30/08/2007

O DEFENSOR DAS LIBERDADES


Recebi outro dia uma ligação de uma funcionária do setor de vendas do jornal O Globo. Muito educada, perguntou se eu não gostaria de aproveitar uma sensacional promoção; por uns caraminguás eu assinaria o jornal e ganharia a revista Época. Recusei prontamente.

Hoje de manhã comprei O Globo numa banca e li o jornal, enquanto esperava numa monstruosa fila de cartório a hora de abrir uma firma. A leitura me fez ver que, de fato, não tenho a menor condição de assinar um negócio desses.

O editorial da edição produz verdadeiras pérolas sobre o livro com o balanço dos trabalhos da Comissão de Mortos e Desaparecidos e da Secretaria de Direitos Humanos do governo federal sobre as vítimas do período da ditadura militar. Destaco alguns trechos:

Saradas as feridas de um período nada edificante da história recente do país, a ninguém interessa esse tipo de iniciativa, potencialmente capaz de produzir tensões e irritar tecidos sociais ainda sensíveis.

O pior que poderia acontecer, nessa altura da vida nacional , é a reabertura da discussão sobre algozes e vítimas dos porões da ditadura militar. Essa é uma ferida a se deixar cicatrizada(...)

Alguns setores, com razão, criticam o fato de não se ter tido a mesma preocupação em relação aos militares que foram vítimas de grupos armados de esquerda.

Quer dizer então que não podemos abrir a caixa preta do regime autoritário porque isso pode irritar tecidos sociais ainda sensíveis? Essa é uma ferida a se deixar cicatrizada? Devemos comprar a versão de que os dois lados cometeram os mesmos delitos e são farinhas do mesmo saco? O Globo acha que engana quem com essa conversa pra boi dormir de defesa da democracia?

O que falta a O Globo é fazer a mea culpa de que ele, o jornal do dr. Roberto Marinho, foi um dos esteios da propaganda do regime autoritário no período mais hediondo da história republicana do Brasil. O Globo precisa, por exemplo, esclarecer a seus leitores que apoiou entusiasticamente o lançamento do AI- 5. Quem torcesse as páginas do jornal no dia 14 de dezembro de 1968, dia seguinte ao lançamento do ato assassino, veria provavelmente sair porra, já que O Globo parecia gozar diante da notícia de que o miserando ato institucional tinha sido editado. O mesmo jornal que hoje se apresenta como defensor do estado de direito e se refere a Fidel Castro e Hugo Chaves como ditadores é o orgão que recebeu inúmeros benefícios publicitários durante o governo militar instaurado em 1964 e ganhou de presente uma concessão de rede televisiva.

A rede Globo de televisão (vade retro) é a mesma que no programa Amaral Netto, o repórter, exibia reportagens laudatórias ao regime e louvava com fervor os feitos do "milagre brasileiro". Amaral Netto chegou a atribuir ao Brasil Grande do ditador médici a força da pororoca do Amazonas.

O Globo, que hoje se apresenta como bastião das liberdades fundamentais, está na linha de frente do novo pensamento reacionário brasileiro, aquele que busca negar a existência de racismo no Brasil e quer varrer para debaixo do tapete as mazelas de 1964, em nome de uma ampla reconciliação que cicatrize as feridas de um passado que deve ser esquecido. Esqueçam a história, é o que sugere o jornal. Eu, pobre professor da matéria, devo fazer, quem sabe, um curso de jardinagem para conseguir emprego cuidando das orquídeas da família Marinho.

Com sublime cara de pau, o jornal publicou recentemente uma série de reportagens sobre brasileiros acuados pelo tráfico que vivem num regime de terror similar aos tempos da ditadura. Faltou ao jornal, em nome da verdade, deixar claro aos leitores que apoiou desde a primeira hora o regime de terror instaurado após a queda do presidente João Goulart. Que imagem é essa que o orgão oficial do autoritarismo de direita pretende construir? Posso até sugerir o teor da notinha: - O Globo avisa que condena o tráfico de drogas mas que, em virtude das radicalizações do período, apoiou o golpe de 1964 e a prática sistemática de torturas e assassinatos políticos no Brasil.

Daqui, abrindo a primeira gelada às margens do rio Maracanã, confesso que aguardo, ansioso, o ano de 2014. O Globo tem uma série que rememora as notícias que o jornal dava cinquenta anos antes. Eu, como acho que lembrar é sempre importante para se construir um futuro mais digno, quero ler o que o jornal falou sobre a marcha da família com Deus, o comício da Central do Brasil e a queda do presidente Jango. Vai ser interessante rememorar o que O Globo fez e como se comportou naqueles dias sinistros.

O que O Globo quer, quando sugere que esqueçamos de 1964, é dar uma de vampiro que se candidata a funcionário de banco de sangue. Alguém acredita na nova face do morto-vivo?

Abraços

29/08/2007

UMA MISSÃO DE ESTADO

Tenho pena do Imperador D. Pedro II. Por uma dessas razões de Estado, os conselheiros do Império acharam por bem casar o jovem monarca aos 17 anos de idade. Lá se foi uma legação para a Europa, com a finalidade de encontrar uma princesa disposta a desposar o Imperador de um distante país nos confins do ocidente.
(Imaginem como os europeus encaravam o Brasil. O Conde de Gobineau, o insuportável e racista diplomata francês que serviu no Império e detestou nosso país, chegou a dizer que Pedro II era uma espécie de teutônico que lia as Mil e Uma Noites cercado por macacos.)
Depois de intensa procura, armou-se o casamento do monarca com uma princesa napolitana, a jovem Teresa Cristina. Pedro II recebeu uma foto da futura esposa e gostou do que viu. A princesa parecia ser uma uva; uma, como diria o poeta, flor de formosura - magra, alta e com olhar sedutor. Casaram-se por procuração e só foram se conhecer mais de um ano depois da oficialização do matrimônio, quando Teresa Cristina chegou ao Brasil.
Acontece que, por uma dessas maluquices do protocolo, o navio da Imperatriz chegou no dia 3 de Setembro de 1843 e o cerimonial previa que os esposos só se conheceriam no dia seguinte. Arrebatado, na flor dos 17 aninhos, um apaixonado Pedro II cagou para o protocolo e invadiu, célere, o navio onde Teresa Cristina repousava. Qual não foi a surpresa de Sua Alteza quando se viu diante da mulher mais feia do mundo, uma espécie de rascunho do mapa do inferno. Teresa Cristina era praticamente uma anã - da espécie dos Lumpa-Lumpa - , manca e enorme de gorda.
Chocado, o Imperador não conteve a decepção. Deu as boas-vindas protocolares à Imperatriz, pensou em se atirar n´água e voltou para o palácio, onde trancou-se no quarto aos prantos e chegou a cogitar devolver Teresa Cristina aos napolitanos. Demovido da idéia por sua ama, Pedro II consumou o casamento e viveu com a Imperatriz até que a morte os separou. Tiveram quatro filhos - a mais famosa, a Princesa Isabel, era os cornos da mãe. Dizem que formaram, lá do jeito deles, uma casal feliz.
Abraços

24/08/2007

A FILOSOFIA DO ESTABACO

Tinha eu oito anos de idade quando meu pai me chamou. Não perguntou se eu queria estudar filosofia, medicina ou engenharia, como no samba do Paulinho; apenas me convidou para ir ao Maracanã, o melhor programa do mundo - pelo menos até que descobri, lá pelos quatorze anos, os encantos da rua Alice, puteiro da minha adolescência - de saudosa memória.
O fato é que fomos ao maior do mundo assistir a um Brasil e Uruguai. (Recorro ao livro do mestre Ivan Sotter - Enciclopédia da Seleção - , obra seminal sobre o escrete canarinho, para descobrir que o prélio valia pela Taça Atlântico e foi disputado no dia 28 de abril de 1976.) Não me lembro de absolutamente nada da partida, mas tenho vivas recordações de um monumental arranca-rabo que começou após o juiz encerrar a disputa. Em meio a uma profusão de socos e pontapés, o lateral uruguaio Ramirez partiu em direção a Rivelino, com fúria assassina poucas vezes vista nos gramados. Rivelino deu um pique de velocista para escapar de Ramirez, um negão de quase dois metros de altura. Ao tentar escapar do enfurecido algoz, Rivelino literalmente estatelou-se nas escadas que levavam ao vestiário.
Falo do Rivelino para constatar que, desde então, tenho profundíssimo respeito e solidariedade pelos homens que se esborracham em situações inusitadas. Não sou versado nas escrituras, mas chego a acreditar que, no sermão da montanha, o Nazareno tenha dito qualquer coisa como bem aventurados os que tomam um estabaco, porque deles será o Reino dos Céus. O tombo público - especialmente aquele que não machuca, apenas constrange - tem a dimensão metafísica do frango numa decisão de copa. O homem que escorrega em público fica mais exposto do que se estivesse pelado seis horas da tarde na Rua do Ouvidor, com um abacaxi na cabeça. É isso. O homem em queda experimenta a mais completa nudez; o nu primordial, sem subterfúgios. Ninguém é verdadeiramente humano antes do primeiro estabaco público.
Meu amigo Chico Novello, por exemplo, nos tempos de faculdade caía mais que a tarde feito um viaduto. Novello tomava, em média, cerca de quatro tombos por dia; todos eles espetaculares. O problema é que a frequência de quedas do Chico acabou desmoralizando o próprio ato de cair. O Chico em pé é que era a cena inusitada.
Eu mesmo tomei pelo menos dois tombos de proporções monumentais. Um deles foi em pleno Centro da cidade, quando corria para pegar um ônibus. Ao partir em alta velocidade em direção ao coletivo, não atentei para um hidrante que estava, impertinente, na calçada; o choque, inevitável, resultou numa queda de cinema; preferia, repito, estar pelado. O outro tombo aconteceu na ilha do Fundão, onde caí dentro de um buraco e fui resgatado por valorosos e solidários camaradas que assistiram a cena.
Lembro-me de um colega de colégio, o Lambreta, que caiu durante uma manobra arriscada que fazia no Museu Imperial, em Petrópolis, ao surfar em pantufas, durante um passeio da escola. O tombo colocou em risco o próprio patrimônio da instituição, já que o biltre quase parou dentro do berço que pertenceu à Duquesa de Goiás, filha de D. Pedro I com a Marquesa de Santos. Não bastasse a humilhação do tombo diante das meninas da turma, Lambreta tomou um esporro da tia Sueli e uma ameaça de advertência na carteirinha.
Dia desses testemunhei uma queda fabulosa do Eduardo Goldenberg. Edu estatelou-se na Rio Branco, num sábado pela manhã, ao tentar atravessar a avenida deserta. Uma senhora queda, precisa, clássica, com estilo. Assistir ao Edu, leve como uma pluma, esborrachar-se na Rio Branco como um Dumbo que experimenta o fracasso do vôo, despertou em mim a verdadeira indagação desse arrazoado. Vejam se não é pertinente a dúvida que passo a expor.
Não sei, confesso que não sei, se o tombo é pior para quem cai ou para quem assiste. Serei mais claro. O sujeito que sofre a queda não tem o que fazer; basta erguer-se, desnudo, fragilizado, despido da máscara, e prosseguir a jornada - com a certeza de que algo na vida não será mais igual. ( Nunca mais será igual. O primeiro tombo tem a mesma importância para a formação do caráter que o primeiro porre, a primeira punheta, o primeiro gol, a primeira mamada num peitinho púbere e a primeira audição de um choro do Pixinguinha, de um samba do Noel ou de um baião do Gonzaga. )
Mas, digam-me lá, e a testemunha do esborracho; o que deve fazer? Socorrer a vítima, chorar, ter uma crise de riso, se jogar no chão em solidariedade, chamar a ambulância ou fazer a mais cretina das perguntas - machucou? . Decidir o que fazer ao presenciar um tombo é das dúvidas existenciais mais pertinentes da história humana. Não é o suicídio, como queria o Camus, mas o comportamento diante do tombo alheio que deve ser a questão filosófica relevante da humanidade. O resto é conversa pra boi dormir.
Minha opinião é simples. Acho que a postura correta nesses casos é fingir que não viu a queda acontecer. O sonho de todo sujeito que se esborracha é não ser visto. O comportamento mais humano nesses casos é observar o camarada estatelado e continuar agindo como se nada tivesse acontecido. O sujeito está lá, estirado, na horizontal, em situação vexaminosa, e você age como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Convém até fazer alguns comentários sobre assuntos totalmente despropositados. O camarada cai e você diz : - Rapaz, estou preocupado com a questão da febre aftosa . Ou então, para deixar evidente que não viu, você comenta: - Estava olhando pro céu pra ver se a estrela vésper está se aproximando da beta do centauro, na quadratura do cinturão de Orfeu; aconteceu algo aqui na terra durante minhas observações celestes? Desta forma a vítima fica inteiramente a vontade para relatar, ou não, o incidente.
Enfim, a questão é momentosa e exige indagações mais aprofundadas que não se adequam a este espaço modesto. Por hora, abro a primeira gelada do dia, às margens do Rio Maracanã, a todos os homens e mulheres, anônimos ou famosos, que experimentamos a sensação da queda. Despidos, ridículos, quebrados, ralados e expostos, somos, afinal, os rivelinos que sabem que não adianta tergiversar - quando menos esperamos, um tombo redentor nos restitui ao legítimo papel que nos cabe nesse drama.
Até o próximo estabaco.

19/08/2007

MODAS E TENDÊNCIAS

Poucas coisas são tão misteriosas quanto o mundo da moda. Digo isso porque sou de notória incompetência quando o assunto resvala no universo de vestidos, calças, sapatos, penteados, calcinhas, cuecas ou coisa que o valha. Não entendo patavina do riscado.
Dizem que uma das pioneiras do lançamento de tendência - o termo descolado, ensinam-me , é esse - no Brasil foi Carlota Joaquina, a horrenda esposa de D. João VI. É conhecida a história de que Carlota, e várias outras senhoras e senhorinhas que aqui chegaram com a Corte, pegou piolho durante a travessia do Atlântico. Com a cabeleira infestada, a princesa meteu alguma coisa no cocoruto para matar os bichos (na minha época de piolhos e cabelos, o remédio era o Neocid ou o fumo de rolo com álcool; lembram-se?) e tascou um lenço colorido na cabeça. Ao desembarcar no Rio, Carlota chamou atenção das mulheres cariocas pelo lenço que usava. Não deu outra; o uso do lenço feminino tornou-se coqueluche entre as fêmeas da mui heróica e leal cidade, crentes que estavam adotando a última novidade da moda ibérica.
Já a moda das perucas, características da Europa no Antigo Regime, parece que vem da Inglaterra. Dizem que Elizabeth I, a rainha virgem que era amante de corsários e cavalariços e deu mais que chuchu em pé de serra, perdeu todos os cabelos em virtude de uma varíola contraída aos 21 anos de idade. Para esconder a careca, Sua Majestade tascou um perucão que, em breve, era imitado pela corte britânica e, dali, espalhou-se pelos salões aristocráticos do velho continente. Cáspite!
Não me recordo se, no Brasil, o cantor Ivon Cury, que usava perucas variadas e inacreditáveis, ou Neide Aparecida - a garota propaganda das perucas Lady - chegaram a influenciar a moda tupiniquim. De minha parte, afirmo ter sido uma pena que a rainha inglesa não tenha sido contemporânea da nossa Carmem Miranda, com seus turbantes de quatro metros de altura repletos de bananas, melancias, abacaxis e hortaliças de uma forma geral. Seria uma solução mais digna para a careca de Elizabeth I que aquelas perucas horrorosas que caracterizaram a corte britânica.
Entre a malandragem carioca das primeiras décadas republicanas, um clássico do vestuário era o lenço de seda no pescoço, quase sinônimo da figura do malandro e hoje utilizado com galhardia por Zé Pilintra em terreiros de umbanda e catimbó. A seda, como ensinavam velhos capoeiristas, cega a navalha; o lenço no pescoço tornava-se, portanto, questão de sobrevivência nas rodas de capoeira, onde navalhadas eram tão comuns quanto martelos e rabos de arraia. (A figura do malandro, aliás, foi devidamente espinafrada por Noel Rosa no seu samba "Rapaz folgado", resposta ao samba de exaltação à malandragem "Lenço no pescoço", do também genial Wilson Batista).
O Alberto Mussa, tremendo escritor e grande amigo, sempre de bermuda, camiseta e havaianas, contou-me sobre membros de uma tribo de africanos que, durante as razias do tráfico negreiro, começaram a deformar os lábios para causar horror aos traficantes com sua deformidade e, desta maneira, se livrar da captura e do cativeiro. Pois bem; o que surgiu como mutilação e busca intencional da deformidade se tornou, com o passar dos anos, padrão estético. Tal comunidade, nos dias de hoje, considera a deformação labial um componente importantíssimo da estética de homens e mulheres e acha horrenda a pessoa que não tem aqueles lábios imensos à cacique Raoni.
Eu, é mister confessar, não entendo bulhufas dessa história de moda, tendência ou outras estultices do gênero. Termino, pois, tomando a primeira gelada do dia, às margens do rio Maracanã, em louvor aos garçons do glorioso Rio-Brasília, catedral da cultura carioca do pé-sujo, que trajados com o rigor estético dos trocadores de ônibus de antanho - decerto idéia do estilista Joaquim - parecem, aos meus olhos cariocas, o melhor exemplo do estilo primavera-verão que nossa cidade pede. Os garçons do Gero, se conhecerem o estilo do Deus, uma espécie de maître do R.B., arderão na fogueira da inveja.
Abraços

16/08/2007

UM NOME PROBLEMÁTICO

No início do século XIX, homens vindos de Minas Gerais, liderados pelo Capitão-Mor Manoel José Esteves de Lima, fundaram um povoado na região serrana do Espírito Santo. O povoado chamou-se, desde 1866, São Miguel do Veado, em homenagem ao santo e em referência ao rio Veado, que passa pertinho da localidade. São Miguel do Veado foi distrito de Cachoeiro de Itapemirim e de Alegre, até emancipar-se, em 25 de Dezembro de 1928.
Não se sabe quem foi o autor da ideia, mas o fato é que o município emancipado recebeu o nome, puro e simples, de Veado. Em pouco tempo, e em virtude da maldade e da malícia dos habitantes das cidades vizinhas, a simpática denominação passou a desagradar os habitantes do novo município.
Considerou-se , então, prudente trocar o nome. Veado passou a se chamar Siqueira Campos, em homenagem ao tenente rebelde e líder da marcha dos 18 do forte de Copacabana. Como ainda não havia sido criado, naquele início dos anos 30, o Código de Endereçamento Postal, o valoroso serviço do Correio, para evitar extravio, identificava a cidade como Siqueira Campos, ex-veado.
Acontece que Siqueira Campos, que tinha fama de machão, era o autor de uma frase célebre sobre os políticos da velha República : - Todo político é corno, veado ou ladrão. Imaginem então a revolta dos fãs de Siqueira Campos, morto precocemente, quando souberam do epíteto que o herói do tenentismo tinha adquirido. Tanto atazanaram, com abaixo-assinado, passeata e o escambau, que o nome da cidade mudou novamente. A solução encontrada, admitamos,foi porreta; o município passou a se chamar Guaçuí, que em tupi-guarani significa...veado!
Quem não gostou nada dessa situação foi a concessionária de eletricidade do local, que atendia também a cidade de Alegre e teve que enfrentar tremenda burocracia para trocar de nome. Diante das ameaças de uma população indignada, e cansada de ser sacaneada pelos habitantes de outros municípios, a empresa capitulou, enfrentou a burocracia e abandonou o sensacional nome antigo - Companhia de Eletricidade Alegre-Veado.
Abraços

05/08/2007

AUTOMOBILISMO NÃO É ESPORTE !

Não entendo, definitivamente não entendo, como alguém pode considerar o automobilismo um esporte. Estava dormindo o sono dos justos até bem pouco tempo; o vizinho, entretanto, fez questão de ligar a televisão em altura colossal para assistir a um grande prêmio que o histérico Galvão Bueno está transmitindo. Cáspide!
Tenho que ter um mínimo de coerência. Se execro, por exemplo, as colunas sociais, os bares sofisticados que usam o epíteto de botequins e os desmandos de uma parcela significativa da elite brasileira, não posso vibrar com corridas de automóveis, uma atividade praticada em sua ampla maioria por playboys que se sentem verdadeiros heróis ao entrar numa banheira de gasolina e ficar rodando como uns babacas em alta velocidade, patrocinados por marcas de cigarro e bebidas.
Imaginem isso; alta velocidade, cigarros e bebidas misturadas pela máquina de moer miolos que é a propaganda. Isso não é esporte nem aqui nem na casa do cacete.
Outro dia soube que  Nelson Piquet está frequentando a escolinha do Detran, após cometer toda sorte de atrocidades no trânsito e perder a carteira batendo recordes de multas. A primeira coisa que me causou espanto foi ver que alguns jornais consideraram um tremendo ato de grandeza do Piquet aceitar frequentar a escolinha. Aceitar como ? Ele é réu, cara pálida! Ou faz a escolinha ou dança. Ou será que um ex-piloto deve estar imune ao código de trânsito brasileiro, em virtude de um notório saber? Desde quando um piloto de Fórmula 1 necessariamente sabe dirigir em uma cidade? Esses playboys estão acostumados a correr a 240 km por hora. Deve ser um suplício para um camarada desses andar a oitentinha, como manda a lei em perímetros urbanos.
Escrevi em outra ocasião que acho um desastre, na gestão Juscelino Kubitschek, a opção rodoviarista que o governo fez. Sobretudo porque o rodoviarismo no Brasil não se limitou a representar o sucateamento da malha ferroviária, o abandono de projetos hidroviários ou coisa que o valha. A indústria automobilistica entrou no Brasil com uma estratégia de propaganda destinada a criar o culto do automóvel como símbolo de ascensão social, masculinidade, poder e outras babaquices do gênero. O carro deixa de ser visto como o que de fato é, um meio de locomoção, e adquire a conotação simbólica de um objeto de desejo que qualifica seu possuidor com um status específico.
Eu lamento, por exemplo, que Airton Senna tenha sido elevado à condição de herói nacional. Um sujeito que votava no Maluf, apoiou o Collor, namorou Xuxa e Adriane Galisteu, foi amigo do Galvão Bueno e cuja atividade produtiva era ficar andando de carro em altíssima velocidade pelos circuitos do mundo. Envolveu-se, ainda, naquela patética disputa com Alain Prost, quando em nome do título mundial um tentava mostrar ao outro quem era capaz das maiores cafajestagens. Belo exemplo. Pelo menos, vão me dizer os patriotas de butique, levava o nome do Brasil ao mundo e desfilava com a bandeirinha brasileira após a vitória. Ah, ele também acreditava em Deus, o que pra algumas pessoas - não para mim - é uma qualidade.
Enfim, sei que esse arrazoado vai descontentar a ampla maioria dos poucos leitores que passeiam por esse espaço, já que a Fórmula 1 é , como diria o Galvão com sua voz retumbante e seu patriotismo proto- fascista, uma paixão nacional. Só quero dizer que, em nome da coerência, se não quero que chamem o Belmonte, um bar metido a besta, de botequim, não posso concordar com a ideia de que esses caras que ficam dando voltinhas numa pista em alta velocidade praticam algum tipo de esporte. Inventem outro nome para designar essa brincadeira sem graça de playboys e me deixem dormir em paz.
Abraços [e que o futebol do fim de tarde me redima dessa manhã de motores roncando].

02/08/2007

LIBERTADORES DA AMÉRICA

É um equivoco considerar que não houve guerra no processo de independência do Brasil. O pau comeu entre brasileiros e portugueses em várias partes do território da colônia, especialmente no Pará, no Rio Grande do Sul e na Bahia. Os baianos, por exemplo, comemoram a independência no dia 2 de julho, dia que marcou, em 1823, a vitória definitiva dos brasileiros sobre os soldados da metrópole e os portugueses de Salvador. Há, inclusive, nos candomblés de caboclo, algumas entidades que participaram da Guerra de Independência. Dizem também que Ogum, o senhor da guerra, lutou ao lado dos brasileiros. Canta-se, em alguns terreiros de Umbanda, Caboclo e Encantaria, um ponto que se refere à presença de Ogum no Campo Grande, onde batalhas decisivas pela libertação se desenrolaram:
Ogum foi ao Campo Grande
Ogum se encantou
Ogum foi ao Campo Grande
Ogum guerreou.
Corre com o seu cavalo
Por cima da terra fria
Seu peito é de aço
Sua lança é nossa guia.
Com todo respeito que Ogum - meu pai - merece, confesso, entretanto, que o personagem mais fascinante da Guerra de Independência é, para mim, o corneteiro Luís Lopes, herói da Batalha de Pirajá.
No dia 8 de Novembro de 1822 houve uma sangrenta batalha que marcou nossa guerra de libertação. Os brasileiros, encurralados no alto de uma colina próxima ao mar, resistiram com bravura ao cerco português, que se estendeu por cerca de 5 horas. Após exaustivos combates, os portugueses começaram a romper nossas linhas de defesa. O comandante das tropas brasileiras, descrente das chances de vitória, mandou o corneteiro Luís Lopes tocar a retirada. Apavorado com a situação, o atrapalhado corneteiro se confundiu e soprou o toque de "cavalaria avançar". O comandante quase teve uma síncope.
Os portugas não entenderam patavina. Imaginaram, então, que os brasileiros tinham recebido milhares de reforços e ficaram acuados. Lopes, percebendo a vacilação nas tropas alfacinhas, descacetou de vez e tocou, para desespero do comandante, o "cavalaria, degolar". Em pânico, diante da aparente supremacia do Brasil, os portugueses debandaram pelas encostas. Os brasileiros, estimulados pelo alucinado corneteiro Lopes, foram pra cima dos inimigos. Convictos de que milhares de brasileiros vinham degola-los, os portugas embarcaram apavorados em navios lusos ancorados nas praias de Itacaranha e Plataforma.
Foi por isso que, em minha recente viagem à Argentina, travei um diálogo com um portenho dono de uma bodega da Boca sobre a nossa independência. Estava o argentino argumentando que os clubes brasileiros não deveriam disputar a Copa Libertadores da América, já que a independência, feita por um príncipe português, não teria o caráter marcial da libertação dos paíse hispânicos.
Já entusiasmado por litros de Quilmes, mandei na lata do biltre, num portunhol infernal:
- Nosotros tenemos nuestro Libertador. Tenemos un San Martin, um Bolivar. El corneteiro Lopes, herói maior de nuestra independência.
O conterrâneo do Maradona recuou mais rápido que as tropas portuguesas, diante da convicção com que comparei nosso corneteiro ao General San Martin. E olha que nem lancei mão do definitivo argumento; a participação de Orixás e caboclos na luta pela liberdade do Brasil.
Acendo, por tudo isso, uma vela no altar da pátria ao corneteiro Lopes, homem do povo e personagem marcante da nossa libertação.
Cavalaria, avançar! Ogum Iê !