13/02/2008

LONGA VIDA AO SÃO CRISTOVÃO DE FUTEBOL E REGATAS


No dia 12 de Outubro de 1898 foi fundado, aqui no Rio de Janeiro, o Clube de Regatas São Cristovão, dedicado ao remo. No dia 5 de Julho de 1909 foi criado o São Cristovão Atlético Clube, voltado para a prática do futebol e campeão carioca de 1926. No dia 13 de Fevereiro de 1943 ocorreu a fusão entre os dois clubes do bairro imperial, nascendo então o São Cristovão de Futebol e Regatas, o simpático, tradicional e carioquíssimo São Cri-Cri.

Hoje é, portanto, aniversário do portentoso São Cristovão de Futebol e Regatas. Não sei se ocorrerá alguma atividade especial para louvar a efeméride. Parece que o São Cristovão vai mal, sem um puto de um trocado pra fazer a festa. Eu, que ando preocupado com a situação terminal dos pequenos clubes de futebol dos bairros da cidade, abro a primeira gelada do dia, às margens do Rio Maracanã, ao clube de Figueira de Melo.

Esses clubes de bairro tem uma trajetória muito similar às escolas de samba do carnaval carioca. Mais do que times de futebol, os pequenos clubes representavam espaços em que as comunidades dos bairros estabeleciam estratégias de convívio, expressavam anseios, manifestavam desejos de festa, integração comunitária e participação efetiva no cotidiano de espaços muitas vezes depreciados e esquecidos pelo poder público. Os times de futebol desses bairros não tinham a intenção de vencer ou conquistar títulos ; a vitória, no caso, era simplesmente existir e proporcionar o encontro.

Assim como os desfiles assistiram ao surgimento das super-escolas de samba, caracterizadas pela proliferação de alas comerciais e pela verticalização do cortejo - em que as alegorias e adereços se transformam em parafernálias e o componente vira coadjuvante do delírio visual e da ditadura dos carnavalescos - o futebol se tranformou em negócio milionário, controlado por empresários, holdings e o escambau.

A identificação entre jogador e clube desapareceu, a paixão perdeu espaço para as estratégias de mercado e os clubes que não apresentam potencial de retorno financeiro e capacidade de projeção na mídia ( já que não possuem torcedores, ou melhor, clientes , numerosos) correm o risco de acabar ou, quando muito, disputar campeonatos de divisões intermediárias.

Como pode o São Cristovão se inserir nas estratégias de retorno financeiro e midiático do mundo globalizado (expressões tremendamente pedantes e de natureza excludente) ? Não pode, evidentemente. Quem está errado; o São Cri-Cri? Me parece, definitivamente, que não. Nessa maluquice global, a questão é bem mais profunda : é o bairro que está morrendo. Vivemos tempos estranhos, em que é mais fácil o sujeito saber o que está acontecendo com a bolsa de Cingapura do que descobrir o que ocorre na esquina, na feira, no bairro, no botequim e no pequeno clube da localidade.

A míngua dos pequenos é a agonia de um modelo civilizatório mais humano, cordato, afável, apaixonado, destinado ao festejo, ao compartilhamento da alegria e da dor e ao cotidiano dividido com o jornaleiro, o barbeiro, o feirante, o dono da birosca, o amolador de facas e o velho torcedor; aquele que frequenta sempre, até que morra ele ou o clube, o mesmo lugar na arquibancada.

Longa vida ao São Cristovão!

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16 Comentários:

Anonymous Bezerra disse...

Muito pertinente, Simas, este teu texto, dada à realidade capitalista em que, infelizmente, nos encontramos - a qual, francamente, é merecedora de lástima.

Abraços!

11:18 AM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Vida longa ao São Cristóvão e vida longa a você, velho Simas, voz mais-que-necessária neste tempos sombrios em que essas pequenas coisas (que são as grandes que fazem a vida valer a pena) vão sendo esmagadas, atropeladas, estupradas e deixadas à míngua por esse sistema sujo e desumano que evidenciam o que já sabemos: faliu a civilização ocidental, malandro. E salve-se quem puder. Enquanto isso, bebemos nossas cervejas e maracujás no Rio-Brasília, trocamos idéias na Folha Seca, ouvimos samba na Ouvidor, cortamos o cabelo (eu, você não!) no Salão América, fazemos feira na Vicente Licínio, e seguimos felizes, na medida do possível, que a coisa tá feia. Beijo.

1:12 PM  
Blogger Szegeri disse...

Nosso compadre Bruno Ribeiro vai passar mal lendo isto aqui...

3:05 PM  
Anonymous Cesar Tartaglia disse...

Mestre, promessa é dívida. Eu havia dito que ia tentar descobrir por onde anda o Ado, símbolo da tragédia do Bangu em 87, como está na sua nota do dia 11, e lá vai: ele encerrou a carreira ano passado, jogando pelo Campo Grande na terceira divisão do Rio, e passou a trabalhar com formação de novos jogadores no Ceres F.C., um clube de Bangu que disputa a segunda divisão. É, ou era, casado com a filha de Luis Alberto, zagueiro banguense daquele escrete da década de 60. Depois do Bangu, jogou na Portuguesa, e continua morando ali perto de Moça Bonita. Quem me deu as dicas foi o Fabio de Menezes (menezes.fabiode@gmail.com), que sabe tudo da história do Bangu e pode ser fonte de ótimas notas para o teu blog. De nada.

4:50 PM  
Anonymous Cesar Tartaglia disse...

Fala, mestre. Eu de novo. Sobre o reencontro, na Rua do Matoso, dos dois personagens do histórico Bangu x Fla, de 66 (e não 68, como eu tinha dito), eis aí o que escrevi no blog: http://201.7.176.18/rio/ancelmo/frontdorio/post.asp?cod_Post=6689&a=50

5:27 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Corrigindo, Simão, me permita a errata: quando escrevi "vão sendo esmagadas, atropeladas, estupradas e deixadas à míngua por esse sistema sujo e desumano que evidenciam o que já sabemos", leia-se EVIDENCIA.

Valeu!

6:50 PM  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Szegeri: eu mal pude comentar na primeira leitura. Eu, torcedor ingrato, não me lembrava da efeméride. Simas, esta enciclopédia ambulante, é a memória coletiva de nossa gente! Vida longa ao São Cri-Cri, meu e de todos nós! Glória eterna à João Cantuária!

8:01 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Boa Simas !
Sou são-cristovense de coração e de berço e fiquei feliz com sua lembrança.
Comecei a ler seu blog há exatamente uma semana e agora fiquei ainda mais fã.
Na próxima roda da Ouvidor (dia 23, correto?) irei especialmente com a camisa do São Cri-Cri (o manto alvo) para que vc me localize no meio do povo.
PS: Agradecimentos tb ao Tartaglia por ter indicado este blog.

4:22 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Faltou me indentificar: Alexandre Biar.
tandebiar@yahoo.com.br

4:28 PM  
Blogger natashaz disse...

Mestre Simas,

Após alguns meses enrolada, estou voltando a ler este blog (até hoje citado em meu orkut!)

Passei aqui hoje só para lhe deixar um abraço e, como boa ambientalista, explicar o que é "comida orgânica", tão polemizada em texto anterior: comida orgânica são vegetais cultivados sem agrotóxicos e carne produzida sem adição de hormônios. Isto é tranqüilo (e o sabor realmente é diferente), mas vocÊ já ouviu falar em "agricultura hidropônica"?

Abraços,
Natasha (formanda do ph Botafogo 2002)

8:02 PM  
Blogger Pedro Paulo disse...

Falou e disse, Simas.

Salve o São Cri-Cri - bairro e clube (único a ter o hino gravado pelo grande Sílvio Caldas - são-cristovense de coração).

Em 2006, na época em que se completaram 80 anos do título de 1926, saiu na internet uma matéria bacana sobre o SCFR (com link para o Pátria FC, de Bruno Ribeiro), aqui: http://www.overmundo.com.br/overblog/da-lhe-sao-cri-cri

Abraços, saudações alvinegras.

11:17 PM  
Anonymous Edgar disse...

O que "agricultura hidropônica" Simas?

10:09 AM  
Anonymous Anônimo disse...

Natasha,
Agricultura hidropônica são aquelas alfacinhas e rúculas plantadas em água com nutrientes, sem contato com a terra. Junto com a comida orgânica e os adoçantes de cafezinho levam a pessoa à depressão, impotência sexual, mau hálito, tremedeira e convulsões, podendo até matar. Tente se afastar disso.
Um abraço
Coelho

12:14 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

PEDRO PAULO, bela dica. Saudações alvi-negras, sempre.

EDGAR, eu não faço a menor idéia de que diabo é isso. Acho que o COELHO respondeu a tua questão.
Abraço!

7:33 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Meu velho avô Zequinha sempre torceu pro São Cristóvão. Já o meu velho avô Vieira, que cresceu no bairro e foi feito no santo em 1947 no terreiro Nossa Senhora da Lapa, que ficava na rua Bela, 629, era vascaíno mas sempre teve simpatia pelo São Cri-Cri. E o velho foi oló no último dia 13, no aniversário do clube, durante a vitória do Vasco pela Copa do Brasil.

Mais um belo resgate. Isso é que são Histórias do Brasil. O resto é conversa fiada...

Abraço, profeta.

9:21 PM  
Blogger alberto disse...

belo e agudo texto, Simão.
o jeito é ir tentando viver à margem desse modelo civilizatório.
abraço
mussa

12:21 AM  

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