31/12/2007

ANO NOVO! MAS ONDE ESTÁ A CURIMBA?


Finalmente 2007 está cantando pra subir. Não costumo levar a sério esse negócio de novo tempo, vida nova, ciclo que se inicia e o escambau; nem gosto especialmente da festa do ano novo.

Tenho a impressão de que quem fudeu ( com u mesmo ) minha relação com a efeméride foi aquela maldita mensagem da Globo, com uma cacetada de artistas vestidos de branco, dando tchauzinho, cantando que hoje é um novo dia, um novo tempo, que começou. Aquilo sempre me pareceu tão animado quanto missa de defunto. Toda vez que recebo a notícia de quem alguém morreu, essa merda do novo dia toca dentro da minha cabeça e eu imagino a Regina Duarte dando tchau pro falecido. É um pesadelo constante.

O que de fato me interessava no dia 31 era ver e participar da curimba na praia. Lembro que as praias do Rio eram tomadas pelos terreiros que enchiam as areias de velas brancas, ofertavam flores para Iemanjá e tocavam os atabaques a noite inteira. Era bonito pra cacete e tinha se transformado numa verdadeira tradição carioca.

Minha vó, que era mãe de santo de um terreiro de Xambá (uma das vertentes do candomblé) em Nova Iguaçu, costumava fazer os ebós de fim de ano em esquinas e estradas de ferro - pra Exu e Ogum. Não era o costume da nossa casa tocar nas areias no 31 de dezembro - esse hábito era sobretudo do povo da umbanda - mas não deixavamos de passar na praia para ver os terreiros, louvar os caboclos e encantados e fazer as coisas devidas na beira do mar.

Infelizmente a festa do povo foi tomada e completamente descaracterizada pelo poder público e por empresas privadas. Shows mirabolantes, com músicas altíssimas, patrocinados por grupos empresariais, começaram a abafar o toque ritual dos tambores. Evangélicos intolerantes passaram a panfletar na orla contra os ritos afro-brasileiros e a elite carioca - que na hora do aperto faz sua macumbinha escondida mas não admite isso nem a pau - se sentiu confortável para participar da festa.

Hoje se diz que Copacabana faz uma festa democrática, bonita, com participação de todos, sem violência e com muita paz. Mentira. A farsa montada em Copacabana excluiu o povo de santo de uma festa que nós - que somos do santo - criamos no Rio de Janeiro. O som nas alturas, os shows de roqueiros, sambistas, funqueiros, astros pops e o cacete embranqueceu a festinha, criou a falsa impressão de que convivemos fraternalmente nas areias e calou de forma covarde e empresarial os tambores rituais. Foi a "faustinização" ( sim, refiro-me ao nefando e patético programa do Faustão) da festa de ano bom. Processo de mercantilização elitista similar ocorre com as escolas de samba.

Acho que essa bronca, temperada pela saudade da macumba na praia, foi estimulada pela fotografia que ilustra esse arrazoado. Nos tambores, como pequenos ogãs, estamos eu e meu irmão Alexandre. O local é o terreiro da minha vó, no Jardim Nova Era, em Nova Iguaçu. Eu, o mais velho, olhando a câmera, devia ter uns sete anos; Ale tinha uns quatro.

Essa foto estava meio perdida aqui em casa. Meu mano Eduardo Goldenberg fez algum milagre para digitalizar a imagem - eu não entendo picas desse troço. Graças aos orixás, esse pequeno macumbeiro que eu era permanece vivo no adulto que sou hoje. Os cabelos foram oló, mas continuo batendo tambor; honrando, diariamente, a herança dos meus ancestrais e louvando os orixás, inquices e voduns. É isso que continuarei, com a devida permissão de Olorum e sob as ordens de Ogum e Orunmilá, fazendo em 2008.

Axé!

27/12/2007

CURTAS

O Globo-Tijuca ouviu a cartomante Marita Lott e o numerólogo Bosco Viegas sobre como se deve dar adeus a 2007 e o que esperar de 2008. Diz a Marita:
"Deve-se colocar 12 maçãs numa cesta, uma para cada mês do novo ano, e oferecer aos gnomos e seres da floresta em uma praça ou lugar florido, mentalizando prosperidade, paz , dinheiro, saúde, amor e todos os seus desejos para cada mês se concretizarão."
Bom, eu moro perto da praça Afonso Pena. Não me parece que o lugar seja propício para evocar gnomos e seres da floresta, mas se a Marita disse...
Já o numerólogo, com tremenda originalidade, diz que 2008 marcará o início de um novo ciclo. Será, também, um ano para relacionamentos e negócios. Fiquei impressionadíssimo, sobretudo com essa história de novo ciclo.
******
Dentre os melhores espetáculos de dança de 2007, O Globo cita Bull Dancing, do coreógrafo piauiense Marcelo Evelin. Diz a crítica que o autor "debruçou-se sobre a manifestação folclórica do bumba-meu-boi para recombinar os elementos da festa popular a partir da ótica da desconstrução". O bumba-meu-boi virou, após a ótica da desconstrução, Bull Dancing? Ainda bem que não tenho arma de fogo em casa.
*******
Ninguém me contou, eu mesmo vi. Passava de carro pela Dutra quando observei o letreiro luminoso com a seguinte mensagem: - BOA VIAJE.
*******
O Flamengo anuncia que criou uma força tarefa, comandada por Kleber Leite, para viabilizar a contratação de Ronaldo Fenômeno. O ex-jogador em atividade, parecidíssimo com a Etti Freizer desde que deixou crescer a cabeleira, demonstrou desejo de se transferir para o rubro-negro carioca. Desde já torço desesperadamente para que o Fenômeno vista a 10 do Mengo durante uns bons anos.

19/12/2007

NATAL BRASILEIRO

A notícia é grave e pode estragar as festas de muita gente. O grupo Roupa Nova acaba de gravar um CD com músicas natalinas, chamado "Natal todo dia". O Globo publica hoje uma reportagem sobre o lançamento, assinada pelo jornalista João Pimentel. O repertório é um horror, estruturado sobretudo em versões para o português de músicas norte-americanas.
O argumento utilizado para esse predomínio de canções estrangeiras é a ausência de uma tradição de músicas natalinas brasileiras. O produtor Max Pierre chega a declarar que "na semana passada fui a Gramado e fiquei ouvindo aquelas músicas em inglês, lamentando não termos canções em português para sonorizar a festa". A cantora Simone, que gravou um repertório parecido num disco de 1995, também afirma que a ausência de canções brasileiras de Natal a levou a privilegiar canções norte-americanas e inglesas.
Outros cantores que pensam em projetos natalinos são a família Xororó - Sandy e Junior e os pais - e o padre Antônio Maria; aquele cujo ápice da carreira sacerdotal foi realizar o casamento de Ronaldo Fenômeno (que, gordo e cabeludo, está a cara da Etti Freizer) e Daniela Cicarelli no Castelo de Chantilly. Valei-me!
Quero apenas dizer que esse argumento do Roupa Nova, da Simone e do produtor é conversa pra boi dormir. O Brasil tem sim uma forte tradição de músicas natalinas. Basta lembrar dos pastoris, das cheganças, das marujadas, do boi-de-calemba, do fandango, das lapinhas, das congadas, e por aí vai. Ou será que esses caras não sabem que todas as manifestações culturais que citei - existem outras - fazem parte do ciclo natalino? A Marcus Pereira, maior gravadora que esse país já teve, lançou em 1977 um disco chamado Natal Brasileiro - Patoril e Lapinha, que é de uma beleza absoluta. Só ali há um repertório fabuloso de canções de Natal. Não me venham, portanto, com esse papo de que não temos tradição. Vocês, que dizem isso, é que são ignorantes, cacete, e ficam ouvindo aqueles troços tristes, desagradáveis, uns "White Christmas" deprimentes, umas coisas que funcionam melhor como trilha sonora de suicídio.
Para completar esse arrazoado, transcrevo um poema que o grande músico e brasileiro Pedro Amorim escreveu sobre o assunto. O Pratinha, que sabe que berimbau não é gaita, anda mandando o texto do Pedrinho para os amigos, com o título magnífico de "Dingobel é o cacete" :

Eu, deste ano em diante
Quero um Natal diferente
Mais parecido com a gente
Tropical e delirante.

Em vez de Papai Noel
Eu quero que me apareça
Uma mula-sem-cabeça
Um saci e um curupira.

Todos tomando tiquira,
Cauim ou então cachaça
Fazendo grande arruaça
Pelas ruas da cidade.

Na mesa vai ter a vontade
Feijão, arroz e farinha
Peixada, bobó, canjiquinha
Maniçoba, moqueca e cozido.
E também será servido
Churrasco, e de sobremesa,
Veja você que beleza:
Quindim, pudim, casadinho,
Bombocado e cajuzinho,
Olho-de-sogra e cocada
Da branca e também da queimada
Chega a dar água na boca.

A garganta vai estar rouca
Pois em vez dessa cantiga
Que todo ano enche o saco
Vou puxar do cavaco
E cantar sambas da antiga.

Em vez de trenó e neve
Eu quero, na madrugada,
Ter a cabeça molhada
Por um sereno de leve.

Quero que a minha gente
Se encontre e se reconheça
Olhando o outro de frente
Sabendo ser diferente
Fazendo o Natal que mereça.

Axé!

18/12/2007

RECEITA DE RABO DE GALO

Eis uma palavra fresca - cocktail. Meu velho avô preferia chamar a mistura de bebidas por um nome mais conveniente a um conterrâneo de Lampeão : Rabo de galo. Há os que misturam cachaça e vermute, os que preferem conhaque e vermute e os que acrescentam a essa mistureba toda o gim.
Pixinguinha dizia que o sujeito que não bebe não tem caráter. A tese do mestre era a seguinte: o camarada que não bebe tem segredos inconfessáveis, guarda recordações terríveis do passado, cometeu crimes inomináveis - quiça é um homicida - e , exatamente por isso, teme revelar seus mistérios estimulado pelo álcool. Eu não ouso em hipótese alguma discordar do grande Pixinguinha, que além de tudo era filho de Ogum, como este que vos escreve.
Mas eu comecei falando do rabo de galo e retomo o raciocínio. Dizem que um sujeito que misturava as coisas mais impressionantes era o compositor Ismael Silva. O jornalista Arthur Poerner me revelou que costumava beber num pé-sujo da Mem de Sá com o bamba do Estácio. Ismael fazia coisas absolutamente inusitadas em matéria de bebida; o trivial para ele era misturar num copo gigantesco conhaque, cachaça e cerveja quente e mandar pra dentro com a placidez de um monge budista.
A minha experiência mais inusitada de mistura aconteceu na casa de uma antiga namorada. Fui apresentado aos pais da dona na noite de 24 de Dezembro, véspera de Natal. Família reunida, bacalhoada de primeira, rabanadas, frutas, peru, pernil, acepipes diversos e muita água que o passarinho não bebe. Nesse momentoso quesito, um dos tios da garota produzia artesanalmente um licor de ovo de codorna. Repito: licor de ovo de codorna. Fui, evidentemente, instado a experimentar a bebida. Cáspite!
Não podia recusar, seria uma desfeita tremenda. Na dúvida, prendi a respiração e tomei aquela merda numa talagada só. Não me recordo de ter bebido coisa pior. O tio, entusiasmado com a rapidez com que liquidei a fatura, concluiu que eu tinha amado o licor. Foi enchendo meu copo e berrando :
- Bebe mais, garoto!
- Obrigado, estou satisfeito.
- Ah, nada de cerimônias, nada de cerimônias. Pode tomar a vontade. Eu trouxe quatro garrafas e você foi o único que teve a sensibilidade de apreciar uma obra de arte. São suas! São suas!
Percebi, apavorado, que teria que tomar licor de ovo a noite inteira. Em desespero de causa, resolvi misturar, com a maior discrição, licor e cerveja, pra ver se atenuava o gosto. Não deu certo. Por via das dúvidas, ao partir para a terceira dose coloquei, sem que ninguém percebesse, um pouco de vinho para eliminar de vez o futum daquele troço. Fracassei. A quarta dose exigiu, além da cerveja e do vinho, um uisquinho. À quinta dose, acrescentei conhaque de alcatrão São João da Barra e creme de cebolinha. Acreditem; ficou uma beleza.
Entusiamado com meu talento para, como diriam os frescos, harmonizar bebidas, abracei o tio e falei :
- Olha, o senhor está de parabéns. Grande licor. Ideal, inclusive, para se preparar uns drinques. Espetáculo! Espetáculo!
Eu estava sendo, naquele momento, rigorosamente sincero.
Abraços

17/12/2007

UMA GUERRA DA MAIOR SERIEDADE

Dotado de preguiça monumental, não estou com paciência para confirmar o nome do autor da máxima "o futebol não é uma questão de vida ou morte; é muito mais do que isso". Reputo essa frase como uma das sentenças mais sérias proferidas pela humanidade, desde que Cristo, nas palavras de um aluno brilhante que tive, virou-se para Pedro, durante a Santa Ceia, e disse: - Galo cantou às quatro da manhã / Céu azulou na linha do mar/ Vou me embora desse mundo de ilusão / Quem me vê sorrir / Não há de me ver chorar.
Lembrei-me dessa frase sobre o futebol por conta de um episódio que ocorreu nos idos de 1969. Aconteciam, então, os jogos eliminatórios para a copa do mundo de 1970. O escrete canarinho atropelou todos os adversários de forma impiedosa. Não vi aquele time jogar, mas imagino do que era capaz um ataque com Jairzinho, Pelé, Tostão e Edu. Enquanto o Brasil transformava os jogos em tarefas simples como um piquenique em Paquetá, um drama se desenrolava na América Central.
Honduras e El Salvador, países limítrofes que nunca se bicaram, foram disputar, num confronto direto, uma vaga para a copa do México. No primeiro jogo, em Tegucigalpa, Honduras fez valer o fator campo e ganhou por um gol. No joga da volta, em San Salvador, El Salvador devolveu o resultado com juros e enfiou um 3X0 contundente nos hondurenhos. A decisão foi realizada em campo neutro, na Cidade do México. Após um jogo impróprio para cardíacos, El Salvador venceu, na prorrogação, por 3X2.
Com acusações de ambos os lados, suspeitas sobre a arbitragem, denuncias de suborno e cenas de pugilato em campo e nas arquibancadas, aconteceu o inusitado. Honduras resolveu expulsar milhares de imigrantes salvadorenhos de seu território. El Salvador, estimulado pela classificação para o mundial, respondeu na bucha - o exército invadiu o território inimigo. Começava, no dia 14 de junho de 1969, a Guerra do Futebol, o conflito bélico mais sério da história contemporânea.
O confronto durou seis dias, vitimou cerca de 5.000 pessoas, fez o trio de arbitragem do jogo final pedir proteção a organismos internacionais, mobilizou a ONU, a OEA e a Cruz Vermelha e só terminou com um cessar-fogo negociado e a criação de uma zona desmilitarizada na fronteira - onde jogos de futebol foram terminantemente proibidos. Não podia ter nem linha de passe ou altinho, para não dar merda.
O governo salvadorenho comparou o conflito, por sua dimensão histórica e importância geo-política, à Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França. A pancadaria ficou conhecida em El Salvador como a Guerra das Cem Horas.
Depois dessa zorra toda, El Salvador foi disputar o torneio no México. A torcida, estimulada pela épica classificação, sonhava, pelo menos, com um terceiro lugar. Os jogadores, saudados como heróis de guerra, receberam condecorações, desfilaram em carro aberto e o escambau.
A campanha da seleção salvadorenha no certame foi a seguinte : perdeu da Bélgica (3X0) , do México (4X0) e da URSS (2X0). Com o pior desempenho do mundial, sem marcar um mísero gol, o onze centro-americano não passou da primeira fase e voltou mais cedo pra casa. O time de heróis foi devidamente recebido com pedras, moedas e hortifrutigranjeiros no aeroporto.
Abraços.

Marcadores:

12/12/2007

DEU SORTE, SEU CABRAL.


Lá pelos idos de mil e novecentos o pintor Benedito Calixto retratou o desembarque dos portugueses nas praias brasileiras, devidamente observados por índios pacíficos e receptivos. É um quadro romântico, evidentemente.

A sorte - se eu não fosse um gentleman diria "a cagada" - da rapaziada do seu Cabral foi ter encontrado, naquelas praias do sul da Bahia, a tribo Tupiniquim. O primeiro contato acabou sendo mesmo pacífico. Mas se a esquadra tivesse chegado em outro ponto do litoral, a coisa ia ficar feia. Explico.

Se a frota lusitana chegasse, por exemplo, um pouco mais acima, iria se deparar com os Aimoré. Eram perigosíssimos. Grandes guerreiros e canibais, os Aimoré fizeram guerra aos donatários e inviabilizaram as capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo. Se bobear, a turma do Cabral nem desembarcava.

Da ilha de Itamaracá às margens do Rio São Francisco viviam os Caeté. Foram eles que deglutiram o bispo português Pero Sardinha, em 1556. O navio de Sua Eminência naufragou em Alagoas. Os Caeté mandaram para o bucho o bispo e outros 91 náufragos ! Imaginem o banquete que foi esse negócio. Em virtude dessa farra gastronômica, foram considerados inimigos mortais da civilização cristã e acabaram sendo exterminados pelas tropas do governador-geral Mem de Sá.

Se o Cabral tivesse chegado algumas milhas mais pra baixo, perto da foz do Paraíba do Sul, por exemplo, o quadro do Calixto teria que retratar uma chacina daquelas. Ali viviam os temíveis Goitacá, gente violentíssima. Os crônistas do período colonial diziam que eles, os Goitacá, eram os mais selvagens e cruéis índios de toda a costa canarinho. Canibais, corredores velozes e guerreiros audazes, os Goitacá descansavam da labuta pescando tubarões, coisa que faziam com um pé nas costas, com a mesma facilidade com que eu como manjubinhas, trilhas e camarões e encho a caveira nas barracas do Mercado São Pedro. A ferocidade dos Goitacá fez com que alguns crônistas afirmassem que eles teriam mais de dois metros e meio de altura. Na verdade, eram baixinhos enfezados - um tipo de gente da pior espécie.

Os portugueses não tiveram maiores problemas com os Temiminó, os Tabajara e os Carijó. Os últimos, que habitavam o sul - entre a ilha de Cananéia e a Lagoa dos Patos - foram considerados os mais pacíficos índios da costa. Foram, inclusive, convertidos aos montes pelos jesuítas. Viraram um bando de carolas.

Já os Tupinambá gostavam de uma quizumba. Nas regiões em que eram maioria, entre o São Francisco e o Recôncavo Baiano e aqui pelas bandas do Rio de Janeiro, pintaram os cavacos. Detestavam portugueses e foram aliados dos franceses durante o século XVI. Foram eles que capturaram o aventureiro alemão Hans Staden. O gringo passou quase um ano com os índios, que estavam loucos para devorá-lo. Para não morrer, Staden fez de tudo. Mentia que era francês e abria o berreiro toda vez que se sentia ameaçado. De tanto que o alemão chorou, os Tupinambá o consideraram um covardão, um bunda mole indigno de ser deglutido. Staden escreveu um livro do cacete sobre esse perrengue. O nosso Monteiro Lobato, em 1925, traduziu o relato para o português, com o título de Hans Staden. Ainda bem que o velho Lobato simplificou a coisa. O título original que o gringo deu ao relato era Descrição verdadeira de um país de selvagens nus, ferozes e canibais, situado no Novo Mundo América, desconhecido na terra de Hessen, antes e depois do nascimento de Cristo até que, há dois anos, Hans Staden de Homberg, em Hessen, por sua própria experiência, o conheceu .

Eu li Hans Staden quando era moleque e, ouso confessar, não me imaginei vivendo as aventuras do alemão. Minha identificação foi mesmo com os índios. Essa coisa de selvagens nus, ferozes e canibais continua, inclusive, me parecendo muito mais interessante.

Abraços


06/12/2007

VESTIBULAR DO ZÉ SERGIO ROCHA - II

Queridos, como a rapaziada gostou do troço, o Zé Sergio Rocha mandou mais questões. Eu completei o teste com as quatro últimas. Mandem ver.
1- Água mineral em pó que só era vendida em Niterói, ótima para curar ressaca:
a) Hidrazida
b) Hidritol
c) Hidrovita
d) Hidromineral
e) Hidritina
2-Cavalo de Pancho Villa celebrizado pelos mariachis:
a) Rompefuego
b) Siete Leguas
c) Sonora
d) Salinero
e) Desdichado
3- Oficial da PM de muita intimidade com o idioma que virou atração no programa César de Alencar, na Rádio Nacional, tirando as dúvidas dos ouvintes sobre a última flor do lácio:
a) Romário, o Homem Dicionário
b) Tomás, o Craque do Idioma
c) Rubinho, o Sabidinho
d) Aguiar, o Rei do Hífen
e) Seu Prático, O Gramático
4- Versos iniciais do prefixo musical do noticiário brasileiro transmitido pela Rádio Tirana nos anos de chumbo:
a) Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar
b) Te entrega Corisco / Eu não me entrego não
c) Caminhando e cantando / e seguindo a canção
d) O quintal da minha casa / não se varre com vassoura
e) Carcará lá no sertão / é um bicho que avoa que nem avião
5- Quem eram os "Três Patetas" do futebol brasileiro ?
a) Biguá, Bria e JAime
b) Romário, Sávio e Edmundo
c) Jair, Lelé e Isaías
d) Ávila, Rubinho e Juvenal
e) Jaime, Dudu e Ocimar
6- Mineirinho foi o primeiro grande inimigo público n 1 da polícia carioca nos anos 60. Todos os crimes da cidade eram atribuídos a ele. Quando foi preso, o marginal mais caçado foi seu lugar-tenente, Nenén Russo. Quem foi o policial que prendeu o Neném?
a) Wilson Moreira
b) Nelson Cavaquinho
c) Antônio Candeia
d) Detetive Perpétuo
e) Detetive Le Coq
7- Foi o único presidente do Brasil que chegou a jogar futebol profissionalmente, como goleiro, pelo Primavera F.C. e pelo Alecrim , do Rio Grande do Norte:
a) Café Filho
b) Ernesto Geisel
c) Eurico Dutra
d) Itamar Franco
e) Fernando Collor
8- Jogador de futebol que se casou com a lendária Hilda Furacão:
a) Didi
b) Paulinho Valentim
c) Roberto Miranda
d) Marinho Chagas
e) Zito
9- Bairro de Nova Iguaçu onde residiu o compositor maranhense João do Vale:
a) Miguel Couto
b) Vila de Cava
c) Jardim Nova Era
d) Rosa dos Ventos
e) Austin
10- Quem era o Pintacuda, citado na "Marcha do Gago", magistralmente interpretada pelo comediante Oscarito (Tá- tá- tá- tá na hora / Va-va-va-le tudo agora/ Sou mo-mole pra-pra falar/ Mas sou um Pintacuda pra beijar ) ?
a) Um lutador de boxe
b) Um piloto de corridas
c) Um ponta-esquerda uruguaio
d) Um ator mexicano
e) Um jóquei argentino

03/12/2007

GRAVE CRIME CONTRA A MEMÓRIA NACIONAL !


Meninos, eu li na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos n´O Globo de sábado, 1 de dezembro:

Quarentinha, o maior artilheiro da história do Botafogo, mais de 400 gols, começa a ter uma biografia escrita em sua honra pelo jornalista Rafael Casé. O título provisório é "O artilheiro que não sorria". No 6 a 2, que o Botafogo impôs ao Fluminense, tornando-se campeão de 1957, Quarentinha fez cinco gols. O ataque: Garrincha, Didi, Paulo Valentim, Quarentinha e Zagalo. Histórias sobre o craque devem ser enviadas para memoriaquarentinha@hotmail.com

Torço para que a biografia funcione, o Quarenta merece a homenagem, mas a coisa começou esquisita. Essa notinha é um equívoco só. O Botafogo jogou aquele jogo de 57, e deu um passeio lendário no Fluminense, sem o Zagalo. O onze alvi-negro formou com Adalberto, Beto, Thomé, Servílio, Pampolini e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Paulinho Valentim, Édson ( e não o Zagalo) e Quarentinha. O técnico era o grande João Saldanha. O Flu, treinado pelo Silvio Pirillo, veio de Castilho, Cacá, Pinheiro, Clóvis, Jair Santana e Altair; Telê, Jair Francisco, Waldo, Róbson e Escurinho.

O outro equívoco da nota é imperdoável e depõe contra a biografia que vem por aí. Chego a dizer que é um crime gravíssimo contra a história pátria e a memória nacional. Quem fez chover naquele jogo não foi o Quarentinha. O autor de cinco gols - um deles, inclusive, de bicicleta - foi o infernal Paulinho Valentim, na maior atuação de um artilheiro na história do Maracanã, quiçá do futebol mundial! O outro gol do alvi-negro foi de São Mané Garrincha. Impressionado com a exibição antológica de Paulinho Valentim, o tricolor Nelson Rodrigues escreveu:

Depois da fabulosa goleada botafoguense, a escolha do meu personagem da semana deixa de ser problema. É Paulinho, só pode ser Paulinho...

Antes do jogo, que mobilizou a cidade, o país e o mundo, o profeta botafoguense Carlito Rocha, ao ser indagado por um jornalista quanto ao prognóstico, declarou que "vira e ouvira Deus, que veio anunciar-me a vitória do Botafogo". Não duvido. O mesmo Carlito, na hora do time entrar em campo, abraçou Paulinho Valentim e disse, feito um Moisés, um Daniel, um João Batista no deserto:

- Hoje você fará uma devastação na defesa adversária.

Eu não era nascido - acho até que em 57 minha mãe ainda era cabaço e meu pai, moleque, era um cavaleiro da ordem de Onan - mas estava, em espírito, lá, nas arquibancadas à direita das cabines de rádio. Por tudo isso, dizer que quem meteu cinco gols naquele jogo foi o Quarentinha, seu Joaquim, é a mesma coisa que afirmar que Napoleão Bonaparte foi um soba africano que comandou os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Eu sei, evidente que sei, que a final de 57 é mais importante que a guerra, mas a comparação procede. Abre o olho, gente boa.