O DEFENSOR DAS LIBERDADES

Recebi outro dia uma ligação de uma funcionária do setor de vendas do jornal O Globo. Muito educada, perguntou se eu não gostaria de aproveitar uma sensacional promoção; por uns caraminguás eu assinaria o jornal e ganharia a revista Época. Recusei prontamente.
Hoje de manhã comprei O Globo numa banca e li o jornal, enquanto esperava numa monstruosa fila de cartório a hora de abrir uma firma. A leitura me fez ver que, de fato, não tenho a menor condição de assinar um negócio desses.
O editorial da edição produz verdadeiras pérolas sobre o livro com o balanço dos trabalhos da Comissão de Mortos e Desaparecidos e da Secretaria de Direitos Humanos do governo federal sobre as vítimas do período da ditadura militar. Destaco alguns trechos:
Saradas as feridas de um período nada edificante da história recente do país, a ninguém interessa esse tipo de iniciativa, potencialmente capaz de produzir tensões e irritar tecidos sociais ainda sensíveis.
O pior que poderia acontecer, nessa altura da vida nacional , é a reabertura da discussão sobre algozes e vítimas dos porões da ditadura militar. Essa é uma ferida a se deixar cicatrizada(...)
Alguns setores, com razão, criticam o fato de não se ter tido a mesma preocupação em relação aos militares que foram vítimas de grupos armados de esquerda.
Quer dizer então que não podemos abrir a caixa preta do regime autoritário porque isso pode irritar tecidos sociais ainda sensíveis? Essa é uma ferida a se deixar cicatrizada? Devemos comprar a versão de que os dois lados cometeram os mesmos delitos e são farinhas do mesmo saco? O Globo acha que engana quem com essa conversa pra boi dormir de defesa da democracia?
O que falta a O Globo é fazer a mea culpa de que ele, o jornal do dr. Roberto Marinho, foi um dos esteios da propaganda do regime autoritário no período mais hediondo da história republicana do Brasil. O Globo precisa, por exemplo, esclarecer a seus leitores que apoiou entusiasticamente o lançamento do AI- 5. Quem torcesse as páginas do jornal no dia 14 de dezembro de 1968, dia seguinte ao lançamento do ato assassino, veria provavelmente sair porra, já que O Globo parecia gozar diante da notícia de que o miserando ato institucional tinha sido editado. O mesmo jornal que hoje se apresenta como defensor do estado de direito e se refere a Fidel Castro e Hugo Chaves como ditadores é o orgão que recebeu inúmeros benefícios publicitários durante o governo militar instaurado em 1964 e ganhou de presente uma concessão de rede televisiva.
A rede Globo de televisão (vade retro) é a mesma que no programa Amaral Netto, o repórter, exibia reportagens laudatórias ao regime e louvava com fervor os feitos do "milagre brasileiro". Amaral Netto chegou a atribuir ao Brasil Grande do ditador médici a força da pororoca do Amazonas.
O Globo, que hoje se apresenta como bastião das liberdades fundamentais, está na linha de frente do novo pensamento reacionário brasileiro, aquele que busca negar a existência de racismo no Brasil e quer varrer para debaixo do tapete as mazelas de 1964, em nome de uma ampla reconciliação que cicatrize as feridas de um passado que deve ser esquecido. Esqueçam a história, é o que sugere o jornal. Eu, pobre professor da matéria, devo fazer, quem sabe, um curso de jardinagem para conseguir emprego cuidando das orquídeas da família Marinho.
Com sublime cara de pau, o jornal publicou recentemente uma série de reportagens sobre brasileiros acuados pelo tráfico que vivem num regime de terror similar aos tempos da ditadura. Faltou ao jornal, em nome da verdade, deixar claro aos leitores que apoiou desde a primeira hora o regime de terror instaurado após a queda do presidente João Goulart. Que imagem é essa que o orgão oficial do autoritarismo de direita pretende construir? Posso até sugerir o teor da notinha: - O Globo avisa que condena o tráfico de drogas mas que, em virtude das radicalizações do período, apoiou o golpe de 1964 e a prática sistemática de torturas e assassinatos políticos no Brasil.
Daqui, abrindo a primeira gelada às margens do rio Maracanã, confesso que aguardo, ansioso, o ano de 2014. O Globo tem uma série que rememora as notícias que o jornal dava cinquenta anos antes. Eu, como acho que lembrar é sempre importante para se construir um futuro mais digno, quero ler o que o jornal falou sobre a marcha da família com Deus, o comício da Central do Brasil e a queda do presidente Jango. Vai ser interessante rememorar o que O Globo fez e como se comportou naqueles dias sinistros.
O que O Globo quer, quando sugere que esqueçamos de 1964, é dar uma de vampiro que se candidata a funcionário de banco de sangue. Alguém acredita na nova face do morto-vivo?
Abraços
