigenas que eram os tamoios, signficando que eram os mais antigos, mandando os portuga vazarem.
Eram os tupinambás, dividos em várias tribos, de Campos (dos goitacazes) até o litoral santista.
No episódio da resistência heróica - e única na história da invasão iberica - os portugas passaram a chamar esse povo, das tribos, como os tamoios.
Claro que minha intenção é apenas de acrescentar, como eu disse, parabéns pela lembrança.
Quem sabe um dia teremos uma estátua de Aimberê ou Cunhambebe também, e assim toda essa estória fosse recontada.
Valeu, Beto.
Anônimo, fique tranquilo. Eu sei perfeitamente, e ensino isso em sala de aula todos os anos, diga-se de passagem, que os Tamoio eram Tupinambá. Forte abraço e obrigado pelo comentário.
Beto e Careca,
Realmente não há concordância acerca da extensão dos domínios dos Tupinambás (ou Tamoyos).
Alguns historiadores informam que a abrangência dos domínios seria de cinqüenta léguas da costa, do Cabo de São Tomé até Angra dos Reis. Contudo, Anchieta que conheceu intimamente a região, situava os dois limites em Cabo Frio e São Sebastião.
Outros pesquisadores admitem que suas povoações se estendiam de Ubatuba a Cabo Frio. Também se concebia que dominavam uma região de vinte e oito milhas de comprimento ao longo do rio Paraíba.
Sabe-se que os índios articulavam seus espaços dominados através de caminhos pelas florestas ou pelas margens dos rios, portanto, podiam circular por seus espaços em busca do confronto necessário, do inimigo próximo para aniquilar e devorar. Mas ao eliminar os inimigos, os gloriosos guerreiros conquistavam-lhe os territórios, o que permitia-lhes expandir os domínios.
As fronteiras Tupinambás com outras tribos organizavam-se mais ou menos assim:
Ao norte: Goitacás
Ao sul: Tupiniquins
No interior: Carijós, Maracajás e os Guainás.
Os Maracajás foram atacados diversas vezes pelos tupinambás e foram praticamente exterminados. Creio que na Ilha do Governador, não sobrou nada pra eles.
Aquele abraço!
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