A notícia é grave e pode estragar as festas de muita gente. O grupo Roupa Nova acaba de gravar um CD com músicas natalinas, chamado "Natal todo dia". O Globo publica hoje uma reportagem sobre o lançamento, assinada pelo jornalista João Pimentel. O repertório é um horror, estruturado sobretudo em versões para o português de músicas norte-americanas.
O argumento utilizado para esse predomínio de canções estrangeiras é a ausência de uma tradição de músicas natalinas brasileiras. O produtor Max Pierre chega a declarar que "na semana passada fui a Gramado e fiquei ouvindo aquelas músicas em inglês, lamentando não termos canções em português para sonorizar a festa". A cantora Simone, que gravou um repertório parecido num disco de 1995, também afirma que a ausência de canções brasileiras de Natal a levou a privilegiar canções norte-americanas e inglesas.
Outros cantores que pensam em projetos natalinos são a família Xororó - Sandy e Junior e os pais - e o padre Antônio Maria; aquele cujo ápice da carreira sacerdotal foi realizar o casamento de Ronaldo Fenômeno (que, gordo e cabeludo, está a cara da Etti Freizer) e Daniela Cicarelli no Castelo de Chantilly. Valei-me!
Quero apenas dizer que esse argumento do Roupa Nova, da Simone e do produtor é conversa pra boi dormir. O Brasil tem sim uma forte tradição de músicas natalinas. Basta lembrar dos pastoris, das cheganças, das marujadas, do boi-de-calemba, do fandango, das lapinhas, das congadas, e por aí vai. Ou será que esses caras não sabem que todas as manifestações culturais que citei - existem outras - fazem parte do ciclo natalino? A Marcus Pereira, maior gravadora que esse país já teve, lançou em 1977 um disco chamado Natal Brasileiro - Patoril e Lapinha, que é de uma beleza absoluta. Só ali há um repertório fabuloso de canções de Natal. Não me venham, portanto, com esse papo de que não temos tradição. Vocês, que dizem isso, é que são ignorantes, cacete, e ficam ouvindo aqueles troços tristes, desagradáveis, uns "White Christmas" deprimentes, umas coisas que funcionam melhor como trilha sonora de suicídio.
Para completar esse arrazoado, transcrevo um poema que o grande músico e brasileiro Pedro Amorim escreveu sobre o assunto. O Pratinha, que sabe que berimbau não é gaita, anda mandando o texto do Pedrinho para os amigos, com o título magnífico de "Dingobel é o cacete" :
Eu, deste ano em diante
Quero um Natal diferente
Mais parecido com a gente
Tropical e delirante.
Em vez de Papai Noel
Eu quero que me apareça
Uma mula-sem-cabeça
Um saci e um curupira.
Todos tomando tiquira,
Cauim ou então cachaça
Fazendo grande arruaça
Pelas ruas da cidade.
Na mesa vai ter a vontade
Feijão, arroz e farinha
Peixada, bobó, canjiquinha
Maniçoba, moqueca e cozido.
E também será servido
Churrasco, e de sobremesa,
Veja você que beleza:
Quindim, pudim, casadinho,
Bombocado e cajuzinho,
Olho-de-sogra e cocada
Da branca e também da queimada
Chega a dar água na boca.
A garganta vai estar rouca
Pois em vez dessa cantiga
Que todo ano enche o saco
Vou puxar do cavaco
E cantar sambas da antiga.
Em vez de trenó e neve
Eu quero, na madrugada,
Ter a cabeça molhada
Por um sereno de leve.
Quero que a minha gente
Se encontre e se reconheça
Olhando o outro de frente
Sabendo ser diferente
Fazendo o Natal que mereça.
Axé!