02/01/2008

IMPRESSÕES CARNAVALESCAS 2

Escrevi ontem que estou impressionado com os enredos que as escolas de samba apresentarão este ano na Sapucaí. Tenho a impressão de que a safra nunca foi tão ruim. A praga tem, evidentemente, uma explicação : é o tal do enredo patrocinado.
Este ano assitiremos exaltações a Macapá, ao Piauí, a Itaboraí, a Itaguaí, a Macaé e o escambau. Gás natural e pólo petroquímico viraram motivos carnavalescos. Periga algum enredo superar o famoso Trinca de Reis, em que a Mangueira, ao homenagear o filibusteiro Chico Recarey, protagonizou o momento mais constrangedor da história do carnaval brasileiro.
Mas alguns enredos deste ano se caracterizam também pela completa alucinação. A Renascer de Jacarepaguá apresentará o seguinte tema: "É chegado a Portugal o tempo de padecer, se te oprime a cruel França sorte melhor hás de ter" . O personagem central do samba é D. João VI, que, na primeira pessoa, conta sobre a invasão napoleônica e a chegada da corte ao Brasil. No refrão (horroroso) D. João VI afirma:
Expandi a cultura
Dei novos ares
Ao comércio proferi a liberdade
Fiz do progresso meu principal ideal (ideal)
Assim surgiu o patrimônio nacional
Cruzes!
A Estácio de Sá mistura no samba Orfeu, Padre Antônio Vieira, São João Evangelista, pomba gira, fogueiras da inquisição, segredos da lua, buzios, tarô e o "infinito universo estelar"; num enredo sobre profecias. Suspeito que a bateria venha fantasiada de Nostradamus.
Preocupa-me o destino da União do Parque Curicica, do grupo de acesso B. O enredo é "O mundo místico das águas em berço esplêndido derrama ao planeta o seu clamor". O samba tem trechos absolutamente surreais. Após citar a Atlântida, Yara, Oxum e Oxalá, a escola vem com essa pérola:
O homem concede com energia
A água do meu dia a dia
Proporcionando consciência ambiental
Mas o pior promete ser o desfile da Acadêmicos da Vila Kosmos. O enredo é, acreditem, Os cavaleiros do Santo Sepulcro ! Segundo o carnavalesco, a escola falará sobre templários medievais que, secretamente, guarneceram a tumba de Jesus Cristo na Abissínia. O refrão do samba diz simplesmente o seguinte:
Santo Sepulcro
Sou guardião
Santo Sepulcro
Te guardo com emoção
Será, quero crer, imperdível assistir a um negócio desses. Já imagino a comissão de frente inteiramente de preto, com um abre-alas representando uma sepultura. Teremos, certamente, uma exaltação ao que há de mais alegre no espírito carnavalesco. Como nasci dia de finados, e estou portanto fortemente ligado ao vibrante enredo, vou ver se cavo uma vaguinha na bateria da escola. Só uma coisa me intriga - de onde o carnavalesco tirou essa história de túmulo de Cristo na Abissínia? O filho do Homem não morreu, foi enterrado e ressuscitou, por acaso, em Jerusalém?
Abraços

2 Comentários:

Blogger Hans disse...

" O indio, alegria do nativo,
no respeito a natureza,
Desconhecendo o bem ou mal (bem ou mal)..."

Este é o trecho que abre o samba do Bebedouro Esporte Clube no desfile de 1999. Pergunte ao bemoreira meu colega da ala "Africanos"...

O refrão também merece destaque: "Balança palmeira, quero balançar..."

O horror, o horror, mas nada que doses cavalares de Oldeight Roitmann não resolvessem.

3:26 PM  
Anonymous alberto mussa disse...

Grande Simão,
você sabe como isso me deprime, essa pobreza poética como contrapartida do financiamento.

Acho que a questão do enredo tem que ser tratada com mais seriedade. Se não pode ser pelos dirigentes das escolas, tem que ser pelo poder público. Tem que haver algum mecanismo (por exemplo, um quesito "relevância cultural e histórica do enredo") para impedir esse tipo de degradação.

Não estamos lidando com um probleminha qualquer. O desfile das escolas de samba é a maior, a mais excepcional, a mais original criação estética da humanidade nos últimos mil anos, quem sabe mais.

Literatura, teatro, música, pintura, escultura, arquitetura, e outras artes são muito mais antigas e a humanidade passou milênios sem inventar nada diferente.

E mnão me falem de cinema ou fotografia. São meras transposições tecnológicas do teatro e da pintura. Não se comparam nem de longe a um desfile de escola de samba.

E essa invenção é nossa, é do Rio de Janeiro. Não pode ser tratada assim.

desculpe a amargura,
abração

12:26 AM  

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