
O grande Gilmar dos Santos Neves, goleiro do escrete canarinho campeão das copas do mundo de 1958 e 1962, considerava que, entre os atributos para a formação de um bom goleiro, um deles era tomar pelo menos um frango inacreditável, daqueles completos, de deixar as penas soltas no ar por um bom tempo. O grande goleiro precisa, enfim, tomar pelo menos um peru de proporções bíblicas.
Li recentemente um interessantíssimo livro do jornalista Paulo Gulherme, Goleiros - heróis e anti-heróis da camisa 1, editado pela Alameda. Comprei, evidentemente, na Folha Seca, livraria tocada pela Dani e pelo artilheiro Digão Ferrari e especializada apenas em temas fundamentais para minha vida - o futebol , o samba e a cidade do Rio de Janeiro.
Pois bem, o livro do Paulo Guilherme relata, por exemplo, um frangaço tomado por ninguém menos que o aristocrático Marcos Carneiro de Mendonça, o fitinha roxa, impecável arqueiro que defendeu o América e o Fluminense e foi o primeiro goleiro da seleção brasileira, campeão da Copa Roca de 1914 e dos Sul-Americanos de 1919 e 1922.
Marcos, que acreditava numa tal de teoria da cobertura dos ângulos, receita infalível para evitar gols, foi traído pela soberba em um jogo entre o Fluminense e o time do Vila Isabel, equipe fraquíssima. Em certa altura do jogo, o zagueiro Chico Netto atrasou uma bola para o goleiro. O keeper abaixou-se desatento para segurar a redonda e, pasmem, deixou a criança passar por entre seus dedos, num lance absolutamente ridículo. Foi o gol que deu a vitória ao Vila Isabel e impediu o Fluminense de ganhar o título de 1918 invicto.
Eu me recordo, por exemplo, do frango monumental que Waldir Peres tomou na Copa do Mundo de 1982, na vitória do Brasil contra a União Soviética. Um cidadão soviético arriscou um chute da intermediária contra o gol do Brasil; peteleco inofensivo. Waldir preparou-se para a defesa e, de forma inacreditável, deixou a bola passar do lado do seu corpo. Frangaço-aço-aço, como narrou o falecido Jorge Cury.
O que falar sobre a final da Copa de 1950 e a descida aos infernos do monumental Moacyr Barbosa, o homem mais injustiçado desse país? Ou do Zé das Couves, que tomou um frangaço num campeonato de várzea e passou a ser o sacaneado da rua, até agarrar um pênalti decisivo e ser carregado em triunfo ao botequim mais próximo?
Essas digressões matinais sobre o frango se explicam. Estava assistindo pela quinta vez ao vídeo do jogo entre Botafogo e Vasco, o épico que paralisou o Maracanã na última quarta-feira e me fez acreditar que estava tendo um infarto, com aquele primeiro tempo alucinado que terminou Botafogo 4X3. Pois bem, reparei no tape que o autor do primeiro gol do Vasco, um tal de Renato, comemorou o tento na direção das câmeras gritando como um huno:
- Eu sou foda! Eu sou foda!
Acho que quem começou com essa forma grotesca de comemorar gols foi o lumpa-lumpa Neto, sujeito intratável, que desfilou suas gorduras obtusas pelos gramados de São Paulo nos anos 80 / 90. O biltre marcava um gol de falta e saía deslizando de joelhos gritando esse ridículo "eu sou foda".
O frango é a redenção do futebol. É o anti-eu sou foda. É uma belíssima demonstração de que o homem falha, sente o peso desgastante do seu trabalho, de que debaixo das traves não está a máquina, mas o homem humano, aquele da travessia, que não sabe bem se os deuses e os diabos ouviram seu chamado solitário na noite grande. O frango é a mais bela demonstração estética da fraqueza humana e certos frangaços deveriam estar expostos em fotos, vídeos e pinturas, nos museus, praças e ruas, a nos lembrar - somos falíveis.
Memento mori - lembra-te que és mortal. A saudação entre os trapistas cristãos deveria ser o mote maior do grande goleiro. Cada Marcos Carneiro de Mendonça, monumento ao homem infalível, deveria ter ao seu lado um zagueiro que, a cada grande defesa, sopraría no seu ouvido:
- Memento mori. És apenas um mortal.
É por isso, senhores, que às margens do Rio Maracanã, eu, que tomo uns frangos inacreditáveis e redentores no dia-a-dia, execro esses medíocres que ficam gritando que são fodas e acendo minha vela no altar da pátria a todos os goleiros da história do futebol que tenham tomado pelo menos um frango. É redentor que cada homem, ao menos uma vez na vida, tenha a plena consciência e grite aos maracanãs do mundo:
- Eu sou um fodido!
São esses que entrarão no reino dos céus, onde certamente haverá traves, chuteiras, bolas...
Marcadores: futebol