28/04/2007

O ANIVERSÁRIO DE EDUARDO GOLDENBERG

Ontem, dia 27 de abril, foi aniversário do nosso amigo Eduardo Goldenberg. A Folha Seca, livraria do nosso coração, preparou uma festa surpresa para o biltre que, vejam a desfeita, não compareceu. Daniela Duarte comprou uma torta, bolas de encher, colocamos o livro do homem em destaque na vitrine e ... nada. Edu não foi.
A primeira hipótese para a ausência é a seguinte: - Goldenberg comprou enfeites de festa no Mundial da rua do Matoso e comemorou solitário, em casa, escutando Maysa e Dolores Duran, com expressão entusiasmada, conforme a foto abaixo.


Outra hipótese é a de que Edu tenha ficado o dia inteiro em seu apartamento tijucano, meditando sobre a finitude humana, ao som de Luz Negra, do gênio maior Nelson Cavaquinho.



Há os que acreditam, como o Leo Boechat, que Edu tenha resolvido aproveitar seu natalício para invadir, armado, a redação de O Globo, onde ameaçou seu mortal inimigo, Joaquim Ferreira dos Santos, o vilão Jota, que jurou nunca mais falar no belmonte, conversa fiada, informal e outras merdas.


Talvez, como registra a foto abaixo, Eduardo tenha ido praticar a sua nova atividade física, a hidroginástica para a terceira idade, nas dependências da AABB da Tijuca.

Finalmente, é possível que Goldenberg tenha escolhido a companhia de sua dileta amante, a garrafa de uísque. Desta forma, o sacripantas ignorou os esforços que o comitê de eventos da Folha Seca engendrou para festejar a data magna, causando indignação nos amigos. Não obstante, comemos o bolo e entornamos quantidade significativa de cerveja em homenagem ao nosso defunto em vida, o durango kid dos botequins mais vagabundos, o João Batista da defesa dos pés-sujos da nobre e leal cidade de São Sebastião, que curvou-se para reverenciar seu filho dileto. Pena que ele não foi.


Abraços.

27/04/2007

TARCÍSIO MEIRA


Amigos, escrevo esta postagem atendendo ao augusto e magnânimo clamor de Fernando Szegeri.

No último texto que postei, ao abordar as sacanagens imperiais, coloquei uma foto dos atores Gracindo Jr. e Maitê Proença representando D. Pedro I e a Marquesa de Santos. Pra que...

Patrioticamente indignado, o Szegeri exigiu (vejam os comentários do texto abaixo) que eu retirasse a foto, com um argumento irrefutável. Disse ele que Tarcísio Meira, o grande Tarcísio Meira, tinha encarnado de forma definitiva e inquestionável o imperador.

Refere-se, o grande Szegeri, ao filme Independência ou Morte, em que o Tarcisão interpreta o tarado português com invulgar maestria.

Como penitência, coloco aqui, então, a foto do Tarcísio Meira interpretando o filho de D. João VI, com minhas desculpas ao Szegeri e a promessa de nunca mais esquecer da realidade límpida , cristalina e imperial - Tarcísio Meira é a encarnação de D. Pedro I.

Abraços

25/04/2007

SACANAGEM NOS TEMPOS DO IMPÉRIO


O imperador D. Pedro I foi o maior fanfarrão da nossa história, uma espécie de Romario das efemérides da pátria. Foi também, é justo que se diga, um espada de primeiríssima categoria, honra e glória da estirpe dos varões assinalados.

Até as paredes do museu imperial de Petrópolis sabem dos sete anos em que nosso imperador frequentou os lençóis de Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos. O Diabão, apelido que o portuga usava nas cartas pornográficas que trocava com a amante (e dentro dos envelopes D. Pedro gostava de mandar alguns pentelhos, como prova comovente de amor), era um despudorado. Nunca se preocupou em esconder suas traquinagens com a marquesa. A imperatriz Leopoldina, pobre coitada, foi a corna mais explícita da história do Brasil. É a padroeira da cornitude nacional.

O que poucos sabem é que D. Pedro foi também insaciável amante de Maria Benedita de Canto e Melo. Quem era essa? A irmã mais velha de Domitila, com fama de distinta senhora e casada com um certo Boaventura Delfim Pereira. Com a irmã da marquesa, o imperador teve, pelo menos, um filho bastardo.

Nessa sacanagem toda , me comove o apreço que o imperador demonstrou ter pela família das irmãs Canto e Melo. Mostrou-se um homem digno e ciente de suas responsabilidades, saiu distribuindo títulos de nobreza e empregou todo mundo.

O corno Boaventura, por exemplo, foi nomeado superintendente da Fazenda de Santa Cruz, tornando-se amigo íntimo do imperador. Foi nomeado depois para a superintendência das quintas e fazendas imperiais, quando recebeu o título de barão de Sorocaba.

Além dele, os pais da marquesa de Santos viraram viscondes de Castro, fora uns quarenta irmãos, cunhados, sobrinhos e amigos da marquesa que receberam títulos de barões, viscondes, guarda-roupas, gentis-homens e moços da câmara imperial, todos devidamente contemplados com generosos vencimentos pagos pelo erário público do Império.
(Aliás, permitam-me uma pausa. O que seriam os "moços da câmara imperial" ? Eu, pelo menos, imagino uns viadinhos vestidos com todas as pompas, preparados para dar e receber os benefícios daqueles senadores e ministros balofos do Império. Uma espécie de guarda-suiça da boiolice nacional. O ACM Neto, por exemplo, seria um dos moços da câmara imperial, com toda a certeza. )

Um caso famoso foi o do jovem Alaor Moreno Canto e Melo, sobrinho da marquesa, que aos sete meses de idade foi elevado ao posto de gentil-homem do Império e nomeado administrador de erário da Quinta da Boa-Vista. O cargo, de grande responsabilidade, certamente foi honrado pelo desempenho reto e audacioso do mais novo funcionário público do reino, ainda em fraldas. O salário do pequenino administrador era uma fábula.

O imperador, pelo menos, era explícito em seus desvarios e safadezas com a mulherada. Hoje impera na vida pública o mais deslavado cinismo, camuflado em supostas liturgias do cargo. O que tem de chefe de família exemplar e temente a Deus aprontando na encolha não está no gibi.

Já imaginaram, nos dias atuais, uma devassa na vida dos homens públicos brasileiros que se baseasse numa única questão : - quantas amantes, concubinas e respectivos parentes estão empregados em gabinetes ministeriais, gabinetes legislativos, tribunais de justiça e outros orgãos do tipo, como funcionários nomeados?
E aqueles deputados, senadores e juízes com cabelos vergonhosamente pintados, mais negros que as asas da graúna? Uns caras que só de olhar você vê que gostam de queimar a rosca, cheios de acessores que seriam, nos tempos do rei, os moços da câmara imperial. Quem são os funcionários nomeados por essa gente? Ia ser um pega-pra-capar dos bons.

É, queridos, D. Pedro I fez escola por essas bandas. Com muito mais estilo, é verdade. E o que deve ter de marquesa de Santos e moços da câmara imperial deitando e rolando nas esferas do poder... Deixa quieto.





20/04/2007

PLANEJAMENTO DE VISITA


Considero o período regencial (1831-1840) um dos mais interessantes da história do Brasil. Logo após a abdicação de Dom Pedro I, e diante da menoridade de Dom Pedro II, vivemos essa estranha experiência de uma monarquia sem a figura do Imperador, que era então tutelado por José Bonifácio e se preparava para assumir um dia o trono.

Aliás, figuraça o nosso Dom Pedro II. O menor abandonado mais famoso da nossa história. Sofreu com a morte precoce da mãe ( Dona Leopoldina) e viu o pai se empirulitando para Portugal, enquanto ele, coitado, ficava sob guarda dos brasileiros, tendo aulas de grego, latim, história natural, filosofia, ciências, estética, poética e literatura desde os seis anos de idade.

Citei a Regência e o menino Pedro II para chegar, finalmente, onde queria. Estou organizando uma visita ao Museu Imperial de Petrópolis com alguns alunos. Lá, para variar, veremos o mobiliário do Império, as coroas, o penico de Dom João VI, o berço de Dom Pedro II, pinturas, retratos e o escambau. Mas, ouso confessar, minha real intenção com o passeio é outra: - correr de pantufas, em alta velocidade, pelas salas magníficas do museu.

Sou defensor ardoroso da ideia de que o surf em pantufas deve ser considerado um esporte. Se o automobilismo, com um bando de playboys babacas dando voltas de carro, é considerado esporte, não há porque desconsiderar o caráter atlético do surf em pantufas.

Quando era moleque, adorava ir ao museu para deslizar, serelepe, entre as louças e os castiçais da família real. Ficava louco para fazer merda e quebrar aquela porra toda. Sonhava terminar a jornada mergulhando na cama em que a Princesa Isabel - uma das mulheres mais feias do mundo - e o Conde d´Eu viveram os dissabores , em se tratando dos dois, da primeira noite.

O curioso é que, quando vou ao museu, retorno com pendores monarquistas. Lembro-me que, há tempos, houve um plebiscito sobre República e Monarquia. Procurei me distanciar do museu, para que o fetichismo de percorrer a memória do Império nas fabulosas pantufas não me fizesse cometer o descalabro de abrir mão de minhas convicções republicanas.

Pensando bem, às favas os alunos. Preciso é marcar uma ida ao museu com o Edu Goldenberg, o Rodrigo Ferrari e o Cláudio Falcão. Já comecei, nesse exato instante, a planejar o evento. Sairemos do Rio-Brasília, após umas cervejas e uns maracujás, pegaremos um ônibus para Petrópolis, procuraremos lá uns botecos de categoria e, após uma dúzia de ampolas, vamos ao museu. As cervejas aguçarão nossa sensibilidade para compreender toda a riqueza do período imperial.

Munidos de portentosas pantufas, deslizaremos pelos anais da história do Brasil e simularemos, em grande estilo, dançar a valsa vienense no salão dos espelhos - o Edu e o Cláudio com a leveza bailarina que os caracteriza.

Tenho convicção que voltaremos convertidos em monarquistas ferrenhos. O duro será definir nosso candidato a rei. Os pedrinhos, luizinhos e joãozinhos da família Bragança são todos viados e não podem assumir a coroa, em nome dos valores maiores da masculinidade suburbana que cultuamos nos botequins mais vagabundos. Não seremos, jamais, súditos dessas bichas que não honram as calças dos pedros antepassados, dois exímios comedores.

Aguardem, em breve, notícias sobre a expedição aos salões da realeza.




15/04/2007

UMA NOITE NO ESTRANHO PAÍS DAS MARAVILHAS

Ontem, atendendo aos apelos irresistíveis de minha mulher, fui ao cinema, programa que faço raramente. Assistimos Borat, uma comédia interessante. Mas não é disso que falarei, já que crítica cinematográfica não é minha praia e eu esqueci metade do filme em menos de doze horas. Eu sei é que ri pra cacete e isso basta. Recomendo vivamente.
O tal filme está passando em circuito restrito. Eis que fomos, então, ao cinema na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, em plena Avenida Vieira Souto - o metro quadrado mais caro do sistema solar.
Definitivamente, meus queridos, eu não me enquadro nesse mundo mágico da Zona Sul carioca de Ipanema-Leblon-Gávea. Ao chegarmos ao cinema, com uma hora de antecedência, resolvemos comer alguma coisa na própria casa de cultura. O local do comes e bebes chama-se, vejam vocês, Ateliê Culinário. Nome pra lá de tricolor, admitamos.
Pedi o cardápio e quase tive a segunda ameaça de infarto da semana - a primeira foi no Botafogo X Vasco de quarta-feira. Vejam só a listinha que fiz:
1- Sanduíche Abril Despedaçado - pão com pêra grelhada e amêndoas - R$ 17,00
2- Sanduíche Madame Satã - pão com queijo e alface - R$ 18,00
3- Sanduíche Retrô - pão na chapa com queijo e presunto - R$ 10,00
4- Pasteis - R$ 3, 80
5- Quiches pequenos - 8, 00
6- Mufins , snacks, coupes e saladas no bowl - preços variados.
Comentários singelos:
1- Que diabos é um pão com pêra grelhada e amêndoas ? Não entendi. Meu avô não me deixaria comer um negócio desses nunca, com um argumento definitivo e nordestino : - Seja hômi, cabra!
2- Dezoito merréis num pão com queijo e alface! O que acham? Por aqui, na Zona Norte, um sanduba desses sai por, no máximo, R$ 3,00.
3- Pão na chapa com queijo e presunto, o Retrô, não sería um mixto-quente? Dez pratas num mixto? Hummmm. Alguém sugere o por que do nome Retrô?
4- Comi um pastel. Acreditem, é menor que meu dedo mindinho. Uma vergonha. O chinês da Mariz e Barros faz um pastel gigantesco por R$ 1,50.
5- O quiche é praticamente invisível. Uma mordida e fim de papo. Olhem o preço da criança.
6- Alguém pode me dizer o que são mufins, snacks, coupes e bowl? Sinceramente, desconheço.
Outros detalhes me chamaram atenção. Os banheiros, por exemplo. Cometi o deslize de entrar no banheiro feminino para dar aquela mijada pré-filme. A explicação é simples. Ao invés de escreverem na porra da porta homens, cavalheiros, machos, pirocudos ou coisas do tipo, os símbolos que definem masculino e feminino são baseados em ícones da arte pop. Não identifiquei nem a cacete a diferença entre homem e mulher e já ía erguendo da justiça a clava forte no lugar errado.
O cinema tem um detalhe impressionante - divãs para quem quiser assistir ao filme deitado. A bilheteira, educadíssima, perguntou-me (os lugares são marcados):
- Cadeira ou divã?
- Hein? Não, minha senhora, vamos ao cinema.
- Cadeira ou divã, meu senhor? Temos divãs na sala.
- Divã? Hummmm. A senhora sabe se o filme é de sacanagem?
Aviso, portanto, aos navegantes da Zona Norte que pintarem naquelas bandas estranhas : - levem a marmita, o lençol e o penico. A noite será divertida, como o filme foi.

14/04/2007

ODE AO FRANGO


O grande Gilmar dos Santos Neves, goleiro do escrete canarinho campeão das copas do mundo de 1958 e 1962, considerava que, entre os atributos para a formação de um bom goleiro, um deles era tomar pelo menos um frango inacreditável, daqueles completos, de deixar as penas soltas no ar por um bom tempo. O grande goleiro precisa, enfim, tomar pelo menos um peru de proporções bíblicas.

Li recentemente um interessantíssimo livro do jornalista Paulo Gulherme, Goleiros - heróis e anti-heróis da camisa 1, editado pela Alameda. Comprei, evidentemente, na Folha Seca, livraria tocada pela Dani e pelo artilheiro Digão Ferrari e especializada apenas em temas fundamentais para minha vida - o futebol , o samba e a cidade do Rio de Janeiro.

Pois bem, o livro do Paulo Guilherme relata, por exemplo, um frangaço tomado por ninguém menos que o aristocrático Marcos Carneiro de Mendonça, o fitinha roxa, impecável arqueiro que defendeu o América e o Fluminense e foi o primeiro goleiro da seleção brasileira, campeão da Copa Roca de 1914 e dos Sul-Americanos de 1919 e 1922.

Marcos, que acreditava numa tal de teoria da cobertura dos ângulos, receita infalível para evitar gols, foi traído pela soberba em um jogo entre o Fluminense e o time do Vila Isabel, equipe fraquíssima. Em certa altura do jogo, o zagueiro Chico Netto atrasou uma bola para o goleiro. O keeper abaixou-se desatento para segurar a redonda e, pasmem, deixou a criança passar por entre seus dedos, num lance absolutamente ridículo. Foi o gol que deu a vitória ao Vila Isabel e impediu o Fluminense de ganhar o título de 1918 invicto.

Eu me recordo, por exemplo, do frango monumental que Waldir Peres tomou na Copa do Mundo de 1982, na vitória do Brasil contra a União Soviética. Um cidadão soviético arriscou um chute da intermediária contra o gol do Brasil; peteleco inofensivo. Waldir preparou-se para a defesa e, de forma inacreditável, deixou a bola passar do lado do seu corpo. Frangaço-aço-aço, como narrou o falecido Jorge Cury.

O que falar sobre a final da Copa de 1950 e a descida aos infernos do monumental Moacyr Barbosa, o homem mais injustiçado desse país? Ou do Zé das Couves, que tomou um frangaço num campeonato de várzea e passou a ser o sacaneado da rua, até agarrar um pênalti decisivo e ser carregado em triunfo ao botequim mais próximo?

Essas digressões matinais sobre o frango se explicam. Estava assistindo pela quinta vez ao vídeo do jogo entre Botafogo e Vasco, o épico que paralisou o Maracanã na última quarta-feira e me fez acreditar que estava tendo um infarto, com aquele primeiro tempo alucinado que terminou Botafogo 4X3. Pois bem, reparei no tape que o autor do primeiro gol do Vasco, um tal de Renato, comemorou o tento na direção das câmeras gritando como um huno:

- Eu sou foda! Eu sou foda!

Acho que quem começou com essa forma grotesca de comemorar gols foi o lumpa-lumpa Neto, sujeito intratável, que desfilou suas gorduras obtusas pelos gramados de São Paulo nos anos 80 / 90. O biltre marcava um gol de falta e saía deslizando de joelhos gritando esse ridículo "eu sou foda".

O frango é a redenção do futebol. É o anti-eu sou foda. É uma belíssima demonstração de que o homem falha, sente o peso desgastante do seu trabalho, de que debaixo das traves não está a máquina, mas o homem humano, aquele da travessia, que não sabe bem se os deuses e os diabos ouviram seu chamado solitário na noite grande. O frango é a mais bela demonstração estética da fraqueza humana e certos frangaços deveriam estar expostos em fotos, vídeos e pinturas, nos museus, praças e ruas, a nos lembrar - somos falíveis.

Memento mori - lembra-te que és mortal. A saudação entre os trapistas cristãos deveria ser o mote maior do grande goleiro. Cada Marcos Carneiro de Mendonça, monumento ao homem infalível, deveria ter ao seu lado um zagueiro que, a cada grande defesa, sopraría no seu ouvido:

- Memento mori. És apenas um mortal.

É por isso, senhores, que às margens do Rio Maracanã, eu, que tomo uns frangos inacreditáveis e redentores no dia-a-dia, execro esses medíocres que ficam gritando que são fodas e acendo minha vela no altar da pátria a todos os goleiros da história do futebol que tenham tomado pelo menos um frango. É redentor que cada homem, ao menos uma vez na vida, tenha a plena consciência e grite aos maracanãs do mundo:

- Eu sou um fodido!

São esses que entrarão no reino dos céus, onde certamente haverá traves, chuteiras, bolas...

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13/04/2007

EI, GALVÃO, VAI TOMAR NO CU !

Ainda sob o efeito do prélio épico que abalou as estruturas do Mário Filho na quarta-feira, escutei de muita gente críticas ao Galvão Bueno. Afirmam os amigos que o mequetrefe fez uma narração patética da vitória do Botafogo sobre o Vasco. Como estava no Maraca, não tive o desprazer de ouvir a locução do biltre.
A mídia estava, evidentemente, aguardando o milésimo gol do Romário com a ansiedade de uma virgem em vésperas de perder o cabaço. Tinha palquinho, cordão de isolamento, credencial com o símbolo dos mil gols e o cacete a quatro. A Globo colocou câmeras exclusivas para filmar a família do Romário - Dona Lita, Seu Edevair, a sexta esposa, os trinta e tantos filhos, os primos e mais uma penca de gente. Esqueceram somente de um pequeno detalhe, combinar a festa com o Botafogo.
Quanto ao Galvão Bueno, não me surpreende. Tremendo publicitário travestido de narrador esportivo, forjando um patriotismo histérico e excessivo, amigo do falecido Ayrton Senna - o desprezível playboy eunuco que dirigia carros em alta velocidade ( me recuso terminantemente a chamar automobilismo de esporte ) - , o Galvão é um fanfarrão de marca maior, não passa disso.
O companheiro do Galvão na transmissão do jogo foi José Roberto Rato, o ex-juiz de futebol que entrou para a história ao assaltar o Bangu com sordidez na final do campeonato carioca de 1985 - não marcando pênalti clamoroso no último minuto a favor dos mulatinhos rosados e contra o Fluminense, time da ratazana do apito. Um sujeito desses, que deveria estar nas galés, submetido a trabalhos forçados, ainda recebe dinheiro para comentar arbitragens. Saudades do Mário Vianna (com dois enes) e seus brados retumbantes:
- Errooooooooooo!! La mano! Cadê o eco? La mano...
O fato é, senhores, que o circo foi montado e o gol mil virou mercadoria. Inúmeras empresas fecharam contrato com o Romário, uma boate de merda já tem a festa programada, a empresa de material esportivo pretende faturar horrores com a camisa comemorativa do gol e novos contratos publicitários foram fechados envolvendo o baixinho.
Sem entrar no mérito dos mil gols, já que o Romário contabilizou até gol em jogo de casados e solteiros na Vila da Penha, tenho duas sugestões a fazer ao baixo. A primeira, compartilhada com o Bruno Ribeiro, torcedor-símbolo do Guarani de Campinas, é a seguinte : - por que não marcar um gol contra? Se Pelé marcou contra o Vasco, o Romário pode repetir a dose. Um milésimo gol contra o Vasco sería genial.
A segunda sugestão me parece mais efetiva : - Romário, não faça o gol mil. Termine a carreira com 999. Diga que está desistindo em louvor ao Rei dos Reis, o Leão de Judá, o preferido dos Deuses, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Não ouse brincar com divindades. O gol mil é marca do crioulo. Leia um pouco de mitologia grega e descubra que desafiar os deuses nunca foi bom negócio, querer se equiparar a eles é pior ainda. Aquela câimbra ridícula, baixinho, é castigo de Cronos, o senhor do tempo e amigo dileto do negrão da Vila Belmiro. Pula fora, velho.
No mais , senhores, permitam-me terminar essas mal traçadas retomando o mote inicial. Domingo, no primeiro jogo da final da taça Rio, pararei em frente ao busto do nosso Mané Garrincha - prova irrefutável de que os deuses do futebol escrevem certo por pernas tortas - e gritarei, em nome de gerações de seguidores da mais bonita e solitária das estrelas:
- Ei, Galvão, vai tomar no cu!

12/04/2007

MENINOS, EU VI !


O Maracanã, senhoras e senhores, assistiu ontem a uma verdadeira epopéia. O clássico entre Botafogo e Vasco foi daqueles de fazer a Guerra de Tróia parecer uma briga de vizinhos por causa de mulher em uma vila do Lins de Vasconcelos. Nunca foi tão pertinente o jargão - Há coisas que só acontecem com o Botafogo. Desta vez, pelo menos, o imponderável nos sorriu e os deuses do futebol disseram amém.

Não há explicação plausível para os primeiros cinco minutos de jogo, com dois gols do Vasco e um do Botafogo acontecendo de forma fulminante. Desde já, ficam para os anais como um enigma a ser decifrado, com a dimensão metafísica do segredo da Santíssima Trindade.

Só o não-dito, o insofismável, o absurdo, pode explicar que oito jogadores tenham feito gols na peleja e nenhum deles tenha sido o baixinho Romário, que continua, assim, seu calvário dos 1000 gols. De minha parte, com a convicção insana de um João Batista no deserto, besuntado de mel e empanzinado de gafanhotos, continuo pregando - Nunca fará!

Não há, também, teorema que explique a reação formidável do Botafogo, os outros gols do Vasco e a disputa de pênaltis, verdadeiro teste para cardiopatas. Vivemos, os que estivemos no Mário Filho, uma noite memorável. Cheguei em casa, ainda desconfiado que podería ter um derrame, e falei para minha mulher:

- Você não faz idéia do que aconteceu há pouco no Maraca.

Tenho absoluta certeza de que o que perguntei para ela tem a mesma dimensão histórica, quiçá maior ! quiçá maior! , do que algum sans-cullote deve ter dito para a mulher ao chegar em casa em uma certa noite de 1789, no verão parisiense :

- Querida, você não faz idéia do que aconteceu hoje na Bastilha.

Peço licença para agradecer ao Alberto Mussa, tremendo escritor que me cedeu gentilmente as cadeiras cativas para o clássico e me acompanhou na epopéia, e termino esse texto, pequeno para a dimensão magnífica do tema, para ir gravar o vídeo-tape. Quero, num futuro distante, rever o jogo ao lado dos filhos dos meus filhos e dizer, com a empáfia das testemunhas da história, aos moleques no final:

- Meninos, eu vi!

11/04/2007

EU QUERO ARROZ-DOCE

Outro dia acordei com uma vontade de comer arroz-doce. Minha avó fazia a guloseima que ficava uma beleza. Aquele gostinho de arroz, leite e açúcar, perfumado com casca de limão, canela e essência de flor laranjeira, era um negócio da maior seriedade.
O arroz-doce, essa maravilha, é um prato típico do Norte de Portugal que fez estrondoso sucesso aqui por essas bandas, sendo largamente vendido nos mercados e feiras. Em Portugal chamavam a iguaria de arroz-de-festa, por ser uma espécie de presença fundamental nas festividades do ciclo religioso da terrinha. Faltava de tudo, menos o arroz-doce. Vem daí, evidentemente, o uso da expressão arroz-de-festa para designar as malas sem alça que não perdem uma única bocada.
Digo isso e fico, confesso, um tanto melancólico. Considero, e aprendi isso com o mestre Cascudo, a culinária um elemento fundamental na definição da cultura de um povo. Salve o beiju, o barreado, o baião-de-dois, a ambrosia, o arroz-de-capote (com pedacinhos de galinha-d´angola), o arroz-de-hauçá (cobertinho por carne-seca), a canjica, a galinha de parida, o cuscuz, a queijadinha (aliás, se o doce não leva queijo, por que o nome? ) , o munguzá, o muçuã (com músculo de boi, já que a tartaruguinha, coitada, tá quase extinta) , a paçoquinha, a roupa-velha, o quebra-queixo, o tacacá (servido na cuia, por obséquio), a feijoada, e mais uma infinidade de pratos que ajudam a fazer do Brasil o país culturalmente mais interessante do mundo.
Eis que vem, então, essa marvada da globalização - prefiro a expressão globalitarismo - e coloca quase na esquina da minha rua um mac donald´s igualzinho ao que tem no Texas, em Moscou, em Calcutá, em Saravejo, em Paris , em Manaus e em Tóquio.
Inebriado pela saudade dos nossos aromas, não tive a menor dúvida. Já que acordei com um desejo contundente de comer arroz-doce, fiz questão de entrar no Mac Donald´s, para desespero da Candinha, que alertou: - Luiz Antonio, você vai pagar esse mico ? , e perguntei, com a maior serenidade, ao rapaz do caixa: - Querido, vocês fazem arroz-doce?
A resposta, evidentemente, foi um não de quem achou que eu estava de sacanagem. Eu redargui observando que a coisa mais normal do mundo era venderem arroz-doce no meu país. A excrescência é o Big Mac. O camarada não entendeu picas.
Não tem problema, podem colocar uma bosta dessas em cada rua, que eu agora cismei e decidi. Toda vez que entrar num negócio desses farei a mesma e necessária indagação de um brasileiro - Tem arroz-doce? Como assim não tem? Não estamos no Brasil?
É uma forma, contundente, de afirmar uma certa nostalgia do meu país e a saudade, absoluta e mais doce que o arroz, da minha avó.

03/04/2007

PERTO DOS 1000

Aguarda-se com expectativa, entre os fãs do violento esporte bretão, o milésimo gol do Romário. De minha parte, que considero o futebol a única paixão que tenho na vida que nunca sofreu qualquer abalo, torço para que o gol não ocorra jamais. Sérá absolutamente fantástico se o baixo encerrar a carreira com a marca fabulosa de 999 tentos. Uma urucubaca bíblica, de deixar praga do Egito parecendo cena de novela das seis.
Quanto a mim, e uso aqui o critério que o Roma utilizou, creio ter, na carreira, algo em torno de 900 gols. Sábado passado mesmo fui a uma festa infantil, aniversário do meu sobrinho Lucas, e joguei futebol com algumas crianças entre três e sete anos. Anotei dois tentos, com tirambaços inapeláveis. O goleiro adversário, um escroque de cinco anos de idade, que vinha pegando até pensamento, sucumbiu ao meu faro de artilheiro e à minha catimba , já que ameacei enfiar-lhe o dedo no olho se a bola não entrasse.
Ele chorou, eu o chamei de viadinho escroto, mandei ele se foder, desestabilizei o moleque e corri para o abraço duas vezes.
Se algum jornalista vier me perguntar, quando estiver chegando aos mil, qual foi o gol mais bonito de minha longeva trajetória nos campos, acho difícil não citar um golaço de bicicleta que fiz durante uma brincadeira de linha de passe. Pena não existirem registros de imagem sobre meu deslocamento no ar. Na comemoração, de joelhos, dediquei o gol ao falecido Leônidas da Silva. Apenas cinco minutos depois reparei que a plasticidade do lance me custou ter feito cocô na bermuda. Ossos do ofício.
Amanhã, por via das dúvidas, estarei no Mário Filho para assistir ao embate entre os esquadrões do Vasco da Gama e do Gama, onde há um furdunço preparado para celebrar o gol 1000. Continuo apostando nos 999 mas, caso o baixinho balance as redes, vou aplaudir com vontade o tento e o talento do Macunaíma da Vila da Penha.
Quando, quem sabe no ano que vem, for minha vez de alcançar a marca histórica, espero que o Roma retribua a gentileza com sua presença. Meu sonho é que o milésimo ocorra no campo do Farofa, portentoso estádio na Abolição, no casados X solteiros que, em geral, fecha o fim-de-ano da rapaziada. Torçam por mim que eu pago a cerveja e a carne.

01/04/2007

E A ANGÉLICA, SEU JACÓ?

Vejam os senhores como é a vida. O Rabino Henry Sobel foi em cana após surrupiar umas gravatas de grife nos Estados Unidos. O costureiro Ronaldo Esper foi detido afanando vasos de cemitérios. A empregada doméstica Angélica Aparecida Teodoro foi presa furtando um pote de manteiga em um supermercado paulista.
Adivinhem os amigos quem continua no xilindró? A doméstica, é claro. Angélica está presa há quatro meses numa casa de detenção em Pinheiros. Sem antecedentes criminais, teve um pedido de habeas-corpus negado. O pote de manteiga custa r$ 3,20.
Já o Sobel e o Esper foram, evidentemente, internados com problemas emocionais logo após o furdunço e afirmam que cometeram o furto sob efeito de remédios que obnubilaram suas mentes.
Fica combinado então que o pobre quando furta é ladrão e o rico quando rouba está com problemas emocionais. Bela saída.
Aliás, essa história toda do Henry Sobel merece uma trilha sonora apropriada. Existe um samba de autoria do Américo Campos , gravado pelos Demônios da Garoa, que é perfeito para a ocasião. Chama-se A Promessa de Jacó e deve ser cantado com sotaque carregado:
Jacó, a senhor me prometeu
uma gravata, até hoje inda não deu.
Faz trinta anos que este se passar
E até hoje a gravata não chegar.
Da outra vez a senhor não deve prometer
Pois da contrário, senhor vai se arrepender
Seus promessas estar tudo um lindo fantasia
Mas na verdade o senhor só dá bom dia - Bom dia, Seu Jaco!
Sugiro, sem qualquer maldade, que as próximas reportagens sobre o rabino tenham esse samba como fundo musical. Os Demônios da Garoa (por onde andam?) agradecem. Mas falemos sério.
Tá tudo muito bom, tá tudo muito bonito, o Sobel é uma figura respeitável, o Ronaldo Esper é um escroque, os dois agiram sob forte emoção, desequilibrados, não lembram de nada, tem que passar uns dias internados, tudo bem.
Agora, por obséquio, alguém pode se dignar a fazer uma campanha pela libertação da Angélica, que está curtindo uma cana faz tempo porque furtou um pote de manteiga? Ô rabino, honre seu passado, meu velho. Saia do hospital, se equilibre e lidere uma mobilização pela libertação da moça.
É, senhores, continuamos sendo o país da casa-grande e da senzala. Ou melhor, dos centros hospitalares de nível internacional - absolutamente proibitivos pra quem não tem plano de saúde e muita grana - e das cadeias abjetas. É pena.