30/03/2007

AS CORÂNICAS E O VIDIGAL.

Recebo a notícia de que alunas de uma escola corânica no Paquistão acabam de declarar guerra santa ao governo. A atitude destrambelhada foi causada pela prisão de duas professoras das meninas. O que fizeram as mestras? Sequestraram a dona de um bordel, para acabar com a pouca vergonha, e terminaram em cana após tresloucada tentativa de incendiar o recinto.
Esse negócio de querer fechar puteiro não é novidade. Quando sei de algo do tipo, penso nos tempos de Dom João VI e do temível chefe de polícia do Rio de Janeiro na época da Corte, o Major Vidigal.
Conta o grande memorialista Lauro Marcondes de Souza, em seu "Relatos de uma Corte nos Trópicos", que clama por nova edição com urgência, um episódio pitoresco que foi, também, descrito por Manoel Antonio de Almeida em uma passagem do seu Memórias de um Sargento de Milícias.
Deu-se que o Major Vidigal, homem seríssimo e de maus bofes, resolveu realizar, com seu corpo de granadeiros, implacável cruzada moral contra as casas de tolerância. Na condição de sede da Monarquia, pensava o Vidigal, o Rio não podia estar sujeito ao número abusivo de locais destinados ao exercício discreto da boa e velha sacanagem.
Lá foi, então, o destemido Major Vidigal iniciar sua tarefa de defesa dos valores cristãos. Na primeira casa em que o Vidigal entrou, fazendo tremendo estardalhaço, a clientela escapou pelas janelas, trancou-se nos quartos, meteu-se debaixo da cama e o cacete. Decidido, o Vidigal começou a vasculhar cada espaço da casa com rigor patológico.
No que o Vidigal enxergou um barril vazio, não teve dúvidas, meteu a carantonha e verificou que o peixe era grande.
Senhoras e senhores, creiam. Dentro do barril, absolutamente pelado, gordo como uma chupeta de vulcão, estava o Reverendo da Igreja do Rosário. O dito sacerdote, respeitadíssimo, caíra de amores por uma cigana e , quase diariamente, visitava a moça, disfarçado com a peruca da estátua do Cristo morto da paróquia.
Acuado, o homem de Deus tentou convencer o Vidigal de que estava disfarçado no puteiro para verificar quem eram as ovelhas desgarradas do seu rebanho e ameaçou, em desespero de causa, excomungar todo mundo. Puto dentro da roupa, o Vidigal não respeitou a batina - mesmo porque o reverendo foi descoberto nuzinho da silva - e meteu o padre em cana.
O furdunço terminou com uma intervenção do Bispo, que preferiu acreditar na comovente versão do Reverendo: - Odeio o pecado mas amo os pecadores; repetia solene o da batina.
De minha parte, e de volta aos dias atuais, fico sempre do lado das meninas quando ocorre alguma coisa desse tipo. É por isso que clamo por uma intervenção, sob comando das Nações Unidas, de tropas internacionais no Paquistão. Urge defender as putas dos ataques alucinados das corânicas. Essa doidas não dão a xereca pra ninguém e ficam empatando a foda dos outros. Se fizer isso, a ONU mostrará que ainda tem, por incrível que pareça, alguma serventia.

27/03/2007

FEBEAPÁ NA TERRINHA

Abro o jornal pela manhã e sou surpreendido com uma notícia da pá virada. Os portugueses elegeram o ditador, escroque e homicida Salazar como a maior figura de toda a história de Portugal, com votação estrondosa, superando Camões, Vasco da Gama, Fernando Pessoa , Luís Felipe Scolari e o Seu Manel da padaria.
Lembrei-me, imediatamente, de consulta semelhante feita no Brasil. O resultado, se não chegou a ser estapafúrdio como em Portugal, afinal não escolhemos o General Médici como maior vulto da nossa história, foi, no mínimo, assombroso. O escolhido entre nós foi o médium Chico Xavier, que passou a vida em contato com fantasmas, psicografando mensagens de mortos.
De minha parte, admito que esse tipo de consulta requer respostas muito pessoais.
Pensando nisso, imaginei uma lista possível de votantes brasileiros e seus respectivos eleitos:
- O Paulo Maluf vota na Hebe Camargo;
- A Hebe vota no Ayrton Senna;
- O ex-jornalista Pedro Bial vota no "nosso companheiro" Roberto Marinho;
- O Roberto Carlos vota em Jesus Cristo ( Deus é brasileiro, cacete!) ;
- O ex-compositor em atividade Milton Nascimento vota em um colibri que cantou no galho de uma aroeira quando ele era criança;
- O Joaquim Ferreira dos Santos vota no Antônio Rodrigues;
- O Chico Buarque de Holanda não vota;
- O Joel Santana vota no conhaque de alcatrão São João da Barra;
- O Eduardo Goldenberg vota no Brizola e faz um 12 (anos) ;
- O Rodrigo Ferrari vota na Daniela Duarte;
- O Renato Aragão vota no Rubinho Barrichello;
- O Jô Soares vota no Jô Soares (que é pintor, humorista, percussionista, apresentador, dramaturgo, ator, poeta, romancista, intelectual e gordo) ;
- O Arnaldo Jabour vota no Fernando Henrique Cardoso;
- O Fernando Henrique não vota porque está em Nova York dando palestra;
- O João Paulo Cuenca vota no Sérgio Paulo Rouanet...
O exercício, camaradas, é infindável. Hein? Em quem eu voto? Maior brasileiro da História? Eu voto no Pedro Caroço, filho de Zefa Gamela, que viveu com Severina Xique-Xique a mais bela história de amor da línga portuguesa. É uma escolha muito mais digna que a dos nossos joaquins lá da terrinha.
Ô, Seu Manoel... Salazar de cu-é-rola!

25/03/2007

CONFUSÃO EM MERITI

Os portugueses chegaram à foz do Rio Congo em 1483, em expedição liderada por Diogo Cão, aquele do belíssimo poema Padrão, do Fernando Pessoa. Encontraram uma confederação de aldeias chefiadas pelo Mani Congo, com um sistema de arrecadação tributária estruturado e exército centralizado.
Em 1491, os portugueses enviaram uma embaixada a Banza Congo, capital do reino, e o Mani Congo Nzinga Kuwu declarou-se cristão, recebeu o batismo e adotou o nome de dom João, o mesmo do rei de Portugal.
O filho de Nzinga, Afonso I, interessado no comércio do cobre e de escravos, aproximou-se ainda mais dos portugueses. O Congo adotou o catolicismo como religião oficial, ainda que convivendo com as tradições locais, dando origem a um sincretismo muito peculiar. O papado reconhecia o Congo como reino cristão, a capital passou a se chamar São Salvador e, eis onde quero chegar, os congoleses passaram a adotar nomes portugueses e os poderosos começaram a usar títulos da nobreza européia, como duque, barão e príncipe
Deu-se, então, tremendo furdunço. Cada um queria provar, através da escolha do novo nome, que era mais cristão que o outro. Nomes estranhíssimos começaram a ser adotados, como Manoel Francisco Joaquim Sebastião da Água Rosada e Sebastião Amoroso de Cristo do Vale de Lágrimas da Vida (não estou de sacanagem).
Dentre os novos nomes, porém, ninguém chegou perto de um sujeito que resolveu se chamar Calisto Sebastião Castelo Branco Lágrimas da Madalena ao Pé da Cruz do Monte Calvário.
Mas, afinal de contas, por que diabos estou falando nisso? Porque o porteiro do prédio ao lado do meu , o Francisco, acabou de me contar que uma igreja neo-pentecostal, que atende pelo inacreditável nome de Igreja do Clamor de Deus Renascido da Fogueira de Judá, com sede em São João do Meriti, onde ele mora, está propondo que todos os fiéis abandonem os nomes antigos e adotem nomes novos, que remetam à fé em Cristo e à nova vida.
O problema é que os fiéis estão, de fato, adotando os novos nomes, queimando carteiras de identidade, certidões de nascimento e outros documentos na fogueira santa de Judá, realizada semanalmente. Uns mais atacados se recusam, inclusive, a receber correspondências endereçadas ao antigo nome, justificando que a pessoa que se chamava fulano de tal está morta, e uma outra nasceu pelo batismo. Está dando um furdunço dos bons lá pelas bandas de Meriti.
Só não gostei mais da notícia porque o Francisco não soube me dar exemplos dos novos nomes escolhidos. Gostaria da listinha para comparar com o surto de cristianite aguda que assolou o Congo no século XVII e, quem sabe, deixar para a posteridade um relato sobre a conversão em massa do Brasil ao Fogo da Judéia.
É, amigos, nessas horas bate uma saudade dos diabos do Stanislaw Ponte Preta.

23/03/2007

O PRESENTE

A Leninha estava seriamente disposta a regenerar o Manoelzinho Motta, tarefa das mais inglórias. Manoelzinho, tremendo cachaça, era antes de tudo um grosso, daqueles que não dispensavam um bom arroto ou um peido bem colocado, estilo carretilha. Mas fazia tudo isso com ares de perfeito gentleman.
A pobre da Leninha, inclusive , fora vítima de uma das mais sórdidas armações do pinguço. Se conheceram através do correio sentimental da revista Sétimo Céu, onde o Manoelzinho colocava, toda semana, o seguinte recado:
Recatado, cristão, piloto da Esquadrilha da Fumaça, sósia do Albertinho Limonta, procura moça de família que saiba conviver com o cotidiano de um aventureiro do ar.
A Leninha, fã das acrobacias da Esquadrilha desde que vira, menina, uma exibição no Campo dos Afonsos, sucumbiu aos encantos do pau d´água. Quando soube que o Manoelzinho só pisara num avião uma vez na vida, para visitar um modelo que ficava em exposição no Aterro do Flamengo, perto do Monumento aos Pracinhas, chorou copiosamente. Chegou a mandar uma carta para o programa da Zora Yonara, em busca da resposta dos astros sobre confiar ou não no um-sete-um.
Acabaram, com o aval das conjunções celestes, juntando os trapos. Estava apaixonada pelo mosqueteiro do ar paraguaio.
Mas o Motta, definitivamente, não era mole.
Lembro-me perfeitamente da vez em que a Leninha, aos prantos, bateu na porta da casa da minha tia dizendo que nunca mais queria ver o safado pela frente. E isso aconteceu exatamente no dia em que comemoravam um ano juntos.
Minha tia, dotada de paciência monástica, deu um copo de água com açúcar para a Leninha e começou a ouvir a história da pobre, que, entre um soluço e outro, repetia: - Que vergonha, meu Deus. Que decepção, que decepção.
Acontece que o Manoelzinho, cafajeste de primeira linha, andou fazendo uma tremenda palhaçada nos dois meses que antecederam ao aniversário do casório. Chegava em casa meio tocado e, misterioso, dizia:
- Meu bem, você sabe dirigir? Acho bom aprender que vem aí uma surpresa. Aguarda nosso aniversário.
E a Leninha, encantada, começou a sonhar com um carrinho. A princípio, imaginou um fusquinha usado, mas as palavras do Manoelzinho faziam imaginar coisa muito maior:
- Se prepara. É coisa grande.
Leninha não resistiu. Espalhou entre as amigas que ia ganhar um carro de presente de casamento. Fez questão de fazer a notícia chegar aos desafetos, as invejosas que tinham dito que o Mota era um morto de fome que nunca faría uma mulher feliz.
Secretamente, sem avisar ao Manoelzinho para não estragar a surpresa , se matrículou na auto-escola, imaginando o espanto do amado ao vê-la dirigir o possante auto-motor.
No dia aguardado, telefonou para as amigas com o seguinte texto:
- É hoje. Ele vai chegar com o presente aqui na vila, o carro. Aparece aqui uma seis horas pra você ver.
Na hora marcada, a vila inteira - a Leninha não aguentou e convocou todo mundo - já estava estratégicamente posicionada para assistir ao grande momento. Minha tia era exceção. Não acreditava que o Mota fosse capaz de comprar uma Monark Monareta, quanto mais um carro.
Eis que, por volta das seis e meia, o malandro apareceu. A pé, com um embrulho enorme e cheio de cana. Aproximou-se de uma atônita Leninha e falou, diante de um público digno de Fla-Flu:
- Meu amor, este foi o melhor ano da minha vida. Eu sei que é um presentinho simbólico. Mas é de coração e eu mandei inclusive vir do exterior.
Leninha, sem saber exatamente o que falar, rasgou o embrulho com a mesma ansiedade com que assitira o capítulo da morte do Leôncio na Escrava Isaura. O coração batia mais que surdo da Mangueira, com a pancada seca sem resposta. A primeira coisa que veio no pacote foi um bilhetinho. Diante do coro da vila : - Lêe, lêe; ela leu em voz alta:
Para abrir a porta do meu coração e ligar, todos os dias, o motor dos meus sentimentos.
E estava lá, imensa, portentosa, uma chave de fusca de Itu, de aproximadamente sessenta centímetros, com uma rosa de plástico delicadamente pendurada.
No fim das contas, minha tia consolou a pobre, mas a sentença definitiva foi dada pelo meu avô, que até então guardava sobre o episódio um silêncio de participante de conclave papal:
- Minha filha, quando o Motta começou a falar muito, você devia ter desconfiado. Restaurante que serve farofa, já dizia o filósofo, não liga ventilador de teto.

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TODO MUNDO VAI

O mestre João da Mata aprendeu a cantar cirandas e construír violas com seu avô. Tornou-se, por isso, respeitadíssimo na região de Angra dos Reis e Parati. Cantava durante horas e animava os festejos populares. Mulato bonito, diziam até que era capaz de ser o boto difarçado, sempre com chapéu e arretado quando corria os dedos na violinha de fitas.
Até hoje se conhece uma quadrinha de ciranda que diz:
A minha viola nova
Seu João da Mata é quem fez
Foi pro meu divertimento
Veio de Angra dos Reis
Ensinou os segredos da construção dos instrumentos e passou todos os cantos de ciranda pro seu filho mais velho, Zezinho Moura. Honrando a tradição, Seu Zezinho foi o melhor animador de rodas de ciranda na beira-mar. Festeiro, não havia semana que não reunisse o povo para desfilar cantigas ao som da viola, sanfona e pandeiro, que ciranda naquelas bandas se toca é assim.
Seu Zezinho Moura, nos conformes da regra, passou todos os conhecimentos pros seus filhos, Dito, Julião e Rita. Os três esqueciam os tormentos do dia-a-dia cantando cirandas, dançando o Arara, louvando Santos Reis. Dizem que Julião, o filho do meio, tocava viola melhor que seu avô.
Antonio é neto de Julião. Sabe de toda a história da família, mas não gosta de ciranda e achava o avô uma figura. Não tem interesse em aprender a construir violas, não dança ciranda pra não pagar mico e diz que a velha sanfona da família é coisa de paraíba. Foi meu aluno em 2001, num evento promovido por uma casa de cultura de Parati. Trocamos, desde então, alguns emails. Gosta de história mas não sabe exatamente o que vai estudar.
Ligou dia desses aqui pra casa perguntando se eu tinha conseguido ingresso para assistir ao Roger Waters na Praça da Apoteose. Eu disse que não vou, não tenho nenhum interesse, e ele só exclamou:
- Caraca! Não acredito nisso. Sabe lá quando alguém vai ver o cara de novo? Não perco de jeito nenhum. Todo mundo vai.
É isso. Todo mundo vai.
Eu aproveitei a deixa e perguntei sobre a violinha do velho João da Mata, já que conheço um restaurador que pode dar um trato no instrumento. O Antonio me disse, então, que a viola já era. Ele vendeu prum sujeito meio maluco - palavras dele - e com a grana comprou o ingresso do show - tava velha, coitada, mas serviu pra alguma coisa.

22/03/2007

THEREZOPOLIS NO BAIACU

Domingo, oito e meia da manhã. Recebo um telefonema urgente, coisa da maior seriedade:
- Simão, Edu falando.
- Diga lá, mano.
- Acabei de tomar uma cerveja de outro mundo! Therezopolis Gold. Manjas?
- Nunca ouvi falar.
- Eu também não conhecia. Incrível. E existe desde 1912.
- Onde você tomou?
- Aconchego Carioca.
Desligamos. Eu, tomado de ansiedade brutal, acordo a Candida:
- Meu amor, vamos sair. Coisa séria. Caso de vida ou morte.
- Quem morreu?
- Ninguém. Mas é urgente. Se veste que eu te explico.
E fomos ao Aconchego Carioca. Bar absolutamente vazio, parecendo o Maracanã em dia de Madureira e Americano. Pedimos duas garrafas da cerveja recomendada pelo Edu e, acreditem, chegamos muito próximos da epifania. Acabamos liquidando umas oito garrafas e mandando pro bucho uma carne de sol daquelas de amansar cangaceiro e burro brabo. Isso tudo às onze da matina.
Na noite seguinte, acompanhados do Edu, fomos jantar no Aconchego. De cara, foi a Candida que colocou as coisas em seus devidos lugares:
- Therezopolis Gold, por favor.
E, acreditem, acabamos com o estoque da casa. Na falta de outra, optamos por um arremate com a Antártica Original, uma cerveja pelo menos honesta. Pareceu-me, juro pelos deuses, com gosto de mijo. A diferença é brutal. Resolvemos, então, investir em uma cerveja alemã de nome impronunciável, sugerida por uma bichinha gorda que estava na mesa ao lado e atendia pelo pimposo apelido de Boto. Não chegou aos pés da Gold. Nem aos pés.
Saímos dali preocupadíssimos. Onde encontrar a cerveja? Entramos, então, com o desespero dos náufragos, no site da Therezopolis (www.therezopolisgold.com.br) em busca de informações. Onde comprar? Lidador e uma meia duzia de lojas afrescalhadas. Danou-se. Crise de abstinência na certa. Ninguém vende a Therezopolis Gold.
Eis, porém, que a vida , como o futebol, e aqui cito o filósofo Roberto Rivelino, é uma caixinha de surpresas. Na tarde de hoje, eu, Edu e Rodrigo Ferrari resolvemos tomar umas Brahmas na Folha Seca. Em determinado momento, o Edu faz uma sugestão em tom de sacanagem ao Leudo, garçom da Toca do Baiacu, o pé-sujo ao lado da livraria que leva a cerveja pra rapaziada:
- Leudo, pede pro teu patrão comprar Therezopolis Gold pra vender no Baiacu.
E o Leudo manda na lata:
- Ué. Mas tem no buteco. Só que ninguém quer beber essa merda e a gente nem oferece.
Bastou ouvir isso que o distinto advogado Eduardo Braga Goldenberg surtou. Aos berros, correndo em círculos, jogou fora a Brahma e começou a gritar:
- Quero todas! Quero o estoque! Tudo!
Eu, com os olhos marejados, não acreditava na notícia. Digão, impressionadíssimo, ainda disse:
- Edu, a Therezopolis é mais cara...
- Eu pago! Pago todas! Urrava um possuído Eduardo, nessa altura de joelhos e, estranhamente, repetindo:
- Ninguém, ninguém segura o Khalil!
Logo depois, começou a cantar ladainhas em louvor a Nossa Senhora de Nazareth, sabe-se lá o motivo, numa estranha procissão de um homem só.
E tomamos, acreditem, a Therezopolis Gold, dificílima de se encontrar, em um pé-imundo da Rua do Ouvidor. O estoque, evidentemente, foi liquidado.
Clamo, por isso, pela mudança imediata nas informações que o site fornece. É urgente que a Toca do Baiacu esteja citada ao lado de uma porrada de delicatessens (ui!!) como um local onde se encontra a cerveja. Acabei de mandar, inclusive, mensagem com essa exigência a quem de direito. A cerveja é ótima, mas vamos parar de frescura. A César o que é de César e ao Baiacu o que é do Baiacu.
Axé.

21/03/2007

A MORTE DE FABIÃO DAS QUEIMADAS

O poeta Fabião das Queimadas, ex-escravo, analfabeto, rabequeiro e cantador, imaginou, na hora da morte, estar assistindo aos vaqueiros Miguel e Antonio Rodrigues perseguirem o Manco Macho, touro mão-de-pau, valente e valoroso gado:
Corre a Serra Joana Gomes
galope desesperado:
um touro se defendendo,
homens querendo humilhá-lo,
um touro com sua vida,
os homens em seus cavalos.
E Fabião viu os vaqueiros, cumprindo a ordem de Seu Sabino, preparando ferrões farpados e algemas de baraúna para prender o touro brabo. E viu quando o bicho, manquejando ensanguentado, com as ancas rasgadas pelos ferrões, desafiou os perseguidores:
A Serra se despenhava
nas asas de seus penhascos
e a respiração fogosa
dos dois fogosos cavalos
já requeimava, de perto,
as ancas do Manco macho
quando ele, vendo a desonra,
tentando subjugá-lo,
mancando da mão preada
subiu num rochedo pardo.
E o touro brabo era Frei Caneca, Tiradentes, Delmiro Gouveia, Carlos Mariguela, Sepé Tiaraju, Pedro Ivo, João Candido...
Num grito todos pararam,
pelo horror paralisados,
pois sempre, ao rebanho, espanta
que um touro do nosso gado
às teias da fama-negra
prefira o gume do fado.
E mal seus perseguidores
esbarravam seus cavalos,
viram o Manco selvagem
saltar do rochedo pardo.
E Fabião das Queimadas percebeu, nos silêncios da indesejada das gentes, que o touro brabo era ele, o poeta das vaquejadas, o escravo de seu Zé Ferreira, o homem que comprou, cantando, sua liberdade. E Fabião cantou, como o Manco no rochedo pardo:
"-Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
Assim vai-se o touro manco,
morto mas não desonrado!"
E na hora das incelenças, ouviu-se, no lamuriar das carpideiras, um aboio longo, comprido, de vaqueiro triste, anunciando que o poeta Fabião das Queimadas, cantor do povo, rabequeiro de feira, tinha finalmente encontrado seu Touro brabo, de olhar incendiado, no Orum misterioso das almas valentes:
Silêncio. A Serra calou-se
no poente ensanguentado.
Calou-se a voz dos aboios,
cessou o troar dos cascos.
E agora, só no silêncio
desse Sertão assombrado,
o Touro sem sua vida,
os homens em seus cavalos.

ps: Fabião Hermenildo Ferreira da Rocha, o Fabião das Queimadas, morreu ao oitenta anos de idade em Santa Cruz, Rio Grande do Norte, no ano de 1928. Poeta maior da sua gente, deixou obra assombrosa sobre vaquejadas e romances de gado. A Morte do Touro Mão-de-Pau é seu canto mais famoso, tendo sido , inclusive, recriado pelo mestre Ariano Suassuna. Meus respeitos e minha vela de sete dias no altar da pátria ao poeta do povo.

17/03/2007

BOA LEITURA

Hoje vai uma dica rápida de fim-de-semana. Recomendo vivamente a leitura do livro Roberto Silveira - A Pedra e o Fogo, do jornalista botafoguense José Sergio Rocha.
Tremendo calhamaço, bem escrito pra cacete, o livro do Zé Sergio é fundamental para se compreender melhor a história do trabalhismo no Brasil e entender algumas coisas sobre o Estado do Rio de Janeiro, governado pelo Roberto Silveira no início dos anos de 1960. Foi lançado pela Casa Jorge Editorial , em cuidadosa edição, sem grandes estardalhaços.
Para os interessados na história contemporânea do Brasil, é garantia de excelente leitura.
Onde vende? Homi-rapaz, aí é que eu não sei. Mas vou procurar saber e aviso em outro post.

15/03/2007

ESTRANHO NA ALDEIA

Estava dando uma aula sobre a pecuária nos tempos da Colônia e resolvi levar uma viola de fitas para tocar - de forma sofrível, diga-se de passagem - algumas canções que fazem parte do ciclo do gado no Brasil, tema que me comove profundamente.
Já disse algumas vezes que não sou partidário de uma história que aborde somente grandes fatos ou resuma a complexidade dos contextos sociais aos dados da economia. Nesse sentido, procuro falar da pecuária ressaltando a presença do gado no imaginário brasileiro, destacando as manifestações da cultura popular que giram em torno do boi.
Depois de mostrar algumas toadas do Bumba-Meu-Boi, do Boi-Bumbá e do Boi-de-Mamão, comecei a cantar uma cantiga belíssima de João Bá:
Meu boi chegou
Lá na beira do serrado
Abre a porteira Maria
Pra ver o meu boi encantado.
Meu boi veio de longe
Pra ver Joana linda
Vam´bora, meu boi, vam´bora
que é tarde e é cedo ainda.
Joana chegou de maraca
Com laço de fita amarela
Mona Lisa abriu um sorriso
Como a tarde abre a janela.
Ao terminar, ouvi de uma aluna o seguinte comentário:
- Professor, eu adoro suas aulas, mas você é muito estranho.
Vejam vocês. Eu estou no meu país, tocando um instrumento popular no meu país, cantando uma canção na minha língua, sobre uma tradição cultural do meu povo e, pasmem, sou estranho.
Se eu tocasse, entretanto, um rock qualquer, ou uma escumalha pop de quinta categoria, não seria nem um pouco estranho aos olhos daqueles jovens. Se eu resolvesse, ao invés de cantar João Bá, cantar esse astro do rock que vem ao Brasil em breve - esqueci o nome do puto - os alunos me achariam a figura mais normal do planeta.
Se alguma vez tivesse ido a uma boate - nunca entrei numa em toda minha vida - certamente seria a normalidade em pessoa. Como, porém, prefiro assistir ao auto da Nau Catarineta ou ao folguedo do Cavalo Marinho, sou estranho.
Outro dia, tomando umas cervejas no Rio-Brasília com meus irmãos Digão e Edu, presenciei uma discussão sobre quem seria o melhor músico do Pink Floyd. Normalíssimo um papo desses na Tijuca, não é? Se eu resolvesse, porém, discutir sobre quem é o melhor repentista, Zé Limeira ou Otacílio Patriota, seria, convenhamos, uma discussão estranhíssima aos ouvidos dos brasileiros. Se eu, Digão e Edu resolvessemos definir quem é o maior no partido-alto, Aniceto ou Xangô, seríamos vistos como seres de outro mundo.
Implico profundamente com essa tal de globalização, o termo globalitarismo parece-me mais adequado, por uma inversão criminosa que é feita. O mundo ideal, em minha concepção, seria aquele onde as pessoas fossem rigorosamente iguais no campo da economia e dos direitos sociais - não tomo jeito e continuo o mesmo comuna que era aos dezoito anos - e tivessem o pleno direito de exercer suas diferenças no campo da cultura.
Acontece o inverso. Somos brutalmente diferentes no campo da distribuição da riqueza, concentrada em mãos de raríssimos predadores, e somos igualados no campo da cultura, submetidos à ditadura dos mesmos sons, roupas, comidas, filmes, danças, e por aí vai.
É isso que me faz estranho aos olhos de uma jovem brasileira ao cantar toadas de boi. É isso que me faria normal se cantasse alguma coisa pop. Sou estranho na minha aldeia porque canto minha aldeia.
Entendo por isso o velho Ariano Suassuna , quando critíca certos equivocados que bebem nas raízes da cultura popular mas precisam legitimá-las com uma ânsia adolescente pela tal de modernização. E tome de colocar guitarra no maracatu e coisas do gênero.
A luta de classes, amigos - sim, acredito ainda nesse conceito - é travada hoje no campo da cultura, envolve símbolos e bens de consumo materiais e imateriais. Não há povo que se liberte socialmente sem que rompa os grilhões do colonialismo cultural.
Creio, por exemplo, que o conceito de excluídos não se aplica mais. Não há excluídos no mundo atual porque algo nos inclui a todos - o desejo do consumo. Do miserável ao milionário, o desejo do consumo é a marca que caracteriza tristemente a nossa sociedade. Todos queremos, primordialmente, consumir - produtos e pessoas.
Mas eu creio na mudança. E, mais ainda, na trilha sonora da mudança. Ela começa com a abertura da festa do boi e termina no improviso de um partido-alto.
Esse texto, que não pretende ser mais que um desabafo, foi motivado também pela entrevista que o senhor Domingos de Oliveira deu à revista de domingo do jornal O Globo. Em um certo trecho, o pedante cineasta, dramaturgo, filósofo e o caralho a quatro, diz que o Brasil precisa deixar de ficar apoiando a "cultura bumba-meu-boi" e se voltar para as manifestações culturais que saem da classe média. Sem comentários.
Eu, que não sou antropólogo e nem gosto de discutir com intelectuais e teóricos da cultura - sou simplesmente um sujeito que gosta de ouvir toadas de gado e tem um Brasil imaginado rasgando a alma diariamente - quero apenas repetir, nessa gesta de improváveis conquistas, um trecho da abertura do Boi do Pindaré:
Boa noite meu povo
Que veio para me ver
Salve os grandes e os pequenos
Esse é o meu dever
Eu vim só pra cantar o Boi
Bonito pro povo ver.
Estou aqui de passagem
Para um dia morrer
E o povo de Pindaré
Não se cansa de sonhar
O novilho é brasileiro
A força Deus é que dá!
Axé.

13/03/2007

FELICIDADE

Dizem os velhos barqueiros do Amazonas que o segredo da felicidade é mais simples do que pensamos. Basta que a pessoa busque a margem do rio ao sol do entardecer e deixe sua sombra refletir num perau qualquer. Se por acaso nesse momento um boto vermelho atravessar o rio e cortar a sombra, a pessoa estará botada, marcada para todo o sempre pelo espírito do boto.
Para que o encantamento seja completo, é necessário que, ao morrer, o corpo seja oferecido às águas por algum parente ou amigo. Se assim acontecer, Iara transformará a pessoa num boto vermelho. Essa é a suprema felicidade, pois, mesmo morta, a pessoa viverá encantada, desejando o bem do mundo para os seus.
Quem pretende ser feliz, ensinam os caboclos da beira d´água, deve se dirigir ao rio nas horas do poente, pois é o momento em que os botos vermelhos suspiram suas artimanhas de delicadezas e felicidades, rememorando faceiros seus amores quando homens viventes.
Lembrei-me dessa tradição dos ribeirinhos, que o mestre Cascudo retratou num canto qualquer de belezuras, em virtude de uma frase que ouvi de uma senhorinha, tão novinha e tão desvirtuada:
- Ser feliz pra mim é conseguir ter muito dinheiro e fazer bastante sucesso na profissão. E casar com um homem lindo, é claro.
É por essas e outras que eu digo que a expectativa da felicidade, da forma como a sociedade de consumo lida com ela, é das coisas mais brutais que existem. O sujeito acha que tem que ser bem sucedido no amor, no trabalho, nas relações pessoais, precisa viajar pelo menos duas vezes por ano, deve trocar de carro de quando em vez, não pode ficar doente, não pode conceber a morte de alguém querido...e sabemos que a vida não é assim.
Como ninguém é capaz de atingir essa tal felicidade de shopping center que é vendida por aí, formamos aos montes um bando de depressivos, uns sujeitos infantilizados que não conseguem lidar com o fracasso e se entopem de remédios para dormir, para acordar, para trepar, e por aí vai. Paradoxalmente, amigos, creio ser a expectativa da felicidade impossível uma fonte poderosa de angustias e depressões. Nós , e digo isso com a maior tranquilidade, não nascemos para essa felicidade, um brinquedo que não tem, como dizia a velha canção natalina.
É, meus malungos, a coisa está feia. Mas nosso time é feito aquele dos versos do Capiba, da madeira de lei que o cupim não rói. De minha parte, alumbrado de Brasil nos meus amores, sempre que posso espio, nos escondidos do sol, o Maracanã meu rio. Nesses olhos aluados, passa por aqui um Amazonas de detritos, merdas e saudades, mas também pode passar, desapercebido entre os cacos de garrafa e os pneus de bicicleta , um boto vermelho suspiroso. Ê, meu Maracanã...
Minha mulher já sabe que, na hora do meu encantamento, é ali, nas águas da minha aldeia, que quero estar, para que Iara me abençoe e me faça um mensageiro simples das maiores alegrias. Boto vermelho nos infinitos.
E só.

12/03/2007

O DESAFIO DO SÉCULO E A DIPLOMACIA DO PIQUE-BANDEIRA

Duvide-o-dó que algum líder mundial tenha, um dia, brincado de pique-bandeira. Meu raciocínio é de uma simplicidade franciscana. Quem brincou de pique-bandeira aprendeu a respeitar regras fundamentais que devem vigorar em casos de disputas, coisa que, definitivamente, os donos do poder parecem ignorar completamente.
Na minha rua , por exemplo, as bandeiras eram em geral duas havaianas caíndo aos pedaços, devidamente colocadas nos extremos opostos do teatro de operações. Perto das bandeiras, estabelecia-se uma zona de segurança de fazer inveja aos estrategistas da ONU. Quem conseguisse chegar até ali não poderia ser colado em nenhuma hipótese, estando, portanto, em condição privilegiada para capturar a bandeira adversária e voltar serelepe e vitorioso ao campo do seu time.
Nunca vi, repito, nunca vi alguém burlar essa regra. A zona de segurança era mais respeitada que o cu da mãe, sacrossanto santuário na vida de qualquer criança e, como tal, inviolável.
Digo isso porque estou cada vez mais enfadado, o termo é esse, com esses manda-chuvas de araque que não resolvem nenhum conflito internacional, ou não querem resolver, enquanto a rapaziada entra pelo cano. As regras do pique-bandeira deveriam constar do currículo de qualquer aspirante a diplomata ou coisa que o valha.
Já que mencionei a brincadeira, é inevitável recordar um episódio que marcou para todo sempre a molecada que se envolveu em ardorosa disputa até hoje decantada pelos rapsodos de Oropa, França, Nova Iguaçu e Bahia.
Nos meus tempos de criança sempre levamos o pique-bandeira a sério. A coisa chegou a tal ponto que, em certa ocasião, as equipes que normalmente se enfrentavam na vila em que morava minha tia resolveram partir para um desafio de gigantes , valendo duas semanas de almoço na churrascaria O Gauchão Amigo - o esquadrão que perdesse se viraria para pagar.
Meu time, com notável inocência, achou por bem contratar o Manoelzinho Mota, bebum famoso em tudo quanto é canto da cidade, para técnico da equipe, com a promessa de bolar estratégias de jogo invencíveis e surpreendentes. O Mota fechou contrato por uns merréis que dariam para comprar três doses de Praianinha - vamos homenagear, Iemanjá a Rainha do Mar .
Muito bem, perto da hora de começar o prélio, a vila lotada de atentos torcedores, o Mota reuniu a equipe e anunciou uma tática revolucionária:
- Faremos, garotos, uma blitzkrieg !
- Que porra é essa, Mota ? Indagou um atônito Marquinhos.
- Ataque relâmpago, moleque, ataque relâmpago. Coisa do Napoleão e do General Osório.
E prosseguiu o nosso Aníbal:
- O negócio é o seguinte, quando o jogo começar vocês todos saem correndo em direção ao terreno inimigo.
- Todos?
- Todos. Vamos reproduzir a atuação da infantaria brasileira no Paraguai , dos exércitos de Saladino na Nona Cruzada e dos macacos do tenente Bezerra no cerco de Angicos.
Meu avô, que ouvia calado as instruções do Montgomery do Lins de Vasconcelos, aparentemente impressionado com a cultura bélica do Mota, sentenciou mal humorado:
- Se tudo der certo, vai dar merda.
Senhoras e senhores, mal o jogo começou o que se viu foi digno dos melhores momentos do carrossel holândes. Todos os membros da equipe partiram em desabalada carreira em direção ao campo adversário, entre zigue-zagues, saltos mortais e urros de apaches de filme de bang-bang. Impressionante.
Sou obrigado a dizer que a tática do Mota desnorteou os adversários. Estupefatos, os inimigos olhavam sem ação nossa performance guerreira.
Em meio a uma tremenda gritaria nenhum de nós foi colado nas trincheiras da outra equipe. Nenhum!! O plano do Mota era tremendamente vitorioso. Ou quase.
Na verdade, faltou um pequeno detalhe - o Mota não estabeleceu quem pegaria a bandeira adversária. Quando conseguimos voltar a salvo ao nosso campo, começamos a comemorar efusivamente a rápida definição do conflito. Entre abraços emocionados e a tocante cena do Manoelzinho vibrando de joelhos, um espírito de porco qualquer avisou:
- Vocês esqueceram de pegar a bandeira.
Amigos, creiam. A bandeira estava lá, intacta, impávida e colossa, como disse depois o meu avô. Pior do que isso. Enquantos vibravamos loucamente, um adversário, o Toninho, verdadeiro anão de circo, com um físico de Lumpa-Lumpa da fábrica de chocolates Wonka - esse, aliás, era o apelido da criatura - entrou calmamente no nosso território e capturou nossa bandeira, selando a vitória das forças inimigas ao retornar andando em passo de lesma para seu campo.
Diante do desfecho ridículo da contenda do século, restou o comentário do Mota quando fomos perguntar o que, afinal, tinha dado errado :
- Garotos, levantem a cabeça. Perdemos no detalhe. No detalhe. Da próxima vez, adotaremos a famosa estratégia do balacobaco das mulatas do João Roberto Kelli e liquidaremos a fatura.
Antes que o cachaça explicasse que diabos de tática era aquela, preferimos destituí-lo do comando do Estado-Maior. Perdemos, porém, com a dignidade dos valentes, pagando fielmente os almoços devidos. Meu avô, coitado, arcou com as despesas e fez mais. Coração bom numa carranca assustadora, o velho bancou as três doses de Praianinha pro Manoelzinho, levantando o moral do pinguço com um argumento saído do fundo do peito de velho jagunço:
- Manoelzinho, faço por você o que queria ter feito pro Flávio Costa em cinquenta. Toma tua cana em paz.
O cachaça agradeceu, mas teve que ouvir o complemento do velho:
- E, ó, vê se depois de encher a cara tu faz uma Blitzkrieg pra cima da tua mulher que ela anda dizendo que em matéria de guerra teu negócio ultimamente tem sido só a Retirada da Laguna.

CANTA PRA SUBIR

O pobre do professor, este que vos escreve, conta para a turma as desventuras da Revolução do Porto de 1820 e a volta de Dom João VI ao nosso avôzinho Portugal, pressionado pelas cortes revolucionárias. Tenta , inclusive, pintar com cores dramáticas o drama dos Bragança diante do levante metropolitano.
Quando tudo parecia resolvido, uma distinta patricinha levanta o mimoso dedinho fura-bolo ( ou seria o mata-piolho ?) e indaga :
- Professor, eles queriam a volta só de Dom João para Portugal ou de toda a família Sexto?
- Como assim, querida?
- Os Sexto, mestre. Dom João, a mulher , os filhos...
- Meu amor, canta pra subir que o cavalo quer beber água, canta.
Axé.

09/03/2007

PEPPERONI GOLDENBERG, O PRESENTE DE EXU

Há um vasto repertório de crendices populares que envolve a figura do cachorro. Dizem os mais velhos, por exemplo, que o uivo do cão chama desgraça para o seu dono. Alerta o mestre Câmara Cascudo que, ao se ouvir o uivo do cão, devemos responder na lata : "todo agouro para o seu couro". Outra opção é emborcar um sapato com a palmilha para cima, o cachorro se calará imediatamente.
Se o cachorro cava na porta de casa com o focinho voltado para a rua, danou-se - ele está cavando a sepultura do dono. Se cavar, porém, com o focinho voltado para casa, é sinal de que vem muito dinheiro por aí.
Se dorme com a barriga pra cima, vem azar ; com as patas dianteiras cruzadas, vem a sorte grande. Se mija na porta de casa, é felicidade certa pro dono.
O poeta latino Horácio, no Epodos, afirma que os cães tem a capacidade de ver os deuses, os lêmures e as sombras dos mortos. Quando estes se aproximam , o bicho uiva sem razão aparente.
Por que resolvi desfilar esse rosário de crenças e anedotas caninas? Simples. Fui motivado pelas lamúrias do Eduardo Goldenberg, que anda encalacrado com as travessuras perpetradas por Pepperoni Goldenberg, o vira-latas mais famoso da Haddock Lobo, e andou relatando isso em seu blog. Edu chegou a ameaçar se desfazer do Pepperoni, já que o diabinho anda destruíndo os móveis do aprazível cafofo tijucano que abriga Edu e Dani.
Eu, se fosse o Edu, desistiria dessa idéia imediatamente. Pra início de conversa é preciso dizer que Pepperoni não é um cachorro qualquer. É apreciador da música erudita - sei que o bichano só se acalma ouvindo as sonatas de Mozart e o Cravo Bem Temperado do velho Bach - e bom bebedor de uísque e demais destilados - fui testemunha da categoria com que o Peppe bebe as raridades da coleção Goldenberg, com seus mais de trezentos rótulos.
Mas o meu argumento irrefutável é outro - Pepperoni é um presente que Exu deu ao casal. É a cristalina verdade.
Recordemos que o Peppe foi achado na rua, logo após a perda terrível da Pimenta, a cadelinha de estimação da família. A rua é, como até os postes sabem, território que pertence ao compadre Elegbara. Não há nada que se tire dela sem a autorização expressa do Homem.
Não duvido nada que o próprio Exu, disfarçado , por exemplo, de guardador de carros, tenha entregue o Peppe ao casal.
Em segundo lugar, recorro ao fabulário recolhido pelo mestre Câmara Cascudo para lembrar que os antigos afirmavam que o cachorro que corre sem destino e dá saltos mortais pela casa está afugentando o diabo.
Os saltos aparentemente tresloucados do Pepperoni e suas desabaladas carreiras nada mais são que a garantia da limpeza do ambiente contra as artimanhas do cramulhão. A arruaça promovida pelo bom vira-latas é uma tremenda dádiva.
Finalmente, como explicar a atração do Pepperoni pelas bebidas alcoólicas e seu comportamento impoluto quando vai com o Edu ao Rio-Brasília, o botequim da Almirante Gavião? É Exu, queridos, é o compadre, sempre presente em defesa do seu amigo, nos ambientes em que se sente verdadeiramente em casa.
Por essas e outras é que eu não mandaria o Peppe embora em nenhuma circunstância. Vai desprezar o presente do Compadre? Nem a pau, meu velho, nem a pau. Exu é amigo pra cacete, mas não topa quem despreza seus agrados e ralha com seus protegidos.
Longa vida ao Pepperoni !!
Laroiê.