27/09/2007

27 SETEMBRO


Hoje é dia de comer caruru. Axé !

24/09/2007

FRASISTAS DO BRASIL


A história do Brasil é pródiga em frases definitivas. Desde que Pero Vaz de Caminha escreveu a El-Rei Dom Manuel que os índios andavam todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as suas vergonhas , o país inspirou e produziu sentenças espetaculares.

Se ocorresse uma eleição sobre a frase mais famosa, escrita ou pronunciada, da história nacional, eu apostaria em três candidaturas; a primeira, quero crer a favorita, é a famosa resposta de D. Pedro I que deu origem ao Dia do Fico: Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto : diga ao povo que fico.

A segunda, tremendamente sem graça, é a curtíssima conclamação do Duque de Caxias aos soldados do Brasil durante a Guerra do Paraguai: Sigam-me os que forem brasileiros.

A terceira, absolutamente genial, é a frase que consagrou Abelardo Chacrinha Barbosa, o maior comunicador da televisão brasileira em todos os tempos : Vocês querem bacalhau?. É importante ressaltar que, enquanto repetia a máxima, Chacrinha atirava, com violência, dezenas de bacalhaus na platéia, que saia no tapa para conseguir um peixe salgado do velho guerreiro.

Algumas frases merecem entrar para os anais pelo ridículo que expressaram. Como não lembrar, por exemplo, que Juscelino Kubitschek , em visita aos flagelados da seca, em 1957, produziu a seguinte pérola: Esta é a última seca que assola o nordeste. Era um pândego, o Nonô.

O presidente Médici, esse encosto republicano, declarou, em 1972, que a economia vai bem, mas o povo vai mal . Vale lembrar que Médici disse isso quando visitou as vítimas da seca do nordeste.

A declaração de Médici só perdeu, em termos de cinismo, para a frase cretina do ministro da justiça de seu governo, o homúnculo Alfredo Buzaid, que declarou, em 1970, o seguinte: Não há tortura no Brasil. O ministro da justiça do governo Geisel, Armando Falcão, pelo menos cunhou a mínima máxima : Nada a declarar .

A frase mais irônica da história da medicina brasileira foi dita pelo dr. Henrique Pinnoti, médico do Hospital das Clínicas de São Paulo, que operou Tancredo Neves. Disse, após a cirurgia, o dr. Pinnoti : Podem marcar a posse para dentro de duas ou três semanas. Que tal o prognóstico?

Dias depois, foi o porta-voz da presidência, Antônio Brito, que pronunciou a célebre sentença, um pouco distinta da do médico: Lamento informar que o Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Tancredo Neves, faleceu esta noite.

O velho Getúlio Vargas foi, também, frasista inspirado. A melhor de todas, disparada, é a frase pronunciada em 2 de Dezembro de 1930 : Assumo provisoriamente o governo da República. O gaúcho só deixou a presidência quinze anos depois.

Collor de Melo tinha a mania de fazer exercícios com camisas contendo mensagens ao povo brasileiro. A mais hilária, sem sombra de dúvidas, foi a que trazia a sentença não use drogas. Era irônico, o ladravaz. Tempos depois, em completo desequilíbrio, Collor deu uma entrevista a uma revista de sacanagem e afirmou o seguinte : Fiz uma regressão e descobri : - Eu fui D. Pedro I.

O mundo do futebol é repleto de declarações geniais. Claudiomiro, centro-avante do Internacional de Porto Alegre nos anos 70, falou , ao enfrentar o Paissandu de Belém do Pará, que era uma honra jogar na terra em que Jesus Cristo nasceu.

Roberto Dinamite, ao ser perguntado em 1976 se era Arena ou MDB, escolheu a terceira via : Eu sou Vasco da Gama.

Mendonça Falcão, lendário dirigente de antanho, declarou que a viagem da seleção brasileira para disputar a Copa de 1938, na França, seria educativa. Em momento inspiradíssimo, Mendonça disse aos jornalistas que fazia questão de visitar, na ida para a Europa, a linha do Equador, esse importante ponto turístico mundial; será um prazer tocá-la.

Pelé, que afirmou que o brasileiro não sabe votar e dedicou o milésimo gol às criancinhas, confessou a um repórter da Playboy: Perdi a virgindade ao comer, com vários amiguinhos, uma cabra.

Nada, porém, se compara ao maior momento da oratória pátria, quiçá mundial. Durante um comício em 1994, na presença de Fernando Henrique Cardoso e Antônio Carlos Magalhães, o prefeito de Porto Seguro, João Mattos de Paula, disse o seguinte:

Acabo de voltar de um centro espírita, onde Pedro Álvares Cabral cumprimentou-me pelo desempenho à frente da prefeitura.

Fico por aqui; não há nada que supere isso. Brasil- sil- sil!

Abraços





23/09/2007

O SER HUMANO TEM JEITO

Gosto de andar de táxi no banco da frente, para ir conversando com o motorista. Há algumas figuras impagáveis que trabalham na praça; gente que tem histórias da rebimboca da parafuseta para contar.
Outro dia fui conduzido por um camarada que viveu, no início do ano, um perrengue dos diabos. Contou-me ele que, ao pegar a Avenida Pasteur, na Urca, foi parado por um senhor grisalho, vestido com impecável uniforme branco. O distinto pediu para ir ao hospital Souza Aguiar. Dava a pinta de ser um médico da melhor qualidade.
No que o táxi desceu o Aterro do Flamengo, melhor caminho para se chegar ao Centro do Rio , o motorista percebeu que estava sendo seguido por um furgão. Para piorar, assim que o carro aproximou-se do monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial , no final do Aterro, o passageiro, até então gentil e pacífico como um periquitinho de realejo, bateu continência e gritou:
- Sentido! Avante! Avante! Repita comigo, motorista. Repita comigo.
Acuado, o taxista foi obrigado a dirigir com uma única mão, enquanto a outra batia continência, conforme as determinações incisivas do transtornado passageiro. O sujeito continuou :
- Agora, paisano, eu vou dizer uns nomes e você, batendo sempre a continência, responde - Presente!
E começou a gritar :
- Marechal Mascarenhas de Moraes; Marechal Zenóbio da Costa; Marechal Cândido Mariano Rondon; Marechal Floriano Peixoto; Marechal Álvaro Costa e Silva... E desfilou uma cacetada de nomes de milicos de alta patente.
Só aí, enquanto respondia presente, o taxista reparou que o furgão que seguia o carro era uma ambulância do Pinel, o hospício da Praia Vermelha.
Numa manobra arriscada, ligou o alerta, diminuiu a velocidade e parou o carro no acostamento. A ambulância do Pinel encostou atrás, já com uns camaradas saltando com a camisa de força. O doido, aos berros, exigia a presença do chefe do Estado-Maior das tropas inimigas para negociar a rendição.
Passado o susto, o taxista foi inteirado da fuga espetacular que o maluco, que roubara o jaleco de um médico, executou. Na hora de entrar na ambulância, o tantã virou-se, recomposto e com modos de um perfeito gentleman, e disse:
- Minhas escusas, motorista. O ataque frontal das colunas inimigas impede que eu honre agora meus compromissos e pague pelo serviço o preço justo. Decorei, porém, a placa do seu veículo e farei o possível para quitar, em futuro próximo, a dívida que contraí. Fique tranquilo.
Três semanas depois o motorista recebeu, pelo correio, um envelope com o dinheiro da corrida e uns caraminguás como gorjeta.
A honestidade do lelé, e repito aqui as palavras do taxista, é a prova de que o ser humano tem jeito.
Abraço

22/09/2007

E O GLOBO SEMPRE FOI ASSIM !

Editorial do jornal O Globo, do dia 6 de janeiro de 1954, citado pelo mestre Nei Lopes em seu recente e fundamental livro "O Racismo explicado aos meus filhos" :
"A princípio foi moda, e talvez ainda o seja, considerar a macumba como uma manifestação pitoresca da cultura popular, à qual se levam turistas e visitantes ilustres, e que era objeto de reportagens e notícias nas revistas e nos jornais, bem como de romantizações literárias. Isso deu ao culto bárbaro de orixás e babalaôs um prestígio que de outro modo não poderia ter e o fez propagar-se das camadas menos cultas da população para a classe média e empolgar até pessoas das próprias elites. É essa infecção que queremos apontar com alarme. É essa traição que queremos denunciar com veêmencia. (...) É preciso que se diga e que se proclame que a macumba, de origem africana, por mais que apresente interesse pitoresco para os artistas, por mais que seja um assunto digno para o sociólogo, constitui manifestação de uma forma primitiva e atrasada da civilização e a sua exteriorização e desenvolvimento são fatos desalentadores e humilhantes para nossos foros de povo culto e civilizado. Tudo isso indica a necessidade de uma campanha educativa para a redução desses focos de ignorância e de desequilíbrio mental, com que se vêm conspurcando a pureza e a sublimidade do sentimento religioso."
É, meus amigos, eis aí o chocante editorial d´O Globo que o mestre Nei Lopes citou. Esse mesmo jornal, vejam como são as coisas, é hoje o principal veículo de divulgação das idéias de Ali Khamel, o jornalista que recentemente publicou o livro "Não somos racistas", defendendo a tese de que nunca houve discriminação racial por essas bandas. Quem te conhece que te compre.
É lendo esse tipo de coisa que me convenço cada vez mais que o Brasil foi capaz de produzir, ao longo de sua história, uma das elites mais rasteiras e sem-vergonhas do mundo. Esse pensamento mesquinho, discriminatório e abjeto continua vivo, podem ter certeza; é só ler a grande imprensa brasileira em 2007.
Que nossos tambores batam cada vez mais alto.

21/09/2007

QUEM É A MUSA DO CANSEI?

Hebe Camargo estava na " marcha da família com Deus, pela liberdade " ? É uma curiosidade que tenho. Sempre que falo da manifestação que reuniu, em março de 1964, os segmentos conservadores da sociedade para rogar a Deus, e aos milicos, evidentemente, pela queda do presidente João Goulart, sou assombrado pela idéia de que a Hebe, com um gigantesco par de óculos escuros, era uma das pontas-de-lança do evento. Não imagino a marcha sem a Hebe; é isso.
O tal do movimento Cansei, organizado pela ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, teve em Hebe uma presença das mais significativas. Indignada com os desmandos da classe política, a Xuxa da terceira-idade botou pra quebrar. Cantou o hino nacional, exigiu respeito aos homens de bem, chorou pelas vítimas do desastre da TAM e, no frigir dos ovos, apresentou-se como uma brasileira revoltada com a corrupção do governo Lula. Respaldada pelo passado malufista, que lhe dá credenciais éticas inquestionáveis, Hebe tornou-se uma espécie de musa do movimento.
Disse que a Hebe é a musa do Cansei e tenho que corrigir. A cantora Ivete Sangalo, a atriz Regina Duarte e a apresentadora Ana Maria Braga estavam presentes; igualmente indignadas. Agnaldo Rayol, garoto-propaganda do banco Cacique - uma espécie de instituição de agiotagem contra idosos - cantou o hino nacional e, em virtude do cabelo acaju, entra também como candidata a musa do movimento.
(Como posso cometer esse lapso? A cantora Wanderlea, que eu imaginei estar enterrada no cemitério da Consolação desde meados dos anos 70, também estava lá. É candidata a musa, portanto.)
O padre Antônio Maria não me parece ser uma musa ideal. O religioso, cujo ápice da carreira sacerdotal foi celebrar a união de Ronaldo Fenômeno e Daniela Cicarelli no castelo de Chantilly, na França, usa uma batina que esconde as curvas que poderiam, ou não, cotá-lo como a tetéia do Cansei. Antônio Maria, que também é cantor - gravou com Roberto Carlos uma canção em homenagem a Nossa Senhora - , pode almejar, no máximo, o título de garota-verão da opus dei. Tem o meu voto.
Parece que o tal do Cansei não mobilizou muita gente. Acho que a solução para os organizadores do evento, e vai aqui uma sugestão gratuita, é pedir ao Nizan Guanaes que bole alguma coisa para atrair a população. Minha dica é investir no concurso da musa do movimento, com apresentação no palanque e tudo mais. Com direito a desfile de biquini e trajes típicos , evidentemente.
Abraço

18/09/2007

A DISPUTA



Na época em que Collor de Melo foi presidente do Brasil, eu insistia em aprender francês. Era um esforçado e incompetente aluno da Aliança Francesa, incapaz de exercitar o biquinho necessário para falar a língua de Michel Platini, Napoleão Bonaparte e Madame Pompadour. A turma contava com a presença de uma argentina, Beatriz, excelente aluna e belíssima portenha, diga-se em nome da verdade. Depois que abandonei a Aliança, nunca mais vi a moça.

Com ela, a argentininha, fiz uma aposta inusitada. Ganharia um jantar quem provasse ter o presidente da República mais patético. Eu me sentia um vitorioso evidente, já que é difícil pensar em algo pior que Collor. Ela, porém, apostava todas as fichas no grotesco Carlos Menem, o Kid Costeleta. O embate foi marcado pelo equilíbrio entre os oponentes.

Do lado de cá, Collor estava impossível. Andou de jet-sky, pilotou aviões de caça, dirigiu uma Ferrari a 250 quilômetros por hora, jogou futebol com a seleção brasileira, fez um safari na Amazônia, mergulhou de escafandro em Fernando de Noronha, deu entrevistas coletivas durante corridas matinais, dançou um quarup no Xingu, lutou karatê com câmeras de televisão e retomou a cerimônia de subida da rampa do Planalto, um hábito nos tempos de JK, abandonado desde o primeiro governo militar.

O presidente, ao lado da primeira-dama, Rosane Collor - irmã do famoso Joãozinho Malta, o Búfalo Malta, um sujeito com cento e tantos quilos que se envolvia semanalmente em tiroteios e cenas de pugilato - inovou ao convidar personalidades de diversas áreas para participar da subida da rampa. Quero crer que isso deu início a uma espécie de maldição; quem subiu a rampa com Collor, morreu algum tempo depois.
A lista dos defuntos é imensa, inclui, por exemplo, Zacarias, Mussum, Ayrton Senna, os cantores sertanejos Leandro e João Paulo, o jogador Denner, Dedé Santana (minha mulher afirma que Dedé está vivo; não acredito de jeito nenhum ) , o apresentador de televisão Edson Bolinha Cury e, para minha tristeza, o Macaco Tião, transportado numa jaula para Brasília, num cargueiro da Força Aérea Brasileira. Dos que citei, Tião é o único que considero uma perda para o país.

É difícil escolher o momento mais constrangedor da gestão Collor. Suponho que tenha sido o dia em que o presidente chegou ao Palácio do Planalto ao lado de duplas sertanejas, índios e atores infantis, enquanto a banda marcial dos Dragões da Independência tocava, durante o hasteamento da bandeira nacional, a canção Pense em mim; uma que começava com um incompreensível " em vez de você viver pensando nele; em vez de você viver chorando por ele...". Dona Rosane, uma espécie de pomba-gira do sertão, cantava visivelmente emocionada; desconfio que não soubesse, todavia, cantar o hino nacional.

Enquanto eu contava vantagem sobre o ridículo que caracterizava Collor, minha amiga propagava os feitos menemistas. O argentino pintou as costeletas de acaju, jogou basquete - Menem mede, no máximo, um metro e meio - com uma faixa na cabeça, andou de bate-bate em parques de diversões, recebeu a Xuxa na Casa Rosada, levou um poodle numa cerimônia oficial e participou de um programa de televisão em que, num certo momento, desceu de escorrega numa piscina de piche e, logo depois, mergulhou num barril cheio de penas de galinha.

Menem chegou a dar uma entrevista ao apresentador brasileiro Gugu Liberato, na qual aprendeu os passos coreografados da "dança do passarinho". Collor também compareceu ao Show do Gugu e cantou Galopeira com um astro juvenil da música sertaneja, fantasiado de caubói, cujo nome me escapa. O rapaz dava um agudo que durava cinco minutos; Collor tentou acompanhá-lo e quase morreu sufocado.

Não houve vencedor na aposta que fizemos. Era impossível escolher o pascácio-mor. Aliás, até mesmo em termos de rapinagem Collor e Menem empataram; os dois governos terminaram deslocando-se das páginas políticas dos jornais para a crônica policial.

Encerro esse arrazoado com uma notícia impressionante que recebi neste minuto; Dedé Santana está vivo , é pastor evangélico de uma igreja neo-pentecostal e, como esclareceu o Bemoreira-Ducal nos comentários ao texto (vejam lá) , está fazendo um programa humoristico com Beto Carreiro. Cáspite! Que saudades do macaco Tião.

17/09/2007

COMEÇOU A BIENAL

A bienal do livro começou. Já houve uma homenagem ao falecido humorista Bussunda, debate sobre Cabul e a literatura, lançamentos de livros sobre amizades entre homens e cachorros e loas a Ariano Suassuna, que corre o risco de se tornar uma espécie de Dercy Gonçalves da literatura brasileira. O editor Paulo Rocco declarou que a bienal é pop. A filha de Dias Gomes, uma gótica que namora um estilista andrógino, lançou um livro sobre suas angustias e experiências com drogas no submundo do rock. Jogadores de volei lançarão uma obra de auto-ajuda, para mostrar como a busca do eu interior melhora o desempenho do atleta. Houve palestras e debates com Zuenir Ventura, João Ubaldo Ribeiro e Nelson Motta. Ziraldo autografou um livro infantil e atraiu milhares de crianças. O ex-compositor Chico Buarque promete visitar o evento. As tendas das editoras evangélicas esperam atrair 90.000 visitantes. Aguarda-se alguma surpresa relacionada ao centenário de dona Canô, a mãe de Caetano. Joaquim Ferreira dos Santos falará sobre tipos cariocas. Diante dessas novidades, os amigos e inimigos já sabem onde não me encontrar de jeito nenhum esta semana.
Abraços.

14/09/2007

CABELEIRAS






O bicheiro Capitão Guimarães, ex-presidente da LIESA - Lavanderia Independente das Escolas de Samba, apresenta-se como um empreendedor da maior honestidade, daqueles empresários que pagam impostos e colaboram com o crescimento do Brasil. Tem cabelos mais negros que as asas da graúna; de vez em quando aparece com a cabeleira acaju.
O Dr. Alberto Dualib, presidente licenciado da lavanderia Sport Club Corinthians Paulista, declarou-se estupefato com a notícia de que a máfia russa, representada no Brasil pelo playboy iraniano Kia Jorabichona, usou o futebol do clube para limpar dinheiro e realizar uma pá de falcatruas. Apesar de esclerosado, com quase cem anos, porta ainda vastíssima e respeitável cabeleira; ora negra, ora acaju. Eu, uma vítima de erosão capilar desde tenra idade, fico abismado com a fartura das madeixas do comandante da nau do Parque São Jorge.
A pergunta é: - qual deles, Guimarães ou Dualib, tem a cabeleira mais parecida com a de Agnaldo Rayol, atual garoto-propaganda do Banco Cacique, instituição que empresta dinheiro aos idosos ? Invejoso das jubas naturalíssimas da venerável trinca, preciso descobrir.






13/09/2007

A NOVA PRAGA DAS ESTRADAS


Uma praga invadiu as estradas brasileiras nos últimos anos; os caminhoneiros de Cristo. Recentemente fui a Teresópolis e reparei a grande quantidade de caminhões com mensagens evangélicas nos pára-choques. Devo ter lido umas quinze vezes o tradicional "Pertence a Jesus"; outros vinham com coisas como "Cristo me guia no caminho", "Guiado por mim, dirigido pelo Senhor", "Senhor Jesus, tome conta do teu rebanho nas estradas", "É teu, Rei dos Reis, meu caminhão", e por aí vai. Uma lástima.

Essa evangelização rodoviária é criminosa, já que representa a morte da tradição, brasileiríssima, da frase de pára-choque. Era fabuloso viajar observando as máximas que os caminhões ostentavam; sentenças politicamente incorretas sobre mulheres, sogras, dinheiro, política, amizades e uma pá de outros temas. Mais que simples brincadeiras, as frases continham verdadeiras pérolas da cultura popular. Leiam alguns exemplos que garimpei entre amigos :


- Restaurante que serve farofa não liga ventilador de teto.

- Esperta é a mulher do saci, que toma um pé na bunda e quem cai é ele.

- Se dinheiro fosse merda eu nasceria sem cu.

- O homem que diz que as mulheres são frígidas tem má língua.

- Em briga de saci ninguém dá rasteira.

- A cal é virgem porque o pincel é brocha.

- Aqui jaz minha sogra; descanso em paz.

- Se ruga fosse velhice meu saco era pré-histórico.

- A primeira ilusão do homem começa na chupeta.

- Se a onça morrer, o mato é nosso.

- A mulher foi feita da costela, imagine se fosse do filé.

- Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras.

- Marido de mulher feia tem raiva de feriado.

- Champanhe de pobre é sonrisal.

- Coceira de rico é alergia, coceira de pobre é sarna.

- Criança e tamanco, só se faz com pau duro.

- Em baile de cobra, sapo não dança.

- Quem dorme com morcego acorda de cabeça pra baixo.

- Gato que levou tijolada não dorme em olaria.

- Merdas cagadas não voltam ao cu.

- Pobre que sente cheiro de flor pergunta onde é o velório.

- O diabo não se casou e Cristo morreu solteiro.


Esses ditados, poucos num universo de milhares, são dotados de uma auto-ironia repleta de sarcasmo, bom-humor e sacanagem. Sem autores conhecidos, as sentenças de caminhões consagram o artista popular com o maior prêmio que um criador ousa alcançar; o completo anonimato. O que mais pode pretender um sujeito além de se diluir nos costumes de seu povo, como se as frases existissem desde tempos remotos?

É por isso que, puto dentro da roupa, protesto contra os caminhoneiros de Cristo, esses verdugos da cultura das estradas, politicamente corretos, mal-humorados, chatos e intolerantes. Tivesse eu um caminhão, escreveria conforme me contaram que leram, dia desses, no pára-choque de uma lata velha cheia de dignidade :

- Jesus pode te amar, mas eu te acho um babaca.


07/09/2007

QUE INDEPENDÊNCIA ?

O Brasil não é para principiantes. Acompanhem, por exemplo, esta pequena lista de eventos tresloucados:
- A independência foi feita por um português;
- A República foi proclamada por um monarquista;
- A revolução contra as oligarquias (1930) foi feita pelas oligarquias;
- O presidente da redemocratização de 1946 foi o ex-ministro da guerra da ditadura do Estado Novo;
- O presidente da redemocratização de 1985 foi Sarney, ex-presidente da ARENA, o partido da ditadura militar;
- A ARENA, essa excrescência dos tempos do autoritarismo, sigla lambe-botas dos generais ditadores, mudou de nome e passou a se chamar Partido Democrático Social (PDS). O PDS deu origem ao Partido da Frente Liberal (PFL) que agora, e só pode ser sacanagem, atende pelo nome de Democratas (DEM).
É piada ou não é?
Não é piada. Há, quero crer, uma explicação para essa maluquice toda. O Brasil tem uma elite que nunca se caracterizou pela consistência ideológica de suas posições. O que mobiliza a elite brasileira, desde pelo menos a independência, é o desejo de manutenção do poder. O português rompe com Portugal, o monarquista vira republicano, o oligarca rompe com as oligarquias e o ditador vira democrata porque a necessidade de manutenção do poder assim exige.
É triste constatar que a independência do país não trouxe qualquer alteração de ordem social; a escravidão foi mantida, o latifúndio foi preservado e adotou-se o voto censitário, restringindo a participação política aos possuidores de renda. A República, por sua vez, foi proclamada com o apoio de senhores de escravos que romperam com a Monarquia após a lei Áurea, enfurecidos porque perderam seus negros e não foram indenizados pelo Império.
O que dizer, por exemplo, da cara de pau de gente como Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, entusiastas da ditadura militar que, quando viram que a vaca fardada estava atolando no brejo, transformaram-se em convictos democratas, numa das maiores piadas da história recente do país? Sarney e ACM mereciam ganhar o troféu óleo de peroba republicano, para lustrar suas respectivas carantonhas.
Tenho, por exemplo, a convicção de que se, nos anos sessenta, o Brasil fizesse uma revolução comunista vitoriosa e adotasse um modelo pró- União Soviética, Sarney seria um revolucionário de primeira hora. Deixaria o bigode mais parecido ainda com o do camarada Stalin e passaria a utilizar o nome político de José Sarnovisk. Antônio Carlos Magalhovisk também estaria nessa onda vermelha. Este último, inclusive, já deve ter mexido seus pauzinhos e não duvido nada que esteja ocupando um altíssimo posto no reino do pé de bode, nas profundas, onde atualmente se encontra. Te cuida, demônio, que o homem ainda vira pelo menos primeiro-ministro do inferno.
Digo tudo isso para, finalmente, revelar minhas intenções modestas com esse arrazoado. Hoje, 7 de Setembro, é o aniversário de uma das independências mais insignificantes que a América conheceu; a nossa.
Não me comovo minimamente com o grito do Ipiranga, os arroubos do Imperador, o dia do fico ou coisa que o valha. A independência, da maneira como foi alcançada, não engrandece a nossa história. As elites que apoiaram D. Pedro fizeram de tudo para articular um processo de libertação quase clandestino, excluindo as camadas populares e os setores urbanos mais radicais. O negócio era romper com Portugal preservando a estrutura social vigente, escravocrata e fundada na concentração de terras. A velha história de que é necessário mudar para que tudo permaneça como sempre foi.
É por isso que a data é incapaz de comover especialmente o povo do Brasil. Como comemorar um processo desses, em que um português dá um grito quase clandestino nas proximidades de um riacho obscuro, se transforma em Imperador e tudo continua como dantes no quartel de Abrantes? Não dá.
Temos um tremendo desafio. Como transformar o país, se a elite tem a característica histórica de se adequar a qualquer desejo de transformação e comandar o processo de mudanças para, no fundo, evitar que as mudanças ocorram? É por isso que, ao observar algumas características do atual governo, me dá uma certa desesperança.
Sarney é figura querida no Palácio do Planalto, Delfim Neto é consultado em relação aos rumos da economia, o presidente Lula nomeia o reacionário da Opus Dei Carlos Alberto Direito para Ministro do Supremo Tribunal, Valdir Pires é substituído no Ministério da Defesa pelo fanfarrão Jobim, Romeu Tuma Filho assumirá cargo importante na segurança pública e Henrique Meirelles é presidente do Banco Central.
Quando lembro disso, não sai da minha cabeça a imagem de um português sendo aclamado Imperador do Brasil, sob aplausos entusiamados dos senhores de escravos e grandes latifundiários. Os donos das terras, chibatas e pelourinhos , com a artimanha de se transformar no que é conveniente, estão no poder até hoje. Urge proclamar, de fato, a Independência, maiúscula, definitiva e popular.
Abraços

04/09/2007

É NECESSÁRIA !

O Ministério da Educação estabeleceu, faz algum tempo, a obrigatoriedade de se estudar nos programas do ensino médio no Brasil a História da África e da cultura afro-brasileira. É um avanço, mas é pouco.
Afirmo, com conhecimento de causa, que os programas de História do ensino médio continuam sofrendo de um mal difícil de curar; a visão marcadamente eurocêntrica da História que é ensinada aos brasileiros. Passamos aulas e aulas falando dos Estados Modernos europeus, das grandes navegações , do humanismo, das reformas religiosas, das revoluções liberais e de uma penca de temas que tomam o velho mundo como referência de análise.
Não consigo conceber, por exemplo, que se estude detalhadamente a revolução inglesa do século XVII e não se estude com esmero a grande revolução mexicana de 1911, marco fundamental da luta pela terra na América Latina. Não entendo como se pode jogar conversa fora em detalhes absolutamente irrelevantes sobre a revolução francesa - há professores capazes de descrever a cor da cueca que Robespierre usou na abertura da Convenção - e ignorar completamente a intervenção norte-americana na Guatemala em 1954, durante a presidência do líder nacionalista Jacobo Arbenz, mártir da reforma agrária em nosso continente.
Outro dia comentei com uma turma que a copa do mundo de 2014 será, provavelmente, no Brasil. Disse que somos os únicos candidatos a sediar o evento, já que a Colômbia, que era pré-candidata, desistiu da empreitada. Alguns alunos exclamaram coisas como: - mas a Colômbia, também, não tem a menor condição... Imediatamente chamei a atenção dos garotos sobre os comentários infelizes. Da mesma maneira como eles fazem pouco caso da Colômbia, reação semelhante devem ter, por exemplo, estudantes franceses quando sabem que a Copa poderá ser no Brasil.
Cito este pequeno episódio como um exemplo de um problema que me parece da maior seriedade; estamos formando gerações de brasileiros incapazes de perceber as peculiaridades de um Brasil que é afro-íbero-ameríndio. Falta a esses garotos algo que chamo de pertencimento. É necessário que cada um deles se sinta pertencendo ao Brasil, a África e a América Latina. Não concebo que um jovem brasileiro consiga se identificar com um jovem norte-americano, inglês ou australiano e, ao mesmo tempo, olhe com tremendo estranhamento um boliviano, um guatemalteco, um costa-riquenho, um colombiano, um venezuelano, um angolano, um nigeriano, um cabo-verdiano, e por aí vai. É essa a perversidade de um sistema que diferencia as pessoas onde elas deveriam ser iguais - o campo da economia - e as iguala como gado marcado onde elas deveriam exercer plenamente suas diferenças - o campo da cultura, entendido aqui como um espaço de elaboração de símbolos e sentidos para a vida.
É moda agora, entre as famílias mais abastadas, enviar os filhos para fazer intercâmbios culturais nas oropas ou nos esteites. Valha-me Deus! Que eu saiba, intercâmbio é troca de informações. Sejamos sinceros; que informações os garotos vão trocar, se cada vez menos conhecem a própria cultura? Os intercâmbios colaboram, apenas, para que mais e mais brasileiros percam as referências da terra de origem e adquiram costumes e hábitos dos povos do hemisfério norte. Esses jovens já saem daqui contaminados pelas referências dos dominadores e, apenas, aprofundam essa tendência. Estamos formando uma elite que domina com fluência o inglês mas é incapaz de entender uma mísera linha escrita por Guimarães Rosa.
A moda agora entre a garotada é passar o tempo ouvindo músicas em seus i-pods. Não há um intervalo em que eu não veja um bando de alunos com aqueles aparelhinhos safados nos ouvidos. Só por curiosidade, resolvi observar o que alguns escutavam nesses troços. Fiz uma rápida pesquisa. Pasmem. Para cada música cantada em português, eles ouviam, em média, umas cinco porcarias em inglês. Só me resta constatar que a coisa está feia.
Como sou um antigo, continuo acreditando firmemente na existência da luta de classes. Me parece muito claro que, nos dias de hoje, o campo em que a luta de classes é travada com mais afinco é exatamente o terreno de bens simbólicos e manifestações culturais. É aí que estamos perdendo a partida. Quando incorporamos, como se fossem nossos, símbolos e referências culturais de quem nos domina, estamos fadados a desaparecer como projeto de nação. Mais do que nunca, precisamos hoje de guerrilheiros culturais; tinhorões, quixotes, suassunas, zumbis, dandaras, guevaras, zapatas, arbenz, cunhambebes, aimberês e sepés que digam não a tudo isso.
Enquanto o Brasil continuar insistindo num sistema educacional que nega quem somos e, portanto, não permite a elaboração da utopia sobre o que pretendemos, soberanamente, ser, a tarefa da transformação será bem mais difícil. Mas não podemos desistir . Vale, na hora em que bate a desesperança, recordar a lição do Che, antídoto ideal contra o conformismo : - não se luta pela revolução porque ela é possível; se luta porque ela é necessária.
Abraços.

03/09/2007

UM FENÔMENO ELEITORAL

Não sei qual é o título adequado para definir um especialista em rinocerontes. Sei apenas que eles, os especialistas, afirmam ser possível distinguir um rinoceronte asiático de um africano com grande facilidade. Passo o macete ; o rinoceronte asiático tem apenas um chifre, enquanto seu similar africano tem dois.
O rinoceronte mais famoso do Brasil foi africano. Refiro-me, evidentemente, ao lendário Cacareco, filho dos rinocerontes Britador e Terezinha e atração do zoológico do Rio de Janeiro durante a década de 1950.Acontece que Cacareco, uma flor de rinoceronte, foi emprestado ao zoológico de São Paulo em 1958 e causou tremenda celeuma entre as duas cidades. Fascinados pelo cascudo animal, os paulistas iniciaram a campanha "fica, Cacareco" , para impedir a volta do astro ao Rio. Cá pelas bandas de São Sebastião, paulistas foram ameaçados de morte caso nosso rinoceronte não voltasse ao aconchego do lar. Fala-se até que alguns cariocas enfurecidos, membros de uma organizada do Flamengo, prepararam um mirabolante plano de resgate do gigantesco mamífero.
A polêmica sobre a volta do rinoceronte coincidiu com a realização de eleições para a Câmara de Vereadores de São Paulo. Logo, a cidade começou a ser coberta com pichações e cartazes que lançavam a candidatura de Cacareco para vereador. O mote da campanha era a conduta moral de Cacareco, incapaz de cometer qualquer deslize ético, enquanto a Câmara de Vereadores estava mergulhada em denuncias de corrupção.
Apesar de ter voltado ao Rio em 1959 - foi recepcionado com carreata na Dutra e recebido no zoológico com honras de chefe de Estado - Cacareco foi o maior fenômeno eleitoral do pleito paulista. Tornou-se o vereador mais votado da cidade de São Paulo , com aproximadamente 100 mil votos. A quantidade seria suficiente, inclusive, para uma confortável eleição para a Câmara Federal.
A surpresa maior, entretanto, foi revelada depois. Impedido de assumir legalmente a cadeira de vereador - não tinha residência fixa em São Paulo - Cacareco foi submetido a uma bateria de exames no Rio que provaram que o bravo rinoceronte... era uma fêmea. Isso mesmo, senhores, Cacareco era mulher.
Confirmada a chocante informação sobre a sexualidade de Cacareco, a rinoceronte caiu em desgraça na viril cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e foi emprestada ao distante zoológico de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Um triste fim, admitamos. Lamento apenas não poder informar aos amigos como se identifica o sexo de um rinoceronte.
(Enquanto escrevo esse arrazoado, sou informado que esses imensos mamíferos perissodátilos, os rinocerontes, estão ameaçados de extinção. Chocado com a possibilidade, ouso sugerir que o zoológico do Rio faça algum tipo de homenagem ao Cacareco durante as comemorações pelos duzentos anos da chegada da Corte à cidade, em 2008. Cacareco, inclusive, lembrava fisicamente D. João VI - é quase impossível distinguir um do outro. Fica a dica.)
Abraços