25/02/2007

Final dos festejos de Momo e cá estou eu, recuperando-me da putaria que fizeram com o Salgueiro e com os meus Impérios, o Serrano e o da Tijuca.
Saio de uma folia e mergulho em outra. Estamos realizando quatro feituras de Orixá e duas cerimônias de três anos na minha casa de santo. Quem entende do babado sabe o que significa isso.
Assim posto, passarei os próximos dias entre o trabalho e o barracão, com rápidas passagens em casa para, vez por outra, tirar uma soneca. Em breve, acertadas as contas com Airá e Oxalá, retorno ao Ayê e volto a escrever nessas bandas. Por enquanto, esqueço as letras e meto o braço no alujá.
Axé.
ps: dou esse recado, a rigor desnecessário, em branco e vermelho como uma homenagem ao Miguel, grande moleque que, aos cinco anos de idade, faz suas cerimônias de iniciação como iyàwó, filho do Obá dos Obás.

15/02/2007

EMOÇÃO NO TELECATCH E OS TACKLES DO GOLDENBERG

O menino Eduardo Alexandre Goldenberg sempre foi fã do Telecatch Ron Montila, sensacional programa de luta livre que mobilizava o país pela televisão.
O pequeno Edu gostava do imortal galã Ted Boy Marino, mestre no golpe da tesoura voadora. Amava, também, o Tigre Paraguaio, que lutava com uma tanga de oncinha e usava fita na cabeça. O golpe principal do Tigre era o tackle, que consistia em um pulo com as duas pernas nos cornos do adversário. Quando o Tigre aplicava o golpe, nosso Edu vibrava com uma intensidade alucinada para uma criança e punha-se a dar saltos desvairados pelas imensidões da sala de seu apartamento. No colégio, era um capeta, adorava distribuir tackles contra seus desafetos.
Outro ídolo do pequeno Edu Alexandre era o Verdugo, implacável paladino da justiça, que mesmo com o joelho esquerdo duro aniquilava os adversários mais cruéis.
Mas, em meios aos ídolos, há sempre aquele que é o mito dos mitos. No caso do Edu, esse papel era exercido pelo Fantomas, o homem da meia-noite, objeto de adoração profunda do micro Goldenberg e figura de proa no reino da luta livre, com sua assombrosa vestimenta de caveira.
Eis que um dia o pai do Edu, o grande Isaac Costinha Goldenberg, levou o garoto ao estúdio da antiga tv Tupi - ou será tv Rio ? -, onde eram filmadas as pancadarias. O sonho do moleque era conhecer seu ídolo máximo e o Isaac, tremendo pai, foi fazer a vontade do menino.
Quando chegaram ao estúdio, gravação comendo solta, pai e filho se aproximaram do Fantomas, imenso e assombroso em suas vestes espectrais. Isaac levou o filho ao encontro do misterioso lutador e o que se deu naquele momento, de surpreendente intensidade, está nos anais da História.
Isaac Costinha Goldenberg, pai zeloso, apresentou o Fantomas ao pequeno Edu. Mal foi feita a apresentação, a cena que seguiu emocionou a todos que assistiam e imediatamente começou a ser filmada pelos câmeras de plantão. Com o olhar vidrado, mãos tremendo, o pequeno Eduardo não conseguiu dizer quase nada. Agarrou-se ao pai e, aos prantos, começou a repetir a mesma frase:
- Pai, eu to vendo o Fantomas. É o Fantomas, pai. Eu to vendo o Fantomas.
O choro magnífico do Edu, moleque alumbrado diante do ídolo maior, comoveu profundamente o Fantomas. A cena, transmitida para todo Brasil, emocionou os lares brasileiros e transformou o pequeno Eduardo Alexandre numa espécie de ícone dos sonhos infantis. Edu chegou a ser , inclusive, convidado pela Sétimo Céu para seu cast infantil de fotonovelas. Não pode aceitar, infelizmente, porque atrapalharia os estudos. Uma pena...
Axé.
PS : O Leonardo Boechat, o famoso Leo Bemoreira, colocou o vídeo - raríssimo- do encontro entre Edu e Fantomas no Youtube. Botem lá, na procura, as palavras Goldenberg e Fantomas que vocês também assistirão a esse momento comovente

13/02/2007

SAUDADES DA BEMOREIRA E MAIS UMA MARCHINHA DA MINHA VIDA

O Rodrigo Ferrari e eu, quase quarentões, envelhecidos em barril de carvalho, almoçamos hoje ao lado do casal Prata, Tiago e Luísa, no Chefe Santos. Houve ali, entre afagos e chopes, um fraterno conflito de gerações. Eu e Digão estávamos relembrando coisas fundamentais nas nossas vidas e, num certo momento, discutimos longamente a respeito dos nomes das lojas Bemoreira-Ducal e Khalil M. Gebara, cujas origens o grande Ferrari domina. Tentamos contactar o Edu Goldenberg, que encontrava-se labutando para garantir a cachacinha do Pepperoni, dispostos a ouvir a opinião do nosso cambono sobre o assunto.
O tema momentoso foi solenemente ignorado pelos Prata. No esplendor dos dezenove anos, o Prata parecia nos ouvir falar da Bemoreira como se estivessemos falando da chegada da família real ao Brasil. Kalil M. Gebara, pra ele, é o nome de algum personagem envolvido no conflito no Iraque. Nos ignorou rotundamente.
Eis que , em um certo momento, viro-me com convicção e afirmo para o Digão, que prontamente concorda :
- O Leo Boechat ainda se veste na Bemoreira- Ducal !
É isso. O Boechat é o homem que pode esclarecer nossa dúvidas. Espantosamente calvo, o Leo, um gentleman, diga-se de passagem, ainda preserva, sabe-se lá como, um guarda-roupas formado na Bemoreira, na São João Batista Modas e na fundamental Imperatriz das Sedas.
Aliás, o próprio Boechat confessou que, quando criança, três eram seus programas prediletos - ir ao parque Xangai, assistir a chegada do Papai Noel no Maracanã e acompanhar a mãe em compras na Imperatriz das Sedas.
Pensando nisso, e fragorosamente estimulados pelo clima pré-carnavalesco que domina nossa mui heróica e leal cidade de São Sebastião, Digão e eu relembramos, e aí o Prata se interessou - já que é pesquisador desde os onze anos - , da imortal Nós, os carecas , a marchinha que o Arlindo Marques Jr. e o Roberto Roberti fizeram em homenagem aos pouca-telhas, como o Boechat e o Chefe Santos:
Nós, nós os carecas
Com as mulheres somos maiorais
Pois na hora do aperto
É dos carecas que elas gostam mais.
Não precisa ter vergonha
Pode tirar o seu chapéu
Pra que cabelo
Pra que seu Queirós
Se hoje a coisa está pra nós.
Feita a homenagem aos dois carecas que conhecemos, voltamos para a Folha Seca, ainda sob fortíssimo impacto das lembranças do mundo da moda. Nostálgicos, meio deslocados da realidade, com um certo cheiro de kichute nas narinas, Digão e eu fomos, porém, magnificamente surpreendidos pelo Prata, que aparentemente ignorara nossas vitais recordações durante o almoço. Na hora de se despedir, vira-se o garoto e pergunta, com a maior seriedade:
- Só pra me prevenir pro inverno, onde fica a Bemoreira-Ducal?
Digão e eu, com lágrimas nos olhos, respondemos quase ao mesmo tempo:
- No coração, moleque. No coração.
É isso que dá viver nas esquinas do tempo.
Axé.